domingo, 29 de janeiro de 2017

"Outros Cantos" e a estética da sobrevivência.



        

                     Há narrativas-correntezas tão fortes que nos fazem mergulhar no outro que também somos. Parece algo muito fora de nós a princípio, dada a vertigem do encontro, mas vamos entendendo no percurso da leitura que é realmente da nossa intimidade que se alimenta, da nossa imediata identificação,dessa afinidade aguda que pode até mesmo nos interrogar e que se lastreia para dentro, nos investigando os porões, revirando os guardados, revelando vozes segredadas, aquelas que não cuidamos de registrar e que vão se misturando ao chão da vida, trajetórias de leituras que nos escapam... E é partindo deste princípio, do meu lugar de leitora e educadora, ambas encantadas, que ofereço uma modesta contribuição de olhar a "Outros Cantos" de Maria Valéria Rezende. Porque, se nos encantamos e ainda não fomos castrados nesta habilidade, é pelo olhar curioso, visitado por outros sentidos, que nos deixamos reconhecer no texto lido e amado. 
              Em "Outros Cantos", ao me deparar com Maria, as Marias que habitavam em mim ressoaram. Dentro de mim uma nova jornada mítica: significar o que compreendo como estética da sobrevivência. Algo de delicado e outro de doloroso me ocorrem para tentar descrever esta estética de histórias que se assemelham às minhas e recriam pela cultura este diálogo permanente e polifônico. Como recebo Maria a partir de minhas Marias? As Marias que não deixei vingar, as que calei de saída, por medo e resposta antecipada contra o que parecia destino? Perguntas teimosas me fazem companhia pelo trajeto da leitura, às vezes estreitando a vista a fim de enxergar melhor esses jogos de perder e achar. Não sei se alcanço o todo de dizeres que vão brotando da pedra, a minha é a mais bruta. Procuro aqui e ali um desvão, um atalho que nos una, e que me faça encontrar Maria, a educadora, a nordestina, a viajante, a corajosa - num feito de matriochka. Um engenho elaborado entre escrita e significação que vou costurando junto à cartografia do sertão. O sertão que se biparte em geografia e sentimento. Patuá de sertão é para sempre esse carregado de memórias no peito. 
                  Mas eis que surge a imagem que persigo: a viagem. O caminho sensível pela alma de minha leitura amorosa, alma porosa, cálida e dedilhada pelo risco e invento dos sobreviventes. Tento sintetizar minhas percepções e palavras como "denso, perturba-dor, delicado" são os melhores qualitativos que encontro. Ouso trazer Maria e "Outros Cantos" para minha coleção de imagens. Guardo este segredo de quem escava histórias em mil camadas e que se instaura na convergência da leitura com a educação: dois amores e uma espécie de circuito inacabado que encarna no mundo como aliança quixotesca, subversiva, desviante. "Outros Cantos" acende em mim a tradição das almas velhas. Dou rendas à escritura: cheia, vazia, entrelaçada, torcida - que não guia, mas nos torna cúmplices da narrativa, sujeitos clandestinos, desejantes e sonhadores.


Maria Valéria Rezende é ganhadora do prêmio Jabuti e do prêmio Casa de Las Américas.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

matula


Araquém Alcântara

saudade de casa é onça,
essa gigante onda do apartado,
matula, sol no quengo,
saudade do povo, meu canto,
todo esse sal é teu

perdida na cidade pedra
virada bicho na areia
cuspida
dolorida demais pra verter tristeza em água

cheiro de rede
éguas! tô mais só que o demo
mais infeliz que a terra que queima  

voltar é hoje:
nesse vespeiro de alma-casa
dá dor nas juntas

eu vou no desvão do deserto
pra dar de sangrar mais rente

dor de onça é triste assim
mata é no quieto mesmo

Patricia Porto

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

objeto solitário ou canção para Cassandra


Killy Sparre


daquela coluna que se olhava a relva
nossas sombras esparsavam fluídas
são grades os metais que brilham no escuro?
parecem pulseiras, estrelas,
algemas confundidas entre estanho e linguagem

o tudo que faz sentido entre nós
não desceu o rio, espelhas,

permanece leito
e morno
- quase ralo

quem obscena é a morta,
a compulsiva?

escreventes datilógrafos
invadem a língua e
salgam os pequenos lírios

perto de mim
encontrado objeto solitário sobre a mesa:
uma carta para Cassandra, uma canção

entre nós duas este corpo terrível e sonoro
não mais identificado

Patricia Porto

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Oclusiva, mas limpinha





Encontre as palavras.
Procure as palavras.
Não há coerência nisso. Atire nas palavras.
Sim. Uma ou duas pedrinhas.
Manche de sangue a mureta.
Um pulso cortante. Um coração à mostra.
Caia de boca na língua.
O veto é branco. Limpe a boca da gordura.
Acenda um pavio e inaugure um movimento.
O dos descentrados. O dos degredados.
O dos sem panela pra cozer. Convide sua amiga morta pra dançar.
Seja rejeitada: uma, duas, três vezes ao dia. Não morra de inanição.
Publique seus dedos nas trincheiras. Veja nos olhos do outro a apatia.
Os mesmos olhos que correm traidores e mesquinhos para os versos de uma jovem,
a que acaba de passar no freio do tempo - de causas floridas.
Atire-se da prancha sem pelica.

Patrícia Porto

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Contra a extinção do lobo mau.




Quando é que alguém percebe que se tornou uma pessoa raivosa e ressentida? Quando é que dá o estalo? Logo aquela pessoa que também amava os animais... Agora está ali, lidando com velhos almanaques do bom-mocismo ou com a nova patrulha dos que fazem marchas pelos bons costumes, e geralmente os afortunados que mais “lucram” com o extermínio dos lobos maus. Todos conhecem bem as analogias que se fazem sobre o cão bom e o cão mau, o lobo bom e o lobo mau. Como se os cães, os lobos, os animais todos pudessem dominar o seu lado instintivamente mau ou como se - simplesmente, pudessem jogar para debaixo do chão, da terra, atrás do espelho, a desordem do mundo interno, o instinto, a sombra do avesso. Por que extinguo? 

Uma pessoa me falou numa consulta médica: “Você tem dois lobos dentro de você. Um é bom e o outro é mau. Você é quem escolhe qual deve e quer alimentar e qual você deve matar de fome.” Achei horrível toda aquela pílula de lugar comum, de veto surrado e hostil. Se alguém receita remédio tarja preta para ajudar a matar o lobo mau de fome – é porque, certamente, nunca entrou na sua própria floresta ou loucura. Afinal sabemos que a normalidade é uma patologia inventada pelo homem branco. E quem mata o lobo mau nunca esteve do outro lado de si mesmo e nunca atravessou sua própria fronteira para se olhar no espelho em enigma, no Lobo de dentro, a tal corda sobre o abismo de Nietzsche. Quem repete frases feitas sem pensar pode muito bem receitar sem pensar; e daí o pior: diagnosticar sem pensar. 

Ouço numa entrevista que os novos pesquisadores da neurociência se esforçam dia-a-dia para desvendar um pouquinho mais do misterioso cérebro humano. Nosso cérebro e suas capacidades parecem assim - tão misteriosas quanto o que há de misterioso na descoberta das novas galáxias. O universo se expande e dilata, toma formas amolecidas, fragmentárias, enigmáticas e criam conexões, e fazem o antes inimaginável ou impossível - imaginário e real. E bem à nossa frente o tempo se dilata, quantifica e qualifica. Há Quantidade. O Quanto. E o Quântico. E tudo aquilo que desconhecíamos passa a ter uma imensa oportunidade e flexibilidade de qualidade de expansão. E se expande.

Eu que também amo os animais e também amo a física do universo - não entendo nada da prática humana de matar de fome os lobos maus. Ou ainda não entendo nada de dizer que a pior raiva humana é a raiva de um cão. Olho o meu cão, nunca vi ser mais bondoso e carinhoso. Domesticamos os nossos cães que latem e se comunicam o tempo todo conosco. Boris Cyrulnik diz que um cão selvagem ou um cão que acompanha um caçador quase nunca late, pois não há comunicação necessária no ofício de caçar outros animais ou no exercício de ser presa e predador na floresta.

No belíssimo livro de Clarissa Pinkola Estés, “Mulheres que correm com os lobos”, somos instigados pela leitura densa do texto, a desvelar a nossa relação com a floresta, e dessa relação somos também instigados a refletir sobre os nossos medos, angustias, as nossas fragilidades, nossas previsibilidades, precariedades. Impossível não se identificar. Num desses contos me vi perdida e achada na imagem da Mulher-lobo, da mulher que guardava ossos como relíquias da vida, como histórias, cicatrizes do mundo, registros da passagem da humanidade pela floresta. La Loba, a criatura. Há em “La Loba” um pouco de “Baú de Ossos” de Pedro Nava, os ossos dos mortos, o baú que evoca os desaparecidos, as casas mortas, numa arqueologia interminável, numa busca por desvendar-se pelas memórias, pelas reminiscências dos homens e das coisas naquilo que nos olha. 

Gente muito “do bem”, aparentemente do bem, é gente que aprendeu a calar a sua tempestade antes que apareçam os ventos. Quando vejo alguém nessa categoria presumo que o ansiolítico raspou aquela natureza até o fim do tacho. E sinto que o insosso do vazio impera mais que pondera. Como não é nunca da minha conta, apenas penso um pouco entre tantos outros pensamentos e sigo adiante. É claro que já me perguntei por que não funcionou comigo. E até já invejei essa gente com sugestão de paisagem eterna, como uma televisão passando, estaticamente - campos floridos com criancinhas correndo feito anjinhos. E ainda admirei gente com expressão de aquário - peixinhos coloridos naquela pequena amostra de ambiente devidamente controlado. Mas com o tempo passou e eu já me conformei. Aprendi, numa surpresa inconveniente, a gostar de algumas das minhas rasuras, ranhuras, essas coisas de gente fraturada pela vida. Não vou dar conta dos anjinhos correndo na estação das flores. Isso nunca. Já desisti.

O que fica então para alimentar? Não, não, me recuso a matar meu lobo mau! E me entrego aqui mesmo - ao dizer para quem está lendo. Saiba. Saiba disso. Eu tenho um lobo mau. Mas se eu não estiver completamente errada, você também deve ter o seu, não sei se machucado ou morrendo de fome, mas tem. E uma sensação me diz que quanto mais tivermos essa noção, com maior zelo trataremos as delicadezas do outro, assim como também entenderemos melhor as falências humanas. E se a corda puir, sabe o abismo? É o misterioso. Uma casa enigmática cheia de ossos. Uma floresta com lobos, cães, meninas, meninos selvagens correndo entre sombras e árvores. É mais embaixo mesmo. E é sempre melhor descobrir, olhar por si mesmo. Pra si mesmo.

Patrícia Porto

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Ainda é cedo, Amor.



Sobre o Ato Terrorista em Campinas.

Ainda é cedo, amor...

           Assim como na bela música do Cartola diria que "ainda é cedo, amor...". Há muitas camadas neste caso. E essas camadas revelam muito do que nós já éramos e do que estamos excretando como sociedade. Relacionamentos abusivos estão na ordem do dia. Não se restringem aos casais, mas se ampliam às pessoas em geral, às relações como um todo, num complexo. No nosso trabalho mesmo, quantos relacionamentos abusivos são mantidos - e por décadas? Quantas doenças nos causam? E o excesso de informação? A enxurrada cotidiana de notícias manipuladas? Todo o barulho e mal estar causado pelas mídias sociais que pouco acrescentam. E se tivermos uma arma na mão? Nossa história é uma história de escravidão, humilhações constantes, opressão, de subserviência, de ódios reprimidos não trabalhados, de ressentimentos e não-diálogo com os divergentes. 

           Há um grande abismo, um grande vazio de significados entre o discurso intelectual acadêmico e o movimento feminista real, o movimento social feminista. Então é muito estranho ler textos que dizem sempre o mesmo do mesmo, mas são incapazes de representar o que é a vivência da mulher com a violência doméstica cotidiana, a vivência da mulher que sofre abusos contínuos, abusos de classe, abusos étnicos, os de gênero, todos os abusos. As mulheres da Maria da Penha, as Mães de Acari e de Manaus... Creio que esteja faltando um trabalho de campo bem direcionado, que desvele as experiências e as narrativas singulares dessas mulheres. Está faltando solidariedade, porque empatia é palavra para alguns entrarem em consenso, talvez vender sabonetes. Está faltando, principalmente, diálogo. E sobre as pílulas morais que andei lendo, é preciso ir mais fundo, escavar, olhar para todos os dentros, fazer palimpsestos. O que aconteceu em Campinas não deve cair nesse mar de banalidades do mau discurso midiático, mesmo o de "boa" intenção.

             Neste momento, o zelo pela história alheia é imprescindível. Fazer as velhas emulações morais-intelectuais-cívicas não é de grande ajuda. O silêncio já seria bom para refletir antes. Um silêncio respeitoso de quem não sabe tudo ou não consegue dar conta de toda pós-verdade.


Oh que saudades que eu tenho
Da aurora de minha vida
Das horas
De minha infância
Que os anos não trazem mais
Naquele quintal de terra
Da Rua de Santo Antônio
Debaixo da bananeira
Sem nenhum laranjais
*
(Oswald de Andrade)

Ainda é cedo, amor...
Mal começastes a conhecer a vida.
*
(Cartola)

domingo, 1 de janeiro de 2017

Uma estética sobre os afogados


Viajar seria a palavra na falta da outra.
Na falta da outra voltar e re voltar a terra.
Na falta da outra
Es qui var tranquila da onda

Ou mergulhar e imersão
Engolir sozinha o tudo
Re vólver na vida é
Um tubo, um tipo de ensaio
De acender a alma

Viajar para a outra
Como quem diz perta a dimensão
A perder o repositório:
Reclames de ilusões baratas

E na falta de todos ao ver o mar de (augúrios)
Se arriscar na onda próxima, cair
Viajar sozinha como efeito placebo -
Irremediavelmente submunda

Patricia Porto