segunda-feira, 24 de abril de 2017

deles nãos sei

Zanele-Muholi


escrever: a quem serve?
deveria servir feito almanaque
aberto de A a Z
mas hoje serviria para me desfazer

hoje escrever me serviria para te desfazer
para te maldizer
para me louvar
para não enlouquecer

talvez servisse para tomar café
com muita cafeína
serviria para acalmar a ressaca do mar
talvez para tentar suprimir o que é extremo
serviria para não mais degradar o homem dele mesmo
última espécie que acredita em alguma bondade

talvez hoje escrever serviria para andar na cidade
e ser gente alguma vez
serviria para não ouvir os passos que atormentam minha mente
talvez para aquietar meus demônios

talvez servisse de água potável
para encontrar o entre
sair da massa
encontrar as áreas de aderência
talvez servisse de céu noturno
carinho de mãe
cama quente
beijo de despedida
amor esquecido na última quadra
o sutiã sobrando na gaveta
nenhum mamilo

os meninos agora brilhando na rua
talvez escrever servisse para isso

enxergar?

nasci cega de um olho

- uso esses espelhinhos

Patricia Porto

sexta-feira, 21 de abril de 2017

A lua dos canalhas



a outra esquecia suas coisas sobre a cômoda
anéis, presilhas de cabelo, lenços coloridos
papéis de bala de hortelã

a outra esquecia suas palavras nas garrafas
eu levantava de noite para beber da sede
e lá bebia a outra toda, nua em prelo

a outra esquecia de aparar a grama do jardim
esquecia seu nome na janela que me abrigava
a outra esquecia seu perfil aberto
sua foto na sacada da minha arma
na carteira do canalha
na sola do meu sapato

eu batia os cascos e nada -
só eu morria devagar, insone, apavorada
ela se rindo enfim
eu cheirando seu lenço
apertando meu pescoço
como um gatilho
um gato manco
sob a lua dos canalhas

Patricia Porto

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Por caridade



sem palavrinhas
sem declarações por hoje
sem soar falso, por favor
a noite assombra
e eu com isso?
sem palavrinhas
sem efeito neon
incertezas, eu caminho pra frente
que amor?
e eu com isso?

vai assoprar uma vela
navegar num barco o sereno do mundo
vai se encharcar de alma
aprender língua de sinais

quem sabe por lá marujos a encontrem
a abracem com seus longos braços de mar
tua sombra de mulher vadia
a vadia da tua alma tonta

quem sabe um deus te abrace
um rio, um sabre
uma coxa aberta ao meio
tua racha
quem sabe teu deserto caiba
em tuas mãos

sem palavrinhas
sem mosteiros ou proteção da chuva ácida
sem sonar falso, meu amor

e eu com isso?
e eu contigo?
meus lábios te mordem
para dizer que neste barco, balsa, terno, rampa
não cabe nós dois

sem palavrinhas
e eu?
eu com isso?

Patricia Porto

quinta-feira, 13 de abril de 2017

deles não sei

escrever: a quem serve?
deveria servir feito almanaque
aberto de A a Z
mas hoje serviria para me desfazer

hoje escrever me serviria para te desfazer
para te maldizer
para me louvar
para não enlouquecer

talvez servisse para tomar café
com muita cafeína
serviria para acalmar a ressaca do mar
talvez para tentar suprimir o que é extremo
serviria para não mais degradar o homem dele mesmo
última espécie que acredita em alguma bondade

talvez hoje escrever serviria para andar na cidade
e ser gente alguma vez
serviria para não ouvir os passos que atormentam minha mente
talvez para aquietar meus demônios

talvez servisse de água potável
para encontrar o entre
sair da massa
encontrar as áreas de aderência
talvez servisse de céu noturno
carinho de mãe
cama quente
beijo de despedida
amor esquecido na última quadra
o sutiã sobrando na gaveta
nenhum mamilo

os meninos agora brilhando na rua
talvez escrever servisse para isso

enxergar?

nasci cega de um olho

uso esses espelhinhos

Patricia Porto

Pássaros benditos para meu funeral



Eu vou unir todos esses pássaros ao meu redor
os que bicam em minha cabeça, por favor, fiquem em silêncio:
vamos ouvir o que os pássaros têm a dizer sobre
as maquinações do tempo contra o afeto,
os pássaros vêm e pousam em meu casaco,
o casaco surrado dos dias de desemprego,
dos dias de desemparo,
dos dias sem poesia,
dos dias do feijão e arroz sem mistura.
Mas eles também vêm para comer algo na minha nuca,
algo que pássaros que bicam a sua cabeça não sabem o que é.

Seu corpo está cheio de alimento para os pássaros
que pousaram em seu casaco,
eles se aproximam e comem da sua nuca,
eles te dizem o quanto das suas velhas coisas,
jogadas no porão, valem às penas que carregam.

O amor, por exemplo, que doçura provar da boca do pássaro o alimento.

 Aos que bicam minha cabeça:
   façam silêncio!

Patrícia Porto

segunda-feira, 10 de abril de 2017

que diabo é isso?

e eu tentando ficar de pé
num pé só

e eu tentando tomar um porre
num gole só

e eu tentando me atirar ao abismo
com uma dentada só

e eu tentando riscar o quadro
com uma marca só de sangue

Logo eu! Logo eu!

Demônia, bruxa, Lazarenta!
Caetana dos infernos

e eu tentando amar um homem só
uma só mulher
uma penca de filhos só

Fadinhas boas me salvem
eu sei que o bem existe
- alguém disse pra mim
enquanto rasgava o meu pescoço

Fadinhas boas, onde estão?

e eu tentando cair no meu peito
num garfada só

Patricia Porto
   

TESTEMUNHO, EXÍLIO E DESALENTO

TESTEMUNHO, EXÍLIO E DESALENTO

                    Estar vivo/viva é um ato de resistência absurda, de negação ao determinismo histórico, econômico, étnico cultural, que coloca o sobrevivente dentro de uma determinada estrutura de poder como a única testemunha de seu próprio exílio. Ao sobrevivente, o “estar banido” não é uma questão de escolha, não é uma falha de sentimento ou de caráter que o torna capaz de escolher para si a cruel opção de “não-pertencer” a qualquer território que lhe acolha, que lhe dê a sensação de bem-estar com outros no mundo. Imagino as crianças que vivem isso como estigma. Fui uma dessas inclusive. Elas são sumariamente culpadas, elas próprias, por seus sofrimentos e danos, ou porque não rezaram direito ou porque não fizeram o dever de casa. A misericórdia dos que se penalizam mora na não-sutil perversidade de culpar o outro pelo próprio sofrimento e por isso mesmo se eximir de qualquer empatia.
                 Ouço e leio muitos discursos sobre igualdade, mas não encontro neles a possibilidade do diálogo legítimo com os diferentes. Não vejo “alteridade” nesta política da palavra que machuca. O que mais vejo é a supressão da fala do outro fantasiada de “lugar de fala”. A política que se faz no diálogo, na palavra, esta ponte entre mim e outro, não pode habitar na negação da fala do outro, no julgamento sem qualquer conhecimento prévio do outro, ou seja, sem nenhuma empatia – e que só serve para calar, abaixar a orelha do outro enquanto se fala – ou berra. 
                A malha do poder e suas tantas estratégias é mesmo muito complexa. Não é fácil ser uma pensadora livre. Pensadora livre, não por escolha, mas por estigma, para servir de testemunha de seu próprio exílio, para servir de culpada pelo seu próprio banimento. Ao menor ruído, desagravado, a lógica da recepção é a do novo colonialismo de fala: a da violência. 
                 Eu adoraria ser testemunha de outra realidade. Mas me deixaram esta de pia: a da busca que me violenta pela verdade que eu não sigo. Não, não a recuso, não recuso nem mesmo esta dialética torta. Não recuso sequer o desalento que me fere. E respondo, responderei sempre - antes porque é da minha natureza; depois, porque acredito que não há política, filosofia, arte, vida sem diálogo.

Patricia Porto

segunda-feira, 3 de abril de 2017

faca cega

Paul den Hollander_ South Limburg, 1978


Não existe este fora
ou este dentro
- tudo está agora naquela figura, a esfumaça
que cruza meu desejo de criar poemas

pediram para não citar o poema em vão
de ideia, foice que seja, em vão dessas minhas vigilâncias,
para não ser comida numa mastigada só, sem as beiradas

digo ao Rei que existe apenas o vestígio de ontem?
Que Ofélia serei se não mais estarei morta ao largo?
Ele me vê, porque sei que me espia pelas entrelinhas,
me vareja com seus dentes afiados, absolutos

E o vão, o vão é sempre tão sedutor,
mas que raio de poeta serei eu se não me enxergar na própria porta?
Contemporânea às tuas faces
feito Atena,
consumindo revistas,
direi do alto deste penhasco sem nenhum Cristo:

não, Destino, não há dentro ou fora
apenas vão
agora vão

Patricia Porto