domingo, 18 de setembro de 2016

Erectus

Tatiana Parcero 


Corpus erectus:
erótico profético e profano.
Veja meus pés.
Quantas línguas cabem neles?
Quantos significados?
Mas eu não tenho tempo para a poesia.
Sou mulher.
Uma criança grita na sala,
ela precisa urgentemente de vitamina D.
Meus berros estão guardados em pequenas caixas
de estrutura sonora.
Preciso não ser a louca para ser alguém aproveitável,
competitivo, agressivo.
Preciso ser a vitamina D do sexo disponível.
Preciso comer placenta.
Corpus erectus.
Quantas línguas cabem na xana?
Não posso falar sobre a xana,
que não seja no signficante,
preciso abrir espaços para que os homens falem,
trabalhem, brilhem, executem suas tarefas satisfatórias.
Dizem que a  civilização é o domínio do homem sobre outros homens.
Mas há sempre os cães bestializados que batem na porta para entrar.
O cão bem suja a palavra dos homens,
a loucura que os homens destinaram às mulheres.
A xana desoculta a nossa verdadeira liberdade indomesticável
contra os deuses dos festivais.
Para eles a bruxaria,
contra a escassez contemporânea, o selvagem,
o que engole a palavra fácil do homem que introduz
sua crítica na nossa xana.
Corpus erectus.
Quantas vozes cabem nesse corpo todo?
O corpo é o espetáculo civil da experiência.
Esse corpo, esta zombaria franca
é o desejo espelhado na cara da santa covardia.
Uma mulher sem classe é a mulher desobediente,
que insana de seus novos poderes solta uma gargalhada
e se arremessa nas suas próprias quedas
- seu corpo não é deus, é uma menina.

Vejam! Acabou de se parir.

Patricia Porto  

terça-feira, 13 de setembro de 2016

os párias

de onde vejo o mundo minha calcinha se inunda
não vejo por meios microscópicos qualquer centelha de hipocrisia
a vulva pública da grandeza terrena quer parir gênios da humanidade,
mas as mãos viris de Deus os examina por veículos macroscópicos

ninguém merece o céu da escrita
- talvez aquele cão lambendo a calçada

Patricia Porto

domingo, 11 de setembro de 2016

Cabelo de vó

Esta que dança no escuro da terra é minha avó,
ela saiu da cidade, ela cortou o cabelo,
ela teve muitos filhos, mas só criou uma

minha avó é aquela de calça comprida,
ela fugiu com um aviador,
ela largou meu avô e nove filhos

a mulher que dança no sol é minha avó,
ela encolheu de repente,
ela viveu em São Paulo,

esta que veste chambre é minha avó,
ela fala em línguas estranhas,
ela envelhece de raiva,
seus cabelos são longos como os da Rapunzel

a mulher que dança no mar é a minha avó,
ela escuta a rádio relógio,
ela é a mulher das horas,
seus cabelos tecem o ventre do Novo Mundo

- ele está vazio de Amor

Patricia Porto