sexta-feira, 12 de maio de 2017

naquele tempo

Elvira Amrhein


naquele tempo o que me importava era
a proteção da bacia, a água, certa espuma
uma qualquer noite azulada

quantas costelas cabem numa coluna de mulher?
lançados com as mãos, quantos dedos cabem nela?
para levantar a mão e socar o rosto gasto dela?

como é fácil bater na mulher da rua, na mulher sem país,
na mulher sem terra, na mulher sem glória,
na mulher sem renda,
na mulher sem dote,
na mulher sem teto,
na mulher tão feminina de pênis,
como é fácil bater na mulher da outra mulher,
na mulher que apanha do outro,
na mulher que se ausenta,
na mulher sem útero,
na mulher de aquário,
na mulher da vida,
na minha mulher,
na mulher que me avizinha

o que não é fácil é a solidão da mulher que apanha a rosa
caminhando pelo bairro

quantos dedos cabem nessa flor sedenta?
como é fácil contar estrelas, olhar pro teto
- são tantas as aves nesse céu

Patricia Porto