quinta-feira, 25 de maio de 2017

fruta de cordeza dura

Pina Bausch


todos os dias esvaziava os bolsos
tanta chuva por dentro
tanta seca por dentro
todos os dias esvaziava a mente
tanta dor no escuro
tanta arma na boca
- o lobo na porta
e as noites de fogo
uma mulher estranha vesgando a pergunta:
quem é você, mulher do espelho?
nela amanheço, amarelo,
nela me deito com minhas cartas vazias
na dança das impossibilidades

o sol posto na mesa
são os lugares que esqueci de acender no corpo
a morte de tudo que deixei no fundo da gaveta
fazendo arranhões, rasuras, esboços de ser a mesma
de olhos marejados, sorriso de canto,
a cabeça esvaziada de si
- quem me olha através de você, mulher do espelho?
não te reconheço em mim o horror
não te vejo para fora do nome
por fora estamos assim, castradas?
distantes, afogadas no trânsito,
longe de casa,
perto da linha do trem para partir?

mulher que me olha em meus olhos, quem é?
não te acho aqui
- por que envelheceu tão tarde na rua?
- o lobo na porta, tão dura
(minha sentença)
(minha criatura)

adeus, adeus
-o amor cresceu entre os dentes,
quase o milagre da hera

- nenhum terror nos oculta
os vidros, a úlcera,
a mulher que me afoga
com seus afagos
cresceu

Patricia Porto