quinta-feira, 31 de agosto de 2017

COTURNO 36

Sally Mann


Pediu ao padrasto coturno que coubesse nos pés 36. Ele logo soltou em forma de berro: “e tu é homem? Vai usar coturno pra quê?” Não tinha resposta pra isso. Era astuta, mas era ainda mais moça que astuta. Colocou o velho tênis e foi para o trabalho. Mas meses depois lembrou do assunto de novo: “sargento, não tem como me arrumar um coturno 36?” O padrasto bateu na mesa: “onde é que tu já viu soldado com esse tamanho de pé? Tu é mulher macho?” Foi quando ela desistiu de pedir. O sargento era cabeça dura. Calçou o velho tênis e foi para o trabalho. De noite como era de costume dormia com uma faca embaixo da fronha. Era rotina ser visitada pelo padrasto à noite com o devido consentimento da mãe. Por isso quando tomou tento e força, tratou de trabalhar e no que ganhou o primeiro cruzeiro - comprou uma faca de cabo branco, das grandes, bem afiada. E arrumou amolador - dos bons também. Antes de deitar a mãe mandava orar. "Vai! Ora pra Deus!" Ela pegada do amolador e da faca, deixava o gume tinindo. Sonhava com um belo desfecho de golpe, a cama ensanguentada, a carne do porco perfurada até o osso. Conseguia dormir de alívio. Mas passou um ano e outro e outro ano. A faca só tinindo no aço esperando. Então um dia o padrasto veio. E a faca veio junto - a um dedo da fuça, bem no meio dos olhos. Reluzia na noite, clareando de morte, a achada. O homem assustado fugiu sem nem mesmo chiar, todo amarelo, cagado de medo. No dia seguinte quando ela voltou do trabalho lá estava sobre o travesseiro: o coturno 36, brilhando de engraxado.

Patricia Porto

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Patrícia Porto, "Colônia"

Um dos meus primeiros trabalhos na vida foi num armarinho. Eu tinha uns 15 anos. A dona era uma portuguesa que contratava criança pra trabalhar por míseros dinheiros. Na mesma época li "Crime e Castigo". Lia em pé nas longas horas vazias sem clientes. Alfinetes, linhas, botões, meias, bugigangas de plástico, brinquedos de plástico, muita merda de plástico. Em meus delírios, ainda bem acordada, me imaginava a assassina da patroa branca e rosada. E foi por tanto desejar que um dia pedi demissão. A bruxa me pagou as horas do dia e só. Disse que pagava o restante depois, mas nunca. Joguei todas as pragas que eu conhecia nela, todo mau agouro. Todos os dias esmagava seus olhos e apertava seu pescoço gordo e suado até sentir bom prazer. Quando chegou o Natal, a bruxa enfim me chamou no armarinho. Achei que fosse pagar o que me devia, mas nunca. Pegou um embrulho mal feito e estendeu a mão. "Toma. Estamos quites". Fui rasgando o papelão pelo caminho. Era um grande e desconjuntado bebê de plástico. Fui arrancando parte por parte até chegar em casa. A portuguesa bebê de plástico esquartejada pelo caminho. Tentei esquecer, mas nunca. Posso sentir o gosto de plástico até hoje na boca. Queria uma revolução, mas o mundo era feito de dor e barbárie.



quinta-feira, 10 de agosto de 2017

O tempo





O tempo era um sonho de quando eu era criança e brincava no poço de Jacó. O tempo era o desespero da casa amarela. O tempo fechado de quatro partes de um fruto que eu despedaço.

O tempo no escuro do mato. Não amo. Não mio. Não meio. Meço. Muito tempo. Pouco. Santo Agostinho. Não quero. Abuso. Não pude abraçar. Cheguei tarde. A terra era escura. O tempo da janela. Não vi seu rosto. Não vi o meu.

O tempo na traça. Mordendo meu calcanhar. Bruxa. O tempo da louca. O tempo da vespa. Uma nesga no vestido de chita. O tempo molhando o poço de Jacó, aquele que dormiu com a cabeça na pedra. Eclesiástico.  O tempo da casa. Poeira no espelho. Estou dormindo embaixo do balcão. Minha tia grita. “Um cão foi atropelado!” Não era eu. Nem era você.


Patricia Porto

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Cabra cega


fotografia: Sebastião Salgado




Patricia, filha de Hermozina, nasceu cega de um olho.
Mas Hermozina decidiu esconder.
Um olho basta. Disse Hermozina e pegou da matula pro dia seguinte.
Patricia, filha de Hermozina, cresceu sem saber que era cega de um olho.
Achava que tinha visão estreita e era só.
Cresceu. Casou e multiplicou-se como deu.
Um dia, já muito velha, achou que estava ficando cega e foi no oculista,
porque naquelas bandas era só o que tinha.
Disse o doutor: “Patricia, filha de Hermozina, tu sempre foste cega. De um olho!
agora ficaste dos dois”.

Patricia, filha de Hermozina, nem chorou. Porque ninguém chorava naquelas bandas.


Patricia Porto

domingo, 6 de agosto de 2017

Lagartixa cauda-de-chicote

Mulher sendo espancada em público, 1941, Alemanha Nazista


Enfim encontro-me com a lagartixa
ela que esteve sempre presente
um amigo homem, claro, cortava o rabo da lagartixa
aos aplausos de sua mãe: "vai, filho, corta!"
isso só para vê-lo nascer de novo, o rabo
- coisa de criança - a mãe dele dizia
assim como era um chiste que o mesmo menino chutasse o rabo da babá
- aos cinco anos de idade - quando voltava da sua escola em Londres

Meninos que cortam rabos de lagartixas adoram Londres
- nem preciso fazer pesquisa - conheci muitos

Meninos que ficaram presos no cordão de fel de suas mães
adoram cortar os rabos das lagartixas
- alguns até queimam o rabo da lagartixa

Esses meninos não conhecem as mulheres amazonas
ou as mulheres das ribeiras
Lá onde onde as águas cantam, as florestas abraçam
- meninos que cortam, chutam ou queimam o rabo da lagartixa
- simplesmente não existem

Patricia Porto

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Ouve-me



só te digo isto
hoje
agora
- do fim

não antes
da minha existência

não antes de nós
nem mesmo antes do mundo
como o que conhecemos

só te peço: ouve-me
para dentro
eco
- um canto de sala
o manto de um cristo
dez mil vezes encontrado
sem nenhuma verdade

- minha melhor mentira

Patricia Porto