quinta-feira, 2 de março de 2017

Matheus e A Mariposa




                      Naquele verão quente de janeiro, naquela cidade fria e quase sem vida noturna, fomos ao teatro ver a peça de Matheus, o “Processo de Conscerto do Desejo”, peça em que ele declama poemas escritos por sua mãe, Maria Cecília Nachtergaele, moça muito jovem que cometeu suicídio quando ele tinha apenas 3 meses. Mas antes de falar disso por completo, quero trazer outra lembrança, porque nas sincronias da vida, eu também tinha ido, semanas antes, ao Oi Futuro ver uma peça-montagem de Diana Blok sobre identidade e diversidade nas relações afetivas. Sim, lá estava o Matheus, lindo, travestido de mariposa em flores miúdas. Impossível não amar a perspectiva cênica naquela perfeita transmutação de gênero, daquele paulista mais nordestino que já vi na vida. Tenho dito. Quando voltei à peça de Matheus já havia uma intimidade entre nós, um convite à poesia, um convite para dentro, quando alguém diz: "vem mais perto, vem aqui conhecer os meus interiores. Mas logo aviso, que não são lá todos bonitos." Assim sentimos a pele do ator encarnado, ator amoroso, despido entre luzes que não destacam apenas vaidade, comum e até necessária. Era o homem-menino-mariposa em flores miúdas, travestido de poema, nu, belo de gênero e palavra. Às vezes se fazendo canto de música para a caixa de memórias, a ressonância enigmática dos suicidas, noutros momentos era o silêncio, fundo, tão fundo sem razão para qualquer palavra. Quanta beleza há na pedra, naquele fio de água passando ali... Saí do espetáculo, um espetáculo, extasiada, poética, bailando entre flores miúdas. Eis que no caminho de volta, na rua escura, lá nos encontramos nós, eu e ela sozinhas, eu e a mariposa. Sincronias.

Patricia Porto