quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Filogramas


Laura Ferguson


o não feito corpo morto à deriva,
verso de molas à deriva
como um beijo, saliva, sangue,
seio direito à deriva,
eixo norte, sul,
uma asa aberta
em degelo

minhas coxas projetam
imagens fluídas
e estão liquefeitas

no quarto de vestir as aparências
acendo a cela solitária de escolhas livres

o cansaço da viagem machuca os pés,
são uns espinhos nos miolos,
porta à deriva do sol
não deixa passar a luz branca que bate

avisto borboletas como insetos,
flácidas de toda cor e algumas sépias
que do olho mágico só vejo bruxas

a dor que funda é esta: carne suja
sem filtro

tenho dó de não pertencer ao retrato
e se as entendo voando por perto, mariposas feias,
não sei se me abro a janela
ou se morro junto, pulando em mim

Patricia Porto

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Casa Antiga

Sophie Blackall


Toda casa tem um alçapão,
um esconderijo de corpo
e outro vão de vazio pra alma.
Eu quando miúda gostava dos cantinhos.

Toda casa, grande ou pequena, tem uma janela
que um dia teve um passarinho que ninguém viu
- pois foi sequestrado para poemas.
Tem um irmão menor que vira maior, correndo pelo assoalho,
e uma água que pinga no peito, água de infiltração.

Todas as casas têm esses pingos,
paredes choram,
e têm gente guardada, pingentes, assovios e leite derramado.
Um ZunZunZum, som de pés correndo pralgum lugar  .
E tem a solidão, a goteira do teto que antes se anuncia por dentro.

Tem também um jardim que alguém cuidava com mãos de tristeza.
Uma velha rezando no escuro.
Uma vela pra morta na sala.
Minha avó costurando amarguras
e um silêncio
                     mortal
                                sem asa
                                sem chão.  

Patricia Porto