segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Do Encontro entre o Amor e a Resistência: O indizível sentido do amor




 “Tudo isto realizo no imenso palácio da memória. Aí estão presentes o céu, a terra e o mar com todos os pormenores que neles pude perceber pelos sentidos, exceto os que já esqueci. É lá que me encontro a mim mesmo, e recordo as ações que fiz, o seu tempo, lugar, e até os sentimentos que me dominavam ao praticá-las”
(Santo Agostinho)


Há textos que nos provocam um sentimento tão grave de similitude que tomar distância dele vai exigir alguns dias de esforço. Foi a sensação que tive ao terminar de ler o romance de Rosângela Viera Rocha, “O indizível sentido do amor”.  Lembro de Leonardo Boff quando diz que “cada um lê com os olhos que tem. E interpreta a partir de onde os pés pisam”. Uma resenha é feita a partir dos olhos de quem lê, mas meus olhos de memorialista, meus olhos de poeta, os meus olhos de maranhense e ativista política, como poderiam ler o livro de Rosângela Vieira Rocha, distanciados da guerrilha, da resistência, da memória da luta dos camponeses, da luta do meu próprio povo, da memória de testemunho? Por isso não foi uma tarefa sem esforços de leitura e de esforços de mais esquecimentos que lembranças. 

Rosângela Vieira Rocha escreve uma narrativa memorialística. Não é um romance de autoficção. Por isso mesmo é preciso entender a diferença entre eles. A narrativa memorialística, diferentemente do romance de autoficção, pretende reinterpretar a memória dos acontecimentos, buscando elementos de escavação, de palimpsesto e investigação de testemunhos e memórias no intuito da reconstrução narrativa de um determinado tempo histórico ou ainda de tempos históricos emparelhados. Há um profundo sentimento investigativo na tarefa de reconstrução dessa memória, pois passa pela subjetividade de quem se debruça sobre a História pelo testemunho aliada à objetividade dos acontecimentos. Mais do que com a verdade, há compromisso com o testemunho. Nos romances de autoficção, o compromisso é com a ficção - que tem elementos da realidade pela escritura, pela artesania, pelo trabalho sígnico num jogo estético de linguagens e imagens híbridas, simbólicas, metafóricas do real. Na escrita memorialística o trabalho é o da fiação de um tempo plenamente constituído, historicamente palpável pela experiência, mesmo que também híbrido na sua reconstituição de significados.  Na ausência, nos vazios e “entres” da escrita memorialística há substâncias também ficcionais não pretendidas. Como diria Pedro Nava, é uma escrita anfíbia.

“O indizível sentido do amor” é um romance que fala de “amor e luto”, de perdas, de luta pelo luto, de um diário de viagem do externo para o interno, de exílios distintos, de reencontros e Encontro, de estar presente e ausente, de encontrar-se entre o Tudo e o Nada, de recompor sua própria história. É um romance memorialístico de uma mulher que diante do infortúnio da morte e da separação do homem amado, José, busca recompor um elo de conexão entre passado e presente, presente e passado. Só nesta primeira leitura já somos apresentados a princípios literários da narrativa memorialística: a busca permanente, o eterno retorno e a descoberta inexorável de um tempo cíclico que é próprio da narrativa das experiências, da narrativa de memórias. A narrativa de Rosângela vai e volta num tempo circular, o que é próprio dos memorialistas, um ir e vir, buscar o corpo de Eurídice, mas para quê? Para confrontar-se com o Nada sem pessimismo, sem notícias de mágoa. Por isso a ilusão de distanciamento, que na verdade trata-se de uma aproximação tão intensa que a própria ideia de apego se desvanece pelo sentimento de consciência ampliada do ser nesse tempo.     

O livro traz tempos e memórias que se conectam à nossa história recente. Ainda neste ano de 2017, estive com William da Silva Lima no seu aniversário de 85 anos. Mesmo depois de um derrame, William conversou comigo, de forma muito clara e lúcida, sobre a importância da literatura na vida dos presos comuns da época da ditadura militar. De como tinha sido importante na vida dele a leitura de Euclides da Cunha e de como o contato com outros presos políticos e os livros tinha feito com que ele compreendesse o Brasil e as desigualdades que já conhecia muito bem da vida na cidade.
José, marido de Rosângela, grande amigo de Alípio de Freitas, esteve preso na Ilha Grande. William também esteve preso na Ilha Grande com Alípio de Freitas. Alípio é um dos elos que reconta a história de José. É o homem pelo qual Rosângela procura desvendar elementos de testemunho das torturas de um tempo político que foi silenciado e se tornou silencioso.

Alípio de Freitas foi padre e revolucionário na minha terra, São Luís, onde de fato travou contato com a miséria humana num tempo em que a luta camponesa se acirrava e tomava vultos de radicalidade. Meus avós conheceram a história de Alípio e da sua paróquia. Nós ouvíamos em casa as histórias de luta por terras e de como a Igreja Católica, com a eleição de João Paulo II, tinha tratado de emudecer e reprimir o movimento progressista e os que estavam ao lado da luta camponesa, os  que seguiam a teologia da libertação. Já na escola de freiras, das irmãs capuchinhas, na década de oitenta, éramos obrigados a ter aulas sobre o novo Papa. O retrato de João Paulo II se espalhava pelos corredores da escola, pois precisavam nos convencer, ainda crianças, que os caminhos de Deus não passavam pela reforma agrária e que a miséria do nosso povo não advinha daí. 

Não posso falar do romance “O indizível sentido do amor” sem falar da nossa história brasileira, e até mesmo sem falar da minha história brasileira, pois Rosângela no seu trabalho memorialístico e jornalístico, nos oferta -  em “religare” – esse corpo, essa ossatura que não foi enterrada o suficiente para se tornar invisível, imperceptível ao chamamento da memória. Assim, a autora nos ajuda a desvelar uma parte do que foi apagado com propósitos, escondido pelas tramas políticas que se seguiram à ditadura militar, tramas que desembocam no Golpe de 2016.  Por isso o trabalho de Rosângela Vieira Rocha é, indiscutivelmente, um trabalho necessário para o debate sobre os porões e as armadilhas da ditadura militar, porque precisamos lembrar para não esquecer, lembrar para não repetir. Já que fomos atravessados pelas notícias de outras farsas, entre uniformes e togas. 

O Luto de José e o Luto de Rosângela

Nas idas e vindas da memória de Rosângela Vieira Rocha, busco me refugiar no fio de Ariadne para não me perder dentro dos labirintos que a leitura do livro vai compondo com meus fantasmas, pois preciso voltar e visitar José na UTI. Agora também eu, leitora, sou testemunha dessa narrativa. Entre a discrição de José e o delicado diálogo de Rosângela com o luto encontramos uma linguagem estética que há nos melhores textos memorialísticos: a sobreposição de cenas, o jogo espelhar da urdidura narrativa em que uma cena traz a outra, feito caleidoscópio, camadas de imagens e linguagens que se alternam com os efeitos da memória viva, encarnada. Todos os ponteiros cabem num instante. E cada instante é feito de mil ponteiros. Os guardados de José fazem parte de sua luta/luto, e feito sobrevivente e testemunha, não há uma gota sequer para além do que merece ser falado/derramado. Rosângela é a voz que rompe muitos solos de não-ditos e através de sua luta/luto as alternâncias entre Cronos e Kairós vão se tecendo pelas palavras, entre o tempo elástico das reminiscências e o tempo-colheita-lavoura de dizer-se, contar-se para além de seu próprio ciclo temporal, abrindo-se ao círculo maior que é feito das memórias coletivas, memória de todos nós que amamos, vivemos, lutamos, sabemo-nos vivos até o finito, até o corte da última parca. Os dias, as noites dos lutos de José e Rosângela são os dias, noites que narram, magistralmente, o “indizível do amor”.

“Tentei contar a sua história, que não é propriamente uma história, são apenas “flashes” do que penso ter sido a sua vida. (p.186)     

Proust está feliz. Pois encontramos aqui um romance em outra língua.


*
Por Patricia Porto



........................................


ROSÂNGELA VIEIRA ROCHA


Rosângela Vieira Rocha nasceu em Inhapim, MG. Tem onze livros publicados, quatro para adultos e sete infantojuvenis. Recebeu vários prêmios literários, entre os quais se destacam o Prêmio Nacional de Literatura Editora UFMG-1988, com o romance Véspera de lua, e a Bolsa Brasília de Produção Literária 2001, com a novela Rio das pedras. Participou de várias coletâneas de contos, entre as quais Mais trinta mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira. Além de escritora, é jornalista, mestre em Comunicação Social, bacharel em Direito e professora aposentada da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília - UnB. É colunista de duas revistas culturais e literárias digitais. Ministra oficinas de textos e de literatura, além de palestras.

...........................

Título: "O indizível sentido do amor"
Editora: Patuá
Ano: 2017

Onde comprar:

           

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

A Poesia de Carlos Orfeu: O desassossego e a invenção nos (in)visíveis






O desassossego e a invenção nos (in)visíveis
/por Patrícia Porto/


Essa trapaça salutar, essa esquiva, esse logro magnífico que permite ouvir a língua fora do poder, no esplendor de uma revolução permanente da linguagem, eu a chamo, quanto a mim: literatura.
Roland Barthes


nas paredes
em despudor de silêncio
a litania do invisível

no cio do limo
a sinfonia do mofo
lavra
o
segredo
da
rachadura


         É nas trincheiras da arte poética do cotidiano que encontraremos novos signos de resistência estética para a poesia. Prova disso é o livro de estreia de Carlos Orfeu, “(in)visíveis cotidianos”, que se desdobra páginas-corpo-poemas em múltiplos olhares que atentam para os “pequenos nadas”, expressão tão bem criada por Michel Maffesoli. Não foi à toa que a leitura das cenas cotidianas, dos frames que o poeta nos apresenta em versos densos e concisos, me levou a dialogar com lugares que refletem a relação entre o poder e o cotidiano, assim como também me fez pensar na relação do homem comumcom o invisível corriqueiro. São reflexões que me fazem dialogar com a sociologia, a história, a história dos oprimidos, dos excluídos. Por isso, na leitura de “(in)visíveis cotidianos” não é simples apartar do aspecto crítico e literário da leitura o aspecto sociológico que há na cotidianidade. São poemas sobre o “tempo presente”, sobre a rotina, os pedaços do mundo, os vestígios da vida, os fragmentos que se amontoam como cruzes, estradas, corpos, urgências perfiladas por uma faixa humanatambém esquecida, abandonada, in-visibilizada. E intuo que na voz do poeta há também outros ditos no desvão das imagens – como palimpsestos,um volume sempre por-vir, uma nova urdidura entre a palavra e a espera.

Há no livro um mundo imagético a ser desvendado pelos leitores, há um convite que leva o olhar a funcionar como pausa.


no cio do limo


Carlos Orfeu parte do instante para o eterno como se parasse o tempo, o mantivesse em suspenso, e transformasse aquele momento num vórtice que une o todo.

Assim os poemas se conectam num livro-corpo que é também devir. E ler os (in)visíveis é aguçar os sentidos, conhecer as camadas para ouvir “a sinfonia”.


a lâmina ceifando a vida em seivas


               Feito a ninfa Eco - repito “seivas” e vou dedilhando as imagens que o poeta me apresenta. Na minha andarilhagem corro o risco da errância, e dialogo com mais imagens do cotidiano, as de Manuel Bandeira, Mário Quintana, Maria Helena Latini, Líria Porto e outros que me fizeram debruçar o corpo e a alma, todos os sentidos expandidos, para a importância desses significantes, numa outra dinâmica com este cotidiano. Carlos Orfeu chega para compor este painel de poetas e se une aos que ousaram dizer muito com menos, ver muito onde se vê menos, ser bastante sem desprezar esse menos. Porque há nesta arte - uma punção de vida, uma potência na vivência com “os pequenos nadas” e que precisa ser desvelada a partir de uma outra recepção, a que não exclui as  aventuras e as delicadezas do habitual - no seu trágico e belo, seja na voz, no silêncio. Mas para isso será preciso compreender uma lógica avessa à que nos faz perder os sentidos com  excessos.  Será preciso pousar o olhar no tempo íntimo das coisas, no tempo elástico das sensações do corpo, da casa, da rua, do urbano, desse nada que é tanto.

corto cebolas
com olhos ensopados

de águas esquecidas

       
Publicado originalmente na Revista Mallamargens:
http://www.mallarmargens.com/2017/07/o-desassossego-e-invencao-nos.html

Onde adquirir:
https://www.facebook.com/carlos.orfeu






INTERROMPIDOS, MAS PERMANENTES








“Ouvi todas as coisas no céu e na terra. Ouvi muitas coisas no inferno. 
Como então posso estar louco?” […]
Edgar Allan Poe  


Ainda na contemporaneidade, Edgard Allan Poe, Piglia, Borges, Cortazar... são alguns nomes que influenciaram o que podemos entender como crítica do conto. Guardando cada qual sua peculiaridade teórica, convergiam na ideia do poder da síntese associado à qualidade literária. No mais, a teoria do conto é um caldo repleto de considerações teóricas completamente opostas e até díspares. Uma das significativas definições de conto foi defendida por Cortazar e diz perto ao apelo à síntese dessa narrativa:
Mas se não tivermos uma ideia viva do que é o conto, teremos perdido tempo, porque um conto, em última análise, se move nesse plano do homem onde a vida e a expressão escrita dessa vida travam uma batalha fraternal, se me for permitido o termo; e o resultado dessa batalha é o próprio conto, uma síntese viva ao mesmo que uma vida sintetizada, algo assim como um tremor de água dentro de um cristal, uma fugacidade numa permanência.
Ora, para escrever menos seria preciso escrever mais. Pois cortar na carne, encontrar soluções complexas e intensidade como enfatizava Poe, ou trabalhar com a “unidade de efeito”, o caráter de sugestão, não guiar o leitor a um desfecho único, todos esses são elementos imprescindíveis à escrita do conto.

Estreitando esse universo de “fugacidade na permanência”, chegamos aos contos curtos, narrativas breves, inquietantes, argutas e com alto domínio de síntese,  podendo até mesmo não chegar ao final de uma página. Um trabalho delicado de artificie das palavras - aquele que mantém a lâmina de corte sempre afiada. E esta qualidade peculiar da lâmina, assim como o uso de um dinamismo narrativo tão apropriado ao nosso atual contexto – paradoxal e caótico nas relações - são princípios instigantes que poderemos encontrar no livro de contos “Interrompidos”, de Alê Motta, lançado, neste ano de 2017, pela Editora Reformatório.

Na sua narrativa, a autora traz elementos essenciais ao conto, do qual se ocupa a teoria literária mais ampla, e também ao microconto, novo gênero que exige a dinâmica do próprio movimento da narrativa como pré-texto, uma câmera em suspenso constante, pendular, nervosa que segue de muito perto os personagens. Nos textos curtos da autora, há o conciso e o corte, a intensidade e a sugestão, o efeito de unidade e a permanência. A autora maneja com maestria seus instrumentos cirúrgicos, numa precisão necessária. São contos que mesclam o prosaico com o urbano, histórias urgentes e agudas sobre situações cotidianas e familiares.


Alê Motta imprime impacto, força, constrangimento, humor e até mesmo boa dose de sadismo como mecanismos da narrativa. As cenas, incidentes, tragédias vão se sucedendo numa tensão crescente.  Lido de uma sentada, o livro lembra por vezes um afogamento – cada conto é uma submersão, cada intervalo entre os contos, uma subida para respirar. Há um sentimento de agonia, de luta, de necessidade e mergulho. E uma obra que consegue causar tais sentimentos é uma obra a ser lida e merecidamente notada.



Onde encontrar:
Editora Reformatório
Link para saber mais.
http://www.tanlup.com/interrompidos-de-ale-motta-1164325
 
Patricia Porto

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Começa em Mar – Uma leitura



É intensa e infinita a infância, rua de onde não se sai de todo. Nublagem feito sombra que entranha, quase víscera. Da infância ninguém se recupera totalmente.
 (Começa em Mar, p 132)


Não costumo chamar de resenha o que se faz de forma tão intimista e confessional. Acredito que seria melhor chamar de leitura ou carta, uma carta que envio para a escritora de um certo além-mar, autora de um dedilhar poético que comunga exílios com memórias de sal, as que nos noticiam da nossa própria formação identitária. Na minha leitura que começa antes do livro, o Mar, ou melhor, a Mar começou por um encontro entre Porto e Mar-anha. Porque o Porto se encontra é no Mar. E o primeiro contato com Vanessa Maranha se deu através do Mar, das águas e da ilha. Eu tinha feito um comentário no grupo do Mulherio sobre a nossa líquida forma de existência e insistência em ser mulher, de como nós nos fazíamos de líquidos, liquefeitas das águas que marcavam nossos ciclos. No meu caso, vida de Porto, ilha do Maranhão. E foi nessa sincronia que fui apresentada à Alice, a protagonista do romance de Vanessa Maranha, “Começa em Mar”, da editora Penalux, lançado em 2017 e que antes mesmo do lançamento já tinha recebido Menção Honrosa no Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura (2016). 

Com uma escrita fina e delicada no tecer de sua linguagem, Vanessa Maranha nos traz um romance de fundação feminina, que ousa descolar-se dos relatos, crônicas dos homens que nos contaram por séculos a fio, em suas viagens de mar. 

Se a rotina do Mar é ir e vir, é no círculo repetitivo das marés, do alto e baixo, cheio e vazio que se inicia a história desse romance. “Começa em Mar” nos embala numa dança vernácula em que signos são marinhos, são do silêncio, da saudade e do tempo, essa tríade de quem sempre queima as naus. O trabalho com a linguagem que Vanessa Maranha imprime ao romance é de uma polifonia marítima sonora e imagética, marcando os passos da estrangeira, exilada, expatriada em busca e perda permanente de pertencimento. Ouso dizer que Alice, A Zuma, é parte também do que é todo feminino, assim como as mulheres que se desdobram dela em Matrioska (Marta, Hortência e Jordana), as outras personagens fadistas, filhas do silêncio e da solidão, do Mar no seu cruel, Deus de Abraão, o mar que nos ilha, nos ameaça e mata, o mar no masculino, pai da ordem na cabeceira da mesa, como os pais que conheci no nordeste brasileiro e o pai de Alice, o desertor. Às mulheres entoam cantos ao sepulcro vivo, a insatisfação de Concha, mãe de Alice, é a costela, o trabalho inacabado do senhor da criação. E ouso dizer que o melhor da literatura de memórias ficcionais é quando realmente encontramos com personagens com os quais nos identificamos e reconhecemos em histórias.   Os pais de Alice são os pais da pátria colonizada, Portugal e Espanha, a península ibérica e as disputas de território em tratados e destratos, o velho mundo parindo um novo, a nova América, nascida já velha à espera de um Dom Sebastião.

“Mareava, ameaçador, uma iminência aos ilhéus que o respeitavam como a um deus temperamental e voluntarioso vezenquando rugindo ondulado, encaracolado, vez ou outra matando alguém, engolindo um chalé de caiçara ou uma casa de praia. A depender dos seus humores e Róvia conhecia bem a disposição justiceira das águas. Desse mar, não estaria a salvo quem ali teimasse, era motivo, rota, destino.” (p. 33)

Nesse ritmo de ondas imagéticas, Vanessa Maranha desfila um universo de personagens híbridos, outros tantos “forasteiros”, histórias cruzadas, desafiadas pela constância e inconstância do Mar com suas figuras míticas, o que nos revela as nuances de um realismo fantástico, cercado pela visão sobrenatural tão própria dos que vivem ilhados.  Em minha ilha, desde criança, ouvi dos mais velhos que sumiríamos do mapa, engolidos por uma serpente de duas cabeças, alojada nos túneis subterrâneos, construídos pelos portugueses. Crescer com uma serpente de duas cabeças é um convite constante ao fantástico.

Dos abissais exílios dessa narrativa que vai se tornando híbrida no percurso, Alice chega a vida adulta e se casa com Rafael, o não-marido, aquele que se encaverna no lobo do homem. A contradição e junção entre solo e mar, o pertencido e o desconhecido, entre o real e o fantástico tomam conta da narrativa da autora, que traz para o Mar o feminino, como na língua francesa, La Mer, ela, a mar. A história de Alice é a história de quem busca pertencer, se encontrar em algum lugar, entender seu tempo, sua origem fragmentada em mágoas e silêncios, distâncias. Por isso ela se lança ao desconhecido do Mar e se banha nele de sua própria carne e língua, de seu conhecimento de si mesma, mulher do sem-lugar. Seu pertencimento é o entre, o que não existe. Não pertencer é assim pertencimento e despertar. São as sereias que cantam pra Ulisses. As que carregam os pescadores para o sonho. As que entoam o canto de morte e vida.  São as musas do profundo naquilo que parece plácido e silencioso. Mas às mulheres comuns, transformadas da loucura libertária tão feminina, a metamorfose não é a da sereia, mas a do peixe, a das raízes ou da ave, do ir para dentro, do desaguar ou revoar em bandos, para encontrar-se nelas ou para conhecer delas outra dimensão liberta, nas dobraduras do tempo não linear.

“O tempo, devorador, é pródigo em esfumar os significados ou adulterá-los às conveniências. O tempo é despudorado. O tempo começa a dar pequenas notícias de passam. No corpo, no coração.” (p. 147)

O tempo que nos devora e que nos devolve ao mundo, que nos difusa a busca, nos enreda. O tempo do romance de Vanessa Maranha termina em mar para começar em mar em cheganças, arroubos, perdas, sonhos e amores.

Obrigada, Vanessa, por me mostrar o quanto eu também começo em Mar. “E a memória...” Em labirinto.

Com afeto,
Patricia Porto


* Onde adquirir: Loja Virtual da Editora Penalux

sábado, 9 de dezembro de 2017

Onde estiveste de noite? (Lygia Fagundes Telles)



De Lygia Fagundes Telles para Clarice Lispector.

Acordei em meio do grito, gritei? Com os olhos ainda flutuando na vaga zona do sono, levantei a cabeça do travesseiro e quis saber onde estava. E que asas eram aquelas, meu Deus?! Essas asas que se debateram assim tão próximas que o meu grito foi num tom de pergunta, Quem é?...

Abri a boca e respirei, tinha que me localizar, espera um pouco, espera: estava sentada na cama de um hotel e a cidade era Marília. Cheguei ontem, sim, Marília.

Tudo escuro. Mas não tinha um relógio ali na cabeceira? Pronto, olhei e os ponteiros fosforescentes me pareceram tranquilos, cinco horas da madrugada. E antes de me perguntar, o que estou fazendo aqui?, veio a resposta assim com naturalidade, você foi convidada para participar de um curso de Literatura na Faculdade de Letras, dezembro de 1977, lembrou agora?

Voltei-me para a janela com as frestas das venezianas ligeiramente invadidas por uma tímida luminosidade. Por um vão menos estreito podia entrever o céu roxo. E as asas? perguntei recuando um pouco, pois não acordei com essas asas? Pronto, elas já voltavam arfantes no voo circular em redor da minha cabeça. Protegi a cabeça com as mãos, calma, calma, não podia ser um morcego que o voo dos morcegos era manso, aveludado e esse era um voo de asas assustadas, seria um pombo?

Ainda imóvel, entreabri os olhos e espiei. Foi quando o pequeno ser alado, assim do tamanho da mão de uma criança, como que escapou dos movimentos circulares e fugiu espavorido para o teto. Então acendi o abajur. A verdade é que eu estava tão assustada quanto o pássaro que entrara Deus sabe por onde e agora alcançara o teto abrindo o espaço em volteios mais largos. Levantei-me em silêncio e fui abrir as venezianas. O céu ia emergindo do roxo profundo para o azul. Olhei mais demoradamente a meia-lua transparente. As estrelas pálidas. Voltei para a cama.

Puxei o cobertor até o pescoço e ali fiquei sentada, quieta, olhando a andorinha, era uma andorinha e ainda voando. Voando. Meu medo agora era que nesse voo assim encegada não atinasse com a janela. Na infância eu tinha convivido tanto com os passarinhos, os da gaiola e esses transviados que entravam de repente dentro de casa e ficavam voando assim mesmo como que encegados até tombarem esbaforidos, o bico sangrando, as asas exaustas abertas feito braços, e a saída?!...

Vamos, pode descer, eu disse em voz baixa. Olha aí, a janela está aberta, você pode sair, repeti e me recostei no espaldar da cama. E a andorinha quase colada ao teto, voando. Voando. Esperei. O que mais podia fazer senão esperar? Qualquer intervenção seria fatal, disso eu sabia bem. Tinha apenas que ficar ali imóvel, respirando em silêncio porque até meu sopro podia assustá-la.

Voltei o olhar para o pequeno relógio. Mas o que significava isso? Uma andorinha assim solta na noite, voando despassarada no meio da noite, de onde tinha vindo e para onde ia? Ainda estava escuro quando ela entrou e começou a voar coroando a minha cabeça com seus voos obsessivos. Que continuavam agora no teto numa ronda tão angustiada. E com tantos quartos disponíveis nessa cidade, por que teria escolhido o quarto do hotel desta forasteira?

Inesperadamente ela conseguiu escapar da ronda em círculos e foi pousar no globo do lustre. E ali ficou descansando num descanso inseguro porque as patinhas trementes escorregavam no vidro leitoso do globo, teve que apoiar o bico arfante num dos elos da corrente de bronze por onde passava o fio elétrico.

Vamos, minha querida, desça daí, pedi em voz baixa. A janela está aberta, repeti e fiz um movimento com a cabeça na direção da janela. Para meu espanto, ela obedeceu mas ao invés de sair, pousou na trave de madeira dos pés da minha cama. Pousou e ficou assim de frente, me encarando, as asas um pouco descoladas do corpo e o bico entreaberto, arfante. Ainda assim me pareceu mais tranquila. Os olhinhos redondos fixos em mim. A plumagem azul-noite tão luzidia e lisa, se eu me inclinasse e escorregasse um pouco poderia tocar na minha visitante. Andorinha, andorinha, eu disse baixinho, você é livre. Não quer sair?

Aos poucos foi ficando mais calma, as asas coladas ao corpo. Continuava equilibrada no espaldar de madeira roliça, mudando de posição num movimento de balanço ao passar de uma patinha para a outra. E os olhos fixos em mim. Mas esta é hora de andorinha ficar assim solta? Por onde você andou, hein?

Ela não respondeu mas inclinou a cabeça para o ombro e sorriu, aquele era o seu jeito de sorrir. Apaguei o abajur. Quem sabe na penumbra ela atinasse com a madrugada que ia se abrindo lá fora? Com a mão do pensamento consegui alcançá-la e delicadamente fiz com que se voltasse para a janela. Adeus! eu disse. Então ela abriu as asas e saiu num voo alto. Firme. Antes de desaparecer na névoa ainda traçou alguns hieróglifos no azul do céu.

Véspera dessa viagem para Marília. E a voz tão comovida de Leo Gilson Ribeiro, a Clarice Lispector está mal, muito mal. Desliguei o telefone e fiquei lembrando da viagem que fizemos juntas para a Colômbia, um congresso de escritores, tudo meio confuso, em que ano foi isso? Ah, não interessa a data, estávamos tão contentes, isso é o que importa, contentes e livres na universidade da cálida Cali. Combinamos ir no mesmo avião que decolou sereno mas na metade da viagem começou a subir e a descer, meio desgovernado. Comecei a tremer, na realidade, odeio avião mas por que será que estou sempre metida em algum deles? Para disfarçar, abri um jornal, afetando indiferença, oh! a literatura, o teatro. Clarice estava na cadeira ao lado, aquela cadeira que comparo à cadeira de dentista, cômoda, higiênica e detestável. Então ela apertou o meu braço e riu. Fique tranquila porque a minha cartomante já avisou, não vou morrer em nenhum desastre! E o tranquila e o desastre com aqueles rrr a mais na pronúncia que eu achava bastante charmosa, desastrrre!

Desatei a rir do argumento. A carrrtomante, Clarice?... E nesse justo instante as nuvens se abriram numa debandada e o avião pairou sereníssimo acima de todas as coisas, Eh! Colômbia.

La Nueva Narrativa Latinoamericana. No hotel, os congressistas já tinham começado suas discussões na grande sala. Mas essa gente fala demais! queixou-se a Clarice na tarde do dia seguinte, quando então combinamos fugir para fazer algumas compras. Na rua das lojas fomos perseguidas por moleques que com ar secreto nos ofereciam aquelas coisas que os brasileiros apreciam... Corri com um deles que insistiu demais. Já somos loucas pela própria natureza, eu disse. Não precisamos disso! Clarice riu e com o vozeirão nasalado perguntou onde ficavam as lojas de joias, queríamos ver as esmeraldas, Esmerraldas!

Quando chegamos ao hotel, lá estavam todos ainda reunidos naqueles encontros que não acabavam mais. Mas esses escrrritores deviam estar em suas casas escrrrevendo! — resmungou a Clarice enquanto disfarçadamente nos encaminhamos para o bar um pouco adiante da sala das ponencias; a nossa intervenção estava marcada para o dia seguinte. Quando eu devia começar dizendo que literatura no tiene sexo, como los ángeles. Alguma novidade nisso? Nenhuma novidade. Então a solução mesmo era comemorar com champanhe (ela pediu champanhe) e vinho tinto (pedi vinho) a ausência de novidades. Já tinham nos avisado que o salmão colombiano era ótimo, pedimos então salmão com pão preto, ah, era bom o encontro das escritoras e amigas que moravam longe, ela no Rio e eu em São Paulo. Tanto apetite e tanto assunto em comum, os amigos. A dificuldade do ofício e que era melhor esquecer no momento, a conversa devia ser amena, que os problemas, dezenas de problemas!, estavam sendo discutidos na sala logo ali adiante. No refúgio do bar, apenas duas guapas brasileñas com pesetas na carteira e com muito assunto. Clarice queria a minha opinião, afinal, quem era mais indiscreto depois da traição, o homem ou a mulher?

Lembrei que nos antigamentes (assim falava tia Laura) a mulher era um verdadeiro sepulcro, ninguém ficava sabendo de nada. Século XIX, início do século XX, Silencio en la noche, diz o tango argentino. Ainda o silêncio porque segundo Machado de Assis, o encanto da trama era o mistério. Na minha primeira leitura (é claro, Dom Casmurro) confessei ter achado Capitu uma inocente e o marido, esse sim, um chato neurótico. Mas na segunda leitura mudou tudo, a dissimulada, a manipuladora era ela. Ele era a vítima. Clarice pediu cigarros, eram bons os cigarros colombianos? Franziu a boca e confessou que sempre duvidou da moça, Mulher é o diabo! exclamou e desatei a rir, a coincidência: era exatamente essa a frase daquele engolidor de gilete do meu conto “O Moço do Saxofone”. Acho que agora elas já estão exagerando, não? Os homens verdes de medo e elas as primeiras a alardear, Pulei a cerca!... Mulher é o diabo!

Quando saímos, os congressistas já deixavam a sala de reuniões. “Olha só como eles estão fatigados e tristes!”, ela cochichou. E pediu que eu ficasse séria, tínhamos que fazer de conta que também estávamos lá no fundo da sala. Ofereceu-me depressa uma pastilha de hortelã e enfiou outra na boca, o hálito. Entregamos os nossos pacotes de compras a uma camareira que passava e Clarice recomendou muito que a moça não trocasse os pacotes das corbatas, na caixa vermelha estavam as corbatas que ela comprara, a camareira entendeu bem?

As recomendações de Clarice. No último bilhete que me escreveu, naquela letra desgarrada, pediu: Desanuvie essa testa e compre um vestido branco!

*

Um momento, agora eu estava em Marília e tinha que me apressar, o depoimento seria dentro de uma hora, ah! essas demoradas lembranças.

Quando entrei no saguão da Faculdade, uma jovem veio ao meu encontro. O olhar estava assustado e a voz me pareceu trêmula, A senhora ouviu? Saiu agora mesmo no noticiário do rádio, a Clarice Lispector morreu essa noite!

Fiquei um momento muda. Abracei a mocinha. Eu já sabia, disse antes de entrar na sala. Eu já sabia.


(Durante aquele estranho chá,  Companhia das Letras)


sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

BOOK TRAILER | poesia "Cabeça de Antígona" de Patricia Porto





Reformatório | http://reformatorio.com.br



Maranhense, nascida em São Luís, radicada em Niterói, Patrícia Porto é formada em Literatura e mestre e doutora em Educação. Tanto como pesquisadora, quanto poeta, Patrícia Porto trabalha a memória como matéria prima de suas criações. CABEÇA DE ANTÍGONA (Ed. Reformatório, 2017) é o seu trabalho mais depurado no mergulho na memória. É o ponto alto de uma trilogia poética.Nele, a memória não é fundadora nem salvadora. A memória é carne. É corpo. É mulher. É aqui e agora. É onde a memória encontra seu lugar no mundo – e onde pode enfrentá-lo. Não há dúvida que o corpo feminino é um campo de disputas, de desejos, de interdições, de promessas e de libertação. Mas quando esse corpo é também o corpo da memória, todas essas características são transpassadas pelo tempo passado e pelo hoje. O corpo é a casa da memória. E Cabeça de Antígona é a casa em que essa memória se diz, se afirma, se impõe e encara o futuro, como se o anjo de Klee, inspirador de Walter Benjamin, decidisse virar para frente e abrisse as asas.



Onde adquirir: http://www.tanlup.com/cabeca-de-antigona-de-patricia-porto-1171538


quarta-feira, 22 de novembro de 2017

“CABEÇA DE ANTÍGONA” faz uma bela mediação entre a cena e o poema




Resenha de Fernando Andrade
Ambrosia
http://ambrosia.com.br/literatura/cabeca-de-antigona-faz-uma-bela-mediacao-entre-cena-e-o-poema/

A vida é pequena para uma tragédia? A vida é longa em suas pa(i)ssagens? Como ver em cada cena, luz & sombra como um teatro reflete o vivente que nela se deita, palco? porque a vida em pé nunca saberemos quantas pedrinhas ou britas da poesia do Drummond (ande) haverá no caminho. Será que todos aparato das experiências que estão dentro do baú de guardados foram esquecidas?

Pergunto, olhando as pessoas, se temos gosto pelo inóspito destas paisagens onde o horizonte reflete a alma do caminhante-viajante. Se a vida é narrativa mas não ficção, o quê? O poeta pode fazer com a palavra-meta. A tarefa ou liame é lidar com os olhos do subtexto, pois o poeta tem uma faca atrelada ao dentes que é a linguagem. Corta que é uma maravilha. Corta na carne e sangra…

O livro de poemas Cabeça de Antígona da poeta Patricia Porto pela Editora Reformatório, poemas narrativos que possuem na maioria das vezes, um enredo. Mas a poeta os costura com uma lírica do rés do chão não pisando ou falando de territórios, mas talvez sim: geografia, que pode ser uma espécie de existência terrena, terráquea, algo como uma vida geográfica. Natureza humana – no dicionário planeta, natureza física. Mas que é corpo.

Há uma forte sensação de pertencimento nas palavras evocativas e fortes da poeta. Sua costura de imagens belas através dos versos me lembrou aqueles poemas épicos em que os acontecimentos pequenos e grandes vêm junto das boas “guerras”. O personagem é a via de uma interiorização, como no teatro que todo trabalho do ator parte de dentro para exteriorizar o fora no espaço cênico onde a plateia se choca com os jorros do magma textual-sensorial de cada ator-personagem. No livro da poeta,  ela parte bem por dentro de si, em suas raízes, em sua jornadas noite adentro para encenar e não expor suas fricções entre vida e bardo.

Sua palavra não vem de um contexto religioso, não há tom misericordioso em sua (po)ética. Patricia domina como poucos a textura/tessitura de um relação entre vida e mímese, entre  contido e o biográfico. Todo o livro é dividido em partes do próprio processo formativo do corpo como memória, experiência.

********************
FERNANDO ANDRADE
http://ambrosia
Escritor e poeta, e jornalista, tem dois livros de poemas, Lacan por Câmeras Cinematográficas, e Poemometria lançados pela editora Oito e meio. Participa do coletivo de Arte, Caneta lente e pincel, com contos e poemas. também participa do Trema Literatura, coletivo de textos de ficção. tem entre seus escritores mais amados, Thomas Pynchon, Ìtalo Calvino, e no cinema ama demais Krzysztof Kieslowski



sexta-feira, 10 de novembro de 2017

13 por dia



Kylli Sparre


18 homens sobre seu corpo
13 mulheres assassinadas
18 homens num dia
13 mulheres por dia

Assassinadas

18 homens e a lei
13 mulheres assassinadas
18 homens decidem
13 mulheres assassinadas

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Barrocas

Pina Bausch - Blaubart, 1977


              Tudo tão provisório, Rose. Hoje encontrei nossas cartas, os poemas trocados no escuro da rua. Onde você estaria neste mundo? Por que não te encontro em lugar nenhum? De nós duas apenas uma foto com o sabor dos anos oitenta. E ainda guardo um guardanapo com escritas tortas, versos da nossa última vez num pé sujo. Por isso preciso andar todos os dias para tentar juntar estes fragmentos que também não me consolariam mais da perda da alma amiga.
                 Tudo tão intrigado em 86, uma mola de suspensão, uma ampulheta quebrada, um país se abrindo, mas não para nós, esquecidas de tantos e no chão de um alçapão de colher mulheres. Pois veja, essa minha roupa íntima, por exemplo, ela está muito bem surrada, vem sendo amaciada pelo meu sexo e vive desses contatos provisórios com minha mais doce e ácida notícia, minha pertença de mulher, uma mulher desconhecida das outras. Perdoem, elas não sabem de nós. São puras e inocentes, mamaram nos peitos de outras mães puras e inocentes e ainda tiveram boas escolas. Minha calcinha amaciada de algodão é minha poesia íntima e diária, longe daquele nome coletor que nos ordenava a costura de peças para reposição das vaginas de moças que se julgavam tão esclarecidas sobre nós, mas que nunca pisariam em nossos territórios – por medo, vergonha ou pelos dois. Pobres moças envergonhadas. Perdoem, elas não sabem de nós, Rose. Não sabem a metade da fruta que se pode sorver.
             E lembro que eu e Rose, debruçadas sobre a janela, ficávamos juntas fumando um baseado. Rose sim sabia onde escondê-lo. Ríamos do cheiro, porque passado pela revista das guardas, fumávamos outras tantas intimidades. A pele, erva doce, cabelos pubianos. Fumávamos uma cigarrilha e íamos para o disfarce, a cigarrilha que eu comprava como criminosa ao invés do pão. A pele e osso como deboche para as propagandas de alimentação saudável. Brincávamos as duas de trocar palavras, como "nada, nós fumamos apenas umas cigarrinhas", era como um tapa nos que nos condenavam por sermos mulheres da cidade baixa, nós ali brincando de jardins nos ralos da periferia, preservando os reinos vegetal, mineral e animal - para que as mais fortes crescessem robustas, rosadas. Nossos corpos de cigarras, nossos pelos pubianos, os cheiros crespos de nossos corpos, sabor de boca na nuca, o clitóris na boca um botão, entumecido, para ser chupado e na língua o delicado se abrindo e fechando em grandes, pequenos lábios de nossa linguagem de mistérios marinhos, molhados, molhadas, liquefeitas. Era tudo tão fundo que gargalhávamos das pequenas transgressões como loucas sedentas uma da outra. O salgado do abismo nos unia, a solidão das migrantes, a ousadia das putas, a insensatez dos homens que nos batiam e pagavam cervejas no fim do expediente. Sonhávamos em ser mulheres barrocas como as da igreja onde não íamos rezar, porque éramos a escória contagiada por todo tipo de subversão sem perspectivas de nada.
                  Conversávamos longamente sobre suicídio. Era um tema recorrente, porque éramos feias e pobres, não tínhamos casa, vivíamos nas rodas dos inválidos, apanhando de um ou de outro. Tínhamos direito ao suicídio, perguntei? Rose então me disse que não, morreríamos em asilos ou manicômios, isoladas dos pequenos prazeres terrenos, morreríamos de nosso próprio esgotamento de vida, amofinadas, e morreríamos da crueldade disfarçada de bondade humana, outra violência.
                 Para Rose, suicídio era uma terra apartada, não nos era palavra familiar como homicídio, morte a pauladas. Era um outro continente, como viajar para um país de outra língua, comprar uma peça de consumo caro, um queijo fedido, pertencia às que podiam comprar um bilhete sem volta.
               Ao barulho do sinal, entre gargalhadas ainda, nosso efeito de pequena rebeldia esfumaçava. Voltávamos de mãos dadas para o calabouço da colônia. Siamesas. Atemporais também.
              Antes de entrar, ela arrancou um hibisco e colocou no meu cabelo, suave na brutalidade do corte. Arrancou um hibisco em pleno dia e o sol ainda iluminava nossas caras!
              Éramos barrocas.


Patricia Porto

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

CABEÇA DE ANTÍGONA




CABEÇA DE ANTÍGONA - RELEASE

Maranhense, nascida em São Luís, radicada em Niterói, Patrícia Porto é formada em Literatura e mestre e doutora em Educação. Tanto como pesquisadora, quanto poeta, Patrícia Porto trabalha a memória como matéria prima de suas criações. CABEÇA DE ANTÍGONA (Ed. Reformatório, 2017) é o seu trabalho mais depurado no mergulho na memória. É o ponto alto de uma triologia poética.

Importante dizer que não se trata de memória ressecada, emoldurada ou de ninar. É a memória que nos faz o que somos e que pode surgir a cada decisão que tomamos, a cada ato do nosso dia a dia. Para Patrícia Porto, a memória é o passado – é uma passagem.

Sobre Pétalas e Preces (201X), seu primeiro livro de poesias, trazia memória como fundadora de ciclos e urdidora de ritos de passagem. Parafraseando o termo “romance de formação”, podemos dizer que os textos apresentados são “poesia de formação”, em que a poeta se apresenta em sua maturidade artística.

Diário de Viagem (2014), o segundo título, é uma experiência a que a autora se propôs. Num ano de perdas e lutas, Patrícia Porto escreveu um diário poético em que não se permitiu correções e reescrituras, em que não deixou que o trabalho estético pusesse sombra sobre o que a poesia é, em seu grito inicial. No livro, a memória surge como horizonte. Em Diário de Viagem, a memória não fica. Ao contrário, é o único lugar possível à frente.

E chegamos à CABEÇA DE ANTÍGONA. Nele, a memória não é fundadora nem salvadora. A memória é carne. É corpo. É mulher. É aqui e agora. É onde a memória encontra seu lugar no mundo – e onde pode enfrentá-lo. Não há dúvida que o corpo feminino é um campo de disputas, de desejos, de interdições, de promessas e de libertação. Mas quando esse corpo é também o corpo da memória, todas essas características são transpassadas pelo tempo passado e pelo hoje. O corpo é a casa da memória. E Cabeça de Antígona é a casa em que essa memória se diz, se afirma, se impõe e encara o futuro, como se o anjo de Klee, inspirador de Walter Benjamin, decidisse virar para frente e abrisse as asas.
 
Ricardo Gualda

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Cabeça de Antígona, Patricia Porto

No dia 14 teremos o pré-lançamento do livro no evento nacional Mulherio das Letras, no espaço multicultural Tamarindeira Processos Criativos. João Pessoa, Paraíba, às 21h




 



No dia 18 o lançamento será na Blooks, no Reserva Cultural, Niterói, 19h - 22h




terça-feira, 3 de outubro de 2017

Lançamento Cabeça de Antígona _ Patricia Porto

Lançamento do meu livro. Uma felicidade que divido com vcs.





"Do alto da torre deste reformatório, o repique dos sinos, para anunciar nosso próximo lançamento:

"Cabeça de Antígona", de Patricia Porto que, segundo Délcio Teobaldo na apresentação do livro, "possui o manejo, tem as mãos adestradas ao ofício, mas chuta as panelas, rasga a nesga da saia a navalha, aumenta a chama a ponto de incendeio, erra a pitada do tempero. Por isso, quando me pediu que escrevesse uma orelha para este livro, reagi com ironia: “Ora, ora, Patrícia... Não te farei apenas a orelha. Te faço escuta”. Sonora escuta, porque os poemas de “Cabeça de Antígona” como, aliás, toda a poética de Patrícia Porto é de uma musicalidade que beira ao absurdo. Provoca desvario. Então, não se surpreendam que, cabocla e maliciosamente, sua Antígona se assemelhe a uma ribeirinha ancuda terçando um coco, um tambor de Mina, um samba de roda. Assim ela põe Antígona e Ogum no mesmo terreiro, e no ritmo alucinante da música! (leiam Patrícia Porto em voz alta, por favor!) "


Pré-lançamento em 14/10, durante o encontro do "Mulherio das Letras 2017" em João Pessoa.

Lançamento em 18/10, Niteroi-RJ
(Blooks, Reserva Cultural, 19h)

Em breve mais informações."

(Editora Reformatório)



quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Revolução

Věra Chytilová



Marche, mulher! Marche para fora da aldeia.
Marche sobre os corpos, as dentaduras, os brincos,
as rosas esquecidas, queimadas.
Marche sobre as hóstias salgadas, sobre o desenho de Ariadne.
Marche para a Vila, una-se à tropa.
Marche para o catafalco.
Marche sobre os desertos da Ásia, os danos da América arrependida, o atraso, o feto, a ossadura.
Marche para encontrar as mulheres da Índia, os dias de violência na boca do estômago em Myanmar.
Marche sobre as muralhas da China. Sobre o Himalaia.
Marche sobre o mar de crianças entre as terras. Marche!
Expõe teu útero no penhasco e dá te comer aos que tem fome.

Patricia Porto

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

terra roja



Ana Mendieta

no tempo em que as crianças eram destruídas com o olhar
e se urinavam nas calças,
eu mesma não sabia que se podia viver para além da infância

o apito da fábrica de vinagre era um motor
- máquina de braços
- a jaula do zoo não era mais o único espaço do mundo

havia o som ácido, o vapor, uma tardança quente, abafada
e talvez alguma outra urgência lá fora

longe da Memória?
Não. Nem longe do poço,
de tão fundo, medonho.

Patricia Porto

sábado, 9 de setembro de 2017

Exílio

© Claudia Andujar



A escrita é exílio.
Horizonte que ninguém alcança desde
do verme à dor que rompe o ventre.
E é mais uma vida salobra.
Mais uma que arde de corpo.
Este desejo de retorno é enxame. O lar é detrito,
terra salgada por dentro da carne.

Olhe aqui onde me sangra o peito:
minha casa perdida,
meus mortos enfileirados,
os pés juntos, pés e mãos
das mulheres que se arrebentam na espuma.

Olhe aqui onde minha terra se aparta:
há um solo e esta rachadura sísmica -
uma câmera construindo imagens,
cavalos velhos carregando cargas.

Olhe aqui onde me falta a palavra -
me falta também o ar, o pão e a lanterna.

Aqui é a escrita. Uma revoada de signos.
Sem lugar.
Lugar nenhum.
Ponto só
cego nó
de partida.

Patrícia Porto, Exílio.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

COTURNO 36

Sally Mann


Pediu ao padrasto coturno que coubesse nos pés 36. Ele logo soltou em forma de berro: “e tu é homem? Vai usar coturno pra quê?” Não tinha resposta pra isso. Era astuta, mas era ainda mais moça que astuta. Colocou o velho tênis e foi para o trabalho. Mas meses depois lembrou do assunto de novo: “sargento, não tem como me arrumar um coturno 36?” O padrasto bateu na mesa: “onde é que tu já viu soldado com esse tamanho de pé? Tu é mulher macho?” Foi quando ela desistiu de pedir. O sargento era cabeça dura. Calçou o velho tênis e foi para o trabalho. De noite como era de costume dormia com uma faca embaixo da fronha. Era rotina ser visitada pelo padrasto à noite com o devido consentimento da mãe. Por isso quando tomou tento e força, tratou de trabalhar e no que ganhou o primeiro cruzeiro - comprou uma faca de cabo branco, das grandes, bem afiada. E arrumou amolador - dos bons também. Antes de deitar a mãe mandava orar. "Vai! Ora pra Deus!" Ela pegada do amolador e da faca, deixava o gume tinindo. Sonhava com um belo desfecho de golpe, a cama ensanguentada, a carne do porco perfurada até o osso. Conseguia dormir de alívio. Mas passou um ano e outro e outro ano. A faca só tinindo no aço esperando. Então um dia o padrasto veio. E a faca veio junto - a um dedo da fuça, bem no meio dos olhos. Reluzia na noite, clareando de morte, a achada. O homem assustado fugiu sem nem mesmo chiar, todo amarelo, cagado de medo. No dia seguinte quando ela voltou do trabalho lá estava sobre o travesseiro: o coturno 36, brilhando de engraxado.

Patricia Porto

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Patrícia Porto, "Colônia"

Um dos meus primeiros trabalhos na vida foi num armarinho. Eu tinha uns 15 anos. A dona era uma portuguesa que contratava criança pra trabalhar por míseros dinheiros. Na mesma época li "Crime e Castigo". Lia em pé nas longas horas vazias sem clientes. Alfinetes, linhas, botões, meias, bugigangas de plástico, brinquedos de plástico, muita merda de plástico. Em meus delírios, ainda bem acordada, me imaginava a assassina da patroa branca e rosada. E foi por tanto desejar que um dia pedi demissão. A bruxa me pagou as horas do dia e só. Disse que pagava o restante depois, mas nunca. Joguei todas as pragas que eu conhecia nela, todo mau agouro. Todos os dias esmagava seus olhos e apertava seu pescoço gordo e suado até sentir bom prazer. Quando chegou o Natal, a bruxa enfim me chamou no armarinho. Achei que fosse pagar o que me devia, mas nunca. Pegou um embrulho mal feito e estendeu a mão. "Toma. Estamos quites". Fui rasgando o papelão pelo caminho. Era um grande e desconjuntado bebê de plástico. Fui arrancando parte por parte até chegar em casa. A portuguesa bebê de plástico esquartejada pelo caminho. Tentei esquecer, mas nunca. Posso sentir o gosto de plástico até hoje na boca. Queria uma revolução, mas o mundo era feito de dor e barbárie.



quinta-feira, 10 de agosto de 2017

O tempo





O tempo era um sonho de quando eu era criança e brincava no poço de Jacó. O tempo era o desespero da casa amarela. O tempo fechado de quatro partes de um fruto que eu despedaço.

O tempo no escuro do mato. Não amo. Não mio. Não meio. Meço. Muito tempo. Pouco. Santo Agostinho. Não quero. Abuso. Não pude abraçar. Cheguei tarde. A terra era escura. O tempo da janela. Não vi seu rosto. Não vi o meu.

O tempo na traça. Mordendo meu calcanhar. Bruxa. O tempo da louca. O tempo da vespa. Uma nesga no vestido de chita. O tempo molhando o poço de Jacó, aquele que dormiu com a cabeça na pedra. Eclesiástico.  O tempo da casa. Poeira no espelho. Estou dormindo embaixo do balcão. Minha tia grita. “Um cão foi atropelado!” Não era eu. Nem era você.


Patricia Porto

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Cabra cega


fotografia: Sebastião Salgado




Patricia, filha de Hermozina, nasceu cega de um olho.
Mas Hermozina decidiu esconder.
Um olho basta. Disse Hermozina e pegou da matula pro dia seguinte.
Patricia, filha de Hermozina, cresceu sem saber que era cega de um olho.
Achava que tinha visão estreita e era só.
Cresceu. Casou e multiplicou-se como deu.
Um dia, já muito velha, achou que estava ficando cega e foi no oculista,
porque naquelas bandas era só o que tinha.
Disse o doutor: “Patricia, filha de Hermozina, tu sempre foste cega. De um olho!
agora ficaste dos dois”.

Patricia, filha de Hermozina, nem chorou. Porque ninguém chorava naquelas bandas.


Patricia Porto

domingo, 6 de agosto de 2017

Lagartixa cauda-de-chicote

Mulher sendo espancada em público, 1941, Alemanha Nazista


Enfim encontro-me com a lagartixa
ela que esteve sempre presente
um amigo homem, claro, cortava o rabo da lagartixa
aos aplausos de sua mãe: "vai, filho, corta!"
isso só para vê-lo nascer de novo, o rabo
- coisa de criança - a mãe dele dizia
assim como era um chiste que o mesmo menino chutasse o rabo da babá
- aos cinco anos de idade - quando voltava da sua escola em Londres

Meninos que cortam rabos de lagartixas adoram Londres
- nem preciso fazer pesquisa - conheci muitos

Meninos que ficaram presos no cordão de fel de suas mães
adoram cortar os rabos das lagartixas
- alguns até queimam o rabo da lagartixa

Esses meninos não conhecem as mulheres amazonas
ou as mulheres das ribeiras
Lá onde onde as águas cantam, as florestas abraçam
- meninos que cortam, chutam ou queimam o rabo da lagartixa
- simplesmente não existem

Patricia Porto

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Ouve-me



só te digo isto
hoje
agora
- do fim

não antes
da minha existência

não antes de nós
nem mesmo antes do mundo
como o que conhecemos

só te peço: ouve-me
para dentro
eco
- um canto de sala
o manto de um cristo
dez mil vezes encontrado
sem nenhuma verdade

- minha melhor mentira

Patricia Porto

sábado, 22 de julho de 2017

Patricia Porto_ Flip Internacional 2017




Carta à poeta

Patricia Porto, quando os poetas se dão palavras, as mãos vão junto. Atitude nada fácil nesses tempos de recuos, de olhar o mundo através das frestas e se julgar participante da gira.

Sorte nossa, poeta, você seja oposta a tudo isto. Seu verso pega pelo pescoço, tanto esgana quanto afaga. Traz pra vida. Me arrisco afirmar que a alma de “Diário de viagem para espantalhos e andarilhos” esteja na página 18, mais precisamente no verso: “Viajar é ser estrada’.

Me arrisco porque é imprudente prever seus caminhos, que vão do acalanto – o poema “Maria Judite”, à página 35, não me deixa mentir – ao hard punk rock: “Transberro”, na 124,comprova o que digo.

Patrícia, te penso música sempre que te leio. Tantã, telecoteco, coco, carimbó, curimba:


“Se o tempo é fraco eu bato
faço da madeira um barco
se o tempo é forte eu danço
vestido de temporal...”.
Taí a prova no poema “Gira”, página 165.

E quando me julgo refeito dos espantos da viagem você me oferece um poema: “Janela IV: das conversas com Teobaldo”. Ora, poeta, justo eu, de falar pensativo, tão rápido e pouco? Você abre o meu poema coma a palavra “abismos” e fecha com “invisível”. No coração do poema os versos: “A vida é curva / É pingo de sal na ferida acesa...”

Sei muito bem como é isso, poeta, esse não se dar pausa no sonho nem na carne, que nos aguardam (e lá vamos!) aos encantos das outras viagens...

Admirado e agradecido abraço 

Délcio Teobaldo


domingo, 16 de julho de 2017

Minha avó sábia e minha avó louca

Martine Franck


Minha avó era sábia. Mas até aí Inés é morta. Todo mundo teve ou inventou uma avó sábia pra si. Mas ouço outra voz aqui que diz que isso era "coisa de outros tempos". No tempo antigo dos bondes, onde avós realmente envelheciam e se tornavam sábias. "Nossa, que coisa piegas!" Esta é uma voz nova recente que adquiri há pouco numa das mídias sociais. Por favor, vozes se calem! Nossa, ótimo! Posso falar sozinha aqui? Tudo bem. Estou conseguindo escrever de novo e digo que só vou parar depois de três ou quatro parágrafos. Por favor, não interrompam. Claro que a leitora, o leitor pode se retirar a qualquer momento. Prometo não intervir.
Volto ao início, algo já redundante. Minha avó era sábia. Mas não era só isso. Minha avó era a mais sábia de toda família, família matriarcal. E os homens dessa linhagem sabem do que estou falando. Mas espera, eu também tinha uma avó louca que pareava com a avó sábia, rostos da mesma lua. Dizem até que elas se conheciam muito e tomavam banho de rio juntas. Minha avó sábia disse certa vez: "eram os peitos mais bonitos que eu vi na vida". Achei lindo e libertador que minha avó sábia soubesse e pudesse reconhecer a beleza e a natureza da minha avó louca. Era realmente bonito de saber desse despojamento. E sempre que lembro dessas e outras frases desejo que as meninas tenham a sorte de ter uma avó sábia como a minha, pois ela me criou.
Caiu uma vírgula aqui. E o que seria da diferença no mundo se não existissem as avós loucas? O mundo certamente não precisaria de avós sábias. É um pensamento teimoso que tenho. Mas eu  vou catar esta vírgula aqui de volta, porque minha avó louca foi a primeira mulher da família a ter um ofício só seu. Era costureira e daquelas! De mão cheia! Minha avó louca foi a primeira a andar de cabelo curto na pequena cidade de interior que vivíamos, cidade onde também nasci. Minha avó louca foi a primeira mulher a andar de calça comprida, a primeira porque copiou de uma revista de moda francesa e costurou um modelito só para ela. Ela tomava banho de rio sem roupa. Ela não levava desaforo para lugar nenhum. Era filha de uma índia que saiu de sua aldeia para viver com um homem branco, que mais tarde a abandonou com quatro filhos. As Iracemas não eram românticas naquele lugar. A bisavó índia tratou de espalhar os filhos e minha avó louca foi dada para casamento aos treze anos para um viúvo de quase sessenta. Mas era um mundo antigo, embora já fosse moderno.
Outra vírgula, esta mais gordinha, a definidora de espaços que marcam o entre, o entre nós. Minha avó sábia e minha avó louca tinham em comum um homem. Meu avô paralítico. Meu avô que tinha sido entregue a um casal de empregados para adoção. Mas por que isto aconteceu? Porque meu avô Augusto, um comerciante português, resolveu que não iria criar filho aleijado e para retirá-lo de casa - o deu para os caseiros, André e Teodora - claro, junto com um pedaço de terra - para que não houvesse perigo de devolução. Este avô paralítico, por destino ou o que seja, também se tornou comerciante, dono de quitanda e um dia se apaixonou loucamente por minha avó louca, a filha da índia - que tinha desparecido no mundo nesta parte da história. Quando isso aconteceu, minha avó louca já vivia sozinha com cinco filhos do viúvo, tinha fugido para bem longe. Era empregada doméstica e limpava as janelas de uma casa grande quando meu avô paralítico viu suas pernas mestiças e ficou encantado. Tiveram quatro filhos, um atrás do outro, cada qual mais bonito e rosado que o outro. Até que. Até que ela desistiu dessa coisa toda. Não era para ela. Arrumou um amante aviador e fugiu para São Paulo, deixando todos os filhos com meu avô manco e quitandeiro. Resumindo: meu avô distribuiu os filhos e começou a beber. Ia definhando na vida até que. Até que encontrou minha avó sábia, viúva, católica sincrética, três filhos. Casou-se com ela imediatamente. Recolheu os filhos espalhados e construiu uma casa boa que abrigasse a todos. 
A avó louca? Foi para o Rio de Janeiro. O aviador? Cometeu suicídio. Ela, a louca, enfim se casou com um homem evangélico e padeiro. Teve uma última filha, mas ninguém sabe com quem. Passou os últimos dias como evangélica radical, pregando moral a todos que se aproximassem. Não cortava mais o cabelo - que chegava até os joelhos, não vestia mais roupa curta ou que mostrasse os braços. Não se maquiava mais nem gostava mais de enfeites. Passava o dia ouvindo a rádio relógio, marcando sei lá que tempo em sua cabeça. Não gostava de crianças, não gostava de bichos, não gostava de mim. Isso eu lembro bem. Morreu de câncer no fígado, mas viveu bastante, por quase nove décadas.
Minha avó sábia criou vários filhos, não sabia nem dizer qual era seu qual era da outra. Protegeu todos, adotou netos. Criou bichos, plantas e frustrações. Lágrimas, tristezas, solidão de mulher na casa boa. Perdeu filho jovem para tuberculose. Perdeu meu avô, o coxo, para a bebida. Sofreu acidente. Ficou coxa, manca, passou a usar moletas, cadeira de rodas. Perdeu a casa por dívidas, perdeu netos e mais filho, perdeu até fazer parar o coração.                        
Fico aqui olhando passar aquelas avós - na zona vermelha da minha memória fragilizada. Estou no tempo da matrioska. Eu, mulher que vai entrando na casa de ser avó. E gosto de lembrar e recebê-las em mim como cultura, linguagem, ferramentas para o mundo que se torna água. Não consigo distanciá-las mais, talvez a louca tenha sido mais sábia e a sábia tenha sido - de fato - a louca. Elas se mesclam na mesma pessoa, na mulher que me tornei e me torno todos os dias - sábia e louca, louca e sábia, cheia de contradições, bipartida, repartida, enigmática, solitária em meus afazeres, deserta em minha sensatez, absurda em minha loucura. E não posso, não devo renegar nenhuma delas, porque essas mulheres é que me habitam. Quem quiser que me conte outra. 

Patricia Porto

quinta-feira, 13 de julho de 2017

versões



ela era pluma, eu peso
ela dia, eu noite absurda
ela o dorso, eu a sentença escusa
todas as horas nuas
todas as vias sujas

ela crua, eu triste
ela dança, eu norte
ela crença, eu nadando em abismos
ela celophane, eu escrevendo no chão
ela dançando no chão
eu cuspindo no chão
ela olhando pra cima
esperando uma espaçonave
eu comendo no prato
sem receios de fazer doer

ela foi para o paraíso, pluma
eu nem fui visitá-la, peso

Patricia Porto

sábado, 8 de julho de 2017

Ribeirinhas

(À Wanda Monteiro)

se eu te percebo e na minha pele cruza um rio
- se na minha pele sefixa a tua cicatriz que é fluída
- era de quem falávamos às águas?
sobre qual corpo-santo nos aquietamos?
eu e tu, as ribeirinhas, siamesas da mesma língua?


Patricia Porto

sexta-feira, 7 de julho de 2017

a revolução da pedra

Pina Bausch 


A pedra que pensam: "ora, não balbucia
- é toda silêncio..."
- no inerte faz o sentido bruto
de ser testemunha clandestina da mudança

A pedra em seu elemento terra não lamenta,
não abdica nem capitula
- está exatamente onde deveria estar -

e a favor do movimento - permanece intacta
- mais dura ainda, aguda ao desejo do passante


Patricia Porto

terça-feira, 4 de julho de 2017

ZumZumZum




Tem esse som por dentro, voz da mulher da terra,
da mulher do mar, de concha, raiz forte da mulher de dentro
em ciclos.
As mulheres que zelam pelas histórias da terra e do mar.
As mulheres que nascem na sementeira, destino... giram na flor.
Tão fecunda a água.
Cada praça, cada canto, cada pedra,
os sons batem no coração dessa mulher.
Mar de dentro chora,
chuva de dentro escorre as dores vizinhas dessa mulher.
Vai. Vem. Vem, Vai... é cheia.
Nos olhos dessa mulher a gestação de uns delicados.
O cheiro de amêndoas, a bacia branca de esmalte, a renda,
o rito da morte, o fogaréu, carne salgada e os pés no chão...
São vozes dessa mulher.
A vida inunda, a mulher sangra na pedra, um tambor,
alimenta com seu corpo a festa de amanhã, dança do mar, terra é fecunda,
um círio na escuridão.
Tem esse zum zum zum...
Toca esse zum zum zum...

......

Zumzumzum

Il y a ce son de l’intérieur, voix de la femme de la terre,
de la femme de la mer, de coquillage, racine forte de la femme, de l’intérieur en cycles.
Les femmes qui veillent par les histoires de la terre et de la mer.
Les femmes qui naissent du semis, destin... deviennent fleur.
Tellement féconde est l’eau.
Chaque place, chaque coin, chaque pierre,
les sons battent au cœur de cette femme.
Mer de l’intérieur pleure,
pluie de l’intérieur ruisselle les douleurs voisines de cette femme.
Va. Viens. Viens, Va... elle est pleine.
Dans les yeux de cette femme, la gestation de quelques délicats.
L’odeur d’amandes, la bassine blanche d’émail, la dentelle,
le rite de la mort, le grand feu, viande salée et les pieds dans la terre...
Ce sont les voix de cette femme.
La vie inonde, la femme saigne dans la pierre, un tambour,
alimente avec son corps la fête de demain, danse de la mer, terre est féconde,
un cierge dans l’obscurité.
Il y a ce zum zum zum...
Bruisse ce zum zum zum...

Patricia Porto
Tradução: Axel Dieudonné

domingo, 2 de julho de 2017

Deslocada

É que quanto mais tropeço
mais me abismo em mim mesma
que para doxo imbecil
resistir à doxa
com esse gostinho de denúncia
na língua

um corpo negado ressente
- vulgar

Patricia Porto

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Prodígios

As bruxas de Macbeth por Orson Welles


A avó sentou do meu lado e disse:
esta carne está crua
voltei com a carne pro fogo
no círculo das três mulheres:
eu, a avó e tia Marta, a que matava galinhas

A avó olhava de lado, rasgando a verdade:
a carne ainda crua torrava por fora
e era crua por dentro

corri e deitei água morna
- a carne um tambor bem no peito
o olho sem pisco da tia

secou-se tudo no tempo a boa hora
a carne que cozeu algum sonho
era o lugar do migrante na sorte

a carne na mesa era sol
alimentava as três bruxas
quietas, risonhas, rasgando os pedaços
com todos os dentes

raiz, escama e revide
- um olho de vidro na mão

Patricia Porto

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Pandora

 Brent Stirton,  World Press Photo 2017


na minha mente as imagens da guerra

alguém me grita:
desmonte
o rinoceronte!

desmonte o grau de miopia

na minha cabeça uma farpa
um estrondo
uma máquina
um dínamo

são as crianças afogadas no mar
crianças mortas no barco
crianças sequestradas

tudo exposto, todos premiados
em fotografias

são imagens que me sangram

na minha cabeça uma fita
um cemitério pacífico
um caos ordenado

saio da Almirante Barroso com frios
a cidade esquiva
lutamos nós, feito damas que se odeiam

estou prestes a explodir
sou uma bomba atômica

Patricia Porto

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Da poesia para consumo

quando todas as partes cuidarem das partes que lhe cabem
quantas metades existirão?
de qual aparte será o que me cabe, mulher e humana?
de qual parte serei apartada?
com quantos abades se forma uma parte?
de quantas margens precisa o aparto?
onde caberá a parte maior na parte menor?
nas pequenas subdivisões, ramificações, especulações do mercado
- onde resistirá o amor?
na pequena soma das mortes virtuais? Nas urnas das cinzas de um mundo
onde apenas mães pobres procuram corpos?
onde venderei minha alma pouca, minha perda dentária?
meu universo de palavras não desejadas, não comercializáveis,
o verso que não cabe no copo?

a próxima pele será como o incêndio dos não-identificados
a próxima poesia não será televisionada


Patricia Porto