sábado, 27 de maio de 2017

outono farpado

Jenny Morgan



as folhas caiem displicentes em posição de lânguidas
um desejo vertical de queda

ao rufar dos tambores sinos se juntam
quero acreditar que nenhum demônio roubará minha alma
enquanto teclo meus dedos em máquinas exóticas

folhas amarelas, rosas, quase rubras
(desejo invertido de imortalidade)
a aceitação das folhas me quietam
o chão farpado de lucidez
está sob meus pés
um asfalto

Patricia Porto

quinta-feira, 25 de maio de 2017

fruta de cordeza dura

Pina Bausch


todos os dias esvaziava os bolsos
tanta chuva por dentro
tanta seca por dentro
todos os dias esvaziava a mente
tanta dor no escuro
tanta arma na boca
- o lobo na porta
e as noites de fogo
uma mulher estranha vesgando a pergunta:
quem é você, mulher do espelho?
nela amanheço, amarelo,
nela me deito com minhas cartas vazias
na dança das impossibilidades

o sol posto na mesa
são os lugares que esqueci de acender no corpo
a morte de tudo que deixei no fundo da gaveta
fazendo arranhões, rasuras, esboços de ser a mesma
de olhos marejados, sorriso de canto,
a cabeça esvaziada de si
- quem me olha através de você, mulher do espelho?
não te reconheço em mim o horror
não te vejo para fora do nome
por fora estamos assim, castradas?
distantes, afogadas no trânsito,
longe de casa,
perto da linha do trem para partir?

mulher que me olha em meus olhos, quem é?
não te acho aqui
- por que envelheceu tão tarde na rua?
- o lobo na porta, tão dura
(minha sentença)
(minha criatura)

adeus, adeus
-o amor cresceu entre os dentes,
quase o milagre da hera

- nenhum terror nos oculta
os vidros, a úlcera,
a mulher que me afoga
com seus afagos
cresceu

Patricia Porto

Sabático


Las manos de Louise Bourgeois 1911- 2010,
escultora y artista, nacida en Francia. Fotografía de Alex van Gelder, 2010.



Obsequioso desentranho
desentranho essa diligência
que é o decifra-me
e quando não socorro-me
espeto meu dedo mínimo com uma agulha.
Sim, estou vivo!
Atravesso minhas colheitas
com meus tempos amostra,
devo parecer ou padecer
de meu léxico amedrontado.
Sim, estou vivo!
Acumulo valores,
bestialmente acumulo valores
para girar ao redor desse homem,
clone de minha raça,
esse homem que come da minha mesma ração,
primo-irmão de meu paradoxo,
esse que me enfia a faca nas costas
quando me afasto para cochichar: "te amo".

Patricia Porto



Pode olhar



Meu útero tem dois lados
Os dois estão armados
Não tenho outra vidraça pra bater


Patrícia Porto

Os vidros de 78



Eu também conheci a árvore da vida,
os figos eu os devorei todos de uma só vez
meu melhor poema ainda não nasceu
Dormi aos oito anos com coturnos na sala
acordei aos 46 com Brasília sitiada
Meus figos vieram à tona
dez mortos no Pará
Meus figos atirados contra as paredes
do estômago
queimando a boca
as mãos
o meu cachimbo sem paz

Dormi com coturnos na sala
acordei com Brasília sitiada

Patricia Porto

domingo, 21 de maio de 2017

Ouvidos para sonhos difusos




Hoje pela manhã abrirei a última janela
do último salto
para a última esfera
onde estarão os meus mortos
Hoje pela manhã encontrarei meu cão
minhas horas de fazer nada em repouso
de contar os dias que me sobram
onde estarão os nossos mortos
Hoje pela amanhã pegarei de uma vassoura,
um pano, um balde de água, me fingirei de viva
ao limpar os restos de migalhas de afeto
que mal me são ofertadas
Hoje pela manhã abrirei a geladeira para contar
batatas, ovos, maçãs, viagens envelopadas,
coisas distintas que nunca realizei
Hoje pela manhã vou aguardar as notícias, as boas,
nunca vindas, sempre amontoadas na caixa de correio
das pessoas com muita sorte e nome
Hoje talvez penhorarei aqueles olhos de louça
das histerias obscenas de todas as mulheres findas
- meus braços ainda tremem da espera
- seguram um tempo morto
- abrigam sedentos um campo verde por onde belas criaturas
cintilam na luz de outono
Hoje talvez eu recolha a roupa, o varal, a fratura exposta
e guarde em minha aventura selvagem o desejo único
- o de desaparecer dentro, bem dentro, agradada de minha voz,
desparecida da espécie que mata objetos a facadas
Hoje talvez eu nem apareça na janela que nunca existiu aqui

Patricia Porto

sexta-feira, 12 de maio de 2017

naquele tempo

Elvira Amrhein


naquele tempo o que me importava era
a proteção da bacia, a água, certa espuma
uma qualquer noite azulada

quantas costelas cabem numa coluna de mulher?
lançados com as mãos, quantos dedos cabem nela?
para levantar a mão e socar o rosto gasto dela?

como é fácil bater na mulher da rua, na mulher sem país,
na mulher sem terra, na mulher sem glória,
na mulher sem renda,
na mulher sem dote,
na mulher sem teto,
na mulher tão feminina de pênis,
como é fácil bater na mulher da outra mulher,
na mulher que apanha do outro,
na mulher que se ausenta,
na mulher sem útero,
na mulher de aquário,
na mulher da vida,
na minha mulher,
na mulher que me avizinha

o que não é fácil é a solidão da mulher que apanha a rosa
caminhando pelo bairro

quantos dedos cabem nessa flor sedenta?
como é fácil contar estrelas, olhar pro teto
- são tantas as aves nesse céu

Patricia Porto

quinta-feira, 11 de maio de 2017

não temo destroços

Winter on fire


a vida contemporânea tem muitos barulhos
muitos assaltos de chofre
muitos mandados de morte
muitos navios pra queimar

odeio telefonemas,
mas não menos que odeio e-mails

sinto saudades da ipanema e de seus teclados

não sinto saudades do subúrbio,
não penso mais em realengo
- ele me cheira com morte e coturnos

não tenho histórias engraçadas pra contar

a vida contempla o humano que sobra em nós,
está enojada por horas
anda descalça na rua onde eu corria e era menina
sinto saudades da minha menina
ela se foi cedo demais

a vida com o tempo é vasta
é o elástico da roda
um dia eu e minhas primas brincamos de hospital
quase matamos uma de nós
brincar poderia matar nossos brinquedos
nossa avó usava muletas e ajudava na descoberta
de que o quintal abrigava entulhos e silêncios

sinto saudades

hoje ainda brinco de morrer,
mas sempre acredito
um pouco

Patricia Porto

segunda-feira, 8 de maio de 2017

a onda



às vezes a onda atravessa a parede
e vem falar comigo: como você está hoje?

às vezes me engole como parte de sua circulação sanguínea

a onda precisa ser revés
golpe na face
corpo no instante
instante nu e tubo
tubo de ensaio
tudo é ensaio
tão frágil
eu sou tão frágil

a onda tão helicoidal
quebrou minha costela de adão
unhas, meu dorso de cavalo,
os dentes postiços
ainda com esses restos da carne

e nós somos, ali e aqui, tão quietos no tubo
tudo tão íntimo e silêncio
que não há língua que nos afaste
nenhuma palavra sonora
nenhum tremor
nenhum visto de entrada
nenhuma foto 3x4 estrangeira

apenas a ressaca
pés sujos
o embrulho na onda
a água batendo
na outra

Patricia Porto

domingo, 7 de maio de 2017

(sem título)

Giovanni Manfredini


O menino preparando um estilingue
A velha deitada em sua cama:

entre se afogar e mergulhar
O mar era o mesmo
A mãe era a mesma
A mão no cabelo
era no entorno, o vazio
de amamentar nos braços o inimigo

Nunca se cansava de dizer
e praguejar: passarinhos ao chão!

O menino dentro da casa de suas ilusões
mais sentidas era de uma sanidade atroz

Pegou da mão do menino e foi brincar de morrer na casa antiga de suas infâncias

Solta esse estilingue, menino!
A morte é a mesma e eu só desejo paz


Patricia Porto