sexta-feira, 11 de agosto de 2017

a torre



no tempo em que as crianças eram destruídas com o olhar
e se urinavam nas calças,
eu mesma não sabia que se podia viver para além da infância

o apito da fábrica de vinagre era um motor
máquina de braços
- a jaula do zoo não era mais o único espaço do mundo

havia o som, o ácido
e talvez alguma outra urgência lá fora

Patricia Porto

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

O tempo





O tempo era um sonho de quando eu era criança e brincava no poço de Jacó. O tempo era o desespero da casa amarela. O tempo fechado de quatro partes de um fruto que eu despedaço.

O tempo no escuro do mato. Não amo. Não mio. Não meio. Meço. Muito tempo. Pouco. Santo Agostinho. Não quero. Abuso. Não pude abraçar. Cheguei tarde. A terra era escura. O tempo da janela. Não vi seu rosto. Não vi o meu.

O tempo na traça. Mordendo meu calcanhar. Bruxa. O tempo da louca. O tempo da vespa. Uma nesga no vestido de chita. O tempo molhando o poço de Jacó, aquele que dormiu com a cabeça na pedra. Eclesiástico.  O tempo da casa. Poeira no espelho. Estou dormindo embaixo do balcão. Minha tia grita. “Um cão foi atropelado!” Não era eu. Nem era você.


Patricia Porto

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Cabra cega


fotografia: Sebastião Salgado




Patricia, filha de Hermozina, nasceu cega de um olho.
Mas Hermozina decidiu esconder.
Um olho basta. Disse Hermozina e pegou da matula pro dia seguinte.
Patricia, filha de Hermozina, cresceu sem saber que era cega de um olho.
Achava que tinha visão estreita e era só.
Cresceu. Casou e multiplicou-se como deu.
Um dia, já muito velha, achou que estava ficando cega e foi no oculista,
porque naquelas bandas era só o que tinha.
Disse o doutor: “Patricia, filha de Hermozina, tu sempre foste cega. De um olho!
agora ficaste dos dois”.

Patricia, filha de Hermozina, nem chorou. Porque ninguém chorava naquelas bandas.


Patricia Porto

domingo, 6 de agosto de 2017

Lagartixa cauda-de-chicote

Mulher sendo espancada em público, 1941, Alemanha Nazista


Enfim encontro-me com a lagartixa
ela que esteve sempre presente
um amigo homem, claro, cortava o rabo da lagartixa
aos aplausos de sua mãe: "vai, filho, corta!"
isso só para vê-lo nascer de novo, o rabo
- coisa de criança - a mãe dele dizia
assim como era um chiste que o mesmo menino chutasse o rabo da babá
- aos cinco anos de idade - quando voltava da sua escola em Londres

Meninos que cortam rabos de lagartixas adoram Londres
- nem preciso fazer pesquisa - conheci muitos

Meninos que ficaram presos no cordão de fel de suas mães
adoram cortar os rabos das lagartixas
- alguns até queimam o rabo da lagartixa

Esses meninos não conhecem as mulheres amazonas
ou as mulheres das ribeiras
Lá onde onde as águas cantam, as florestas abraçam
- meninos que cortam, chutam ou queimam o rabo da lagartixa
- simplesmente não existem

Patricia Porto

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

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Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
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Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

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Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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