segunda-feira, 24 de abril de 2017

deles nãos sei

Zanele-Muholi


escrever: a quem serve?
deveria servir feito almanaque
aberto de A a Z
mas hoje serviria para me desfazer

hoje escrever me serviria para te desfazer
para te maldizer
para me louvar
para não enlouquecer

talvez servisse para tomar café
com muita cafeína
serviria para acalmar a ressaca do mar
talvez para tentar suprimir o que é extremo
serviria para não mais degradar o homem dele mesmo
última espécie que acredita em alguma bondade

talvez hoje escrever serviria para andar na cidade
e ser gente alguma vez
serviria para não ouvir os passos que atormentam minha mente
talvez para aquietar meus demônios

talvez servisse de água potável
para encontrar o entre
sair da massa
encontrar as áreas de aderência
talvez servisse de céu noturno
carinho de mãe
cama quente
beijo de despedida
amor esquecido na última quadra
o sutiã sobrando na gaveta
nenhum mamilo

os meninos agora brilhando na rua
talvez escrever servisse para isso

enxergar?

nasci cega de um olho

- uso esses espelhinhos

Patricia Porto