terça-feira, 25 de julho de 2017

Ruínas







nossa casa virou pedaços como peças de dura lex, dizem que os cacos não machucam
mas acho que esqueci minha boneca de machucar por lá,  não tinha nome nem cabelo
não temos retratos da nossa casa
Inácio, onde colocaste o álbum de fotografias?
é a voz de minha tia ou avó dentro de um eco perdido na minha loucura

o tempo contamina as coisas, eu sei
e a alma é um fantasma pendurado no meu corpo
não recebo más notícias das ruínas que nos tornamos
apenas escuto o som feio de um pássaro que no lugar de cantar, grita

mas ele, a casa, a guerra, as mulheres e as crianças, todos sem exceção - só existem na minha cabeça

nem machuca a parede


Patricia Porto

Patricia Porto _ Flip Internacional 2017


sábado, 22 de julho de 2017

Patricia Porto_ Flip Internacional 2017




Carta à poeta

Patricia Porto, quando os poetas se dão palavras, as mãos vão junto. Atitude nada fácil nesses tempos de recuos, de olhar o mundo através das frestas e se julgar participante da gira.

Sorte nossa, poeta, você seja oposta a tudo isto. Seu verso pega pelo pescoço, tanto esgana quanto afaga. Traz pra vida. Me arrisco afirmar que a alma de “Diário de viagem para espantalhos e andarilhos” esteja na página 18, mais precisamente no verso: “Viajar é ser estrada’.

Me arrisco porque é imprudente prever seus caminhos, que vão do acalanto – o poema “Maria Judite”, à página 35, não me deixa mentir – ao hard punk rock: “Transberro”, na 124,comprova o que digo.

Patrícia, te penso música sempre que te leio. Tantã, telecoteco, coco, carimbó, curimba:

“Se o tempo é fraco eu bato
faço da madeira um barco
se o tempo é forte eu danço
vestido de temporal...”.
Taí a prova no poema “Gira”, página 165.

E quando me julgo refeito dos espantos da viagem você me oferece um poema: “Janela IV: das conversas com Teobaldo”. Ora, poeta, justo eu, de falar pensativo, tão rápido e pouco? Você abre o meu poema coma a palavra “abismos” e fecha com “invisível”. No coração do poema os versos: “A vida é curva / É pingo de sal na ferida acesa...”

Sei muito bem como é isso, poeta, esse não se dar pausa no sonho nem na carne, que nos aguardam (e lá vamos!) aos encantos das outras viagens...

Admirado e agradecido abraço 

Délcio Teobaldo




domingo, 16 de julho de 2017

Minha avó sábia e minha avó louca

Martine Franck


Minha avó era sábia. Mas até aí Inés é morta. Todo mundo teve ou inventou uma avó sábia pra si. Mas ouço outra voz aqui que diz que isso era "coisa de outros tempos". No tempo antigo dos bondes, onde avós realmente envelheciam e se tornavam sábias. "Nossa, que coisa piegas!" Esta é uma voz nova recente que adquiri há pouco numa das mídias sociais. Por favor, vozes se calem! Nossa, ótimo! Posso falar sozinha aqui? Tudo bem. Estou conseguindo escrever de novo e digo que só vou parar depois de três ou quatro parágrafos. Por favor, não interrompam. Claro que a leitora, o leitor pode se retirar a qualquer momento. Prometo não intervir.
Volto ao início, algo já redundante. Minha avó era sábia. Mas não era só isso. Minha avó era a mais sábia de toda família, família matriarcal. E os homens dessa linhagem sabem do que estou falando. Mas espera, eu também tinha uma avó louca que pareava com a avó sábia, rostos da mesma lua. Dizem até que elas se conheciam muito e tomavam banho de rio juntas. Minha avó sábia disse certa vez: "eram os peitos mais bonitos que eu vi na vida". Achei lindo e libertador que minha avó sábia soubesse e pudesse reconhecer a beleza e a natureza da minha avó louca. Era realmente bonito de saber desse despojamento. E sempre que lembro dessas e outras frases desejo que as meninas tenham a sorte de ter uma avó sábia como a minha, pois ela me criou.
Caiu uma vírgula aqui. E o que seria da diferença no mundo se não existissem as avós loucas? O mundo certamente não precisaria de avós sábias. É um pensamento teimoso que tenho. Mas eu  vou catar esta vírgula aqui de volta, porque minha avó louca foi a primeira mulher da família a ter um ofício só seu. Era costureira e daquelas! De mão cheia! Minha avó louca foi a primeira a andar de cabelo curto na pequena cidade de interior que vivíamos, cidade onde também nasci. Minha avó louca foi a primeira mulher a andar de calça comprida, a primeira porque copiou de uma revista de moda francesa e costurou um modelito só para ela. Ela tomava banho de rio sem roupa. Ela não levava desaforo para lugar nenhum. Era filha de uma índia que saiu de sua aldeia para viver com um homem branco, que mais tarde a abandonou com quatro filhos. As Iracemas não eram românticas naquele lugar. A bisavó índia tratou de espalhar os filhos e minha avó louca foi dada para casamento aos treze anos para um viúvo de quase sessenta. Mas era um mundo antigo, embora já fosse moderno.
Outra vírgula, esta mais gordinha, a definidora de espaços que marcam o entre, o entre nós. Minha avó sábia e minha avó louca tinham em comum um homem. Meu avô paralítico. Meu avô que tinha sido entregue a um casal de empregados para adoção. Mas por que isto aconteceu? Porque meu avô Augusto, um comerciante português, resolveu que não iria criar filho aleijado e para retirá-lo de casa - o deu para os caseiros, André e Teodora - claro, junto com um pedaço de terra - para que não houvesse perigo de devolução. Este avô paralítico, por destino ou o que seja, também se tornou comerciante, dono de quitanda e um dia se apaixonou loucamente por minha avó louca, a filha da índia - que tinha desparecido no mundo nesta parte da história. Quando isso aconteceu, minha avó louca já vivia sozinha com cinco filhos do viúvo, tinha fugido para bem longe. Era empregada doméstica e limpava as janelas de uma casa grande quando meu avô paralítico viu suas pernas mestiças e ficou encantado. Tiveram quatro filhos, um atrás do outro, cada qual mais bonito e rosado que o outro. Até que. Até que ela desistiu dessa coisa toda. Não era para ela. Arrumou um amante aviador e fugiu para São Paulo, deixando todos os filhos com meu avô manco e quitandeiro. Resumindo: meu avô distribuiu os filhos e começou a beber. Ia definhando na vida até que. Até que encontrou minha avó sábia, viúva, católica sincrética, três filhos. Casou-se com ela imediatamente. Recolheu os filhos espalhados e construiu uma casa boa que abrigasse a todos. 
A avó louca? Foi para o Rio de Janeiro. O aviador? Cometeu suicídio. Ela, a louca, enfim se casou com um homem evangélico e padeiro. Teve uma última filha, mas ninguém sabe com quem. Passou os últimos dias como evangélica radical, pregando moral a todos que se aproximassem. Não cortava mais o cabelo - que chegava até os joelhos, não vestia mais roupa curta ou que mostrasse os braços. Não se maquiava mais nem gostava mais de enfeites. Passava o dia ouvindo a rádio relógio, marcando sei lá que tempo em sua cabeça. Não gostava de crianças, não gostava de bichos, não gostava de mim. Isso eu lembro bem. Morreu de câncer no fígado, mas viveu bastante, por quase nove décadas.
Minha avó sábia criou vários filhos, não sabia nem dizer qual era seu qual era da outra. Protegeu todos, adotou netos. Criou bichos, plantas e frustrações. Lágrimas, tristezas, solidão de mulher na casa boa. Perdeu filho jovem para tuberculose. Perdeu meu avô, o coxo, para a bebida. Sofreu acidente. Ficou coxa, manca, passou a usar moletas, cadeira de rodas. Perdeu a casa por dívidas, perdeu netos e mais filho, perdeu até fazer parar o coração.                        
Fico aqui olhando passar aquelas avós - na zona vermelha da minha memória fragilizada. Estou no tempo da matrioska. Eu, mulher que vai entrando na casa de ser avó. E gosto de lembrar e recebê-las em mim como cultura, linguagem, ferramentas para o mundo que se torna água. Não consigo distanciá-las mais, talvez a louca tenha sido mais sábia e a sábia tenha sido - de fato - a louca. Elas se mesclam na mesma pessoa, na mulher que me tornei e me torno todos os dias - sábia e louca, louca e sábia, cheia de contradições, bipartida, repartida, enigmática, solitária em meus afazeres, deserta em minha sensatez, absurda em minha loucura. E não posso, não devo renegar nenhuma delas, porque essas mulheres é que me habitam. Quem quiser que me conte outra. 

Patricia Porto

quinta-feira, 13 de julho de 2017

versões



ela era pluma, eu peso
ela dia, eu noite absurda
ela o dorso, eu a sentença escusa
todas as horas nuas
todas as vias sujas

ela crua, eu triste
ela dança, eu morte
ela crença, eu nadando em abismos
ela celophane, eu escrevendo no chão
ela dançando no chão
eu cuspindo no chão
ela olhando pra cima
esperando promessas
eu comendo no prato
sem receios de fazer doer

ela foi para o paraíso, pluma
eu nem fui visitá-la, peso

Patricia Porto

domingo, 9 de julho de 2017

a torre

no tempo em que as crianças eram destruídas com o olhar
e se urinavam nas calças,
eu mesma não sabia que se podia viver para além da infância

o apito da fábrica de vinagre era um motor
máquina de braços
- a jaula do zoo não era mais o único espaço do mundo

havia o som, o ácido
e talvez alguma outra urgência lá fora

Patricia Porto

sábado, 8 de julho de 2017

Ribeirinhas

(À Wanda Monteiro)

se eu te percebo e na minha pele cruza um rio
- se na minha pele sefixa a tua cicatriz que é fluída
- era de quem falávamos às águas?
sobre qual corpo-santo nos aquietamos?
eu e tu, as ribeirinhas, siamesas da mesma língua?


Patricia Porto

sexta-feira, 7 de julho de 2017

a revolução da pedra

Pina Bausch 


A pedra que pensam: "ora, não balbucia
- é toda silêncio..."
- no inerte faz o sentido bruto
de ser testemunha clandestina da mudança

A pedra em seu elemento terra não lamenta,
não abdica nem capitula
- está exatamente onde deveria estar -

e a favor do movimento - permanece intacta
- mais dura ainda, aguda ao desejo do passante


Patricia Porto

terça-feira, 4 de julho de 2017

ZumZumZum




Tem esse som por dentro, voz da mulher da terra,
da mulher do mar, de concha, raiz forte da mulher de dentro
em ciclos.
As mulheres que zelam pelas histórias da terra e do mar.
As mulheres que nascem na sementeira, destino... giram na flor.
Tão fecunda a água.
Cada praça, cada canto, cada pedra,
os sons batem no coração dessa mulher.
Mar de dentro chora,
chuva de dentro escorre as dores vizinhas dessa mulher.
Vai. Vem. Vem, Vai... é cheia.
Nos olhos dessa mulher a gestação de uns delicados.
O cheiro de amêndoas, a bacia branca de esmalte, a renda,
o rito da morte, o fogaréu, carne salgada e os pés no chão...
São vozes dessa mulher.
A vida inunda, a mulher sangra na pedra, um tambor,
alimenta com seu corpo a festa de amanhã, dança do mar, terra é fecunda,
um círio na escuridão.
Tem esse zum zum zum...
Toca esse zum zum zum...

......

Zumzumzum

Il y a ce son de l’intérieur, voix de la femme de la terre,
de la femme de la mer, de coquillage, racine forte de la femme, de l’intérieur en cycles.
Les femmes qui veillent par les histoires de la terre et de la mer.
Les femmes qui naissent du semis, destin... deviennent fleur.
Tellement féconde est l’eau.
Chaque place, chaque coin, chaque pierre,
les sons battent au cœur de cette femme.
Mer de l’intérieur pleure,
pluie de l’intérieur ruisselle les douleurs voisines de cette femme.
Va. Viens. Viens, Va... elle est pleine.
Dans les yeux de cette femme, la gestation de quelques délicats.
L’odeur d’amandes, la bassine blanche d’émail, la dentelle,
le rite de la mort, le grand feu, viande salée et les pieds dans la terre...
Ce sont les voix de cette femme.
La vie inonde, la femme saigne dans la pierre, un tambour,
alimente avec son corps la fête de demain, danse de la mer, terre est féconde,
un cierge dans l’obscurité.
Il y a ce zum zum zum...
Bruisse ce zum zum zum...

Patricia Porto
Tradução: Axel Dieudonné

domingo, 2 de julho de 2017

Deslocada

É que quanto mais tropeço
mais me abismo em mim mesma
que para doxo imbecil
resistir à doxa
com esse gostinho de denúncia
na língua

um corpo negado ressente
- vulgar

Patricia Porto

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Prodígios

As bruxas de Macbeth por Orson Welles


A avó sentou do meu lado e disse:
esta carne está crua
voltei com a carne pro fogo
no círculo das três mulheres:
eu, a avó e tia Marta, a que matava galinhas

A avó olhava de lado, rasgando a verdade:
a carne ainda crua torrava por fora
e era crua por dentro

corri e deitei água morna
- a carne um tambor bem no peito
o olho sem pisco da tia

secou-se tudo no tempo a boa hora
a carne que cozeu algum sonho
era o lugar do migrante na sorte

a carne na mesa era sol
alimentava as três bruxas
quietas, risonhas, rasgando os pedaços
com todos os dentes

raiz, escama e revide
- um olho de vidro na mão

Patricia Porto

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Pandora

 Brent Stirton,  World Press Photo 2017


na minha mente as imagens da guerra

alguém me grita:
desmonte
o rinoceronte!

desmonte o grau de miopia

na minha cabeça uma farpa
um estrondo
uma máquina
um dínamo

são as crianças afogadas no mar
crianças mortas no barco
crianças sequestradas

tudo exposto, todos premiados
em fotografias

são imagens que me sangram

na minha cabeça uma fita
um cemitério pacífico
um caos ordenado

saio da Almirante Barroso com frios
a cidade esquiva
lutamos nós, feito damas que se odeiam

estou prestes a explodir
sou uma bomba atômica

Patricia Porto

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Da poesia para consumo

quando todas as partes cuidarem das partes que lhe cabem
quantas metades existirão?
de qual aparte será o que me cabe, mulher e humana?
de qual parte serei apartada?
com quantos abades se forma uma parte?
de quantas margens precisa o aparto?
onde caberá a parte maior na parte menor?
nas pequenas subdivisões, ramificações, especulações do mercado
- onde resistirá o amor?
na pequena soma das mortes virtuais? Nas urnas das cinzas de um mundo
onde apenas mães pobres procuram corpos?
onde venderei minha alma pouca, minha perda dentária?
meu universo de palavras não desejadas, não comercializáveis,
o verso que não cabe no copo?

a próxima pele será como o incêndio dos não-identificados
a próxima poesia não será televisionada


Patricia Porto

sábado, 10 de junho de 2017

A Escrita

Todos os dias a mesma negociação
ferida aberta, outra fechada
porta aberta, outra fechada

Todos os dias a necessidade:
de ser alguém admirável,
ser reconhecida por meu talento
ser honesta sobre minhas falhas
ser alguém de quem não sinto vergonha

Todos os dias o aceno para os mortos
parecem intactos em seus retratos
porque havia o tal tempo do retrato
o tempo longo e inegociável do retrato

Todos os dias acenos para os que me vêem
da janela onde jogo minha sedução
desejando ser a mulher do próximo:
a oculta, misteriosa, a pintada em quadros

Todos os dias este clima agradável
de tentar manter equilíbrios entre os pés,
as pernas, coxas, a barriga e este profundo umbigo
- este rasgo de faca que trago no braço direito

Todos os dias os choques, a opulência do gramado burguês
as tentativas mentais de suicídio,
a torre e o enforcado, o cárcere,
minha natureza efêmera, imperceptível, quase nada

Todos os dias uma carta que não escrevo,
um poema sem correção, uma frustração nova no armário,
encontros marcados com minha culpa:
de existir,
ser mãe, mulher compacta, instrumental,
de carregar desafetos e ódios fazendo x

Outro dia escrevi um poema sobre o ofício do poeta e a mágoa
alguém disse que lembrava a escrita de um escritor iugoslavo,
outro me disse que lembrava a de um escritor polonês

A poesia era lugar de homem (todos os dias)
(todos os séculos)
(todos os prêmios, os cavalos e os dentes arranhando a gengiva)

Passei a usar o pseudônimo de Charles Pinout
alguém disse que o poema lembrava a fúria feminina
- um gênio o poeta de busto desconhecido

(todos os santos dias naquele terço de pessoa trancada)

Talvez hoje eu encontre os olhos de quem procuro pela lupa
talvez esteja sentada num café, talvez ninando um gato cinza,

Todos os dias intermináveis esta doce, cruel e aventura de encontrar
o outro no meu outro, as outras do cais, os viajantes, as estrangeiras

Todos os dias esta abissal e cotidiana negociação com a vida

(melhor escrita)

Patricia Porto

quarta-feira, 7 de junho de 2017

por que não te molhas?





À Valeria Garcia

quando ela se olha
é toda reverso
furta o sol
antes da hora bruxa

ela é tão a colhida
toco sua textura
feito abraço e riso

anoitece flor
no espelho onde há miragens
e entre os sinais, o vermelho
foi da casa, já partiu

marcha a vida em trânsito
até o fim
- vestida
até o talho
onde não vês


Patricia Porto

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Bom dia, América!

1915, Saudação à Bandeira Americana, EUA 



"Bom dia, América!"

Eu não sei ao certo se foi em gênesis ou se estava no site de notícias.
Não, este não é um poema engraçadinho e rápido para cumprir 140 caracteres
de pensamento instantâneo sobre o mundo e sobre o meu modo de fazer.
Não consigo achar graça dos que fazem graça.
Estou tentando fazer o meu café sem eletrônicos, mas um pássaro sinistro faz sons
estranhos na minha janela. Ligo o som fake de montanha e riacho.
Li que a máquina mais medonha do mundo será a que chegará ao talvez de tudo.
Talvez esfolem crianças ou talvez envenenem esse solo.
Tanto faz o talvez se nossos sangues não se misturam quando não somos iguais.
A guerra durará um século antes de abrirmos os olhos pela manhã.
Porque a situação é a seguinte: "eu confio tanto no outro como o outro em mim".
Guardemos nossos tesouros com chaves, guardemos nossas histórias em segredo.
Guardemos nossos cofres, nossos risos cínicos, nossos tumores.
Guardemos nossas vigílias, nossos interesses, nossos amantes.
Guardemos nossas senhas, nossos demônios, nossos gritos noturnos.
Guardemos o terror, as carnes que tremem, todos os corações disparados.
Disparados!]
A bala que te mata, de quem é?
Açúcar. Esqueci de comprar.

Patricia Porto

sábado, 3 de junho de 2017

Paixão


na ausência há um vazio róseo
flor aberta à capela

no peito aberto (le petit mort)
o pulo, uma sacada
um sopro de Cristo

se a viagem traz a margem
de meus olhos, terra em exílio
a  chaga, o risco de existir num feito de luz
de nossas cabeças, num estampado
é corpo

a câmara de gás no banheiro
levou duas crianças
e rostos de louça

a câmara de gás e seus milhões

eu temo.
com paixão

****
Patricia Porto

sexta-feira, 2 de junho de 2017

A Palavra

Marianne Rosenstiehl_  Les limaces 2014 


a palavra resolveu dominar meu corpo
minhas pobres vísceras
a anemia que trago ora como engano ora, forquilha
a palavra, uma ferida da alma
resolveu doer qualquer coisa
que movimenta e não grita

tomada de amor ou esquina
procuro alguma linha de saída no front
sou bruta na arte de desamarrar nós
e com as mãos invento pequenas ilhas de solidão
num deserto inteiro de declives

não julgo a jornada
pois estamos acamadas
- ela fazendo cócegas em minha barriga
olhando o tempo esfarelar as jaulas que me dão raiva de louca

dentro do peito onde me exponho, ela me é viga,
me espinha, meus espinhos
(sou toda clarão quando preciso)

não careço mais da floresta
da ciência de um governo
que queimem as bandeiras da nossa batalha
ou que depositem água na minha poesia

(estamos livre, em estado absoluto de crueza, ainda que eu sussurre não
ainda que me visitem juntas as estrelas)

Patricia Porto

quinta-feira, 1 de junho de 2017

O livro e o mundo

           

                   Algumas pessoas já me disseram sentir uma enorme claustrofobia na leitura de um Kafka. Sabemos que isso não se dá à toa. Pois se quisermos manter qualquer pequeno diálogo com as obras kafkianas devemos estar pré-dispostos a tentar compreender “que não conseguiremos olhar a alma de um homem através de uma lente”. Precisaremos então entrar no obscuro, no que há de absurdo no mistério, nas sombras, que podem revelar o nosso óbvio: não sabemos tanto... E muito do nosso conhecimento pode não passar de uma tremenda ilusão arrogante, uma ilusão grávida da nossa medonha ambição ser e ter mais que o outro ao nosso lado. E os cenários de Kafka são tão externos quanto internos, uterinos. E as externalidades revelam do quarto, da casa, de um castelo, os barulhos, os ruídos que podem ser bem mais altos, bem mais assustadores que os conhecidos do fora.
               Ao sairmos à rua, levamos em nossos corpos, bolsas e carros os símbolos da nova era e da tardia modernidade. Mas bem ali, no cruzamento entre o moderno e a charrete, está aquela senhora elegante, agora mesmo - sentada naquele café, o Parador. Lá está ela com seu xale fino comprado em Milão. A família costuma ir à Europa, precisamente Paris, uma vez por ano. Ela olha de forma displicente o entorno como se fosse uma passageira do trem. O vidro a separa do menino que bate com uma caixa de doces contra. Contra ela? Não, contra o vidro que os separa. O vidro é um bom vedador de ruídos. Ela se volta discreta e elegante para seu capuchino. No entanto, seus olhos a traem, vagando no entorno, lançando rabos de olhar para o vidro que, desgraçadamente, lhe estragava um momento raro de dispersão solitária. O menino percebendo aquele instante ambíguo da “freguesa” falava sem voz no embaçado: “compra um pra ajudar, tia”. Ela conseguia ler os lábios, mas fingia não ver que nenhum deles existia. E pensava relativizando em atos falhos: “nada mais irritante que a pobreza neste país. O pior é que não podemos fazer nada. Nada muda.” Assim, no displicente arroubo de consciência do outro, fez o que de melhor sabia: não olhar para trás, porque para trás ficava os incômodos, como o menino de vidro, peças de desmonte. Mas antes de terminar o café e sair, leu uma última passagem do livro “O Castelo” de Kafka, uma passagem que falava sobre um túmulo profundo e apertado onde o personagem e Frieda ficariam abraçados como tenazes, escondendo o rosto um no outro sem que ninguém mais os visse.
             E Kafka nos pendura nesse suspense em suspenso, como se o ar que lançássemos para fora na sua curta expressão e comunicabilidade nos ventilasse tanto o corpo causando pânico. Aquela senhora elegante, chefe de uma renomada instituição pública, no seu salto e posto altos precisou no mesmo dia lidar com dois dissabores: Kafka e o menino do vidro. Ficou mais tempo no café que de costume para ver se aquele menino desaparecia com seu "compra um, tia" interminável. Que fosse abduzido por uma miséria maior que a dela própria e sumisse da vista. Teve sentimentos confusos sobre o amigo que lhe presenteara com aquela aberração literária que em nada lhe ajudara a refletir sobre sua atual posição. Como chefe de um importante setor público via seus subalternos se esbofeteando aos berros e pequenos empurrões, até mesmo por coisas insignificantes, um armarinho de neuroses. “Não se fazem mais homens públicos como antigamente.” Pensou. “Meu pai sim foi uma grande figura pública. Hoje só vejo ratos e ratoeiras cada vez mais apertadas.” Lembrou do túmulo de Kafka. “Que leitura inútil!” E ali determinou que nunca mais voltaria a perder seu tempo precioso com um presente daquela natureza. “Espero que ninguém nunca mais nos ache. Fique aí.”
              Resolveu entrar no Shopping para refletir sobre as novas demandas da América Latina. Na mesa do café o livro de capa dura sofria ali o revés do abandono, mas não mais o pesadelo da incomunicabilidade. Havia tanto humor ácido e melancólico nos pequenos nadas das mesas de café.
             Abraçou-se ao xale naquele fim de tarde fria. Não olhou mais para trás. Mas perto dali, do outro lado da rua, uma mão abria com rapidez a porta do café, o vento desfolhando o livro marcado na última leitura daquela distinta senhora de xale. A mão segurou o livro, abraçando-o contra o peito. Era o menino do vidro correndo pela rua afora. "Pra onde ela foi?" O livro e o mundo os seguindo abraçados.

Patrícia Porto

sábado, 27 de maio de 2017

outono farpado

Jenny Morgan



as folhas caiem displicentes em posição de lânguidas
um desejo vertical de queda

ao rufar dos tambores sinos se juntam
quero acreditar que nenhum demônio roubará minha alma
enquanto teclo meus dedos em máquinas exóticas

folhas amarelas, rosas, quase rubras
(desejo invertido de imortalidade)
a aceitação das folhas me quietam
o chão farpado de lucidez
está sob meus pés
um asfalto

Patricia Porto

quinta-feira, 25 de maio de 2017

fruta de cordeza dura

Pina Bausch


todos os dias esvaziava os bolsos
tanta chuva por dentro
tanta seca por dentro
todos os dias esvaziava a mente
tanta dor no escuro
tanta arma na boca
- o lobo na porta
e as noites de fogo
uma mulher estranha vesgando a pergunta:
quem é você, mulher do espelho?
nela amanheço, amarelo,
nela me deito com minhas cartas vazias
na dança das impossibilidades

o sol posto na mesa
são os lugares que esqueci de acender no corpo
a morte de tudo que deixei no fundo da gaveta
fazendo arranhões, rasuras, esboços de ser a mesma
de olhos marejados, sorriso de canto,
a cabeça esvaziada de si
- quem me olha através de você, mulher do espelho?
não te reconheço em mim o horror
não te vejo para fora do nome
por fora estamos assim, castradas?
distantes, afogadas no trânsito,
longe de casa,
perto da linha do trem para partir?

mulher que me olha em meus olhos, quem é?
não te acho aqui
- por que envelheceu tão tarde na rua?
- o lobo na porta, tão dura
(minha sentença)
(minha criatura)

adeus, adeus
-o amor cresceu entre os dentes,
quase o milagre da hera

- nenhum terror nos oculta
os vidros, a úlcera,
a mulher que me afoga
com seus afagos
cresceu

Patricia Porto

Sabático


Las manos de Louise Bourgeois 1911- 2010,
escultora y artista, nacida en Francia. Fotografía de Alex van Gelder, 2010.



Obsequioso desentranho
desentranho essa diligência
que é o decifra-me
e quando não socorro-me
espeto meu dedo mínimo com uma agulha.
Sim, estou vivo!
Atravesso minhas colheitas
com meus tempos amostra,
devo parecer ou padecer
de meu léxico amedrontado.
Sim, estou vivo!
Acumulo valores,
bestialmente acumulo valores
para girar ao redor desse homem,
clone de minha raça,
esse homem que come da minha mesma ração,
primo-irmão de meu paradoxo,
esse que me enfia a faca nas costas
quando me afasto para cochichar: "te amo".

Patricia Porto


video

Pode olhar



Meu útero tem dois lados
Os dois estão armados
Não tenho outra vidraça pra bater


Patrícia Porto

Os vidros de 78



Eu também conheci a árvore da vida,
os figos eu os devorei todos de uma só vez
meu melhor poema ainda não nasceu
Dormi aos oito anos com coturnos na sala
acordei aos 46 com Brasília sitiada
Meus figos vieram à tona
dez mortos no Pará
Meus figos atirados contra as paredes
do estômago
queimando a boca
as mãos
o meu cachimbo sem paz

Dormi com coturnos na sala
acordei com Brasília sitiada

Patricia Porto

domingo, 21 de maio de 2017

Ouvidos para sonhos difusos




Hoje pela manhã abrirei a última janela
do último salto
para a última esfera
onde estarão os meus mortos
Hoje pela manhã encontrarei meu cão
minhas horas de fazer nada em repouso
de contar os dias que me sobram
onde estarão os nossos mortos
Hoje pela amanhã pegarei de uma vassoura,
um pano, um balde de água, me fingirei de viva
ao limpar os restos de migalhas de afeto
que mal me são ofertadas
Hoje pela manhã abrirei a geladeira para contar
batatas, ovos, maçãs, viagens envelopadas,
coisas distintas que nunca realizei
Hoje pela manhã vou aguardar as notícias, as boas,
nunca vindas, sempre amontoadas na caixa de correio
das pessoas com muita sorte e nome
Hoje talvez penhorarei aqueles olhos de louça
das histerias obscenas de todas as mulheres findas
- meus braços ainda tremem da espera
- seguram um tempo morto
- abrigam sedentos um campo verde por onde belas criaturas
cintilam na luz de outono
Hoje talvez eu recolha a roupa, o varal, a fratura exposta
e guarde em minha aventura selvagem o desejo único
- o de desaparecer dentro, bem dentro, agradada de minha voz,
desparecida da espécie que mata objetos a facadas
Hoje talvez eu nem apareça na janela que nunca existiu aqui

Patricia Porto

sexta-feira, 12 de maio de 2017

naquele tempo

Elvira Amrhein


naquele tempo o que me importava era
a proteção da bacia, a água, certa espuma
uma qualquer noite azulada

quantas costelas cabem numa coluna de mulher?
lançados com as mãos, quantos dedos cabem nela?
para levantar a mão e socar o rosto gasto dela?

como é fácil bater na mulher da rua, na mulher sem país,
na mulher sem terra, na mulher sem glória,
na mulher sem renda,
na mulher sem dote,
na mulher sem teto,
na mulher tão feminina de pênis,
como é fácil bater na mulher da outra mulher,
na mulher que apanha do outro,
na mulher que se ausenta,
na mulher sem útero,
na mulher de aquário,
na mulher da vida,
na minha mulher,
na mulher que me avizinha

o que não é fácil é a solidão da mulher que apanha a rosa
caminhando pelo bairro

quantos dedos cabem nessa flor sedenta?
como é fácil contar estrelas, olhar pro teto
- são tantas as aves nesse céu

Patricia Porto

quinta-feira, 11 de maio de 2017

não temo destroços

Winter on fire


a vida contemporânea tem muitos barulhos
muitos assaltos de chofre
muitos mandados de morte
muitos navios pra queimar

odeio telefonemas,
mas não menos que odeio e-mails

sinto saudades da ipanema e de seus teclados

não sinto saudades do subúrbio,
não penso mais em realengo
- ele me cheira com morte e coturnos

não tenho histórias engraçadas pra contar

a vida contempla o humano que sobra em nós,
está enojada por horas
anda descalça na rua onde eu corria e era menina
sinto saudades da minha menina
ela se foi cedo demais

a vida com o tempo é vasta
é o elástico da roda
um dia eu e minhas primas brincamos de hospital
quase matamos uma de nós
brincar poderia matar nossos brinquedos
nossa avó usava muletas e ajudava na descoberta
de que o quintal abrigava entulhos e silêncios

sinto saudades

hoje ainda brinco de morrer,
mas sempre acredito
um pouco

Patricia Porto

segunda-feira, 8 de maio de 2017

a onda



às vezes a onda atravessa a parede
e vem falar comigo: como você está hoje?

às vezes me engole como parte de sua circulação sanguínea

a onda precisa ser revés
golpe na face
corpo no instante
instante nu e tubo
tubo de ensaio
tudo é ensaio
tão frágil
eu sou tão frágil

a onda tão helicoidal
quebrou minha costela de adão
unhas, meu dorso de cavalo,
os dentes postiços
ainda com esses restos da carne

e nós somos, ali e aqui, tão quietos no tubo
tudo tão íntimo e silêncio
que não há língua que nos afaste
nenhuma palavra sonora
nenhum tremor
nenhum visto de entrada
nenhuma foto 3x4 estrangeira

apenas a ressaca
pés sujos
o embrulho na onda
a água batendo
na outra

Patricia Porto

domingo, 7 de maio de 2017

(sem título)

Giovanni Manfredini


O menino preparando um estilingue
A velha deitada em sua cama:

entre se afogar e mergulhar
O mar era o mesmo
A mãe era a mesma
A mão no cabelo
era no entorno, o vazio
de amamentar nos braços o inimigo

Nunca se cansava de dizer
e praguejar: passarinhos ao chão!

O menino dentro da casa de suas ilusões
mais sentidas era de uma sanidade atroz

Pegou da mão do menino e foi brincar de morrer na casa antiga de suas infâncias

Solta esse estilingue, menino!
A morte é a mesma e eu só desejo paz


Patricia Porto

segunda-feira, 24 de abril de 2017

deles nãos sei

Zanele-Muholi


escrever: a quem serve?
deveria servir feito almanaque
aberto de A a Z
mas hoje serviria para me desfazer

hoje escrever me serviria para te desfazer
para te maldizer
para me louvar
para não enlouquecer

talvez servisse para tomar café
com muita cafeína
serviria para acalmar a ressaca do mar
talvez para tentar suprimir o que é extremo
serviria para não mais degradar o homem dele mesmo
última espécie que acredita em alguma bondade

talvez hoje escrever serviria para andar na cidade
e ser gente alguma vez
serviria para não ouvir os passos que atormentam minha mente
talvez para aquietar meus demônios

talvez servisse de água potável
para encontrar o entre
sair da massa
encontrar as áreas de aderência
talvez servisse de céu noturno
carinho de mãe
cama quente
beijo de despedida
amor esquecido na última quadra
o sutiã sobrando na gaveta
nenhum mamilo

os meninos agora brilhando na rua
talvez escrever servisse para isso

enxergar?

nasci cega de um olho

- uso esses espelhinhos

Patricia Porto

sexta-feira, 21 de abril de 2017

A lua dos canalhas



a outra esquecia suas coisas sobre a cômoda
anéis, presilhas de cabelo, lenços coloridos
papéis de bala de hortelã

a outra esquecia suas palavras nas garrafas
eu levantava de noite para beber da sede
e lá bebia a outra toda, nua em prelo

a outra esquecia de aparar a grama do jardim
esquecia seu nome na janela que me abrigava
a outra esquecia seu perfil aberto
sua foto na sacada da minha arma
na carteira do canalha
na sola do meu sapato

eu batia os cascos e nada -
só eu morria devagar, insone, apavorada
ela se rindo enfim
eu cheirando seu lenço
apertando meu pescoço
como um gatilho
um gato manco
sob a lua dos canalhas

Patricia Porto

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Por caridade



sem palavrinhas
sem declarações por hoje
sem soar falso, por favor
a noite assombra
e eu com isso?
sem palavrinhas
sem efeito neon
incertezas, eu caminho pra frente
que amor?
e eu com isso?

vai assoprar uma vela
navegar num barco o sereno do mundo
vai se encharcar de alma
aprender língua de sinais

quem sabe por lá marujos a encontrem
a abracem com seus longos braços de mar
tua sombra de mulher vadia
a vadia da tua alma tonta

quem sabe um deus te abrace
um rio, um sabre
uma coxa aberta ao meio
tua racha
quem sabe teu deserto caiba
em tuas mãos

sem palavrinhas
sem mosteiros ou proteção da chuva ácida
sem sonar falso, meu amor

e eu com isso?
e eu contigo?
meus lábios te mordem
para dizer que neste barco, balsa, terno, rampa
não cabe nós dois

sem palavrinhas
e eu?
eu com isso?

Patricia Porto

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Pássaros benditos para meu funeral



Eu vou unir todos esses pássaros ao meu redor
os que bicam em minha cabeça, por favor, fiquem em silêncio:
vamos ouvir o que os pássaros têm a dizer sobre
as maquinações do tempo contra o afeto,
os pássaros vêm e pousam em meu casaco,
o casaco surrado dos dias de desemprego,
dos dias de desemparo,
dos dias sem poesia,
dos dias do feijão e arroz sem mistura.
Mas eles também vêm para comer algo na minha nuca,
algo que pássaros que bicam a sua cabeça não sabem o que é.

Seu corpo está cheio de alimento para os pássaros
que pousaram em seu casaco,
eles se aproximam e comem da sua nuca,
eles te dizem o quanto das suas velhas coisas,
jogadas no porão, valem às penas que carregam.

O amor, por exemplo, que doçura provar da boca do pássaro o alimento.

 Aos que bicam minha cabeça:
   façam silêncio!

Patrícia Porto

segunda-feira, 10 de abril de 2017

que diabo é isso?

e eu tentando ficar de pé
num pé só

e eu tentando tomar um porre
num gole só

e eu tentando me atirar ao abismo
com uma dentada só

e eu tentando riscar o quadro
com uma marca só de sangue

Logo eu! Logo eu!

Demônia, bruxa, Lazarenta!
Caetana dos infernos

e eu tentando amar um homem só
uma só mulher
uma penca de filhos só

Fadinhas boas me salvem
eu sei que o bem existe
- alguém disse pra mim
enquanto rasgava o meu pescoço

Fadinhas boas, onde estão?

e eu tentando cair no meu peito
num garfada só

Patricia Porto
   

TESTEMUNHO, EXÍLIO E DESALENTO

TESTEMUNHO, EXÍLIO E DESALENTO

                    Estar vivo/viva é um ato de resistência absurda, de negação ao determinismo histórico, econômico, étnico cultural, que coloca o sobrevivente dentro de uma determinada estrutura de poder como a única testemunha de seu próprio exílio. Ao sobrevivente, o “estar banido” não é uma questão de escolha, não é uma falha de sentimento ou de caráter que o torna capaz de escolher para si a cruel opção de “não-pertencer” a qualquer território que lhe acolha, que lhe dê a sensação de bem-estar com outros no mundo. Imagino as crianças que vivem isso como estigma. Fui uma dessas inclusive. Elas são sumariamente culpadas, elas próprias, por seus sofrimentos e danos, ou porque não rezaram direito ou porque não fizeram o dever de casa. A misericórdia dos que se penalizam mora na não-sutil perversidade de culpar o outro pelo próprio sofrimento e por isso mesmo se eximir de qualquer empatia.
                 Ouço e leio muitos discursos sobre igualdade, mas não encontro neles a possibilidade do diálogo legítimo com os diferentes. Não vejo “alteridade” nesta política da palavra que machuca. O que mais vejo é a supressão da fala do outro fantasiada de “lugar de fala”. A política que se faz no diálogo, na palavra, esta ponte entre mim e outro, não pode habitar na negação da fala do outro, no julgamento sem qualquer conhecimento prévio do outro, ou seja, sem nenhuma empatia – e que só serve para calar, abaixar a orelha do outro enquanto se fala – ou berra. 
                A malha do poder e suas tantas estratégias é mesmo muito complexa. Não é fácil ser uma pensadora livre. Pensadora livre, não por escolha, mas por estigma, para servir de testemunha de seu próprio exílio, para servir de culpada pelo seu próprio banimento. Ao menor ruído, desagravado, a lógica da recepção é a do novo colonialismo de fala: a da violência. 
                 Eu adoraria ser testemunha de outra realidade. Mas me deixaram esta de pia: a da busca que me violenta pela verdade que eu não sigo. Não, não a recuso, não recuso nem mesmo esta dialética torta. Não recuso sequer o desalento que me fere. E respondo, responderei sempre - antes porque é da minha natureza; depois, porque acredito que não há política, filosofia, arte, vida sem diálogo.

Patricia Porto

segunda-feira, 3 de abril de 2017

faca cega

Paul den Hollander_ South Limburg, 1978


Não existe este fora
ou este dentro
- tudo está agora naquela figura, a esfumaça
que cruza meu desejo de criar poemas

pediram para não citar o poema em vão
de ideia, foice que seja, em vão dessas minhas vigilâncias,
para não ser comida numa mastigada só, sem as beiradas

digo ao Rei que existe apenas o vestígio de ontem?
Que Ofélia serei se não mais estarei morta ao largo?
Ele me vê, porque sei que me espia pelas entrelinhas,
me vareja com seus dentes afiados, absolutos

E o vão, o vão é sempre tão sedutor,
mas que raio de poeta serei eu se não me enxergar na própria porta?
Contemporânea às tuas faces
feito Atena,
consumindo revistas,
direi do alto deste penhasco sem nenhum Cristo:

não, Destino, não há dentro ou fora
apenas vão
agora vão

Patricia Porto

segunda-feira, 20 de março de 2017

Para meu pai que está enterrado em Creta





Esta canção de desespero é para meu pai:
o sem rosto

sentada em banquete com meus espectros
lembro de pedir um fundo de abismo
que não traga espelhos

quero esquecer para sempre esmolas de afeto e amores cínicos

abraço apenas os desconhecidos, estou sóbria
cansada, mas sóbria

esta navalha no bolso, por exemplo,

é para o último cordão

o sonho íntimo do atropelamento é para crianças
que andam no asfalto

tenho pés inchados de andar

Patrícia Porto

sexta-feira, 17 de março de 2017

Da Arte de ter filhos

          



          
        Ser mãe, pai de alguém exige, logo de início, três idades: matur-idade, sensibil-idade, gêneros-idade. Você se torna pai e mãe de alguém quando, aos poucos, percebe que vai precisar por um bom período da vida cuidar mais de outra pessoa que de si mesmo, e como na oração de São Francisco aprende que pode amar muito mais do que ser amado e que pode perdoar mais que esperar ser perdoado. É por vezes aquele fogo esplêndido que nos torna divinos, próximos do alto e do ato de toda criação humana. E também é o abismo a engolir nossos pés, a nos revelar sobre a superfície sombria que há no diálogo com as pedras e que nos faz plenos do humano que vive dentro de nós.
          Ter filhos não é e nem se pode comparar com plantar uma árvore ou escrever um livro. Eu que já fiz os três sei por pele à flor que “filhos” superam as outras duas experiências e que ela, a experiência de “tê-los e sabê-los” é que nos golpeia com o melhor e o pior da nossa própria natureza. Prefiro aqui falar do melhor, pois do melhor depende o suficiente de nós. E essa parte que depende de nós é feita de trabalho, um artesanato continuo que comunga com o estar aberto a entrar na roda e girar ao seu sabor e saber. Afinal há sempre o imponderável, a surpresa, o tal inesperado de viver. Perigoso como disse o Rosa.
          E há de tudo nesse exercício e de tudo se vive “um pouco”: um pouco de medo, um pouco de insegurança, um pouco de choro. E se vive também do “tanto”: de tanto orgulho, tanto alívio, tanto respeito. E é claro, se vive do “baita”: baita alegria, baita susto, um baita desespero se chora sem que se saiba o porquê ou se fica sem conseguir respirar direito no meio da madrugada. Você quer ser o ar, um sopro de cura repentino ou quer mesmo transferir o seu peito pro dele ou dela – com as próprias mãos estendidas. E torce pra que a noite se torne dia imediatamente e a noite vai ficando longa de doer sem fim. Então você pode, inevitavelmente, vir a descobrir que tem pouco: pouco recurso, pouco dinheiro, pouco sossego. E descobre que tem muito: muito amor, muito amor, muito amor. E se doa de graça como nunca imaginou fazer na vida. Você que era tão egoísta, tão yuppie, tão workaholic, tão porra loca, tão “não tô nem aí”... Encantado agora com aquela coisinha fofa... Tão preocupado com a nota de Física. Você que era tão politicamente frio vira manteiga derretida de carteirinha, de platéia e arquibancada.
          Ser mãe ou pai de alguém é também precisar contar: contar as noites de sono sem dormir, contar os carneirinhos quando se tem noite, mas a insônia vem e eles não chegam em casa, contar os dias que faltam pros pequenos irem pra escola pela primeira vez ou contar os dias que faltam pra chegada deles que foram fazer aquela viagem dos sonhos pra um país que você não sabe sequer pronunciar o nome. E que de lá deram aquele pulinho de alguns bons anos conhecendo o mundo, se aventurando em outras viagens. E aí você conta: conta uma história pra dormir, conta as moedas pro sorvete, conta uma notícia triste, conta uma anedota, “aquela do papagaio que...”, conta as suas travessuras quando menina, menino; conta que se esbaldou no primeiro, segundo, terceiro Rock in Rio só pra dar aquela concorrida. E conta, conta com a fé, com a esperança – sempre, última, pequenininha, com o santinho já suado de torcido na mão. Você se agarra nela: esperança, porta, saída, quando todos já desistiram, já baixaram a cortina ou fecharam pra balanço. Você é a última pessoa, a pessoa que não apaga a luz nem mesmo quando o mais sensato é economizar. Economizar o espírito, o coração. Ah, o coração. Esse sofre! Quando não morre mesmo! Várias vezes! Por dias, meses, anos a fio. Vai lá o coração: na boca! No estômago! No corpo inteiro e como disse o poeta Maiakovski: “somos todo coração”. E somos lágrimas, risos, sentimentos confusos, de espelho, de figuras gregas. Queremos dar o que não tivemos ou tomar o que tivemos de sobra. Dias de estranhezas e profundezas na alma. E podemos até nos confundir com eles nas quedas dos saltos, nas asas deles podemos imitar a nossa ideia de liberdade; pro que liberta ou castra, pro que não sabemos ou não ousamos libertar de nós.
         Filhos: eles são sempre mais jovens que nossos olhos, que nossas possibilidades de enxergá-los com mais clareza. E por isso mesmo há neles e é deles o novo viço da vida, a beleza dos pequenos extraordinários, o ímpeto, o sublime e a aventura. Sim, eles estão mais perto da primeira parca e é deles todo um tecido que há pela frente para se passar o bastão, o chão da terra roxa. Que bom quando não há nenhuma trapaça, nenhum tipo de traça tentando ruir o que é somente deles: o sonho, o desejo, a vontade de ser mais ou menos, mais e menos, menos e mais. Ser pai e mãe então é refletir: sobre a espera, sobre o tempo, sobre as angustias diante do começo ou do fim, refletir sobre o ser mesmo, sobre as certezas arruinadas, sobre saber se despedir quando é preciso, sobre margens desde cedo anunciadas. E ser criança na infância que ele traduzir. E saber que não se pode libertar o que já nasceu liberto para ser inteiro.   
         Ser mãe e pai é re-aprender todos os dias aquelas quatro operações matemáticas: dividir, somar, diminuir e multiplicar. Diminuir talvez a mais difícil, como cortar na carne, sair do centro pra viver a delicadeza da periferia. Falar menos, ouvir mais. Sorrir mais, podar menos. Abraçar mais, o que conseguir. É nossa a sabedoria. E serão nossos também o que eles saberão de melhor na terra: os filhos deles, os netos. A vós... Avós são uma outra margem... Como migalhinhas de pão, doces de chuva, histórias de outras vidas, as mais antigas, as mais sonoras de todas...

Patrícia Porto

domingo, 12 de março de 2017

Sem licença




Ser leve. Peso pluma.
Ser do pássaro o imponderável.
Não criar raízes. Criar asas.
Escrever na pedra o sangue fresco.
Beber do sangue e ritualizar a promessa de ser uma. 
Guardar o corpo para a próxima estação

segunda-feira, 6 de março de 2017

...



Viajar seria a palavra na falta da outra
Na falta da outra seria a mão a revoltar a terra
Na falta da outra uma pá, uma prótese
para esquivar tranquila da onda

e mergulhar, ser imersão,
engolir sozinha o que há de tudo até os miolos

Re voltar na vida
uma vela de lumieiro
ou acender aquela alma tão doentinha, a estrangeira

Viajar para a outra parte e ser do outro o ex-mundo no mesmo
como quem diz ser perto demais a dimensão do oceano
para perder o fio da cabeça

ler reclames de ilusões nos prédios altos
e acreditar que teto é abrigo
que amigo é o hostil que te dá tapas nas costas,

Na falta de todos ver o mar (os avisos)
arriscar ser na torre próxima, o corpo e o signo da vez

Viajar sozinha sem nenhum efeito placebo -
Irremediavelmente imunda
a Retirante

Deus é mãe,
o espírito, humano,
Patrícia

o filho é que é o intraduzível,
língua outra

Patricia Porto

quinta-feira, 2 de março de 2017

Matheus e A Mariposa




                      Naquele verão quente de janeiro, naquela cidade fria e quase sem vida noturna, fomos ao teatro ver a peça de Matheus, o “Processo de Conscerto do Desejo”, peça em que ele declama poemas escritos por sua mãe, Maria Cecília Nachtergaele, moça muito jovem que cometeu suicídio quando ele tinha apenas 3 meses. Mas antes de falar disso por completo, quero trazer outra lembrança, porque nas sincronias da vida, eu também tinha ido, semanas antes, ao Oi Futuro ver uma peça-montagem de Diana Blok sobre identidade e diversidade nas relações afetivas. Sim, lá estava o Matheus, lindo, travestido de mariposa em flores miúdas. Impossível não amar a perspectiva cênica naquela perfeita transmutação de gênero, daquele paulista mais nordestino que já vi na vida. Tenho dito. Quando voltei à peça de Matheus já havia uma intimidade entre nós, um convite à poesia, um convite para dentro, quando alguém diz: "vem mais perto, vem aqui conhecer os meus interiores. Mas logo aviso, que não são lá todos bonitos." Assim sentimos a pele do ator encarnado, ator amoroso, despido entre luzes que não destacam apenas vaidade, comum e até necessária. Era o homem-menino-mariposa em flores miúdas, travestido de poema, nu, belo de gênero e palavra. Às vezes se fazendo canto de música para a caixa de memórias, a ressonância enigmática dos suicidas, noutros momentos era o silêncio, fundo, tão fundo sem razão para qualquer palavra. Quanta beleza há na pedra, naquele fio de água passando ali... Saí do espetáculo, um espetáculo, extasiada, poética, bailando entre flores miúdas. Eis que no caminho de volta, na rua escura, lá nos encontramos nós, eu e ela sozinhas, eu e a mariposa. Sincronias.

Patricia Porto

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Do Pau Oco

Lua Morales


no tempo do cala-bouço
há uma festa entre fantasmas:
a sirene, o tiro no asfalto
minhas pernas bambas
avulsas, uma a uma
soltas no ar
- balão, pernas e oxigênio
para os lacrimogêneos

a vista turva
porque o tempo embaça
e há estilhaços nos olhos
para esta despedida
que parte meu coração
feito meu país calado

não, não sou um ser humano cínica
nem ímpar

Patricia Porto

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Para os homens de bem dos últimos dias

Noell S. Oszvald


Nesses dias avulsos da tempestade
ouvi dizer que homens invadiram Creta
armados até os dentes homens mataram pequenas espécies da ilha
Nem Jacó ou Maomé puderam salvar os seres humildes,
apenas o frio congelava a água nascente
os cemitérios estavam cobertos de gelo humano
nuvens carregavam vários sinistros
jornais anunciavam um carnaval fora de toda época

mulheres choravam sobre as cruzes
eram muitas da minha família de muitos mortos,
de mortes matadas e não assistidas,
assassinos comiam sorvete americano pensando ser do exército alemão,
o golpe era sem derramamento de sangue
a poesia não fazia mais política
a poesia também era mercadoria
só o sexo dos anjos importava
mas Safo estava livre em outra órbita
descansando de tanta desgraça

nesses dias insanos da tempestade
que varreu os últimos dias,
a acidez do estômago era mesmo tumor
flagelos de pessoas andavam insones costurando notas falsas
enquanto um bolo subia por dentro da boca ferida
e o tempo se escasseando vingativo
era filho pródigo daquela senhora: a violenta

a lei confirmava tolice e engano
o corpo, o único lugar de paragem,
sem religião na mente fazia templo o viajante,
a cabeça uma dona de cais

inquietação exigia outras ferramentas de oficina
mas o espírito, essa coisa do diabo,
era pura imaginação

Patricia Porto

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Nasceu para todos.

Sally Mann


Ficou sem teto
as noites com seus objetos pontiagudos
vieram dar boa noite, vez por vez, um cerco.

A escrita já não era a solução pra nada,
não tinha amigos. Sua poesia era um isto.
Basicamente sem amigos.

Ficou sem ar no balão de oxigênio,
escafandros eram para os com chance.

Precisava escrever poemas ou notícias para não asfixiar,
mas não precisava de falsos profetas, extrema a unção,
a piedade dos calhordas.

Quanta lástima uma mulher pode carregar na alma?
quantos origamis da mesma tristeza?
Um revólver sempre apontado pras estrelas,
um cano esguio na boca,
o céu enfim.

Patricia Porto

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

quem é a mãe do inseto?

Elliott Erwitt

pode ser tão fina a camada
que me separa do outro: lado direito
e lado esquerdo na mesa, casa, ruas, separando nossos utensílios
de guerra?
um avestruz ou um cisco no próprio olho
em conformidades com o silêncio do café, a tinta fresca, o corpo
com riscos verídicos de morrer de insônia e gota

a idade, um sinistro de exatos:
medo de cair, sangrar pelas narinas,
quebrar os ossos

tanto tapa na nuca vez acordar pro êxodo,
tanto chute que a ferida emprenhou

nascida de uma coxa
gerou um deus desgrenhado
sem pele, sem unhas
torso com escamas
atávico

um bicho voraz
capaz de devorar a si mesma


Patricia Porto

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Por favor, me cuspa.

Retratos de moradores de rua por Lee Jeffries


O cego emocional
não enxerga teus olhos
não enxerga teu vulto
muito menos tuas feridas na guelra
tuas noites dos infelizes
raízes no teu assoalho
a linha do Equador
o raio cúbico
o átomo
a vírgula
e o gesto

O cego emocional te cospe
de rude
é anêmico
está dando pra rir agora
neste momento
quando chacoalha a barriga
e esfumaça um antílope

O cego emocional
comprou um placa para os desafetos

Nela está escrito: Por favor, me cuspa!


Patricia Porto


O MÍMICO

Mulher em Macinômio.  Esta imagem faz parte de uma série de fotografias de George Georgiou (fotógrafo britânico), que trabalhou na Sérvia entre 1999 a 2002. A produção de George mostra os pacientes e as condições precárias de um hospício da Sérvia.

*

Dos privilégios de estar vivo e morto:

Hoje ainda nem morri

silêncio é quando há um suspenso, uma corda
e aquela adaga na cabeça diz: se joga!
o tempo pendular da guerra é frouxo,
faz ninho com seus tentáculos no chão

te cortam uma perna, nasce outra
jogam tua cabeça suja, teus pensamentos sujos, tuas palavras imundas
dentro de um balde d'água limpa
a fim de te purificar

Não te tortures!
coração é alma na boca aberta, mas só quando o dente podre dói
 há disfarces de peso pluma (um chumbo escondido na exátula)
- dilatas então um pássaro mímico com as mãos

Não te tortures!

Hoje nenhum de nós entre eles morreu de véspera
nenhum cínico aplaudiu com dois dedos o nosso fracasso,
o fato de não escrevermos versos concisos
nem coisas de sentido enfastiado
Ficou esperando e nada explodiu nas pupilas
O que dizia mesmo Maiakóvski?

ninguém hoje indiferente notou que temos corpos
e estivemos vivos e doloridos o tempo todo

desagradeço pois,
ora, pois
por nós não
não queremos vossos remédios!

Patrícia Porto

domingo, 29 de janeiro de 2017

"Outros Cantos" e a estética da sobrevivência.



        

                     Há narrativas-correntezas tão fortes que nos fazem mergulhar no outro que também somos. Parece algo muito fora de nós a princípio, dada a vertigem do encontro, mas vamos entendendo no percurso da leitura que é realmente da nossa intimidade que se alimenta, da nossa imediata identificação,dessa afinidade aguda que pode até mesmo nos interrogar e que se lastreia para dentro, nos investigando os porões, revirando os guardados, revelando vozes segredadas, aquelas que não cuidamos de registrar e que vão se misturando ao chão da vida, trajetórias de leituras que nos escapam... E é partindo deste princípio, do meu lugar de leitora e educadora, ambas encantadas, que ofereço uma modesta contribuição de olhar a "Outros Cantos" de Maria Valéria Rezende. Porque, se nos encantamos e ainda não fomos castrados nesta habilidade, é pelo olhar curioso, visitado por outros sentidos, que nos deixamos reconhecer no texto lido e amado. 
              Em "Outros Cantos", ao me deparar com Maria, as Marias que habitavam em mim ressoaram. Dentro de mim uma nova jornada mítica: significar o que compreendo como estética da sobrevivência. Algo de delicado e outro de doloroso me ocorrem para tentar descrever esta estética de histórias que se assemelham às minhas e recriam pela cultura este diálogo permanente e polifônico. Como recebo Maria a partir de minhas Marias? As Marias que não deixei vingar, as que calei de saída, por medo e resposta antecipada contra o que parecia destino? Perguntas teimosas me fazem companhia pelo trajeto da leitura, às vezes estreitando a vista a fim de enxergar melhor esses jogos de perder e achar. Não sei se alcanço o todo de dizeres que vão brotando da pedra, a minha é a mais bruta. Procuro aqui e ali um desvão, um atalho que nos una, e que me faça encontrar Maria, a educadora, a nordestina, a viajante, a corajosa - num feito de matriochka. Um engenho elaborado entre escrita e significação que vou costurando junto à cartografia do sertão. O sertão que se biparte em geografia e sentimento. Patuá de sertão é para sempre esse carregado de memórias no peito. 
                  Mas eis que surge a imagem que persigo: a viagem. O caminho sensível pela alma de minha leitura amorosa, alma porosa, cálida e dedilhada pelo risco e invento dos sobreviventes. Tento sintetizar minhas percepções e palavras como "denso, perturba-dor, delicado" são os melhores qualitativos que encontro. Ouso trazer Maria e "Outros Cantos" para minha coleção de imagens. Guardo este segredo de quem escava histórias em mil camadas e que se instaura na convergência da leitura com a educação: dois amores e uma espécie de circuito inacabado que encarna no mundo como aliança quixotesca, subversiva, desviante. "Outros Cantos" acende em mim a tradição das almas velhas. Dou rendas à escritura: cheia, vazia, entrelaçada, torcida - que não guia, mas nos torna cúmplices da narrativa, sujeitos clandestinos, desejantes e sonhadores.


Maria Valéria Rezende é ganhadora do prêmio Jabuti e do prêmio Casa de Las Américas.

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos
Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.
Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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