domingo, 21 de maio de 2017

Ouvidos para sonhos difusos




Hoje pela manhã abrirei a última janela
do último salto
para a última esfera
onde estarão os meus mortos
Hoje pela manhã encontrarei meu cão
minhas horas de fazer nada em repouso
de contar os dias que me sobram
onde estarão os nossos mortos
Hoje pela amanhã pegarei de uma vassoura,
um pano, um balde de água, me fingirei de viva
ao limpar os restos de migalhas de afeto
que mal me são ofertadas
Hoje pela manhã abrirei a geladeira para contar
batatas, ovos, maçãs, viagens envelopadas,
coisas distintas que nunca realizei
Hoje pela manhã vou aguardar as notícias, as boas,
nunca vindas, sempre amontoadas na caixa de correio
das pessoas com muita sorte e nome
Hoje talvez penhorarei aqueles olhos de louça
das histerias obscenas de todas as mulheres findas
- meus braços ainda tremem da espera
- seguram um tempo morto
- abrigam sedentos um campo verde por onde belas criaturas
cintilam na luz de outono
Hoje talvez eu recolha a roupa, o varal, a fratura exposta
e guarde em minha aventura selvagem o desejo único
- o de desaparecer dentro, bem dentro, agradada de minha voz,
desparecida da espécie que mata objetos a facadas
Hoje talvez eu nem apareça na janela que nunca existiu aqui

Patricia Porto

sexta-feira, 12 de maio de 2017

naquele tempo

Elvira Amrhein


naquele tempo o que me importava era
a proteção da bacia, a água, certa espuma
uma qualquer noite azulada

quantas costelas cabem numa coluna de mulher?
lançados com as mãos, quantos dedos cabem nela?
para levantar a mão e socar o rosto gasto dela?

como é fácil bater na mulher da rua, na mulher sem país,
na mulher sem terra, na mulher sem glória,
na mulher sem renda,
na mulher sem dote,
na mulher sem teto,
na mulher tão feminina de pênis,
como é fácil bater na mulher da outra mulher,
na mulher que apanha do outro,
na mulher que se ausenta,
na mulher sem útero,
na mulher de aquário,
na mulher da vida,
na minha mulher,
na mulher que me avizinha

o que não é fácil é a solidão da mulher que apanha a rosa
caminhando pelo bairro

quantos dedos cabem nessa flor sedenta?
como é fácil contar estrelas, olhar pro teto
- são tantas as aves nesse céu

Patricia Porto

quinta-feira, 11 de maio de 2017

não temo destroços

Winter on fire


a vida contemporânea tem muitos barulhos
muitos assaltos de chofre
muitas sentenças de morte
muitos navios pra queimar

odeio telefonemas,
mas não menos que odeio e-mails

sinto saudades da ipanema e de seus teclados

não sinto saudades do subúrbio,
não penso mais em realengo
- ele me cheira com morte e coturnos

não tenho histórias engraçadas pra contar

a vida contempla o humano que sobra em nós,
está enojada por horas
anda descalça na rua onde eu corria e era menina
sinto saudades da minha menina
ela se foi cedo demais

a vida com o tempo é vasta
é o elástico da roda
um dia eu e minhas primas brincamos de hospital
quase matamos uma de nós
brincar poderia matar nossos brinquedos
nossa avó usava muletas e ajudava na descoberta
de que o quintal abrigava entulhos e silêncios

sinto saudades

hoje ainda brinco de morrer,
mas sempre acredito
um pouco

Patricia Porto

segunda-feira, 8 de maio de 2017

a onda



às vezes a onda atravessa a parede
e vem falar comigo: como você está hoje?

às vezes me engole como parte de sua circulação sanguínea

a onda precisa ser revés
golpe na face
corpo no instante
instante nu e tubo
tubo de ensaio
tudo é ensaio
tão frágil
eu sou tão frágil

a onda tão helicoidal
quebrou minha costela de adão
unhas, meu dorso de cavalo,
os dentes postiços
ainda com esses restos da carne

e nós somos, ali e aqui, tão quietos no tubo
tudo tão íntimo e silêncio
que não há língua que nos afaste
nenhuma palavra sonora
nenhum tremor
nenhum visto de entrada
nenhuma foto 3x4 estrangeira

apenas a ressaca
pés sujos
o embrulho na onda
a água batendo
na outra

Patricia Porto

domingo, 7 de maio de 2017

(sem título)

Giovanni Manfredini


O menino preparando um estilingue
A velha deitada em sua cama:

entre se afogar e mergulhar
O mar era o mesmo
A mãe era a mesma
A mão no cabelo
era no entorno, o vazio
de amamentar nos braços o inimigo

Nunca se cansava de dizer
e praguejar: passarinhos ao chão!

O menino dentro da casa de suas ilusões
mais sentidas era de uma sanidade atroz

Pegou da mão do menino e foi brincar de morrer na casa antiga de suas infâncias

Solta esse estilingue, menino!
A morte é a mesma e eu só desejo paz


Patricia Porto

domingo, 30 de abril de 2017

A moça, a bandeira e o cão.

                Para Belchior e todos os Vivos de 76.
                Um texto memorialístico escrito há tempos.


Antonio Dias


             Nem notara que passava diante de um prédio, onde uma cerimônia de hasteamento da bandeira se realizava. Para ela, não havia a calçada quando o horizonte do hino elevava-lhe o espírito. Afinal, crescera com o progresso a abalançar-lhe o coração com o ar de seu nome próprio. Calçadas para ela eram para serem estilhaçadas com pedras portuguesas, para que seus pés forrados com o melhor couro alemão fizessem dos danos de seus algozes um batuque refinado em plena orla de Copacabana. Procurava um prédio alto e uma saída.
                   Enquanto no mastro a bandeira tremulava ao vento, seus cabelos soltos flutuavam luz entre fios manchados em cor, sacudindo-lhe a imaginação no corpo dolorido. O sorriso da travesti era um delírio tão contente que esqueceu dos votos. Então, entrelaçados à imaginação reinavam os fios de algodão de sua camiseta preta repleta de caveiras como se afastasse dela os vivos, o tecido leve da bandeira despejava ouro como folhas de outono numa bateia em forma de redemoinho. Girava-a ao ar, garimpando na luz uma ilusão repetitiva. Despejava-a em forma de filete na calçada quente, onde se desfazia entre pedras pretas e brancas em direção à Avenida Atlântida. O mar e o concreto e a velocidade a acolhiam como se ela fosse uma forma inserida nas pedras. Mas, satisfazer-se no recapeamento do asfalto, tornaria aquela Avenida um mero colar banhado de luzes na garganta de uma vitrine da Zona Sul. Era preciso cantar Belchior bem alto por dentro:

Se você vier me perguntar por onde andei
No tempo em que você sonhava
De olhos abertos, lhe direi:
Amigo, eu me desesperava
Sei que assim falando pensas
Que esse desespero é moda em 76
Mas ando mesmo descontente
Desesperadamente eu grito em português...

                 Na verdade, ela queria mesmo era a grandiosidade dos anos setenta, se revelando nas obras decadentes de sua infância usurpada. Desejava que, naquelas tolas estátuas, o fomento de sua geração fizesse crescer a vida recuperada de sua jornada pela tortura cotidiana, esquecida dos maravilhosos anos setenta de coturnos e cassetetes. Desejava que outras cores vivas vestissem sua bandeira imaginária, de forma que a cada batida de seu sapato de legítimo couro alemão fizesse surgir ali, ao seu lado, escombros do muro invisível que separava os anos de sua juventude dos anos de sua recente inquietude. Destroços de seu muro, pedras portuguesas, batidas absurdamente ouvidas em alto som, batidas de seus passos largos sobre o cimento da modernidade, seguindo-a, farejando-a como um pastor também estrangeiro, farejando sangue. Poderia senti-lo roçar sua perna, roçar o seu pulso, encostando o focinho ao bracelete que carregava um farpado de espinhos, um cão farpado na memória, um cravejado de arranha-céus dentro do peito. Desesperadamente ela gritava em português.

Patrícia Porto

segunda-feira, 24 de abril de 2017

deles nãos sei

Zanele-Muholi


escrever: a quem serve?
deveria servir feito almanaque
aberto de A a Z
mas hoje serviria para me desfazer

hoje escrever me serviria para te desfazer
para te maldizer
para me louvar
para não enlouquecer

talvez servisse para tomar café
com muita cafeína
serviria para acalmar a ressaca do mar
talvez para tentar suprimir o que é extremo
serviria para não mais degradar o homem dele mesmo
última espécie que acredita em alguma bondade

talvez hoje escrever serviria para andar na cidade
e ser gente alguma vez
serviria para não ouvir os passos que atormentam minha mente
talvez para aquietar meus demônios

talvez servisse de água potável
para encontrar o entre
sair da massa
encontrar as áreas de aderência
talvez servisse de céu noturno
carinho de mãe
cama quente
beijo de despedida
amor esquecido na última quadra
o sutiã sobrando na gaveta
nenhum mamilo

os meninos agora brilhando na rua
talvez escrever servisse para isso

enxergar?

nasci cega de um olho

- uso esses espelhinhos

Patricia Porto

sexta-feira, 21 de abril de 2017

A lua dos canalhas



a outra esquecia suas coisas sobre a cômoda
anéis, presilhas de cabelo, lenços coloridos
papéis de bala de hortelã

a outra esquecia suas palavras nas garrafas
eu levantava de noite para beber da sede
e lá bebia a outra toda, nua em prelo

a outra esquecia de aparar a grama do jardim
esquecia seu nome na janela que me abrigava
a outra esquecia seu perfil aberto
sua foto na sacada da minha arma
na carteira do canalha
na sola do meu sapato

eu batia os cascos e nada -
só eu morria devagar, insone, apavorada
ela se rindo enfim
eu cheirando seu lenço
apertando meu pescoço
como um gatilho
um gato manco
sob a lua dos canalhas

Patricia Porto

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Por caridade



sem palavrinhas
sem declarações por hoje
sem soar falso, por favor
a noite assombra
e eu com isso?
sem palavrinhas
sem efeito neon
incertezas, eu caminho pra frente
que amor?
e eu com isso?

vai assoprar uma vela
navegar num barco o sereno do mundo
vai se encharcar de alma
aprender língua de sinais

quem sabe por lá marujos a encontrem
a abracem com seus longos braços de mar
tua sombra de mulher vadia
a vadia da tua alma tonta

quem sabe um deus te abrace
um rio, um sabre
uma coxa aberta ao meio
tua racha
quem sabe teu deserto caiba
em tuas mãos

sem palavrinhas
sem mosteiros ou proteção da chuva ácida
sem sonar falso, meu amor

e eu com isso?
e eu contigo?
meus lábios te mordem
para dizer que neste barco, balsa, terno, rampa
não cabe nós dois

sem palavrinhas
e eu?
eu com isso?

Patricia Porto

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Pássaros benditos para meu funeral



Eu vou unir todos esses pássaros ao meu redor
os que bicam em minha cabeça, por favor, fiquem em silêncio:
vamos ouvir o que os pássaros têm a dizer sobre
as maquinações do tempo contra o afeto,
os pássaros vêm e pousam em meu casaco,
o casaco surrado dos dias de desemprego,
dos dias de desemparo,
dos dias sem poesia,
dos dias do feijão e arroz sem mistura.
Mas eles também vêm para comer algo na minha nuca,
algo que pássaros que bicam a sua cabeça não sabem o que é.

Seu corpo está cheio de alimento para os pássaros
que pousaram em seu casaco,
eles se aproximam e comem da sua nuca,
eles te dizem o quanto das suas velhas coisas,
jogadas no porão, valem às penas que carregam.

O amor, por exemplo, que doçura provar da boca do pássaro o alimento.

 Aos que bicam minha cabeça:
   façam silêncio!

Patrícia Porto

segunda-feira, 10 de abril de 2017

que diabo é isso?

e eu tentando ficar de pé
num pé só

e eu tentando tomar um porre
num gole só

e eu tentando me atirar ao abismo
com uma dentada só

e eu tentando riscar o quadro
com uma marca só de sangue

Logo eu! Logo eu!

Demônia, bruxa, Lazarenta!
Caetana dos infernos

e eu tentando amar um homem só
uma só mulher
uma penca de filhos só

Fadinhas boas me salvem
eu sei que o bem existe
- alguém disse pra mim
enquanto rasgava o meu pescoço

Fadinhas boas, onde estão?

e eu tentando cair no meu peito
num garfada só

Patricia Porto
   

TESTEMUNHO, EXÍLIO E DESALENTO

TESTEMUNHO, EXÍLIO E DESALENTO

                    Estar vivo/viva é um ato de resistência absurda, de negação ao determinismo histórico, econômico, étnico cultural, que coloca o sobrevivente dentro de uma determinada estrutura de poder como a única testemunha de seu próprio exílio. Ao sobrevivente, o “estar banido” não é uma questão de escolha, não é uma falha de sentimento ou de caráter que o torna capaz de escolher para si a cruel opção de “não-pertencer” a qualquer território que lhe acolha, que lhe dê a sensação de bem-estar com outros no mundo. Imagino as crianças que vivem isso como estigma. Fui uma dessas inclusive. Elas são sumariamente culpadas, elas próprias, por seus sofrimentos e danos, ou porque não rezaram direito ou porque não fizeram o dever de casa. A misericórdia dos que se penalizam mora na não-sutil perversidade de culpar o outro pelo próprio sofrimento e por isso mesmo se eximir de qualquer empatia.
                 Ouço e leio muitos discursos sobre igualdade, mas não encontro neles a possibilidade do diálogo legítimo com os diferentes. Não vejo “alteridade” nesta política da palavra que machuca. O que mais vejo é a supressão da fala do outro fantasiada de “lugar de fala”. A política que se faz no diálogo, na palavra, esta ponte entre mim e outro, não pode habitar na negação da fala do outro, no julgamento sem qualquer conhecimento prévio do outro, ou seja, sem nenhuma empatia – e que só serve para calar, abaixar a orelha do outro enquanto se fala – ou berra. 
                A malha do poder e suas tantas estratégias é mesmo muito complexa. Não é fácil ser uma pensadora livre. Pensadora livre, não por escolha, mas por estigma, para servir de testemunha de seu próprio exílio, para servir de culpada pelo seu próprio banimento. Ao menor ruído, desagravado, a lógica da recepção é a do novo colonialismo de fala: a da violência. 
                 Eu adoraria ser testemunha de outra realidade. Mas me deixaram esta de pia: a da busca que me violenta pela verdade que eu não sigo. Não, não a recuso, não recuso nem mesmo esta dialética torta. Não recuso sequer o desalento que me fere. E respondo, responderei sempre - antes porque é da minha natureza; depois, porque acredito que não há política, filosofia, arte, vida sem diálogo.

Patricia Porto

sábado, 8 de abril de 2017

Bom dia, América!

1915, Saudação à bandeira, EUA

Eu não sei ao certo se foi em gênesis ou se estava no site de notícias.
Não, este não é um poema engraçadinho e rápido para cumprir 140 caracteres
de pensamento instantâneo sobre o mundo e sobre o meu modo de fazer.
Não consigo achar graça dos que fazem graça.
Estou tentando fazer o meu café sem eletrônicos, mas um pássaro sinistro faz sons
estranhos na minha janela. Ligo o som fake de montanha e riacho.
Li que a máquina mais medonha do mundo será a que chegará ao talvez de tudo.
Talvez esfolem crianças ou talvez envenenem esse solo.
Tanto faz o talvez se nossos sangues não se misturam quando não somos iguais.
A guerra durará um século antes de abrirmos os olhos pela manhã.
Porque a situação é a seguinte: "eu confio tanto no outro como o outro em mim".
Guardemos nossos tesouros com chaves, guardemos nossas histórias em segredo.
Guardemos nossos cofres, nossos risos cínicos, nossos tumores.
Guardemos nossas vigílias, nossos interesses, nossos amantes.
Guardemos nossas senhas, nossos demônios, nossos gritos noturnos.
Guardemos o terror, as carnes que tremem, todos os corações disparados.
Disparados!]
A bala que te mata, de quem é?
Açúcar. Esqueci de comprar.

Patricia Porto
 

segunda-feira, 3 de abril de 2017

faca cega

Paul den Hollander_ South Limburg, 1978


Não existe este fora
ou este dentro
- tudo está agora naquela figura, a esfumaça
que cruza meu desejo de criar poemas

pediram para não citar o poema em vão
de ideia, foice que seja, em vão dessas minhas vigilâncias,
para não ser comida numa mastigada só, sem as beiradas

digo ao Rei que existe apenas o vestígio de ontem?
Que Ofélia serei se não mais estarei morta ao largo?
Ele me vê, porque sei que me espia pelas entrelinhas,
me vareja com seus dentes afiados, absolutos

E o vão, o vão é sempre tão sedutor,
mas que raio de poeta serei eu se não me enxergar na própria porta?
Contemporânea às tuas faces
feito Atena,
consumindo revistas,
direi do alto deste penhasco sem nenhum Cristo:

não, Destino, não há dentro ou fora
apenas vão
agora vão

Patricia Porto

segunda-feira, 20 de março de 2017

Para meu pai que está enterrado em Creta





Esta canção de desespero é para meu pai:
o sem rosto

sentada em banquete com meus espectros
lembro de pedir um fundo de abismo
que não traga espelhos

quero esquecer para sempre esmolas de afeto e amores cínicos

abraço apenas os desconhecidos, estou sóbria
cansada, mas sóbria

esta navalha no bolso, por exemplo,

é para o último cordão

o sonho íntimo do atropelamento é para crianças
que andam no asfalto

tenho pés inchados de andar

Patrícia Porto

sexta-feira, 17 de março de 2017

Da Arte de ter filhos

          



          
        Ser mãe, pai de alguém exige, logo de início, três idades: matur-idade, sensibil-idade, gêneros-idade. Você se torna pai e mãe de alguém quando, aos poucos, percebe que vai precisar por um bom período da vida cuidar mais de outra pessoa que de si mesmo, e como na oração de São Francisco aprende que pode amar muito mais do que ser amado e que pode perdoar mais que esperar ser perdoado. É por vezes aquele fogo esplêndido que nos torna divinos, próximos do alto e do ato de toda criação humana. E também é o abismo a engolir nossos pés, a nos revelar sobre a superfície sombria que há no diálogo com as pedras e que nos faz plenos do humano que vive dentro de nós.
          Ter filhos não é e nem se pode comparar com plantar uma árvore ou escrever um livro. Eu que já fiz os três sei por pele à flor que “filhos” superam as outras duas experiências e que ela, a experiência de “tê-los e sabê-los” é que nos golpeia com o melhor e o pior da nossa própria natureza. Prefiro aqui falar do melhor, pois do melhor depende o suficiente de nós. E essa parte que depende de nós é feita de trabalho, um artesanato continuo que comunga com o estar aberto a entrar na roda e girar ao seu sabor e saber. Afinal há sempre o imponderável, a surpresa, o tal inesperado de viver. Perigoso como disse o Rosa.
          E há de tudo nesse exercício e de tudo se vive “um pouco”: um pouco de medo, um pouco de insegurança, um pouco de choro. E se vive também do “tanto”: de tanto orgulho, tanto alívio, tanto respeito. E é claro, se vive do “baita”: baita alegria, baita susto, um baita desespero se chora sem que se saiba o porquê ou se fica sem conseguir respirar direito no meio da madrugada. Você quer ser o ar, um sopro de cura repentino ou quer mesmo transferir o seu peito pro dele ou dela – com as próprias mãos estendidas. E torce pra que a noite se torne dia imediatamente e a noite vai ficando longa de doer sem fim. Então você pode, inevitavelmente, vir a descobrir que tem pouco: pouco recurso, pouco dinheiro, pouco sossego. E descobre que tem muito: muito amor, muito amor, muito amor. E se doa de graça como nunca imaginou fazer na vida. Você que era tão egoísta, tão yuppie, tão workaholic, tão porra loca, tão “não tô nem aí”... Encantado agora com aquela coisinha fofa... Tão preocupado com a nota de Física. Você que era tão politicamente frio vira manteiga derretida de carteirinha, de platéia e arquibancada.
          Ser mãe ou pai de alguém é também precisar contar: contar as noites de sono sem dormir, contar os carneirinhos quando se tem noite, mas a insônia vem e eles não chegam em casa, contar os dias que faltam pros pequenos irem pra escola pela primeira vez ou contar os dias que faltam pra chegada deles que foram fazer aquela viagem dos sonhos pra um país que você não sabe sequer pronunciar o nome. E que de lá deram aquele pulinho de alguns bons anos conhecendo o mundo, se aventurando em outras viagens. E aí você conta: conta uma história pra dormir, conta as moedas pro sorvete, conta uma notícia triste, conta uma anedota, “aquela do papagaio que...”, conta as suas travessuras quando menina, menino; conta que se esbaldou no primeiro, segundo, terceiro Rock in Rio só pra dar aquela concorrida. E conta, conta com a fé, com a esperança – sempre, última, pequenininha, com o santinho já suado de torcido na mão. Você se agarra nela: esperança, porta, saída, quando todos já desistiram, já baixaram a cortina ou fecharam pra balanço. Você é a última pessoa, a pessoa que não apaga a luz nem mesmo quando o mais sensato é economizar. Economizar o espírito, o coração. Ah, o coração. Esse sofre! Quando não morre mesmo! Várias vezes! Por dias, meses, anos a fio. Vai lá o coração: na boca! No estômago! No corpo inteiro e como disse o poeta Maiakovski: “somos todo coração”. E somos lágrimas, risos, sentimentos confusos, de espelho, de figuras gregas. Queremos dar o que não tivemos ou tomar o que tivemos de sobra. Dias de estranhezas e profundezas na alma. E podemos até nos confundir com eles nas quedas dos saltos, nas asas deles podemos imitar a nossa ideia de liberdade; pro que liberta ou castra, pro que não sabemos ou não ousamos libertar de nós.
         Filhos: eles são sempre mais jovens que nossos olhos, que nossas possibilidades de enxergá-los com mais clareza. E por isso mesmo há neles e é deles o novo viço da vida, a beleza dos pequenos extraordinários, o ímpeto, o sublime e a aventura. Sim, eles estão mais perto da primeira parca e é deles todo um tecido que há pela frente para se passar o bastão, o chão da terra roxa. Que bom quando não há nenhuma trapaça, nenhum tipo de traça tentando ruir o que é somente deles: o sonho, o desejo, a vontade de ser mais ou menos, mais e menos, menos e mais. Ser pai e mãe então é refletir: sobre a espera, sobre o tempo, sobre as angustias diante do começo ou do fim, refletir sobre o ser mesmo, sobre as certezas arruinadas, sobre saber se despedir quando é preciso, sobre margens desde cedo anunciadas. E ser criança na infância que ele traduzir. E saber que não se pode libertar o que já nasceu liberto para ser inteiro.   
         Ser mãe e pai é re-aprender todos os dias aquelas quatro operações matemáticas: dividir, somar, diminuir e multiplicar. Diminuir talvez a mais difícil, como cortar na carne, sair do centro pra viver a delicadeza da periferia. Falar menos, ouvir mais. Sorrir mais, podar menos. Abraçar mais, o que conseguir. É nossa a sabedoria. E serão nossos também o que eles saberão de melhor na terra: os filhos deles, os netos. A vós... Avós são uma outra margem... Como migalhinhas de pão, doces de chuva, histórias de outras vidas, as mais antigas, as mais sonoras de todas...

Patrícia Porto

domingo, 12 de março de 2017

Sem licença




Ser leve. Peso pluma.
Ser do pássaro o imponderável.
Não criar raízes. Criar asas.
Escrever na pedra o sangue fresco.
Beber do sangue e ritualizar a promessa de ser uma. 
Guardar o corpo para a próxima estação

segunda-feira, 6 de março de 2017

...



Viajar seria a palavra na falta da outra
Na falta da outra seria a mão a revoltar a terra
Na falta da outra uma pá, uma prótese
para esquivar tranquila da onda

e mergulhar, ser imersão,
engolir sozinha o que há de tudo até os miolos

Re voltar na vida
uma vela de lumieiro
ou acender aquela alma tão doentinha, a estrangeira

Viajar para a outra parte e ser do outro o ex-mundo no mesmo
como quem diz ser perto demais a dimensão do oceano
para perder o fio da cabeça

ler reclames de ilusões nos prédios altos
e acreditar que teto é abrigo
que amigo é o hostil que te dá tapas nas costas,

Na falta de todos ver o mar (os avisos)
arriscar ser na torre próxima, o corpo e o signo da vez

Viajar sozinha sem nenhum efeito placebo -
Irremediavelmente imunda
a Retirante

Deus é mãe,
o espírito, humano,
Patrícia

o filho é que é o intraduzível,
língua outra

Patricia Porto

quinta-feira, 2 de março de 2017

Matheus e A Mariposa




                      Naquele verão quente de janeiro, naquela cidade fria e quase sem vida noturna, fomos ao teatro ver a peça de Matheus, o “Processo de Conscerto do Desejo”, peça em que ele declama poemas escritos por sua mãe, Maria Cecília Nachtergaele, moça muito jovem que cometeu suicídio quando ele tinha apenas 3 meses. Mas antes de falar disso por completo, quero trazer outra lembrança, porque nas sincronias da vida, eu também tinha ido, semanas antes, ao Oi Futuro ver uma peça-montagem de Diana Blok sobre identidade e diversidade nas relações afetivas. Sim, lá estava o Matheus, lindo, travestido de mariposa em flores miúdas. Impossível não amar a perspectiva cênica naquela perfeita transmutação de gênero, daquele paulista mais nordestino que já vi na vida. Tenho dito. Quando voltei à peça de Matheus já havia uma intimidade entre nós, um convite à poesia, um convite para dentro, quando alguém diz: "vem mais perto, vem aqui conhecer os meus interiores. Mas logo aviso, que não são lá todos bonitos." Assim sentimos a pele do ator encarnado, ator amoroso, despido entre luzes que não destacam apenas vaidade, comum e até necessária. Era o homem-menino-mariposa em flores miúdas, travestido de poema, nu, belo de gênero e palavra. Às vezes se fazendo canto de música para a caixa de memórias, a ressonância enigmática dos suicidas, noutros momentos era o silêncio, fundo, tão fundo sem razão para qualquer palavra. Quanta beleza há na pedra, naquele fio de água passando ali... Saí do espetáculo, um espetáculo, extasiada, poética, bailando entre flores miúdas. Eis que no caminho de volta, na rua escura, lá nos encontramos nós, eu e ela sozinhas, eu e a mariposa. Sincronias.

Patricia Porto

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Do Pau Oco

Lua Morales


no tempo do cala-bouço
há uma festa entre fantasmas:
a sirene, o tiro no asfalto
minhas pernas bambas
avulsas, uma a uma
soltas no ar
- balão, pernas e oxigênio
para os lacrimogêneos

a vista turva
porque o tempo embaça
e há estilhaços nos olhos
para esta despedida
que parte meu coração
feito meu país calado

não, não sou um ser humano cínica
nem ímpar

Patricia Porto

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Para os homens de bem dos últimos dias

Noell S. Oszvald


Nesses dias avulsos da tempestade
ouvi dizer que homens invadiram Creta
armados até os dentes homens mataram pequenas espécies da ilha
Nem Jacó ou Maomé puderam salvar os seres humildes,
apenas o frio congelava a água nascente
os cemitérios estavam cobertos de gelo humano
nuvens carregavam vários sinistros
jornais anunciavam um carnaval fora de toda época

mulheres choravam sobre as cruzes
eram muitas da minha família de muitos mortos,
de mortes matadas e não assistidas,
assassinos comiam sorvete americano pensando ser do exército alemão,
o golpe era sem derramamento de sangue
a poesia não fazia mais política
a poesia também era mercadoria
só o sexo dos anjos importava
mas Safo estava livre em outra órbita
descansando de tanta desgraça

nesses dias insanos da tempestade
que varreu os últimos dias,
a acidez do estômago era mesmo tumor
flagelos de pessoas andavam insones costurando notas falsas
enquanto um bolo subia por dentro da boca ferida
e o tempo se escasseando vingativo
era filho pródigo daquela senhora: a violenta

a lei confirmava tolice e engano
o corpo, o único lugar de paragem,
sem religião na mente fazia templo o viajante,
a cabeça uma dona de cais

inquietação exigia outras ferramentas de oficina
mas o espírito, essa coisa do diabo,
era pura imaginação

Patricia Porto

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Nasceu para todos.

Sally Mann


Ficou sem teto
as noites com seus objetos pontiagudos
vieram dar boa noite, vez por vez, um cerco.

A escrita já não era a solução pra nada,
não tinha amigos. Sua poesia era um isto.
Basicamente sem amigos.

Ficou sem ar no balão de oxigênio,
escafandros eram para os com chance.

Precisava escrever poemas ou notícias para não asfixiar,
mas não precisava de falsos profetas, extrema a unção,
a piedade dos calhordas.

Quanta lástima uma mulher pode carregar na alma?
quantos origamis da mesma tristeza?
Um revólver sempre apontado pras estrelas,
um cano esguio na boca,
o céu enfim.

Patricia Porto

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

quem é a mãe do inseto?

Elliott Erwitt

pode ser tão fina a camada
que me separa do outro: lado direito
e lado esquerdo na mesa, casa, ruas, separando nossos utensílios
de guerra?
um avestruz ou um cisco no próprio olho
em conformidades com o silêncio do café, a tinta fresca, o corpo
com riscos verídicos de morrer de insônia e gota

a idade, um sinistro de exatos:
medo de cair, sangrar pelas narinas,
quebrar os ossos

tanto tapa na nuca vez acordar pro êxodo,
tanto chute que a ferida emprenhou

nascida de uma coxa
gerou um deus desgrenhado
sem pele, sem unhas
torso com escamas
atávico

um bicho voraz
capaz de devorar a si mesma


Patricia Porto

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Por favor, me cuspa.

Retratos de moradores de rua por Lee Jeffries


O cego emocional
não enxerga teus olhos
não enxerga teu vulto
muito menos tuas feridas na guelra
tuas noites dos infelizes
raízes no teu assoalho
a linha do Equador
o raio cúbico
o átomo
a vírgula
e o gesto

O cego emocional te cospe
de rude
é anêmico
está dando pra rir agora
neste momento
quando chacoalha a barriga
e esfumaça um antílope

O cego emocional
comprou um placa para os desafetos

Nela está escrito: Por favor, me cuspa!


Patricia Porto


O MÍMICO

Mulher em Macinômio.  Esta imagem faz parte de uma série de fotografias de George Georgiou (fotógrafo britânico), que trabalhou na Sérvia entre 1999 a 2002. A produção de George mostra os pacientes e as condições precárias de um hospício da Sérvia.

*

Dos privilégios de estar vivo e morto:

Hoje ainda nem morri

silêncio é quando há um suspenso, uma corda
e aquela adaga na cabeça diz: se joga!
o tempo pendular da guerra é frouxo,
faz ninho com seus tentáculos no chão

te cortam uma perna, nasce outra
jogam tua cabeça suja, teus pensamentos sujos, tuas palavras imundas
dentro de um balde d'água limpa
a fim de te purificar

Não te tortures!
coração é alma na boca aberta, mas só quando o dente podre dói
 há disfarces de peso pluma (um chumbo escondido na exátula)
- dilatas então um pássaro mímico com as mãos

Não te tortures!

Hoje nenhum de nós entre eles morreu de véspera
nenhum cínico aplaudiu com dois dedos o nosso fracasso,
o fato de não escrevermos versos concisos
nem coisas de sentido enfastiado
Ficou esperando e nada explodiu nas pupilas
O que dizia mesmo Maiakóvski?

ninguém hoje indiferente notou que temos corpos
e estivemos vivos e doloridos o tempo todo

desagradeço pois,
ora, pois
por nós não
não queremos vossos remédios!

Patrícia Porto

domingo, 29 de janeiro de 2017

"Outros Cantos" e a estética da sobrevivência.



        

                     Há narrativas-correntezas tão fortes que nos fazem mergulhar no outro que também somos. Parece algo muito fora de nós a princípio, dada a vertigem do encontro, mas vamos entendendo no percurso da leitura que é realmente da nossa intimidade que se alimenta, da nossa imediata identificação,dessa afinidade aguda que pode até mesmo nos interrogar e que se lastreia para dentro, nos investigando os porões, revirando os guardados, revelando vozes segredadas, aquelas que não cuidamos de registrar e que vão se misturando ao chão da vida, trajetórias de leituras que nos escapam... E é partindo deste princípio, do meu lugar de leitora e educadora, ambas encantadas, que ofereço uma modesta contribuição de olhar a "Outros Cantos" de Maria Valéria Rezende. Porque, se nos encantamos e ainda não fomos castrados nesta habilidade, é pelo olhar curioso, visitado por outros sentidos, que nos deixamos reconhecer no texto lido e amado. 
              Em "Outros Cantos", ao me deparar com Maria, as Marias que habitavam em mim ressoaram. Dentro de mim uma nova jornada mítica: significar o que compreendo como estética da sobrevivência. Algo de delicado e outro de doloroso me ocorrem para tentar descrever esta estética de histórias que se assemelham às minhas e recriam pela cultura este diálogo permanente e polifônico. Como recebo Maria a partir de minhas Marias? As Marias que não deixei vingar, as que calei de saída, por medo e resposta antecipada contra o que parecia destino? Perguntas teimosas me fazem companhia pelo trajeto da leitura, às vezes estreitando a vista a fim de enxergar melhor esses jogos de perder e achar. Não sei se alcanço o todo de dizeres que vão brotando da pedra, a minha é a mais bruta. Procuro aqui e ali um desvão, um atalho que nos una, e que me faça encontrar Maria, a educadora, a nordestina, a viajante, a corajosa - num feito de matriochka. Um engenho elaborado entre escrita e significação que vou costurando junto à cartografia do sertão. O sertão que se biparte em geografia e sentimento. Patuá de sertão é para sempre esse carregado de memórias no peito. 
                  Mas eis que surge a imagem que persigo: a viagem. O caminho sensível pela alma de minha leitura amorosa, alma porosa, cálida e dedilhada pelo risco e invento dos sobreviventes. Tento sintetizar minhas percepções e palavras como "denso, perturba-dor, delicado" são os melhores qualitativos que encontro. Ouso trazer Maria e "Outros Cantos" para minha coleção de imagens. Guardo este segredo de quem escava histórias em mil camadas e que se instaura na convergência da leitura com a educação: dois amores e uma espécie de circuito inacabado que encarna no mundo como aliança quixotesca, subversiva, desviante. "Outros Cantos" acende em mim a tradição das almas velhas. Dou rendas à escritura: cheia, vazia, entrelaçada, torcida - que não guia, mas nos torna cúmplices da narrativa, sujeitos clandestinos, desejantes e sonhadores.


Maria Valéria Rezende é ganhadora do prêmio Jabuti e do prêmio Casa de Las Américas.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

matula


Araquém Alcântara

saudade de casa é onça,
essa gigante onda do apartado,
matula, sol no quengo,
saudade do povo, meu canto,
todo esse sal é teu

perdida na cidade pedra
virada bicho na areia
cuspida
dolorida demais pra verter tristeza em água

cheiro de rede
éguas! tô mais só que o demo
mais infeliz que a terra que queima  

voltar é hoje:
nesse vespeiro de alma-casa
dá dor nas juntas

eu vou no desvão do deserto
pra dar de sangrar mais rente

dor de onça é triste assim
mata é no quieto mesmo

Patricia Porto

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

objeto solitário ou canção para Cassandra


Killy Sparre


daquela coluna que se olhava a relva
nossas sombras esparsavam fluídas
são grades os metais que brilham no escuro?
parecem pulseiras, estrelas,
algemas confundidas entre estanho e linguagem

o tudo que faz sentido entre nós
não desceu o rio, espelhas,

permanece leito
e morno
- quase ralo

quem obscena é a morta,
a compulsiva?

escreventes datilógrafos
invadem a língua e
salgam os pequenos lírios

perto de mim
encontrado objeto solitário sobre a mesa:
uma carta para Cassandra, uma canção

entre nós duas este corpo terrível e sonoro
não mais identificado

Patricia Porto

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Oclusiva, mas limpinha





Encontre as palavras.
Procure as palavras.
Não há coerência nisso. Atire nas palavras.
Sim. Uma ou duas pedrinhas.
Manche de sangue a mureta.
Um pulso cortante. Um coração à mostra.
Caia de boca na língua.
O veto é branco. Limpe a boca da gordura.
Acenda um pavio e inaugure um movimento.
O dos descentrados. O dos degredados.
O dos sem panela pra cozer. Convide sua amiga morta pra dançar.
Seja rejeitada: uma, duas, três vezes ao dia. Não morra de inanição.
Publique seus dedos nas trincheiras. Veja nos olhos do outro a apatia.
Os mesmos olhos que correm traidores e mesquinhos para os versos de uma jovem,
a que acaba de passar no freio do tempo - de causas floridas.
Atire-se da prancha sem pelica.

Patrícia Porto

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Contra a extinção do lobo mau.




Quando é que alguém percebe que se tornou uma pessoa raivosa e ressentida? Quando é que dá o estalo? Logo aquela pessoa que também amava os animais... Agora está ali, lidando com velhos almanaques do bom-mocismo ou com a nova patrulha dos que fazem marchas pelos bons costumes, e geralmente os afortunados que mais “lucram” com o extermínio dos lobos maus. Todos conhecem bem as analogias que se fazem sobre o cão bom e o cão mau, o lobo bom e o lobo mau. Como se os cães, os lobos, os animais todos pudessem dominar o seu lado instintivamente mau ou como se - simplesmente, pudessem jogar para debaixo do chão, da terra, atrás do espelho, a desordem do mundo interno, o instinto, a sombra do avesso. Por que extinguo? 

Uma pessoa me falou numa consulta médica: “Você tem dois lobos dentro de você. Um é bom e o outro é mau. Você é quem escolhe qual deve e quer alimentar e qual você deve matar de fome.” Achei horrível toda aquela pílula de lugar comum, de veto surrado e hostil. Se alguém receita remédio tarja preta para ajudar a matar o lobo mau de fome – é porque, certamente, nunca entrou na sua própria floresta ou loucura. Afinal sabemos que a normalidade é uma patologia inventada pelo homem branco. E quem mata o lobo mau nunca esteve do outro lado de si mesmo e nunca atravessou sua própria fronteira para se olhar no espelho em enigma, no Lobo de dentro, a tal corda sobre o abismo de Nietzsche. Quem repete frases feitas sem pensar pode muito bem receitar sem pensar; e daí o pior: diagnosticar sem pensar. 

Ouço numa entrevista que os novos pesquisadores da neurociência se esforçam dia-a-dia para desvendar um pouquinho mais do misterioso cérebro humano. Nosso cérebro e suas capacidades parecem assim - tão misteriosas quanto o que há de misterioso na descoberta das novas galáxias. O universo se expande e dilata, toma formas amolecidas, fragmentárias, enigmáticas e criam conexões, e fazem o antes inimaginável ou impossível - imaginário e real. E bem à nossa frente o tempo se dilata, quantifica e qualifica. Há Quantidade. O Quanto. E o Quântico. E tudo aquilo que desconhecíamos passa a ter uma imensa oportunidade e flexibilidade de qualidade de expansão. E se expande.

Eu que também amo os animais e também amo a física do universo - não entendo nada da prática humana de matar de fome os lobos maus. Ou ainda não entendo nada de dizer que a pior raiva humana é a raiva de um cão. Olho o meu cão, nunca vi ser mais bondoso e carinhoso. Domesticamos os nossos cães que latem e se comunicam o tempo todo conosco. Boris Cyrulnik diz que um cão selvagem ou um cão que acompanha um caçador quase nunca late, pois não há comunicação necessária no ofício de caçar outros animais ou no exercício de ser presa e predador na floresta.

No belíssimo livro de Clarissa Pinkola Estés, “Mulheres que correm com os lobos”, somos instigados pela leitura densa do texto, a desvelar a nossa relação com a floresta, e dessa relação somos também instigados a refletir sobre os nossos medos, angustias, as nossas fragilidades, nossas previsibilidades, precariedades. Impossível não se identificar. Num desses contos me vi perdida e achada na imagem da Mulher-lobo, da mulher que guardava ossos como relíquias da vida, como histórias, cicatrizes do mundo, registros da passagem da humanidade pela floresta. La Loba, a criatura. Há em “La Loba” um pouco de “Baú de Ossos” de Pedro Nava, os ossos dos mortos, o baú que evoca os desaparecidos, as casas mortas, numa arqueologia interminável, numa busca por desvendar-se pelas memórias, pelas reminiscências dos homens e das coisas naquilo que nos olha. 

Gente muito “do bem”, aparentemente do bem, é gente que aprendeu a calar a sua tempestade antes que apareçam os ventos. Quando vejo alguém nessa categoria presumo que o ansiolítico raspou aquela natureza até o fim do tacho. E sinto que o insosso do vazio impera mais que pondera. Como não é nunca da minha conta, apenas penso um pouco entre tantos outros pensamentos e sigo adiante. É claro que já me perguntei por que não funcionou comigo. E até já invejei essa gente com sugestão de paisagem eterna, como uma televisão passando, estaticamente - campos floridos com criancinhas correndo feito anjinhos. E ainda admirei gente com expressão de aquário - peixinhos coloridos naquela pequena amostra de ambiente devidamente controlado. Mas com o tempo passou e eu já me conformei. Aprendi, numa surpresa inconveniente, a gostar de algumas das minhas rasuras, ranhuras, essas coisas de gente fraturada pela vida. Não vou dar conta dos anjinhos correndo na estação das flores. Isso nunca. Já desisti.

O que fica então para alimentar? Não, não, me recuso a matar meu lobo mau! E me entrego aqui mesmo - ao dizer para quem está lendo. Saiba. Saiba disso. Eu tenho um lobo mau. Mas se eu não estiver completamente errada, você também deve ter o seu, não sei se machucado ou morrendo de fome, mas tem. E uma sensação me diz que quanto mais tivermos essa noção, com maior zelo trataremos as delicadezas do outro, assim como também entenderemos melhor as falências humanas. E se a corda puir, sabe o abismo? É o misterioso. Uma casa enigmática cheia de ossos. Uma floresta com lobos, cães, meninas, meninos selvagens correndo entre sombras e árvores. É mais embaixo mesmo. E é sempre melhor descobrir, olhar por si mesmo. Pra si mesmo.

Patrícia Porto

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Ainda é cedo, Amor.



Sobre o Ato Terrorista em Campinas.

Ainda é cedo, amor...

           Assim como na bela música do Cartola diria que "ainda é cedo, amor...". Há muitas camadas neste caso. E essas camadas revelam muito do que nós já éramos e do que estamos excretando como sociedade. Relacionamentos abusivos estão na ordem do dia. Não se restringem aos casais, mas se ampliam às pessoas em geral, às relações como um todo, num complexo. No nosso trabalho mesmo, quantos relacionamentos abusivos são mantidos - e por décadas? Quantas doenças nos causam? E o excesso de informação? A enxurrada cotidiana de notícias manipuladas? Todo o barulho e mal estar causado pelas mídias sociais que pouco acrescentam. E se tivermos uma arma na mão? Nossa história é uma história de escravidão, humilhações constantes, opressão, de subserviência, de ódios reprimidos não trabalhados, de ressentimentos e não-diálogo com os divergentes. 

           Há um grande abismo, um grande vazio de significados entre o discurso intelectual acadêmico e o movimento feminista real, o movimento social feminista. Então é muito estranho ler textos que dizem sempre o mesmo do mesmo, mas são incapazes de representar o que é a vivência da mulher com a violência doméstica cotidiana, a vivência da mulher que sofre abusos contínuos, abusos de classe, abusos étnicos, os de gênero, todos os abusos. As mulheres da Maria da Penha, as Mães de Acari e de Manaus... Creio que esteja faltando um trabalho de campo bem direcionado, que desvele as experiências e as narrativas singulares dessas mulheres. Está faltando solidariedade, porque empatia é palavra para alguns entrarem em consenso, talvez vender sabonetes. Está faltando, principalmente, diálogo. E sobre as pílulas morais que andei lendo, é preciso ir mais fundo, escavar, olhar para todos os dentros, fazer palimpsestos. O que aconteceu em Campinas não deve cair nesse mar de banalidades do mau discurso midiático, mesmo o de "boa" intenção.

             Neste momento, o zelo pela história alheia é imprescindível. Fazer as velhas emulações morais-intelectuais-cívicas não é de grande ajuda. O silêncio já seria bom para refletir antes. Um silêncio respeitoso de quem não sabe tudo ou não consegue dar conta de toda pós-verdade.


Oh que saudades que eu tenho
Da aurora de minha vida
Das horas
De minha infância
Que os anos não trazem mais
Naquele quintal de terra
Da Rua de Santo Antônio
Debaixo da bananeira
Sem nenhum laranjais
*
(Oswald de Andrade)

Ainda é cedo, amor...
Mal começastes a conhecer a vida.
*
(Cartola)

domingo, 1 de janeiro de 2017

Uma estética sobre os afogados


Viajar seria a palavra na falta da outra.
Na falta da outra voltar e re voltar a terra.
Na falta da outra
Es qui var tranquila da onda

Ou mergulhar e imersão
Engolir sozinha o tudo
Re vólver na vida é
Um tubo, um tipo de ensaio
De acender a alma

Viajar para a outra
Como quem diz perta a dimensão
A perder o repositório:
Reclames de ilusões baratas

E na falta de todos ao ver o mar de (augúrios)
Se arriscar na onda próxima, cair
Viajar sozinha como efeito placebo -
Irremediavelmente submunda

Patricia Porto

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos
Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.
Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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