quinta-feira, 1 de junho de 2017

O livro e o mundo

           

                   Algumas pessoas já me disseram sentir uma enorme claustrofobia na leitura de um Kafka. Sabemos que isso não se dá à toa. Pois se quisermos manter qualquer pequeno diálogo com as obras kafkianas devemos estar pré-dispostos a tentar compreender “que não conseguiremos olhar a alma de um homem através de uma lente”. Precisaremos então entrar no obscuro, no que há de absurdo no mistério, nas sombras, que podem revelar o nosso óbvio: não sabemos tanto... E muito do nosso conhecimento pode não passar de uma tremenda ilusão arrogante, uma ilusão grávida da nossa medonha ambição ser e ter mais que o outro ao nosso lado. E os cenários de Kafka são tão externos quanto internos, uterinos. E as externalidades revelam do quarto, da casa, de um castelo, os barulhos, os ruídos que podem ser bem mais altos, bem mais assustadores que os conhecidos do fora.
               Ao sairmos à rua, levamos em nossos corpos, bolsas e carros os símbolos da nova era e da tardia modernidade. Mas bem ali, no cruzamento entre o moderno e a charrete, está aquela senhora elegante, agora mesmo - sentada naquele café, o Parador. Lá está ela com seu xale fino comprado em Milão. A família costuma ir à Europa, precisamente Paris, uma vez por ano. Ela olha de forma displicente o entorno como se fosse uma passageira do trem. O vidro a separa do menino que bate com uma caixa de doces contra. Contra ela? Não, contra o vidro que os separa. O vidro é um bom vedador de ruídos. Ela se volta discreta e elegante para seu capuchino. No entanto, seus olhos a traem, vagando no entorno, lançando rabos de olhar para o vidro que, desgraçadamente, lhe estragava um momento raro de dispersão solitária. O menino percebendo aquele instante ambíguo da “freguesa” falava sem voz no embaçado: “compra um pra ajudar, tia”. Ela conseguia ler os lábios, mas fingia não ver que nenhum deles existia. E pensava relativizando em atos falhos: “nada mais irritante que a pobreza neste país. O pior é que não podemos fazer nada. Nada muda.” Assim, no displicente arroubo de consciência do outro, fez o que de melhor sabia: não olhar para trás, porque para trás ficava os incômodos, como o menino de vidro, peças de desmonte. Mas antes de terminar o café e sair, leu uma última passagem do livro “O Castelo” de Kafka, uma passagem que falava sobre um túmulo profundo e apertado onde o personagem e Frieda ficariam abraçados como tenazes, escondendo o rosto um no outro sem que ninguém mais os visse.
             E Kafka nos pendura nesse suspense em suspenso, como se o ar que lançássemos para fora na sua curta expressão e comunicabilidade nos ventilasse tanto o corpo causando pânico. Aquela senhora elegante, chefe de uma renomada instituição pública, no seu salto e posto altos precisou no mesmo dia lidar com dois dissabores: Kafka e o menino do vidro. Ficou mais tempo no café que de costume para ver se aquele menino desaparecia com seu "compra um, tia" interminável. Que fosse abduzido por uma miséria maior que a dela própria e sumisse da vista. Teve sentimentos confusos sobre o amigo que lhe presenteara com aquela aberração literária que em nada lhe ajudara a refletir sobre sua atual posição. Como chefe de um importante setor público via seus subalternos se esbofeteando aos berros e pequenos empurrões, até mesmo por coisas insignificantes, um armarinho de neuroses. “Não se fazem mais homens públicos como antigamente.” Pensou. “Meu pai sim foi uma grande figura pública. Hoje só vejo ratos e ratoeiras cada vez mais apertadas.” Lembrou do túmulo de Kafka. “Que leitura inútil!” E ali determinou que nunca mais voltaria a perder seu tempo precioso com um presente daquela natureza. “Espero que ninguém nunca mais nos ache. Fique aí.”
              Resolveu entrar no Shopping para refletir sobre as novas demandas da América Latina. Na mesa do café o livro de capa dura sofria ali o revés do abandono, mas não mais o pesadelo da incomunicabilidade. Havia tanto humor ácido e melancólico nos pequenos nadas das mesas de café.
             Abraçou-se ao xale naquele fim de tarde fria. Não olhou mais para trás. Mas perto dali, do outro lado da rua, uma mão abria com rapidez a porta do café, o vento desfolhando o livro marcado na última leitura daquela distinta senhora de xale. A mão segurou o livro, abraçando-o contra o peito. Era o menino do vidro correndo pela rua afora. "Pra onde ela foi?" O livro e o mundo os seguindo abraçados.

Patrícia Porto