sexta-feira, 10 de novembro de 2017

13 por dia



Kylli Sparre


18 homens sobre seu corpo
13 mulheres assassinadas
18 homens num dia
13 mulheres por dia

Assassinadas

18 homens e a lei
13 mulheres assassinadas
18 homens decidem
13 mulheres assassinadas

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Barrocas

Pina Bausch - Blaubart, 1977


              Tudo tão provisório, Rose. Hoje encontrei nossas cartas, os poemas trocados no escuro da rua. Onde você estaria neste mundo? Por que não te encontro em lugar nenhum? De nós duas apenas uma foto com o sabor dos anos oitenta. E ainda guardo um guardanapo com escritas tortas, versos da nossa última vez num pé sujo. Por isso preciso andar todos os dias para tentar juntar estes fragmentos que também não me consolariam mais da perda da alma amiga.
                 Tudo tão intrigado em 86, uma mola de suspensão, uma ampulheta quebrada, um país se abrindo, mas não para nós, esquecidas de tantos e no chão de um alçapão de colher mulheres. Pois veja, essa minha roupa íntima, por exemplo, ela está muito bem surrada, vem sendo amaciada pelo meu sexo e vive desses contatos provisórios com minha mais doce e ácida notícia, minha pertença de mulher, uma mulher desconhecida das outras. Perdoem, elas não sabem de nós. São puras e inocentes, mamaram nos peitos de outras mães puras e inocentes e ainda tiveram boas escolas. Minha calcinha amaciada de algodão é minha poesia íntima e diária, longe daquele nome coletor que nos ordenava a costura de peças para reposição das vaginas de moças que se julgavam tão esclarecidas sobre nós, mas que nunca pisariam em nossos territórios – por medo, vergonha ou pelos dois. Pobres moças envergonhadas. Perdoem, elas não sabem de nós, Rose. Não sabem a metade da fruta que se pode sorver.
             E lembro que eu e Rose, debruçadas sobre a janela, ficávamos juntas fumando um baseado. Rose sim sabia onde escondê-lo. Ríamos do cheiro, porque passado pela revista das guardas, fumávamos outras tantas intimidades. A pele, erva doce, cabelos pubianos. Fumávamos uma cigarrilha e íamos para o disfarce, a cigarrilha que eu comprava como criminosa ao invés do pão. A pele e osso como deboche para as propagandas de alimentação saudável. Brincávamos as duas de trocar palavras, como "nada, nós fumamos apenas umas cigarrinhas", era como um tapa nos que nos condenavam por sermos mulheres da cidade baixa, nós ali brincando de jardins nos ralos da periferia, preservando os reinos vegetal, mineral e animal - para que as mais fortes crescessem robustas, rosadas. Nossos corpos de cigarras, nossos pelos pubianos, os cheiros crespos de nossos corpos, sabor de boca na nuca, o clitóris na boca um botão, entumecido, para ser chupado e na língua o delicado se abrindo e fechando em grandes, pequenos lábios de nossa linguagem de mistérios marinhos, molhados, molhadas, liquefeitas. Era tudo tão fundo que gargalhávamos das pequenas transgressões como loucas sedentas uma da outra. O salgado do abismo nos unia, a solidão das migrantes, a ousadia das putas, a insensatez dos homens que nos batiam e pagavam cervejas no fim do expediente. Sonhávamos em ser mulheres barrocas como as da igreja onde não íamos rezar, porque éramos a escória contagiada por todo tipo de subversão sem perspectivas de nada.
                  Conversávamos longamente sobre suicídio. Era um tema recorrente, porque éramos feias e pobres, não tínhamos casa, vivíamos nas rodas dos inválidos, apanhando de um ou de outro. Tínhamos direito ao suicídio, perguntei? Rose então me disse que não, morreríamos em asilos ou manicômios, isoladas dos pequenos prazeres terrenos, morreríamos de nosso próprio esgotamento de vida, amofinadas, e morreríamos da crueldade disfarçada de bondade humana, outra violência.
                 Para Rose, suicídio era uma terra apartada, não nos era palavra familiar como homicídio, morte a pauladas. Era um outro continente, como viajar para um país de outra língua, comprar uma peça de consumo caro, um queijo fedido, pertencia às que podiam comprar um bilhete sem volta.
               Ao barulho do sinal, entre gargalhadas ainda, nosso efeito de pequena rebeldia esfumaçava. Voltávamos de mãos dadas para o calabouço da colônia. Siamesas. Atemporais também.
              Antes de entrar, ela arrancou um hibisco e colocou no meu cabelo, suave na brutalidade do corte. Arrancou um hibisco em pleno dia e o sol ainda iluminava nossas caras!
              Éramos barrocas.


Patricia Porto

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

CABEÇA DE ANTÍGONA




CABEÇA DE ANTÍGONA - RELEASE

Maranhense, nascida em São Luís, radicada em Niterói, Patrícia Porto é formada em Literatura e mestre e doutora em Educação. Tanto como pesquisadora, quanto poeta, Patrícia Porto trabalha a memória como matéria prima de suas criações. CABEÇA DE ANTÍGONA (Ed. Reformatório, 2017) é o seu trabalho mais depurado no mergulho na memória. É o ponto alto de uma triologia poética.

Importante dizer que não se trata de memória ressecada, emoldurada ou de ninar. É a memória que nos faz o que somos e que pode surgir a cada decisão que tomamos, a cada ato do nosso dia a dia. Para Patrícia Porto, a memória é o passado – é uma passagem.

Sobre Pétalas e Preces (201X), seu primeiro livro de poesias, trazia memória como fundadora de ciclos e urdidora de ritos de passagem. Parafraseando o termo “romance de formação”, podemos dizer que os textos apresentados são “poesia de formação”, em que a poeta se apresenta em sua maturidade artística.

Diário de Viagem (2014), o segundo título, é uma experiência a que a autora se propôs. Num ano de perdas e lutas, Patrícia Porto escreveu um diário poético em que não se permitiu correções e reescrituras, em que não deixou que o trabalho estético pusesse sombra sobre o que a poesia é, em seu grito inicial. No livro, a memória surge como horizonte. Em Diário de Viagem, a memória não fica. Ao contrário, é o único lugar possível à frente.

E chegamos à CABEÇA DE ANTÍGONA. Nele, a memória não é fundadora nem salvadora. A memória é carne. É corpo. É mulher. É aqui e agora. É onde a memória encontra seu lugar no mundo – e onde pode enfrentá-lo. Não há dúvida que o corpo feminino é um campo de disputas, de desejos, de interdições, de promessas e de libertação. Mas quando esse corpo é também o corpo da memória, todas essas características são transpassadas pelo tempo passado e pelo hoje. O corpo é a casa da memória. E Cabeça de Antígona é a casa em que essa memória se diz, se afirma, se impõe e encara o futuro, como se o anjo de Klee, inspirador de Walter Benjamin, decidisse virar para frente e abrisse as asas.
 
Ricardo Gualda

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Cabeça de Antígona, Patricia Porto

No dia 14 teremos o pré-lançamento do livro no evento nacional Mulherio das Letras, no espaço multicultural Tamarindeira Processos Criativos. João Pessoa, Paraíba, às 21h




 



No dia 18 o lançamento será na Blooks, no Reserva Cultural, Niterói, 19h - 22h




terça-feira, 3 de outubro de 2017

Lançamento Cabeça de Antígona _ Patricia Porto

Lançamento do meu livro. Uma felicidade que divido com vcs.





"Do alto da torre deste reformatório, o repique dos sinos, para anunciar nosso próximo lançamento:

"Cabeça de Antígona", de Patricia Porto que, segundo Délcio Teobaldo na apresentação do livro, "possui o manejo, tem as mãos adestradas ao ofício, mas chuta as panelas, rasga a nesga da saia a navalha, aumenta a chama a ponto de incendeio, erra a pitada do tempero. Por isso, quando me pediu que escrevesse uma orelha para este livro, reagi com ironia: “Ora, ora, Patrícia... Não te farei apenas a orelha. Te faço escuta”. Sonora escuta, porque os poemas de “Cabeça de Antígona” como, aliás, toda a poética de Patrícia Porto é de uma musicalidade que beira ao absurdo. Provoca desvario. Então, não se surpreendam que, cabocla e maliciosamente, sua Antígona se assemelhe a uma ribeirinha ancuda terçando um coco, um tambor de Mina, um samba de roda. Assim ela põe Antígona e Ogum no mesmo terreiro, e no ritmo alucinante da música! (leiam Patrícia Porto em voz alta, por favor!) "


Pré-lançamento em 14/10, durante o encontro do "Mulherio das Letras 2017" em João Pessoa.

Lançamento em 18/10, Niteroi-RJ
(Blooks, Reserva Cultural, 19h)

Em breve mais informações."

(Editora Reformatório)



quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Revolução

Věra Chytilová



Marche, mulher! Marche para fora da aldeia.
Marche sobre os corpos, as dentaduras, os brincos,
as rosas esquecidas, queimadas.
Marche sobre as hóstias salgadas, sobre o desenho de Ariadne.
Marche para a Vila, una-se à tropa.
Marche para o catafalco.
Marche sobre os desertos da Ásia, os danos da América arrependida, o atraso, o feto, a ossadura.
Marche para encontrar as mulheres da Índia, os dias de violência na boca do estômago em Myanmar.
Marche sobre as muralhas da China. Sobre o Himalaia.
Marche sobre o mar de crianças entre as terras. Marche!
Expõe teu útero no penhasco e dá te comer aos que tem fome.

Patricia Porto

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

terra roja



Ana Mendieta

no tempo em que as crianças eram destruídas com o olhar
e se urinavam nas calças,
eu mesma não sabia que se podia viver para além da infância

o apito da fábrica de vinagre era um motor
- máquina de braços
- a jaula do zoo não era mais o único espaço do mundo

havia o som ácido, o vapor, uma tardança quente, abafada
e talvez alguma outra urgência lá fora

longe da Memória?
Não. Nem longe do poço,
de tão fundo, medonho.

Patricia Porto

sábado, 9 de setembro de 2017

Exílio

© Claudia Andujar



A escrita é exílio.
Horizonte que ninguém alcança desde
do verme à dor que rompe o ventre.
E é mais uma vida salobra.
Mais uma que arde de corpo.
Este desejo de retorno é enxame. O lar é detrito,
terra salgada por dentro da carne.

Olhe aqui onde me sangra o peito:
minha casa perdida,
meus mortos enfileirados,
os pés juntos, pés e mãos
das mulheres que se arrebentam na espuma.

Olhe aqui onde minha terra se aparta:
há um solo e esta rachadura sísmica -
uma câmera construindo imagens,
cavalos velhos carregando cargas.

Olhe aqui onde me falta a palavra -
me falta também o ar, o pão e a lanterna.

Aqui é a escrita. Uma revoada de signos.
Sem lugar.
Lugar nenhum.
Ponto só
cego nó
de partida.

Patrícia Porto, Exílio.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

COTURNO 36

Sally Mann


Pediu ao padrasto coturno que coubesse nos pés 36. Ele logo soltou em forma de berro: “e tu é homem? Vai usar coturno pra quê?” Não tinha resposta pra isso. Era astuta, mas era ainda mais moça que astuta. Colocou o velho tênis e foi para o trabalho. Mas meses depois lembrou do assunto de novo: “sargento, não tem como me arrumar um coturno 36?” O padrasto bateu na mesa: “onde é que tu já viu soldado com esse tamanho de pé? Tu é mulher macho?” Foi quando ela desistiu de pedir. O sargento era cabeça dura. Calçou o velho tênis e foi para o trabalho. De noite como era de costume dormia com uma faca embaixo da fronha. Era rotina ser visitada pelo padrasto à noite com o devido consentimento da mãe. Por isso quando tomou tento e força, tratou de trabalhar e no que ganhou o primeiro cruzeiro - comprou uma faca de cabo branco, das grandes, bem afiada. E arrumou amolador - dos bons também. Antes de deitar a mãe mandava orar. "Vai! Ora pra Deus!" Ela pegada do amolador e da faca, deixava o gume tinindo. Sonhava com um belo desfecho de golpe, a cama ensanguentada, a carne do porco perfurada até o osso. Conseguia dormir de alívio. Mas passou um ano e outro e outro ano. A faca só tinindo no aço esperando. Então um dia o padrasto veio. E a faca veio junto - a um dedo da fuça, bem no meio dos olhos. Reluzia na noite, clareando de morte, a achada. O homem assustado fugiu sem nem mesmo chiar, todo amarelo, cagado de medo. No dia seguinte quando ela voltou do trabalho lá estava sobre o travesseiro: o coturno 36, brilhando de engraxado.

Patricia Porto

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Patrícia Porto, "Colônia"

Um dos meus primeiros trabalhos na vida foi num armarinho. Eu tinha uns 15 anos. A dona era uma portuguesa que contratava criança pra trabalhar por míseros dinheiros. Na mesma época li "Crime e Castigo". Lia em pé nas longas horas vazias sem clientes. Alfinetes, linhas, botões, meias, bugigangas de plástico, brinquedos de plástico, muita merda de plástico. Em meus delírios, ainda bem acordada, me imaginava a assassina da patroa branca e rosada. E foi por tanto desejar que um dia pedi demissão. A bruxa me pagou as horas do dia e só. Disse que pagava o restante depois, mas nunca. Joguei todas as pragas que eu conhecia nela, todo mau agouro. Todos os dias esmagava seus olhos e apertava seu pescoço gordo e suado até sentir bom prazer. Quando chegou o Natal, a bruxa enfim me chamou no armarinho. Achei que fosse pagar o que me devia, mas nunca. Pegou um embrulho mal feito e estendeu a mão. "Toma. Estamos quites". Fui rasgando o papelão pelo caminho. Era um grande e desconjuntado bebê de plástico. Fui arrancando parte por parte até chegar em casa. A portuguesa bebê de plástico esquartejada pelo caminho. Tentei esquecer, mas nunca. Posso sentir o gosto de plástico até hoje na boca. Queria uma revolução, mas o mundo era feito de dor e barbárie.



quinta-feira, 10 de agosto de 2017

O tempo





O tempo era um sonho de quando eu era criança e brincava no poço de Jacó. O tempo era o desespero da casa amarela. O tempo fechado de quatro partes de um fruto que eu despedaço.

O tempo no escuro do mato. Não amo. Não mio. Não meio. Meço. Muito tempo. Pouco. Santo Agostinho. Não quero. Abuso. Não pude abraçar. Cheguei tarde. A terra era escura. O tempo da janela. Não vi seu rosto. Não vi o meu.

O tempo na traça. Mordendo meu calcanhar. Bruxa. O tempo da louca. O tempo da vespa. Uma nesga no vestido de chita. O tempo molhando o poço de Jacó, aquele que dormiu com a cabeça na pedra. Eclesiástico.  O tempo da casa. Poeira no espelho. Estou dormindo embaixo do balcão. Minha tia grita. “Um cão foi atropelado!” Não era eu. Nem era você.


Patricia Porto

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Cabra cega


fotografia: Sebastião Salgado




Patricia, filha de Hermozina, nasceu cega de um olho.
Mas Hermozina decidiu esconder.
Um olho basta. Disse Hermozina e pegou da matula pro dia seguinte.
Patricia, filha de Hermozina, cresceu sem saber que era cega de um olho.
Achava que tinha visão estreita e era só.
Cresceu. Casou e multiplicou-se como deu.
Um dia, já muito velha, achou que estava ficando cega e foi no oculista,
porque naquelas bandas era só o que tinha.
Disse o doutor: “Patricia, filha de Hermozina, tu sempre foste cega. De um olho!
agora ficaste dos dois”.

Patricia, filha de Hermozina, nem chorou. Porque ninguém chorava naquelas bandas.


Patricia Porto

domingo, 6 de agosto de 2017

Lagartixa cauda-de-chicote

Mulher sendo espancada em público, 1941, Alemanha Nazista


Enfim encontro-me com a lagartixa
ela que esteve sempre presente
um amigo homem, claro, cortava o rabo da lagartixa
aos aplausos de sua mãe: "vai, filho, corta!"
isso só para vê-lo nascer de novo, o rabo
- coisa de criança - a mãe dele dizia
assim como era um chiste que o mesmo menino chutasse o rabo da babá
- aos cinco anos de idade - quando voltava da sua escola em Londres

Meninos que cortam rabos de lagartixas adoram Londres
- nem preciso fazer pesquisa - conheci muitos

Meninos que ficaram presos no cordão de fel de suas mães
adoram cortar os rabos das lagartixas
- alguns até queimam o rabo da lagartixa

Esses meninos não conhecem as mulheres amazonas
ou as mulheres das ribeiras
Lá onde onde as águas cantam, as florestas abraçam
- meninos que cortam, chutam ou queimam o rabo da lagartixa
- simplesmente não existem

Patricia Porto

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Ouve-me



só te digo isto
hoje
agora
- do fim

não antes
da minha existência

não antes de nós
nem mesmo antes do mundo
como o que conhecemos

só te peço: ouve-me
para dentro
eco
- um canto de sala
o manto de um cristo
dez mil vezes encontrado
sem nenhuma verdade

- minha melhor mentira

Patricia Porto

sábado, 22 de julho de 2017

Patricia Porto_ Flip Internacional 2017




Carta à poeta

Patricia Porto, quando os poetas se dão palavras, as mãos vão junto. Atitude nada fácil nesses tempos de recuos, de olhar o mundo através das frestas e se julgar participante da gira.

Sorte nossa, poeta, você seja oposta a tudo isto. Seu verso pega pelo pescoço, tanto esgana quanto afaga. Traz pra vida. Me arrisco afirmar que a alma de “Diário de viagem para espantalhos e andarilhos” esteja na página 18, mais precisamente no verso: “Viajar é ser estrada’.

Me arrisco porque é imprudente prever seus caminhos, que vão do acalanto – o poema “Maria Judite”, à página 35, não me deixa mentir – ao hard punk rock: “Transberro”, na 124,comprova o que digo.

Patrícia, te penso música sempre que te leio. Tantã, telecoteco, coco, carimbó, curimba:


“Se o tempo é fraco eu bato
faço da madeira um barco
se o tempo é forte eu danço
vestido de temporal...”.
Taí a prova no poema “Gira”, página 165.

E quando me julgo refeito dos espantos da viagem você me oferece um poema: “Janela IV: das conversas com Teobaldo”. Ora, poeta, justo eu, de falar pensativo, tão rápido e pouco? Você abre o meu poema coma a palavra “abismos” e fecha com “invisível”. No coração do poema os versos: “A vida é curva / É pingo de sal na ferida acesa...”

Sei muito bem como é isso, poeta, esse não se dar pausa no sonho nem na carne, que nos aguardam (e lá vamos!) aos encantos das outras viagens...

Admirado e agradecido abraço 

Délcio Teobaldo


domingo, 16 de julho de 2017

Minha avó sábia e minha avó louca

Martine Franck


Minha avó era sábia. Mas até aí Inés é morta. Todo mundo teve ou inventou uma avó sábia pra si. Mas ouço outra voz aqui que diz que isso era "coisa de outros tempos". No tempo antigo dos bondes, onde avós realmente envelheciam e se tornavam sábias. "Nossa, que coisa piegas!" Esta é uma voz nova recente que adquiri há pouco numa das mídias sociais. Por favor, vozes se calem! Nossa, ótimo! Posso falar sozinha aqui? Tudo bem. Estou conseguindo escrever de novo e digo que só vou parar depois de três ou quatro parágrafos. Por favor, não interrompam. Claro que a leitora, o leitor pode se retirar a qualquer momento. Prometo não intervir.
Volto ao início, algo já redundante. Minha avó era sábia. Mas não era só isso. Minha avó era a mais sábia de toda família, família matriarcal. E os homens dessa linhagem sabem do que estou falando. Mas espera, eu também tinha uma avó louca que pareava com a avó sábia, rostos da mesma lua. Dizem até que elas se conheciam muito e tomavam banho de rio juntas. Minha avó sábia disse certa vez: "eram os peitos mais bonitos que eu vi na vida". Achei lindo e libertador que minha avó sábia soubesse e pudesse reconhecer a beleza e a natureza da minha avó louca. Era realmente bonito de saber desse despojamento. E sempre que lembro dessas e outras frases desejo que as meninas tenham a sorte de ter uma avó sábia como a minha, pois ela me criou.
Caiu uma vírgula aqui. E o que seria da diferença no mundo se não existissem as avós loucas? O mundo certamente não precisaria de avós sábias. É um pensamento teimoso que tenho. Mas eu  vou catar esta vírgula aqui de volta, porque minha avó louca foi a primeira mulher da família a ter um ofício só seu. Era costureira e daquelas! De mão cheia! Minha avó louca foi a primeira a andar de cabelo curto na pequena cidade de interior que vivíamos, cidade onde também nasci. Minha avó louca foi a primeira mulher a andar de calça comprida, a primeira porque copiou de uma revista de moda francesa e costurou um modelito só para ela. Ela tomava banho de rio sem roupa. Ela não levava desaforo para lugar nenhum. Era filha de uma índia que saiu de sua aldeia para viver com um homem branco, que mais tarde a abandonou com quatro filhos. As Iracemas não eram românticas naquele lugar. A bisavó índia tratou de espalhar os filhos e minha avó louca foi dada para casamento aos treze anos para um viúvo de quase sessenta. Mas era um mundo antigo, embora já fosse moderno.
Outra vírgula, esta mais gordinha, a definidora de espaços que marcam o entre, o entre nós. Minha avó sábia e minha avó louca tinham em comum um homem. Meu avô paralítico. Meu avô que tinha sido entregue a um casal de empregados para adoção. Mas por que isto aconteceu? Porque meu avô Augusto, um comerciante português, resolveu que não iria criar filho aleijado e para retirá-lo de casa - o deu para os caseiros, André e Teodora - claro, junto com um pedaço de terra - para que não houvesse perigo de devolução. Este avô paralítico, por destino ou o que seja, também se tornou comerciante, dono de quitanda e um dia se apaixonou loucamente por minha avó louca, a filha da índia - que tinha desparecido no mundo nesta parte da história. Quando isso aconteceu, minha avó louca já vivia sozinha com cinco filhos do viúvo, tinha fugido para bem longe. Era empregada doméstica e limpava as janelas de uma casa grande quando meu avô paralítico viu suas pernas mestiças e ficou encantado. Tiveram quatro filhos, um atrás do outro, cada qual mais bonito e rosado que o outro. Até que. Até que ela desistiu dessa coisa toda. Não era para ela. Arrumou um amante aviador e fugiu para São Paulo, deixando todos os filhos com meu avô manco e quitandeiro. Resumindo: meu avô distribuiu os filhos e começou a beber. Ia definhando na vida até que. Até que encontrou minha avó sábia, viúva, católica sincrética, três filhos. Casou-se com ela imediatamente. Recolheu os filhos espalhados e construiu uma casa boa que abrigasse a todos. 
A avó louca? Foi para o Rio de Janeiro. O aviador? Cometeu suicídio. Ela, a louca, enfim se casou com um homem evangélico e padeiro. Teve uma última filha, mas ninguém sabe com quem. Passou os últimos dias como evangélica radical, pregando moral a todos que se aproximassem. Não cortava mais o cabelo - que chegava até os joelhos, não vestia mais roupa curta ou que mostrasse os braços. Não se maquiava mais nem gostava mais de enfeites. Passava o dia ouvindo a rádio relógio, marcando sei lá que tempo em sua cabeça. Não gostava de crianças, não gostava de bichos, não gostava de mim. Isso eu lembro bem. Morreu de câncer no fígado, mas viveu bastante, por quase nove décadas.
Minha avó sábia criou vários filhos, não sabia nem dizer qual era seu qual era da outra. Protegeu todos, adotou netos. Criou bichos, plantas e frustrações. Lágrimas, tristezas, solidão de mulher na casa boa. Perdeu filho jovem para tuberculose. Perdeu meu avô, o coxo, para a bebida. Sofreu acidente. Ficou coxa, manca, passou a usar moletas, cadeira de rodas. Perdeu a casa por dívidas, perdeu netos e mais filho, perdeu até fazer parar o coração.                        
Fico aqui olhando passar aquelas avós - na zona vermelha da minha memória fragilizada. Estou no tempo da matrioska. Eu, mulher que vai entrando na casa de ser avó. E gosto de lembrar e recebê-las em mim como cultura, linguagem, ferramentas para o mundo que se torna água. Não consigo distanciá-las mais, talvez a louca tenha sido mais sábia e a sábia tenha sido - de fato - a louca. Elas se mesclam na mesma pessoa, na mulher que me tornei e me torno todos os dias - sábia e louca, louca e sábia, cheia de contradições, bipartida, repartida, enigmática, solitária em meus afazeres, deserta em minha sensatez, absurda em minha loucura. E não posso, não devo renegar nenhuma delas, porque essas mulheres é que me habitam. Quem quiser que me conte outra. 

Patricia Porto

quinta-feira, 13 de julho de 2017

versões



ela era pluma, eu peso
ela dia, eu noite absurda
ela o dorso, eu a sentença escusa
todas as horas nuas
todas as vias sujas

ela crua, eu triste
ela dança, eu norte
ela crença, eu nadando em abismos
ela celophane, eu escrevendo no chão
ela dançando no chão
eu cuspindo no chão
ela olhando pra cima
esperando uma espaçonave
eu comendo no prato
sem receios de fazer doer

ela foi para o paraíso, pluma
eu nem fui visitá-la, peso

Patricia Porto

sábado, 8 de julho de 2017

Ribeirinhas

(À Wanda Monteiro)

se eu te percebo e na minha pele cruza um rio
- se na minha pele sefixa a tua cicatriz que é fluída
- era de quem falávamos às águas?
sobre qual corpo-santo nos aquietamos?
eu e tu, as ribeirinhas, siamesas da mesma língua?


Patricia Porto

sexta-feira, 7 de julho de 2017

a revolução da pedra

Pina Bausch 


A pedra que pensam: "ora, não balbucia
- é toda silêncio..."
- no inerte faz o sentido bruto
de ser testemunha clandestina da mudança

A pedra em seu elemento terra não lamenta,
não abdica nem capitula
- está exatamente onde deveria estar -

e a favor do movimento - permanece intacta
- mais dura ainda, aguda ao desejo do passante


Patricia Porto

terça-feira, 4 de julho de 2017

ZumZumZum




Tem esse som por dentro, voz da mulher da terra,
da mulher do mar, de concha, raiz forte da mulher de dentro
em ciclos.
As mulheres que zelam pelas histórias da terra e do mar.
As mulheres que nascem na sementeira, destino... giram na flor.
Tão fecunda a água.
Cada praça, cada canto, cada pedra,
os sons batem no coração dessa mulher.
Mar de dentro chora,
chuva de dentro escorre as dores vizinhas dessa mulher.
Vai. Vem. Vem, Vai... é cheia.
Nos olhos dessa mulher a gestação de uns delicados.
O cheiro de amêndoas, a bacia branca de esmalte, a renda,
o rito da morte, o fogaréu, carne salgada e os pés no chão...
São vozes dessa mulher.
A vida inunda, a mulher sangra na pedra, um tambor,
alimenta com seu corpo a festa de amanhã, dança do mar, terra é fecunda,
um círio na escuridão.
Tem esse zum zum zum...
Toca esse zum zum zum...

......

Zumzumzum

Il y a ce son de l’intérieur, voix de la femme de la terre,
de la femme de la mer, de coquillage, racine forte de la femme, de l’intérieur en cycles.
Les femmes qui veillent par les histoires de la terre et de la mer.
Les femmes qui naissent du semis, destin... deviennent fleur.
Tellement féconde est l’eau.
Chaque place, chaque coin, chaque pierre,
les sons battent au cœur de cette femme.
Mer de l’intérieur pleure,
pluie de l’intérieur ruisselle les douleurs voisines de cette femme.
Va. Viens. Viens, Va... elle est pleine.
Dans les yeux de cette femme, la gestation de quelques délicats.
L’odeur d’amandes, la bassine blanche d’émail, la dentelle,
le rite de la mort, le grand feu, viande salée et les pieds dans la terre...
Ce sont les voix de cette femme.
La vie inonde, la femme saigne dans la pierre, un tambour,
alimente avec son corps la fête de demain, danse de la mer, terre est féconde,
un cierge dans l’obscurité.
Il y a ce zum zum zum...
Bruisse ce zum zum zum...

Patricia Porto
Tradução: Axel Dieudonné

domingo, 2 de julho de 2017

Deslocada

É que quanto mais tropeço
mais me abismo em mim mesma
que para doxo imbecil
resistir à doxa
com esse gostinho de denúncia
na língua

um corpo negado ressente
- vulgar

Patricia Porto

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Prodígios

As bruxas de Macbeth por Orson Welles


A avó sentou do meu lado e disse:
esta carne está crua
voltei com a carne pro fogo
no círculo das três mulheres:
eu, a avó e tia Marta, a que matava galinhas

A avó olhava de lado, rasgando a verdade:
a carne ainda crua torrava por fora
e era crua por dentro

corri e deitei água morna
- a carne um tambor bem no peito
o olho sem pisco da tia

secou-se tudo no tempo a boa hora
a carne que cozeu algum sonho
era o lugar do migrante na sorte

a carne na mesa era sol
alimentava as três bruxas
quietas, risonhas, rasgando os pedaços
com todos os dentes

raiz, escama e revide
- um olho de vidro na mão

Patricia Porto

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Pandora

 Brent Stirton,  World Press Photo 2017


na minha mente as imagens da guerra

alguém me grita:
desmonte
o rinoceronte!

desmonte o grau de miopia

na minha cabeça uma farpa
um estrondo
uma máquina
um dínamo

são as crianças afogadas no mar
crianças mortas no barco
crianças sequestradas

tudo exposto, todos premiados
em fotografias

são imagens que me sangram

na minha cabeça uma fita
um cemitério pacífico
um caos ordenado

saio da Almirante Barroso com frios
a cidade esquiva
lutamos nós, feito damas que se odeiam

estou prestes a explodir
sou uma bomba atômica

Patricia Porto

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Da poesia para consumo

quando todas as partes cuidarem das partes que lhe cabem
quantas metades existirão?
de qual aparte será o que me cabe, mulher e humana?
de qual parte serei apartada?
com quantos abades se forma uma parte?
de quantas margens precisa o aparto?
onde caberá a parte maior na parte menor?
nas pequenas subdivisões, ramificações, especulações do mercado
- onde resistirá o amor?
na pequena soma das mortes virtuais? Nas urnas das cinzas de um mundo
onde apenas mães pobres procuram corpos?
onde venderei minha alma pouca, minha perda dentária?
meu universo de palavras não desejadas, não comercializáveis,
o verso que não cabe no copo?

a próxima pele será como o incêndio dos não-identificados
a próxima poesia não será televisionada


Patricia Porto

sábado, 10 de junho de 2017

A Escrita

Todos os dias a mesma negociação
ferida aberta, outra fechada
porta aberta, outra fechada

Todos os dias a necessidade:
de ser alguém admirável,
ser reconhecida por meu talento
ser honesta sobre minhas falhas
ser alguém de quem não sinto vergonha

Todos os dias o aceno para os mortos
parecem intactos em seus retratos
porque havia o tal tempo do retrato
o tempo longo e inegociável do retrato

Todos os dias acenos para os que me vêem
da janela onde jogo minha sedução
desejando ser a mulher do próximo:
a oculta, misteriosa, a pintada em quadros

Todos os dias este clima agradável
de tentar manter equilíbrios entre os pés,
as pernas, coxas, a barriga e este profundo umbigo
- este rasgo de faca que trago no braço direito

Todos os dias os choques, a opulência do gramado burguês
as tentativas mentais de suicídio,
a torre e o enforcado, o cárcere,
minha natureza efêmera, imperceptível, quase nada

Todos os dias uma carta que não escrevo,
um poema sem correção, uma frustração nova no armário,
encontros marcados com minha culpa:
de existir,
ser mãe, mulher compacta, instrumental,
de carregar desafetos e ódios fazendo x

Outro dia escrevi um poema sobre o ofício do poeta e a mágoa
alguém disse que lembrava a escrita de um escritor iugoslavo,
outro me disse que lembrava a de um escritor polonês

A poesia era lugar de homem (todos os dias)
(todos os séculos)
(todos os prêmios, os cavalos e os dentes arranhando a gengiva)

Passei a usar o pseudônimo de Charles Pinout
alguém disse que o poema lembrava a fúria feminina
- um gênio o poeta de busto desconhecido

(todos os santos dias naquele terço de pessoa trancada)

Talvez hoje eu encontre os olhos de quem procuro pela lupa
talvez esteja sentada num café, talvez ninando um gato cinza,

Todos os dias intermináveis esta doce, cruel e aventura de encontrar
o outro no meu outro, as outras do cais, os viajantes, as estrangeiras

Todos os dias esta abissal e cotidiana negociação com a vida

(melhor escrita)

Patricia Porto

quarta-feira, 7 de junho de 2017

por que não te molhas?





À Valeria Garcia

quando ela se olha
é toda reverso
furta o sol
antes da hora bruxa

ela é tão a colhida
toco sua textura
feito abraço e riso

anoitece flor
no espelho onde há miragens
e entre os sinais, o vermelho
foi da casa, já partiu

marcha a vida em trânsito
até o fim
- vestida
até o talho
onde não vês


Patricia Porto

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Bom dia, América!

1915, Saudação à Bandeira Americana, EUA 



"Bom dia, América!"

Eu não sei ao certo se foi em gênesis ou se estava no site de notícias.
Não, este não é um poema engraçadinho e rápido para cumprir 140 caracteres
de pensamento instantâneo sobre o mundo e sobre o meu modo de fazer.
Não consigo achar graça dos que fazem graça.
Estou tentando fazer o meu café sem eletrônicos, mas um pássaro sinistro faz sons
estranhos na minha janela. Ligo o som fake de montanha e riacho.
Li que a máquina mais medonha do mundo será a que chegará ao talvez de tudo.
Talvez esfolem crianças ou talvez envenenem esse solo.
Tanto faz o talvez se nossos sangues não se misturam quando não somos iguais.
A guerra durará um século antes de abrirmos os olhos pela manhã.
Porque a situação é a seguinte: "eu confio tanto no outro como o outro em mim".
Guardemos nossos tesouros com chaves, guardemos nossas histórias em segredo.
Guardemos nossos cofres, nossos risos cínicos, nossos tumores.
Guardemos nossas vigílias, nossos interesses, nossos amantes.
Guardemos nossas senhas, nossos demônios, nossos gritos noturnos.
Guardemos o terror, as carnes que tremem, todos os corações disparados.
Disparados!]
A bala que te mata, de quem é?
Açúcar. Esqueci de comprar.

Patricia Porto

sábado, 3 de junho de 2017

Paixão


na ausência há um vazio róseo
flor aberta à capela

no peito aberto (le petit mort)
o pulo, uma sacada
um sopro de Cristo

se a viagem traz a margem
de meus olhos, terra em exílio
a  chaga, o risco de existir num feito de luz
de nossas cabeças, num estampado
é corpo

a câmara de gás no banheiro
levou duas crianças
e rostos de louça

a câmara de gás e seus milhões

eu temo.
com paixão

****
Patricia Porto

sexta-feira, 2 de junho de 2017

A Palavra

Marianne Rosenstiehl_  Les limaces 2014 


a palavra resolveu dominar meu corpo
minhas pobres vísceras
a anemia que trago ora como engano ora, forquilha
a palavra, uma ferida da alma
resolveu doer qualquer coisa
que movimenta e não grita

tomada de amor ou esquina
procuro alguma linha de saída no front
sou bruta na arte de desamarrar nós
e com as mãos invento pequenas ilhas de solidão
num deserto inteiro de declives

não julgo a jornada
pois estamos acamadas
- ela fazendo cócegas em minha barriga
olhando o tempo esfarelar as jaulas que me dão raiva de louca

dentro do peito onde me exponho, ela me é viga,
me espinha, meus espinhos
(sou toda clarão quando preciso)

não careço mais da floresta
da ciência de um governo
que queimem as bandeiras da nossa batalha
ou que depositem água na minha poesia

(estamos livre, em estado absoluto de crueza, ainda que eu sussurre não
ainda que me visitem juntas as estrelas)

Patricia Porto

quinta-feira, 1 de junho de 2017

O livro e o mundo

           

                   Algumas pessoas já me disseram sentir uma enorme claustrofobia na leitura de um Kafka. Sabemos que isso não se dá à toa. Pois se quisermos manter qualquer pequeno diálogo com as obras kafkianas devemos estar pré-dispostos a tentar compreender “que não conseguiremos olhar a alma de um homem através de uma lente”. Precisaremos então entrar no obscuro, no que há de absurdo no mistério, nas sombras, que podem revelar o nosso óbvio: não sabemos tanto... E muito do nosso conhecimento pode não passar de uma tremenda ilusão arrogante, uma ilusão grávida da nossa medonha ambição ser e ter mais que o outro ao nosso lado. E os cenários de Kafka são tão externos quanto internos, uterinos. E as externalidades revelam do quarto, da casa, de um castelo, os barulhos, os ruídos que podem ser bem mais altos, bem mais assustadores que os conhecidos do fora.
               Ao sairmos à rua, levamos em nossos corpos, bolsas e carros os símbolos da nova era e da tardia modernidade. Mas bem ali, no cruzamento entre o moderno e a charrete, está aquela senhora elegante, agora mesmo - sentada naquele café, o Parador. Lá está ela com seu xale fino comprado em Milão. A família costuma ir à Europa, precisamente Paris, uma vez por ano. Ela olha de forma displicente o entorno como se fosse uma passageira do trem. O vidro a separa do menino que bate com uma caixa de doces contra. Contra ela? Não, contra o vidro que os separa. O vidro é um bom vedador de ruídos. Ela se volta discreta e elegante para seu capuchino. No entanto, seus olhos a traem, vagando no entorno, lançando rabos de olhar para o vidro que, desgraçadamente, lhe estragava um momento raro de dispersão solitária. O menino percebendo aquele instante ambíguo da “freguesa” falava sem voz no embaçado: “compra um pra ajudar, tia”. Ela conseguia ler os lábios, mas fingia não ver que nenhum deles existia. E pensava relativizando em atos falhos: “nada mais irritante que a pobreza neste país. O pior é que não podemos fazer nada. Nada muda.” Assim, no displicente arroubo de consciência do outro, fez o que de melhor sabia: não olhar para trás, porque para trás ficava os incômodos, como o menino de vidro, peças de desmonte. Mas antes de terminar o café e sair, leu uma última passagem do livro “O Castelo” de Kafka, uma passagem que falava sobre um túmulo profundo e apertado onde o personagem e Frieda ficariam abraçados como tenazes, escondendo o rosto um no outro sem que ninguém mais os visse.
             E Kafka nos pendura nesse suspense em suspenso, como se o ar que lançássemos para fora na sua curta expressão e comunicabilidade nos ventilasse tanto o corpo causando pânico. Aquela senhora elegante, chefe de uma renomada instituição pública, no seu salto e posto altos precisou no mesmo dia lidar com dois dissabores: Kafka e o menino do vidro. Ficou mais tempo no café que de costume para ver se aquele menino desaparecia com seu "compra um, tia" interminável. Que fosse abduzido por uma miséria maior que a dela própria e sumisse da vista. Teve sentimentos confusos sobre o amigo que lhe presenteara com aquela aberração literária que em nada lhe ajudara a refletir sobre sua atual posição. Como chefe de um importante setor público via seus subalternos se esbofeteando aos berros e pequenos empurrões, até mesmo por coisas insignificantes, um armarinho de neuroses. “Não se fazem mais homens públicos como antigamente.” Pensou. “Meu pai sim foi uma grande figura pública. Hoje só vejo ratos e ratoeiras cada vez mais apertadas.” Lembrou do túmulo de Kafka. “Que leitura inútil!” E ali determinou que nunca mais voltaria a perder seu tempo precioso com um presente daquela natureza. “Espero que ninguém nunca mais nos ache. Fique aí.”
              Resolveu entrar no Shopping para refletir sobre as novas demandas da América Latina. Na mesa do café o livro de capa dura sofria ali o revés do abandono, mas não mais o pesadelo da incomunicabilidade. Havia tanto humor ácido e melancólico nos pequenos nadas das mesas de café.
             Abraçou-se ao xale naquele fim de tarde fria. Não olhou mais para trás. Mas perto dali, do outro lado da rua, uma mão abria com rapidez a porta do café, o vento desfolhando o livro marcado na última leitura daquela distinta senhora de xale. A mão segurou o livro, abraçando-o contra o peito. Era o menino do vidro correndo pela rua afora. "Pra onde ela foi?" O livro e o mundo os seguindo abraçados.

Patrícia Porto

sábado, 27 de maio de 2017

outono farpado

Jenny Morgan



as folhas caiem displicentes em posição de lânguidas
um desejo vertical de queda

ao rufar dos tambores sinos se juntam
quero acreditar que nenhum demônio roubará minha alma
enquanto teclo meus dedos em máquinas exóticas

folhas amarelas, rosas, quase rubras
(desejo invertido de imortalidade)
a aceitação das folhas me quietam
o chão farpado de lucidez
está sob meus pés
um asfalto

Patricia Porto

quinta-feira, 25 de maio de 2017

fruta de cordeza dura

Pina Bausch


todos os dias esvaziava os bolsos
tanta chuva por dentro
tanta seca por dentro
todos os dias esvaziava a mente
tanta dor no escuro
tanta arma na boca
- o lobo na porta
e as noites de fogo
uma mulher estranha vesgando a pergunta:
quem é você, mulher do espelho?
nela amanheço, amarelo,
nela me deito com minhas cartas vazias
na dança das impossibilidades

o sol posto na mesa
são os lugares que esqueci de acender no corpo
a morte de tudo que deixei no fundo da gaveta
fazendo arranhões, rasuras, esboços de ser a mesma
de olhos marejados, sorriso de canto,
a cabeça esvaziada de si
- quem me olha através de você, mulher do espelho?
não te reconheço em mim o horror
não te vejo para fora do nome
por fora estamos assim, castradas?
distantes, afogadas no trânsito,
longe de casa,
perto da linha do trem para partir?

mulher que me olha em meus olhos, quem é?
não te acho aqui
- por que envelheceu tão tarde na rua?
- o lobo na porta, tão dura
(minha sentença)
(minha criatura)

adeus, adeus
-o amor cresceu entre os dentes,
quase o milagre da hera

- nenhum terror nos oculta
os vidros, a úlcera,
a mulher que me afoga
com seus afagos
cresceu

Patricia Porto

Sabático


Las manos de Louise Bourgeois 1911- 2010,
escultora y artista, nacida en Francia. Fotografía de Alex van Gelder, 2010.



Obsequioso desentranho
desentranho essa diligência
que é o decifra-me
e quando não socorro-me
espeto meu dedo mínimo com uma agulha.
Sim, estou vivo!
Atravesso minhas colheitas
com meus tempos amostra,
devo parecer ou padecer
de meu léxico amedrontado.
Sim, estou vivo!
Acumulo valores,
bestialmente acumulo valores
para girar ao redor desse homem,
clone de minha raça,
esse homem que come da minha mesma ração,
primo-irmão de meu paradoxo,
esse que me enfia a faca nas costas
quando me afasto para cochichar: "te amo".

Patricia Porto



Pode olhar



Meu útero tem dois lados
Os dois estão armados
Não tenho outra vidraça pra bater


Patrícia Porto

Os vidros de 78



Eu também conheci a árvore da vida,
os figos eu os devorei todos de uma só vez
meu melhor poema ainda não nasceu
Dormi aos oito anos com coturnos na sala
acordei aos 46 com Brasília sitiada
Meus figos vieram à tona
dez mortos no Pará
Meus figos atirados contra as paredes
do estômago
queimando a boca
as mãos
o meu cachimbo sem paz

Dormi com coturnos na sala
acordei com Brasília sitiada

Patricia Porto

domingo, 21 de maio de 2017

Ouvidos para sonhos difusos




Hoje pela manhã abrirei a última janela
do último salto
para a última esfera
onde estarão os meus mortos
Hoje pela manhã encontrarei meu cão
minhas horas de fazer nada em repouso
de contar os dias que me sobram
onde estarão os nossos mortos
Hoje pela amanhã pegarei de uma vassoura,
um pano, um balde de água, me fingirei de viva
ao limpar os restos de migalhas de afeto
que mal me são ofertadas
Hoje pela manhã abrirei a geladeira para contar
batatas, ovos, maçãs, viagens envelopadas,
coisas distintas que nunca realizei
Hoje pela manhã vou aguardar as notícias, as boas,
nunca vindas, sempre amontoadas na caixa de correio
das pessoas com muita sorte e nome
Hoje talvez penhorarei aqueles olhos de louça
das histerias obscenas de todas as mulheres findas
- meus braços ainda tremem da espera
- seguram um tempo morto
- abrigam sedentos um campo verde por onde belas criaturas
cintilam na luz de outono
Hoje talvez eu recolha a roupa, o varal, a fratura exposta
e guarde em minha aventura selvagem o desejo único
- o de desaparecer dentro, bem dentro, agradada de minha voz,
desparecida da espécie que mata objetos a facadas
Hoje talvez eu nem apareça na janela que nunca existiu aqui

Patricia Porto

sexta-feira, 12 de maio de 2017

naquele tempo

Elvira Amrhein


naquele tempo o que me importava era
a proteção da bacia, a água, certa espuma
uma qualquer noite azulada

quantas costelas cabem numa coluna de mulher?
lançados com as mãos, quantos dedos cabem nela?
para levantar a mão e socar o rosto gasto dela?

como é fácil bater na mulher da rua, na mulher sem país,
na mulher sem terra, na mulher sem glória,
na mulher sem renda,
na mulher sem dote,
na mulher sem teto,
na mulher tão feminina de pênis,
como é fácil bater na mulher da outra mulher,
na mulher que apanha do outro,
na mulher que se ausenta,
na mulher sem útero,
na mulher de aquário,
na mulher da vida,
na minha mulher,
na mulher que me avizinha

o que não é fácil é a solidão da mulher que apanha a rosa
caminhando pelo bairro

quantos dedos cabem nessa flor sedenta?
como é fácil contar estrelas, olhar pro teto
- são tantas as aves nesse céu

Patricia Porto

quinta-feira, 11 de maio de 2017

não temo destroços

Winter on fire


a vida contemporânea tem muitos barulhos
muitos assaltos de chofre
muitos mandados de morte
muitos navios pra queimar

odeio telefonemas,
mas não menos que odeio e-mails

sinto saudades da ipanema e de seus teclados

não sinto saudades do subúrbio,
não penso mais em realengo
- ele me cheira com morte e coturnos

não tenho histórias engraçadas pra contar

a vida contempla o humano que sobra em nós,
está enojada por horas
anda descalça na rua onde eu corria e era menina
sinto saudades da minha menina
ela se foi cedo demais

a vida com o tempo é vasta
é o elástico da roda
um dia eu e minhas primas brincamos de hospital
quase matamos uma de nós
brincar poderia matar nossos brinquedos
nossa avó usava muletas e ajudava na descoberta
de que o quintal abrigava entulhos e silêncios

sinto saudades

hoje ainda brinco de morrer,
mas sempre acredito
um pouco

Patricia Porto

segunda-feira, 8 de maio de 2017

a onda



às vezes a onda atravessa a parede
e vem falar comigo: como você está hoje?

às vezes me engole como parte de sua circulação sanguínea

a onda precisa ser revés
golpe na face
corpo no instante
instante nu e tubo
tubo de ensaio
tudo é ensaio
tão frágil
eu sou tão frágil

a onda tão helicoidal
quebrou minha costela de adão
unhas, meu dorso de cavalo,
os dentes postiços
ainda com esses restos da carne

e nós somos, ali e aqui, tão quietos no tubo
tudo tão íntimo e silêncio
que não há língua que nos afaste
nenhuma palavra sonora
nenhum tremor
nenhum visto de entrada
nenhuma foto 3x4 estrangeira

apenas a ressaca
pés sujos
o embrulho na onda
a água batendo
na outra

Patricia Porto

domingo, 7 de maio de 2017

(sem título)

Giovanni Manfredini


O menino preparando um estilingue
A velha deitada em sua cama:

entre se afogar e mergulhar
O mar era o mesmo
A mãe era a mesma
A mão no cabelo
era no entorno, o vazio
de amamentar nos braços o inimigo

Nunca se cansava de dizer
e praguejar: passarinhos ao chão!

O menino dentro da casa de suas ilusões
mais sentidas era de uma sanidade atroz

Pegou da mão do menino e foi brincar de morrer na casa antiga de suas infâncias

Solta esse estilingue, menino!
A morte é a mesma e eu só desejo paz


Patricia Porto

segunda-feira, 24 de abril de 2017

deles nãos sei

Zanele-Muholi


escrever: a quem serve?
deveria servir feito almanaque
aberto de A a Z
mas hoje serviria para me desfazer

hoje escrever me serviria para te desfazer
para te maldizer
para me louvar
para não enlouquecer

talvez servisse para tomar café
com muita cafeína
serviria para acalmar a ressaca do mar
talvez para tentar suprimir o que é extremo
serviria para não mais degradar o homem dele mesmo
última espécie que acredita em alguma bondade

talvez hoje escrever serviria para andar na cidade
e ser gente alguma vez
serviria para não ouvir os passos que atormentam minha mente
talvez para aquietar meus demônios

talvez servisse de água potável
para encontrar o entre
sair da massa
encontrar as áreas de aderência
talvez servisse de céu noturno
carinho de mãe
cama quente
beijo de despedida
amor esquecido na última quadra
o sutiã sobrando na gaveta
nenhum mamilo

os meninos agora brilhando na rua
talvez escrever servisse para isso

enxergar?

nasci cega de um olho

- uso esses espelhinhos

Patricia Porto

sexta-feira, 21 de abril de 2017

A lua dos canalhas



a outra esquecia suas coisas sobre a cômoda
anéis, presilhas de cabelo, lenços coloridos
papéis de bala de hortelã

a outra esquecia suas palavras nas garrafas
eu levantava de noite para beber da sede
e lá bebia a outra toda, nua em prelo

a outra esquecia de aparar a grama do jardim
esquecia seu nome na janela que me abrigava
a outra esquecia seu perfil aberto
sua foto na sacada da minha arma
na carteira do canalha
na sola do meu sapato

eu batia os cascos e nada -
só eu morria devagar, insone, apavorada
ela se rindo enfim
eu cheirando seu lenço
apertando meu pescoço
como um gatilho
um gato manco
sob a lua dos canalhas

Patricia Porto

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Por caridade



sem palavrinhas
sem declarações por hoje
sem soar falso, por favor
a noite assombra
e eu com isso?
sem palavrinhas
sem efeito neon
incertezas, eu caminho pra frente
que amor?
e eu com isso?

vai assoprar uma vela
navegar num barco o sereno do mundo
vai se encharcar de alma
aprender língua de sinais

quem sabe por lá marujos a encontrem
a abracem com seus longos braços de mar
tua sombra de mulher vadia
a vadia da tua alma tonta

quem sabe um deus te abrace
um rio, um sabre
uma coxa aberta ao meio
tua racha
quem sabe teu deserto caiba
em tuas mãos

sem palavrinhas
sem mosteiros ou proteção da chuva ácida
sem sonar falso, meu amor

e eu com isso?
e eu contigo?
meus lábios te mordem
para dizer que neste barco, balsa, terno, rampa
não cabe nós dois

sem palavrinhas
e eu?
eu com isso?

Patricia Porto

quinta-feira, 13 de abril de 2017

deles não sei

escrever: a quem serve?
deveria servir feito almanaque
aberto de A a Z
mas hoje serviria para me desfazer

hoje escrever me serviria para te desfazer
para te maldizer
para me louvar
para não enlouquecer

talvez servisse para tomar café
com muita cafeína
serviria para acalmar a ressaca do mar
talvez para tentar suprimir o que é extremo
serviria para não mais degradar o homem dele mesmo
última espécie que acredita em alguma bondade

talvez hoje escrever serviria para andar na cidade
e ser gente alguma vez
serviria para não ouvir os passos que atormentam minha mente
talvez para aquietar meus demônios

talvez servisse de água potável
para encontrar o entre
sair da massa
encontrar as áreas de aderência
talvez servisse de céu noturno
carinho de mãe
cama quente
beijo de despedida
amor esquecido na última quadra
o sutiã sobrando na gaveta
nenhum mamilo

os meninos agora brilhando na rua
talvez escrever servisse para isso

enxergar?

nasci cega de um olho

uso esses espelhinhos

Patricia Porto

Pássaros benditos para meu funeral



Eu vou unir todos esses pássaros ao meu redor
os que bicam em minha cabeça, por favor, fiquem em silêncio:
vamos ouvir o que os pássaros têm a dizer sobre
as maquinações do tempo contra o afeto,
os pássaros vêm e pousam em meu casaco,
o casaco surrado dos dias de desemprego,
dos dias de desemparo,
dos dias sem poesia,
dos dias do feijão e arroz sem mistura.
Mas eles também vêm para comer algo na minha nuca,
algo que pássaros que bicam a sua cabeça não sabem o que é.

Seu corpo está cheio de alimento para os pássaros
que pousaram em seu casaco,
eles se aproximam e comem da sua nuca,
eles te dizem o quanto das suas velhas coisas,
jogadas no porão, valem às penas que carregam.

O amor, por exemplo, que doçura provar da boca do pássaro o alimento.

 Aos que bicam minha cabeça:
   façam silêncio!

Patrícia Porto