domingo, 26 de fevereiro de 2017

Do Pau Oco

Lua Morales


no tempo do cala-bouço
há uma festa entre fantasmas:
a sirene, o tiro no asfalto
minhas pernas bambas
avulsas, uma a uma
soltas no ar
- balão, pernas e oxigênio
para os lacrimogêneos

a vista turva
porque o tempo embaça
e há estilhaços nos olhos
para esta despedida
que parte meu coração
feito meu país calado

não, não sou um ser humano cínica
nem ímpar

Patricia Porto

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Para os homens de bem dos últimos dias

Noell S. Oszvald


Nesses dias avulsos da tempestade
ouvi dizer que homens invadiram Creta
armados até os dentes homens mataram pequenas espécies da ilha
Nem Jacó ou Maomé puderam salvar os seres humildes,
apenas o frio congelava a água nascente
os cemitérios estavam cobertos de gelo humano
nuvens carregavam vários sinistros
jornais anunciavam um carnaval fora de toda época

mulheres choravam sobre as cruzes
eram muitas da minha família de muitos mortos,
de mortes matadas e não assistidas,
assassinos comiam sorvete americano pensando ser do exército alemão,
o golpe era sem derramamento de sangue
a poesia não fazia mais política
a poesia também era mercadoria
só o sexo dos anjos importava
mas Safo estava livre em outra órbita
descansando de tanta desgraça

nesses dias insanos da tempestade
que varreu os últimos dias,
a acidez do estômago era mesmo tumor
flagelos de pessoas andavam insones costurando notas falsas
enquanto um bolo subia por dentro da boca ferida
e o tempo se escasseando vingativo
era filho pródigo daquela senhora: a violenta

a lei confirmava tolice e engano
o corpo, o único lugar de paragem,
sem religião na mente fazia templo o viajante,
a cabeça uma dona de cais

inquietação exigia outras ferramentas de oficina
mas o espírito, essa coisa do diabo,
era pura imaginação

Patricia Porto

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Nasceu para todos.

Sally Mann


Ficou sem teto
as noites com seus objetos pontiagudos
vieram dar boa noite, vez por vez, um cerco.

A escrita já não era a solução pra nada,
não tinha amigos. Sua poesia era um isto.
Basicamente sem amigos.

Ficou sem ar no balão de oxigênio,
escafandros eram para os com chance.

Precisava escrever poemas ou notícias para não asfixiar,
mas não precisava de falsos profetas, extrema a unção,
a piedade dos calhordas.

Quanta lástima uma mulher pode carregar na alma?
quantos origamis da mesma tristeza?
Um revólver sempre apontado pras estrelas,
um cano esguio na boca,
o céu enfim.

Patricia Porto

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

quem é a mãe do inseto?

Elliott Erwitt

pode ser tão fina a camada
que me separa do outro: lado direito
e lado esquerdo na mesa, casa, ruas, separando nossos utensílios
de guerra?
um avestruz ou um cisco no próprio olho
em conformidades com o silêncio do café, a tinta fresca, o corpo
com riscos verídicos de morrer de insônia e gota

a idade, um sinistro de exatos:
medo de cair, sangrar pelas narinas,
quebrar os ossos

tanto tapa na nuca vez acordar pro êxodo,
tanto chute que a ferida emprenhou

nascida de uma coxa
gerou um deus desgrenhado
sem pele, sem unhas
torso com escamas
atávico

um bicho voraz
capaz de devorar a si mesma


Patricia Porto

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Por favor, me cuspa

Retratos de moradores de rua por Lee Jeffries


O cego emocional
não enxerga teus olhos
não enxerga teu vulto
muito menos tuas feridas na guelra
tuas noites dos infelizes
raízes no teu assoalho
a linha do Equador
o raio cúbico
o átomo
a vírgula
e o gesto

O cego emocional te cospe
de rude
é anêmico
está dando pra rir agora
neste momento
quando chacoalha a barriga
e esfumaça um antílope

O cego emocional
comprou um placa para os desafetos

Nela está escrito: Por favor, me cuspa!


Patricia Porto


O MÍMICO

Mulher em Macinômio.  Esta imagem faz parte de uma série de fotografias de George Georgiou (fotógrafo britânico), que trabalhou na Sérvia entre 1999 a 2002. A produção de George mostra os pacientes e as condições precárias de um hospício da Sérvia.

*

Dos privilégios de estar vivo e morto:

Hoje ainda nem morri

silêncio é quando há um suspenso, uma corda
e aquela adaga na cabeça diz: se joga!
o tempo pendular da guerra é frouxo,
faz ninho com seus tentáculos no chão

te cortam uma perna, nasce outra
jogam tua cabeça suja, teus pensamentos sujos, tuas palavras imundas
dentro de um balde d'água limpa
a fim de te purificar

Não te tortures!
coração é alma na boca aberta, mas só quando o dente podre dói
 há disfarces de peso pluma (um chumbo escondido na exátula)
- dilatas então um pássaro mímico com as mãos

Não te tortures!

Hoje nenhum de nós entre eles morreu de véspera
nenhum cínico aplaudiu com dois dedos o nosso fracasso,
o fato de não escrevermos versos concisos
nem coisas de sentido enfastiado
Ficou esperando e nada explodiu nas pupilas
O que dizia mesmo Maiakóvski?

ninguém hoje indiferente notou que temos corpos
e estivemos vivos e doloridos o tempo todo

desagradeço pois,
ora, pois
por nós não
não queremos vossos remédios!

Patrícia Porto