quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Golpe




Alguns me dirão que o caminho certo está do outro lado da porta.
Prefiro a saída enigmática e desconhecida das ruas.
Elas me lembram que há muitos seres como eu,
isolados, dessolados, desistidos, insistindo, profanando de
esperança qualquer matéria de opressão.

Patricia Porto

terça-feira, 30 de agosto de 2016

O circo dos horrores e as mulheres serpentes

Enrico Robusti

A mulher corpulenta de colar de pérolas, riso cínico de pérolas, olhos sorrateiros de pérolas anunciava o cortejo dos trabalhos. Sem reflexo, olho de vidro, com um cinismo mais tórrido que seu vestido de viscose, visgou-se no muro. O urso polar está em extinção, mas a mulher justiceira de pérolas em multiplicação prolifera-se. Eram meninas soberbas. As meninas prodígios com vestidos de flores verdes como flores amarelas de plástico e alegorias de igreja. Egos nervosos, ecos de caverninhas de Platão perdem para inferninhos de Dante. Falas de direção, vozes duras, timbre másculo feito um pau em ereção pela manhã. Como competir? Para quem competir? Competir, competir... feito um pau de viagra, uma vagina com estacas de pau de sebo, bola de sebo, o sebo escorrendo pela boca da vagina de plástico.
Como competir com a vagina de sebo? Como levar vantagem em tudo? Como enrouquecer a voz e pisar de coturnos em marcha com mechas longas guiando criancinhas para a câmara de gás? Rostos de garotas coca-cola, como competir? Como vencer da coca-cola? Como vencer se a pessoa de nascença tem o nariz torto e o mal do septo?
A mulher serpente de plástico terminando os trabalhos, olhos de pirata, sorriso de fios de vilania, incensava o ambiente, colar de pérolas aos porcos, as porcas de visgo, viço fácil, dentes de porcelana. O rio ia passando lentamente sem cortes de edição... Choro de escada, escada de mármore polar, frio polar, abraço polar, solidariedade polar, solidários de merda que apertam com a mão mole, carregam pastas e dejetam pela boca que vão rezar pelos menos favorecidos. Menos favorecidos de quê?
A mulher corpulenta goza com seu pequeno poder de balança, seu pequeno poder de merda, goza com seu sorriso de merda, atravessa o corredor da morte alheia se achando a rainha da grande batalha, na sordidez da vitória. Mas no final do corredor se fingindo de amigo há um gato que ronrona.
No circo das mulheres serpentes tudo desfunciona numa traquitana.
E serão servidos testículos de velhos bois como prato principal, uma iguaria.

Patrícia Porto

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

válvula e escape

David Mellon



aço no caos
como parafusos apertando,
sol de agosto é frio na nuca
e bolso vazio

olho para o cão que passeia comigo

dias de dizer sim ouvindo não
como essas imagens de cinema,
as dores de deserto que nos atravessam
são holofotes na casa dos quarenta
- não sei se viverei para contar meus ossos

viajar de corpo
é para os que sabem viver

eu vou amarrando as tirinhas no braço,
calafrio é sem etiqueta,
 a certeza de não sofrer de delírios é que é mais dura

uma canção dizia "quem sabe a gente se esbarra..."
quem sabe por dentro dessas vagas
nesses dias vultos
feito eu, esse fantasma

mas desejo é gentileza,
e gentileza é ter pavio, algum desejo


Patricia Porto

Livramento

Paulis Postazs



Não sou um bicho ordeiro
feito as galinhas de Meruca

- misteriosos eram os galos e as galinhas daquele lugar.

Feito um galo de briga cresci em meio às galinhas,

por isso me tornei um galo,

um galo de briga.

Pescoço duro, eriçado.

O avô, compenetrado, com a mão no queixo.

Misterioso era nascer mulher e galo

entre as galinhas ordeiras de Meruca, a beata.

Reminiscência é onda, água boa de sonho,

argila mole pra fazer o santo da casa

- por fora é que crença, a cura,

por dentro é esse sem limite, essa sombra.

Quando um verso molda

outro vem, rói a corda.

O livramento é um raso

e a memória dá rasteira no destino

com suas longas pernas de pau.

Patricia Porto

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Lavanda

Pina


o cheiro crespo tem lavanda
minha roupa crespa
meu teto crespo
meu cabelo crespo tem essa lavanda

eu trocaria qualquer mediocridade instantânea
por um minuto de ideia acesa

o corpo tem essa história secular
com sabor de terra,
perdemos em fascículos

eu trocaria os tambores que estão em cima do armário do quarto
e me deitaria de botas na cama,
a blusa aberta

o tempo tem essa vertigem secular
e eu me mataria por pouco
- tanta poesia vazia nas prateleiras

mas essa lavanda me exala, me exila

Patricia Porto

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Para os nossos dias mais sagrados

Whattaroll


Para os nossos dias mais sagrados

Não vou desistir do poema
Não vou desistir da língua que como
à brasileira]
a brasileira no caldo do trabalho
- o fruto a fluir quente
entre minhas pernas

Água de nós
são flores de narciso
Não vou desistir do ato e cairei de pé!
não vou desistir de escrever no muro o que falo,
não vou desistir da mulher que não quis parir
Da maternidade sei a voz mansa do veneno
como o engasgo que mata suave,
feito o engodo que vive nos braços,
o engodo que chamarás de mulher, mãe e filha

Água de minha língua,
ácida nos olhos da mulher que chora pelo filho postiço,
molhando de desespero a saliva dos agregados,
não vou desistir desse objeto oculto e mítico,
não vou desistir da criança que ficou presa no quarto,
não vou desistir do desejo de partir para longe de toda indiferença,
não vou desistir de escrever as palavras que te furam, te ameaçam

Saibam, moças de escrita culta,
não vou desistir de esfregar o poema da mulher da rua – na cara do senhor Puntila,
da mulher de língua fácil, da mulher em trânsito, no tumulto de seus contrastes,
quero a língua toda, a medonha, o sol que vai subindo,
queimando,
céu & inferno

Não vou desistir de deixar Orfeu

Ela é minha,
minha essa outra
A mãezinha da cantiga está morta.
Restou-me esta aqui: a carnívora

Patricia Porto

domingo, 14 de agosto de 2016

A natimorta



Patricia Piccinini


A natimorta

No espelho uma mulher se desconhece.
A solidão é sempre
útero invertido
- incapaz de gerar uma sociedade.


Patricia Porto

Para o admirador que aplaude a poesia de vitrine.



Posso ver o rosto da mulher que veio antes de mim.
Era uma mulher portuguesa, uma mulher negra, uma mulher índia.
Elas estiveram fazendo sangue na minha história pela raiz.
Posso ver o rosto da mulher que me habitou uma ancestralidade
na minha origem mortificada,
morta aqui como eu estou com meu cigarro apagado nas mãos,

posso ver minha vertigem e não é da natureza,
não é da natureza a herança branca e limpinha,
não é da natureza a zona de conforto de pares justificados,
não é da natureza a verdade de ver
na poesia a bocetinha de ouro,

abri a revista e avistei a mulher branca, bonita, enfeitando as páginas dos poemas,
consagrada por autores brancos,
homenageada por seguidores brancos, ceifadores de matéria prima exótica.
Bebedores de Whisky que compram no freeshop
festejavam a poesia comprada a peso, oferecida como peça de buffet,
poema de grife, esmalte rubro na unha,
poesia vendida para colecionadores brancos
em suas festas brancas,

poesia engraçadinha, poesia da moça da vitrine,
poesia gostosinha, poesia branca,
para homens sebosos, gordurentos brancos.

Posso ver o rato, a curva por onde passa um elefante branco
- desejo me comunicar com eles,
- não são homens os animais incomunicáveis, não são brancos, não consomem poesia de riso fácil.

Mordo meu cigarro. Quero me comunicar com elas, as loucas sem endereço, as incomunicadas,
as putas da minha ancestralidade, as que levaram porrada, as intocadas,
as que existem e marcam, e as párias, as ajustadas com ferros nas cabeças,
as sem território,
as mulheres arrastadas pelo asfalto,
as que choram na carne a perda
as que ficaram na pedra, sem juízo algum.

Não há lugar para mim
entre os poemas perfumados à francesa,
não há lugar para mim
entre homens brancos que celebram a poesia de vitrine.

Quero o cheiro da gente, a suja,
o sabor do sangue na boca,
o poema que morde
e morde.

Patricia Porto