sexta-feira, 30 de junho de 2017

Prodígios

As bruxas de Macbeth por Orson Welles


A avó sentou do meu lado e disse:
esta carne está crua
voltei com a carne pro fogo
no círculo das três mulheres:
eu, a avó e tia Marta, a que matava galinhas

A avó olhava de lado, rasgando a verdade:
a carne ainda crua torrava por fora
e era crua por dentro

corri e deitei água morna
- a carne um tambor bem no peito
o olho sem pisco da tia

secou-se tudo no tempo a boa hora
a carne que cozeu algum sonho
era o lugar do migrante na sorte

a carne na mesa era sol
alimentava as três bruxas
quietas, risonhas, rasgando os pedaços
com todos os dentes

raiz, escama e revide
- um olho de vidro na mão

Patricia Porto

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Pandora

 Brent Stirton,  World Press Photo 2017


na minha mente as imagens da guerra

alguém me grita:
desmonte
o rinoceronte!

desmonte o grau de miopia

na minha cabeça uma farpa
um estrondo
uma máquina
um dínamo

são as crianças afogadas no mar
crianças mortas no barco
crianças sequestradas

tudo exposto, todos premiados
em fotografias

são imagens que me sangram

na minha cabeça uma fita
um cemitério pacífico
um caos ordenado

saio da Almirante Barroso com frios
a cidade esquiva
lutamos nós, feito damas que se odeiam

estou prestes a explodir
sou uma bomba atômica

Patricia Porto

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Da poesia para consumo

quando todas as partes cuidarem das partes que lhe cabem
quantas metades existirão?
de qual aparte será o que me cabe, mulher e humana?
de qual parte serei apartada?
com quantos abades se forma uma parte?
de quantas margens precisa o aparto?
onde caberá a parte maior na parte menor?
nas pequenas subdivisões, ramificações, especulações do mercado
- onde resistirá o amor?
na pequena soma das mortes virtuais? Nas urnas das cinzas de um mundo
onde apenas mães pobres procuram corpos?
onde venderei minha alma pouca, minha perda dentária?
meu universo de palavras não desejadas, não comercializáveis,
o verso que não cabe no copo?

a próxima pele será como o incêndio dos não-identificados
a próxima poesia não será televisionada


Patricia Porto

sábado, 10 de junho de 2017

A Escrita

Todos os dias a mesma negociação
ferida aberta, outra fechada
porta aberta, outra fechada

Todos os dias a necessidade:
de ser alguém admirável,
ser reconhecida por meu talento
ser honesta sobre minhas falhas
ser alguém de quem não sinto vergonha

Todos os dias o aceno para os mortos
parecem intactos em seus retratos
porque havia o tal tempo do retrato
o tempo longo e inegociável do retrato

Todos os dias acenos para os que me vêem
da janela onde jogo minha sedução
desejando ser a mulher do próximo:
a oculta, misteriosa, a pintada em quadros

Todos os dias este clima agradável
de tentar manter equilíbrios entre os pés,
as pernas, coxas, a barriga e este profundo umbigo
- este rasgo de faca que trago no braço direito

Todos os dias os choques, a opulência do gramado burguês
as tentativas mentais de suicídio,
a torre e o enforcado, o cárcere,
minha natureza efêmera, imperceptível, quase nada

Todos os dias uma carta que não escrevo,
um poema sem correção, uma frustração nova no armário,
encontros marcados com minha culpa:
de existir,
ser mãe, mulher compacta, instrumental,
de carregar desafetos e ódios fazendo x

Outro dia escrevi um poema sobre o ofício do poeta e a mágoa
alguém disse que lembrava a escrita de um escritor iugoslavo,
outro me disse que lembrava a de um escritor polonês

A poesia era lugar de homem (todos os dias)
(todos os séculos)
(todos os prêmios, os cavalos e os dentes arranhando a gengiva)

Passei a usar o pseudônimo de Charles Pinout
alguém disse que o poema lembrava a fúria feminina
- um gênio o poeta de busto desconhecido

(todos os santos dias naquele terço de pessoa trancada)

Talvez hoje eu encontre os olhos de quem procuro pela lupa
talvez esteja sentada num café, talvez ninando um gato cinza,

Todos os dias intermináveis esta doce, cruel e aventura de encontrar
o outro no meu outro, as outras do cais, os viajantes, as estrangeiras

Todos os dias esta abissal e cotidiana negociação com a vida

(melhor escrita)

Patricia Porto

quarta-feira, 7 de junho de 2017

por que não te molhas?





À Valeria Garcia

quando ela se olha
é toda reverso
furta o sol
antes da hora bruxa

ela é tão a colhida
toco sua textura
feito abraço e riso

anoitece flor
no espelho onde há miragens
e entre os sinais, o vermelho
foi da casa, já partiu

marcha a vida em trânsito
até o fim
- vestida
até o talho
onde não vês


Patricia Porto

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Bom dia, América!

1915, Saudação à Bandeira Americana, EUA 



"Bom dia, América!"

Eu não sei ao certo se foi em gênesis ou se estava no site de notícias.
Não, este não é um poema engraçadinho e rápido para cumprir 140 caracteres
de pensamento instantâneo sobre o mundo e sobre o meu modo de fazer.
Não consigo achar graça dos que fazem graça.
Estou tentando fazer o meu café sem eletrônicos, mas um pássaro sinistro faz sons
estranhos na minha janela. Ligo o som fake de montanha e riacho.
Li que a máquina mais medonha do mundo será a que chegará ao talvez de tudo.
Talvez esfolem crianças ou talvez envenenem esse solo.
Tanto faz o talvez se nossos sangues não se misturam quando não somos iguais.
A guerra durará um século antes de abrirmos os olhos pela manhã.
Porque a situação é a seguinte: "eu confio tanto no outro como o outro em mim".
Guardemos nossos tesouros com chaves, guardemos nossas histórias em segredo.
Guardemos nossos cofres, nossos risos cínicos, nossos tumores.
Guardemos nossas vigílias, nossos interesses, nossos amantes.
Guardemos nossas senhas, nossos demônios, nossos gritos noturnos.
Guardemos o terror, as carnes que tremem, todos os corações disparados.
Disparados!]
A bala que te mata, de quem é?
Açúcar. Esqueci de comprar.

Patricia Porto

sábado, 3 de junho de 2017

Paixão


na ausência há um vazio róseo
flor aberta à capela

no peito aberto (le petit mort)
o pulo, uma sacada
um sopro de Cristo

se a viagem traz a margem
de meus olhos, terra em exílio
a  chaga, o risco de existir num feito de luz
de nossas cabeças, num estampado
é corpo

a câmara de gás no banheiro
levou duas crianças
e rostos de louça

a câmara de gás e seus milhões

eu temo.
com paixão

****
Patricia Porto

sexta-feira, 2 de junho de 2017

A Palavra

Marianne Rosenstiehl_  Les limaces 2014 


a palavra resolveu dominar meu corpo
minhas pobres vísceras
a anemia que trago ora como engano ora, forquilha
a palavra, uma ferida da alma
resolveu doer qualquer coisa
que movimenta e não grita

tomada de amor ou esquina
procuro alguma linha de saída no front
sou bruta na arte de desamarrar nós
e com as mãos invento pequenas ilhas de solidão
num deserto inteiro de declives

não julgo a jornada
pois estamos acamadas
- ela fazendo cócegas em minha barriga
olhando o tempo esfarelar as jaulas que me dão raiva de louca

dentro do peito onde me exponho, ela me é viga,
me espinha, meus espinhos
(sou toda clarão quando preciso)

não careço mais da floresta
da ciência de um governo
que queimem as bandeiras da nossa batalha
ou que depositem água na minha poesia

(estamos livre, em estado absoluto de crueza, ainda que eu sussurre não
ainda que me visitem juntas as estrelas)

Patricia Porto

quinta-feira, 1 de junho de 2017

O livro e o mundo

           

                   Algumas pessoas já me disseram sentir uma enorme claustrofobia na leitura de um Kafka. Sabemos que isso não se dá à toa. Pois se quisermos manter qualquer pequeno diálogo com as obras kafkianas devemos estar pré-dispostos a tentar compreender “que não conseguiremos olhar a alma de um homem através de uma lente”. Precisaremos então entrar no obscuro, no que há de absurdo no mistério, nas sombras, que podem revelar o nosso óbvio: não sabemos tanto... E muito do nosso conhecimento pode não passar de uma tremenda ilusão arrogante, uma ilusão grávida da nossa medonha ambição ser e ter mais que o outro ao nosso lado. E os cenários de Kafka são tão externos quanto internos, uterinos. E as externalidades revelam do quarto, da casa, de um castelo, os barulhos, os ruídos que podem ser bem mais altos, bem mais assustadores que os conhecidos do fora.
               Ao sairmos à rua, levamos em nossos corpos, bolsas e carros os símbolos da nova era e da tardia modernidade. Mas bem ali, no cruzamento entre o moderno e a charrete, está aquela senhora elegante, agora mesmo - sentada naquele café, o Parador. Lá está ela com seu xale fino comprado em Milão. A família costuma ir à Europa, precisamente Paris, uma vez por ano. Ela olha de forma displicente o entorno como se fosse uma passageira do trem. O vidro a separa do menino que bate com uma caixa de doces contra. Contra ela? Não, contra o vidro que os separa. O vidro é um bom vedador de ruídos. Ela se volta discreta e elegante para seu capuchino. No entanto, seus olhos a traem, vagando no entorno, lançando rabos de olhar para o vidro que, desgraçadamente, lhe estragava um momento raro de dispersão solitária. O menino percebendo aquele instante ambíguo da “freguesa” falava sem voz no embaçado: “compra um pra ajudar, tia”. Ela conseguia ler os lábios, mas fingia não ver que nenhum deles existia. E pensava relativizando em atos falhos: “nada mais irritante que a pobreza neste país. O pior é que não podemos fazer nada. Nada muda.” Assim, no displicente arroubo de consciência do outro, fez o que de melhor sabia: não olhar para trás, porque para trás ficava os incômodos, como o menino de vidro, peças de desmonte. Mas antes de terminar o café e sair, leu uma última passagem do livro “O Castelo” de Kafka, uma passagem que falava sobre um túmulo profundo e apertado onde o personagem e Frieda ficariam abraçados como tenazes, escondendo o rosto um no outro sem que ninguém mais os visse.
             E Kafka nos pendura nesse suspense em suspenso, como se o ar que lançássemos para fora na sua curta expressão e comunicabilidade nos ventilasse tanto o corpo causando pânico. Aquela senhora elegante, chefe de uma renomada instituição pública, no seu salto e posto altos precisou no mesmo dia lidar com dois dissabores: Kafka e o menino do vidro. Ficou mais tempo no café que de costume para ver se aquele menino desaparecia com seu "compra um, tia" interminável. Que fosse abduzido por uma miséria maior que a dela própria e sumisse da vista. Teve sentimentos confusos sobre o amigo que lhe presenteara com aquela aberração literária que em nada lhe ajudara a refletir sobre sua atual posição. Como chefe de um importante setor público via seus subalternos se esbofeteando aos berros e pequenos empurrões, até mesmo por coisas insignificantes, um armarinho de neuroses. “Não se fazem mais homens públicos como antigamente.” Pensou. “Meu pai sim foi uma grande figura pública. Hoje só vejo ratos e ratoeiras cada vez mais apertadas.” Lembrou do túmulo de Kafka. “Que leitura inútil!” E ali determinou que nunca mais voltaria a perder seu tempo precioso com um presente daquela natureza. “Espero que ninguém nunca mais nos ache. Fique aí.”
              Resolveu entrar no Shopping para refletir sobre as novas demandas da América Latina. Na mesa do café o livro de capa dura sofria ali o revés do abandono, mas não mais o pesadelo da incomunicabilidade. Havia tanto humor ácido e melancólico nos pequenos nadas das mesas de café.
             Abraçou-se ao xale naquele fim de tarde fria. Não olhou mais para trás. Mas perto dali, do outro lado da rua, uma mão abria com rapidez a porta do café, o vento desfolhando o livro marcado na última leitura daquela distinta senhora de xale. A mão segurou o livro, abraçando-o contra o peito. Era o menino do vidro correndo pela rua afora. "Pra onde ela foi?" O livro e o mundo os seguindo abraçados.

Patrícia Porto