domingo, 21 de maio de 2017

Ouvidos para sonhos difusos




Hoje pela manhã abrirei a última janela
do último salto
para a última esfera
onde estarão os meus mortos
Hoje pela manhã encontrarei meu cão
minhas horas de fazer nada em repouso
de contar os dias que me sobram
onde estarão os nossos mortos
Hoje pela amanhã pegarei de uma vassoura,
um pano, um balde de água, me fingirei de viva
ao limpar os restos de migalhas de afeto
que mal me são ofertadas
Hoje pela manhã abrirei a geladeira para contar
batatas, ovos, maçãs, viagens envelopadas,
coisas distintas que nunca realizei
Hoje pela manhã vou aguardar as notícias, as boas,
nunca vindas, sempre amontoadas na caixa de correio
das pessoas com muita sorte e nome
Hoje talvez penhorarei aqueles olhos de louça
das histerias obscenas de todas as mulheres findas
- meus braços ainda tremem da espera
- seguram um tempo morto
- abrigam sedentos um campo verde por onde belas criaturas
cintilam na luz de outono
Hoje talvez eu recolha a roupa, o varal, a fratura exposta
e guarde em minha aventura selvagem o desejo único
- o de desaparecer dentro, bem dentro, agradada de minha voz,
desparecida da espécie que mata objetos a facadas
Hoje talvez eu nem apareça na janela que nunca existiu aqui

Patricia Porto

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

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Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.
Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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