terça-feira, 13 de setembro de 2016

os párias

de onde vejo o mundo minha calcinha se inunda
não vejo por meios microscópicos qualquer centelha de hipocrisia
a vulva pública da grandeza terrena quer parir gênios da humanidade,
mas as mãos viris de Deus os examina por veículos macroscópicos

ninguém merece o céu da escrita
- talvez aquele cão lambendo a calçada

Patricia Porto

domingo, 11 de setembro de 2016

A moça, a bandeira e o cão.



Antonio Dias
  
          Nem notara que passava diante de um prédio, onde uma cerimônia de hasteamento da bandeira se realizava. Para ela, não havia a calçada quando o horizonte do hino elevava-lhe o espírito. Afinal, crescera com o progresso a abalançar-lhe o coração com o ar de seu próprio sangue. Calçadas para ela eram para serem estilhaçadas com pedras portuguesas, para que seus pés forrados com o melhor couro alemão fizessem dos danos de seus algozes um batuque refinado em plena orla de Copacabana.
         Enquanto no mastro a bandeira tremulava ao vento, seus cabelos soltos flutuavam luz entre fios manchados em colorido, sacudindo-lhe a imaginação. Então, entrelaçados a imaginação e os fios de algodão, o tecido leve da bandeira despejava ouro como folhas de outono numa bateia em forma de redemoinho. Girava-a ao ar, garimpando na luz uma ilusão repetitiva. Despejava-a em forma de filete na calçada quente, onde se desfazia entre pedras pretas e brancas em direção à Avenida Atlântida. O mar e o concreto e a velocidade a acolhiam como se ela fosse uma forma inserida nas pedras. Mas, satisfazer-se no recapeamento do asfalto, tornaria aquela Avenida um mero colar banhado de luzes na garganta de uma vitrine da Zona Sul.
     Na verdade, ela queria mesmo era a grandiosidade dos anos setenta, se revelando nas obras decadentes. Desejava que naquelas tolas estátuas o fomento de sua geração fizesse crescer a vida recuperada de sua jornada pela tortura esquecida dos maravilhosos anos setenta. Desejava que outras cores vivas vestissem sua bandeira imaginária, de forma que a cada batida de seu sapato de legítimo couro alemão fizesse surgir ali, ao seu lado, escombros do muro invisível que separava os anos de sua juventude dos anos de sua recente inquietude. Destroços de seu muro, pedras portuguesas, batidas absurdamente ouvidas em alto som, batidas de seus passos largos sobre o cimento da modernidade, seguindo-a, farejando-a como um pastor também estrangeiro. Poderia senti-lo roçar sua perna, roçar o seu pulso, encostando o focinho ao bracelete que carregava um farpado de espinhos, um cão farpado , um cravejado de arranha-céus. 


Patrícia Porto

Cabelo de vó

Esta que dança no escuro da terra é minha avó,
ela saiu da cidade, ela cortou o cabelo,
ela teve muitos filhos, mas só criou uma

minha avó é aquela de calça comprida,
ela fugiu com um aviador,
ela largou meu avô e nove filhos

a mulher que dança no sol é minha avó,
ela encolheu de repente,
ela viveu em São Paulo,

esta que veste chambre é minha avó,
ela fala em línguas estranhas,
ela envelhece de raiva,
seus cabelos são longos como os da Rapunzel

a mulher que dança no mar é a minha avó,
ela escuta a rádio relógio,
ela é a mulher das horas,
seus cabelos tecem o ventre do Novo Mundo

- ele está vazio de Amor

Patricia Porto

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

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Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
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Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

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Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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