Começa em Mar – Uma leitura



É intensa e infinita a infância, rua de onde não se sai de todo. Nublagem feito sombra que entranha, quase víscera. Da infância ninguém se recupera totalmente.
 (Começa em Mar, p 132)


Não costumo chamar de resenha o que se faz de forma tão intimista e confessional. Acredito que seria melhor chamar de leitura ou carta, uma carta que envio para a escritora de um certo além-mar, autora de um dedilhar poético que comunga exílios com memórias de sal, as que nos noticiam da nossa própria formação identitária. Na minha leitura que começa antes do livro, o Mar, ou melhor, a Mar começou por um encontro entre Porto e Mar-anha. Porque o Porto se encontra é no Mar. E o primeiro contato com Vanessa Maranha se deu através do Mar, das águas e da ilha. Eu tinha feito um comentário no grupo do Mulherio sobre a nossa líquida forma de existência e insistência em ser mulher, de como nós nos fazíamos de líquidos, liquefeitas das águas que marcavam nossos ciclos. No meu caso, vida de Porto, ilha do Maranhão. E foi nessa sincronia que fui apresentada à Alice, a protagonista do romance de Vanessa Maranha, “Começa em Mar”, da editora Penalux, lançado em 2017 e que antes mesmo do lançamento já tinha recebido Menção Honrosa no Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura (2016). 

Com uma escrita fina e delicada no tecer de sua linguagem, Vanessa Maranha nos traz um romance de fundação feminina, que ousa descolar-se dos relatos, crônicas dos homens que nos contaram por séculos a fio, em suas viagens de mar. 

Se a rotina do Mar é ir e vir, é no círculo repetitivo das marés, do alto e baixo, cheio e vazio que se inicia a história desse romance. “Começa em Mar” nos embala numa dança vernácula em que signos são marinhos, são do silêncio, da saudade e do tempo, essa tríade de quem sempre queima as naus. O trabalho com a linguagem que Vanessa Maranha imprime ao romance é de uma polifonia marítima sonora e imagética, marcando os passos da estrangeira, exilada, expatriada em busca e perda permanente de pertencimento. Ouso dizer que Alice, A Zuma, é parte também do que é todo feminino, assim como as mulheres que se desdobram dela em Matrioska (Marta, Hortência e Jordana), as outras personagens fadistas, filhas do silêncio e da solidão, do Mar no seu cruel, Deus de Abraão, o mar que nos ilha, nos ameaça e mata, o mar no masculino, pai da ordem na cabeceira da mesa, como os pais que conheci no nordeste brasileiro e o pai de Alice, o desertor. Às mulheres entoam cantos ao sepulcro vivo, a insatisfação de Concha, mãe de Alice, é a costela, o trabalho inacabado do senhor da criação. E ouso dizer que o melhor da literatura de memórias ficcionais é quando realmente encontramos com personagens com os quais nos identificamos e reconhecemos em histórias.   Os pais de Alice são os pais da pátria colonizada, Portugal e Espanha, a península ibérica e as disputas de território em tratados e destratos, o velho mundo parindo um novo, a nova América, nascida já velha à espera de um Dom Sebastião.

“Mareava, ameaçador, uma iminência aos ilhéus que o respeitavam como a um deus temperamental e voluntarioso vezenquando rugindo ondulado, encaracolado, vez ou outra matando alguém, engolindo um chalé de caiçara ou uma casa de praia. A depender dos seus humores e Róvia conhecia bem a disposição justiceira das águas. Desse mar, não estaria a salvo quem ali teimasse, era motivo, rota, destino.” (p. 33)

Nesse ritmo de ondas imagéticas, Vanessa Maranha desfila um universo de personagens híbridos, outros tantos “forasteiros”, histórias cruzadas, desafiadas pela constância e inconstância do Mar com suas figuras míticas, o que nos revela as nuances de um realismo fantástico, cercado pela visão sobrenatural tão própria dos que vivem ilhados.  Em minha ilha, desde criança, ouvi dos mais velhos que sumiríamos do mapa, engolidos por uma serpente de duas cabeças, alojada nos túneis subterrâneos, construídos pelos portugueses. Crescer com uma serpente de duas cabeças é um convite constante ao fantástico.

Dos abissais exílios dessa narrativa que vai se tornando híbrida no percurso, Alice chega a vida adulta e se casa com Rafael, o não-marido, aquele que se encaverna no lobo do homem. A contradição e junção entre solo e mar, o pertencido e o desconhecido, entre o real e o fantástico tomam conta da narrativa da autora, que traz para o Mar o feminino, como na língua francesa, La Mer, ela, a mar. A história de Alice é a história de quem busca pertencer, se encontrar em algum lugar, entender seu tempo, sua origem fragmentada em mágoas e silêncios, distâncias. Por isso ela se lança ao desconhecido do Mar e se banha nele de sua própria carne e língua, de seu conhecimento de si mesma, mulher do sem-lugar. Seu pertencimento é o entre, o que não existe. Não pertencer é assim pertencimento e despertar. São as sereias que cantam pra Ulisses. As que carregam os pescadores para o sonho. As que entoam o canto de morte e vida.  São as musas do profundo naquilo que parece plácido e silencioso. Mas às mulheres comuns, transformadas da loucura libertária tão feminina, a metamorfose não é a da sereia, mas a do peixe, a das raízes ou da ave, do ir para dentro, do desaguar ou revoar em bandos, para encontrar-se nelas ou para conhecer delas outra dimensão liberta, nas dobraduras do tempo não linear.

“O tempo, devorador, é pródigo em esfumar os significados ou adulterá-los às conveniências. O tempo é despudorado. O tempo começa a dar pequenas notícias de passam. No corpo, no coração.” (p. 147)

O tempo que nos devora e que nos devolve ao mundo, que nos difusa a busca, nos enreda. O tempo do romance de Vanessa Maranha termina em mar para começar em mar em cheganças, arroubos, perdas, sonhos e amores.

Obrigada, Vanessa, por me mostrar o quanto eu também começo em Mar. “E a memória...” Em labirinto.

Com afeto,
Patricia Porto


* Onde adquirir: Loja Virtual da Editora Penalux