sábado, 10 de junho de 2017

A Escrita

Todos os dias a mesma negociação
ferida aberta, outra fechada
porta aberta, outra fechada

Todos os dias a necessidade:
de ser alguém admirável,
ser reconhecida por meu talento
ser honesta sobre minhas falhas
ser alguém de quem não sinto vergonha

Todos os dias o aceno para os mortos
parecem intactos em seus retratos
porque havia o tal tempo do retrato
o tempo longo e inegociável do retrato

Todos os dias acenos para os que me vêem
da janela onde jogo minha sedução
desejando ser a mulher do próximo:
a oculta, misteriosa, a pintada em quadros

Todos os dias este clima agradável
de tentar manter equilíbrios entre os pés,
as pernas, coxas, a barriga e este profundo umbigo
- este rasgo de faca que trago no braço direito

Todos os dias os choques, a opulência do gramado burguês
as tentativas mentais de suicídio,
a torre e o enforcado, o cárcere,
minha natureza efêmera, imperceptível, quase nada

Todos os dias uma carta que não escrevo,
um poema sem correção, uma frustração nova no armário,
encontros marcados com minha culpa:
de existir,
ser mãe, mulher compacta, instrumental,
de carregar desafetos e ódios fazendo x

Outro dia escrevi um poema sobre o ofício do poeta e a mágoa
alguém disse que lembrava a escrita de um escritor iugoslavo,
outro me disse que lembrava a de um escritor polonês

A poesia era lugar de homem (todos os dias)
(todos os séculos)
(todos os prêmios, os cavalos e os dentes arranhando a gengiva)

Passei a usar o pseudônimo de Charles Pinout
alguém disse que o poema lembrava a fúria feminina
- um gênio o poeta de busto desconhecido

(todos os santos dias naquele terço de pessoa trancada)

Talvez hoje eu encontre os olhos de quem procuro pela lupa
talvez esteja sentada num café, talvez ninando um gato cinza,

Todos os dias intermináveis esta doce, cruel e aventura de encontrar
o outro no meu outro, as outras do cais, os viajantes, as estrangeiras

Todos os dias esta abissal e cotidiana negociação com a vida

(melhor escrita)

Patricia Porto