sexta-feira, 12 de maio de 2017

naquele tempo

Elvira Amrhein


naquele tempo o que me importava era
a proteção da bacia, a água, certa espuma
uma qualquer noite azulada

quantas costelas cabem numa coluna de mulher?
lançados com as mãos, quantos dedos cabem nela?
para levantar a mão e socar o rosto gasto dela?

como é fácil bater na mulher da rua, na mulher sem país,
na mulher sem terra, na mulher sem glória,
na mulher sem renda,
na mulher sem dote,
na mulher sem teto,
na mulher tão feminina de pênis,
como é fácil bater na mulher da outra mulher,
na mulher que apanha do outro,
na mulher que se ausenta,
na mulher sem útero,
na mulher de aquário,
na mulher da vida,
na minha mulher,
na mulher que me avizinha

o que não é fácil é a solidão da mulher que apanha a rosa
caminhando pelo bairro

quantos dedos cabem nessa flor sedenta?
como é fácil contar estrelas, olhar pro teto
- são tantas as aves nesse céu

Patricia Porto

quinta-feira, 11 de maio de 2017

não temo destroços

Winter on fire


a vida contemporânea tem muitos barulhos
muitos assaltos de chofre
muitos mandados de morte
muitos navios pra queimar

odeio telefonemas,
mas não menos que odeio e-mails

sinto saudades da ipanema e de seus teclados

não sinto saudades do subúrbio,
não penso mais em realengo
- ele me cheira com morte e coturnos

não tenho histórias engraçadas pra contar

a vida contempla o humano que sobra em nós,
está enojada por horas
anda descalça na rua onde eu corria e era menina
sinto saudades da minha menina
ela se foi cedo demais

a vida com o tempo é vasta
é o elástico da roda
um dia eu e minhas primas brincamos de hospital
quase matamos uma de nós
brincar poderia matar nossos brinquedos
nossa avó usava muletas e ajudava na descoberta
de que o quintal abrigava entulhos e silêncios

sinto saudades

hoje ainda brinco de morrer,
mas sempre acredito
um pouco

Patricia Porto

segunda-feira, 8 de maio de 2017

a onda



às vezes a onda atravessa a parede
e vem falar comigo: como você está hoje?

às vezes me engole como parte de sua circulação sanguínea

a onda precisa ser revés
golpe na face
corpo no instante
instante nu e tubo
tubo de ensaio
tudo é ensaio
tão frágil
eu sou tão frágil

a onda tão helicoidal
quebrou minha costela de adão
unhas, meu dorso de cavalo,
os dentes postiços
ainda com esses restos da carne

e nós somos, ali e aqui, tão quietos no tubo
tudo tão íntimo e silêncio
que não há língua que nos afaste
nenhuma palavra sonora
nenhum tremor
nenhum visto de entrada
nenhuma foto 3x4 estrangeira

apenas a ressaca
pés sujos
o embrulho na onda
a água batendo
na outra

Patricia Porto

domingo, 7 de maio de 2017

(sem título)

Giovanni Manfredini


O menino preparando um estilingue
A velha deitada em sua cama:

entre se afogar e mergulhar
O mar era o mesmo
A mãe era a mesma
A mão no cabelo
era no entorno, o vazio
de amamentar nos braços o inimigo

Nunca se cansava de dizer
e praguejar: passarinhos ao chão!

O menino dentro da casa de suas ilusões
mais sentidas era de uma sanidade atroz

Pegou da mão do menino e foi brincar de morrer na casa antiga de suas infâncias

Solta esse estilingue, menino!
A morte é a mesma e eu só desejo paz


Patricia Porto

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

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Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
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Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

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Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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