sexta-feira, 2 de junho de 2017

A Palavra

Marianne Rosenstiehl_  Les limaces 2014 


a palavra resolveu dominar meu corpo
minhas pobres vísceras
a anemia que trago ora como engano ora, forquilha
a palavra, uma ferida da alma
resolveu doer qualquer coisa
que movimenta e não grita

tomada de amor ou esquina
procuro alguma linha de saída no front
sou bruta na arte de desamarrar nós
e com as mãos invento pequenas ilhas de solidão
num deserto inteiro de declives

não julgo a jornada
pois estamos acamadas
- ela fazendo cócegas em minha barriga
olhando o tempo esfarelar as jaulas que me dão raiva de louca

dentro do peito onde me exponho, ela me é viga,
me espinha, meus espinhos
(sou toda clarão quando preciso)

não careço mais da floresta
da ciência de um governo
que queimem as bandeiras da nossa batalha
ou que depositem água na minha poesia

(estamos livre, em estado absoluto de crueza, ainda que eu sussurre não
ainda que me visitem juntas as estrelas)

Patricia Porto