segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Ainda é cedo, Amor.



Sobre o Ato Terrorista em Campinas.

Ainda é cedo, amor...

           Assim como na bela música do Cartola diria que "ainda é cedo, amor...". Há muitas camadas neste caso. E essas camadas revelam muito do que nós já éramos e do que estamos excretando como sociedade. Relacionamentos abusivos estão na ordem do dia. Não se restringem aos casais, mas se ampliam às pessoas em geral, às relações como um todo, num complexo. No nosso trabalho mesmo, quantos relacionamentos abusivos são mantidos - e por décadas? Quantas doenças nos causam? E o excesso de informação? A enxurrada cotidiana de notícias manipuladas? Todo o barulho e mal estar causado pelas mídias sociais que pouco acrescentam. E se tivermos uma arma na mão? Nossa história é uma história de escravidão, humilhações constantes, opressão, de subserviência, de ódios reprimidos não trabalhados, de ressentimentos e não-diálogo com os divergentes. 

           Há um grande abismo, um grande vazio de significados entre o discurso intelectual acadêmico e o movimento feminista real, o movimento social feminista. Então é muito estranho ler textos que dizem sempre o mesmo do mesmo, mas são incapazes de representar o que é a vivência da mulher com a violência doméstica cotidiana, a vivência da mulher que sofre abusos contínuos, abusos de classe, abusos étnicos, os de gênero, todos os abusos. As mulheres da Maria da Penha, as Mães de Acari e de Manaus... Creio que esteja faltando um trabalho de campo bem direcionado, que desvele as experiências e as narrativas singulares dessas mulheres. Está faltando solidariedade, porque empatia é palavra para alguns entrarem em consenso, talvez vender sabonetes. Está faltando, principalmente, diálogo. E sobre as pílulas morais que andei lendo, é preciso ir mais fundo, escavar, olhar para todos os dentros, fazer palimpsestos. O que aconteceu em Campinas não deve cair nesse mar de banalidades do mau discurso midiático, mesmo o de "boa" intenção.

             Neste momento, o zelo pela história alheia é imprescindível. Fazer as velhas emulações morais-intelectuais-cívicas não é de grande ajuda. O silêncio já seria bom para refletir antes. Um silêncio respeitoso de quem não sabe tudo ou não consegue dar conta de toda pós-verdade.


Oh que saudades que eu tenho
Da aurora de minha vida
Das horas
De minha infância
Que os anos não trazem mais
Naquele quintal de terra
Da Rua de Santo Antônio
Debaixo da bananeira
Sem nenhum laranjais
*
(Oswald de Andrade)

Ainda é cedo, amor...
Mal começastes a conhecer a vida.
*
(Cartola)