segunda-feira, 10 de abril de 2017

TESTEMUNHO, EXÍLIO E DESALENTO

TESTEMUNHO, EXÍLIO E DESALENTO

                    Estar vivo/viva é um ato de resistência absurda, de negação ao determinismo histórico, econômico, étnico cultural, que coloca o sobrevivente dentro de uma determinada estrutura de poder como a única testemunha de seu próprio exílio. Ao sobrevivente, o “estar banido” não é uma questão de escolha, não é uma falha de sentimento ou de caráter que o torna capaz de escolher para si a cruel opção de “não-pertencer” a qualquer território que lhe acolha, que lhe dê a sensação de bem-estar com outros no mundo. Imagino as crianças que vivem isso como estigma. Fui uma dessas inclusive. Elas são sumariamente culpadas, elas próprias, por seus sofrimentos e danos, ou porque não rezaram direito ou porque não fizeram o dever de casa. A misericórdia dos que se penalizam mora na não-sutil perversidade de culpar o outro pelo próprio sofrimento e por isso mesmo se eximir de qualquer empatia.
                 Ouço e leio muitos discursos sobre igualdade, mas não encontro neles a possibilidade do diálogo legítimo com os diferentes. Não vejo “alteridade” nesta política da palavra que machuca. O que mais vejo é a supressão da fala do outro fantasiada de “lugar de fala”. A política que se faz no diálogo, na palavra, esta ponte entre mim e outro, não pode habitar na negação da fala do outro, no julgamento sem qualquer conhecimento prévio do outro, ou seja, sem nenhuma empatia – e que só serve para calar, abaixar a orelha do outro enquanto se fala – ou berra. 
                A malha do poder e suas tantas estratégias é mesmo muito complexa. Não é fácil ser uma pensadora livre. Pensadora livre, não por escolha, mas por estigma, para servir de testemunha de seu próprio exílio, para servir de culpada pelo seu próprio banimento. Ao menor ruído, desagravado, a lógica da recepção é a do novo colonialismo de fala: a da violência. 
                 Eu adoraria ser testemunha de outra realidade. Mas me deixaram esta de pia: a da busca que me violenta pela verdade que eu não sigo. Não, não a recuso, não recuso nem mesmo esta dialética torta. Não recuso sequer o desalento que me fere. E respondo, responderei sempre - antes porque é da minha natureza; depois, porque acredito que não há política, filosofia, arte, vida sem diálogo.

Patricia Porto

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

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Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

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Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

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Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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