sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Lavanda

Pina


o cheiro crespo tem lavanda
minha roupa crespa
meu teto crespo
meu cabelo crespo tem essa lavanda

eu trocaria qualquer mediocridade instantânea
por um minuto de ideia acesa

o corpo tem essa história secular
com sabor de terra,
perdemos em fascículos

eu trocaria os tambores que estão em cima do armário do quarto
e me deitaria de botas na cama,
a blusa aberta

o tempo tem essa vertigem secular
e eu me mataria por pouco
- tanta poesia vazia nas prateleiras

mas essa lavanda me exala, me exila

Patricia Porto

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Para os nossos dias mais sagrados

Whattaroll


Para os nossos dias mais sagrados

Não vou desistir do poema
Não vou desistir da língua que como
à brasileira]
a brasileira no caldo do trabalho
- o fruto a fluir quente
entre minhas pernas

Água de nós
são flores de narciso
Não vou desistir do ato e cairei de pé!
não vou desistir de escrever no muro o que falo,
não vou desistir da mulher que não quis parir
Da maternidade sei a voz mansa do veneno
como o engasgo que mata suave,
feito o engodo que vive nos braços,
o engodo que chamarás de mulher, mãe e filha

Água de minha língua,
ácida nos olhos da mulher que chora pelo filho postiço,
molhando de desespero a saliva dos agregados,
não vou desistir desse objeto oculto e mítico,
não vou desistir da criança que ficou presa no quarto,
não vou desistir do desejo de partir para longe de toda indiferença,
não vou desistir de escrever as palavras que te furam, te ameaçam

Saibam, moças de escrita culta,
não vou desistir de esfregar o poema da mulher da rua – na cara do senhor Puntila,
da mulher de língua fácil, da mulher em trânsito, no tumulto de seus contrastes,
quero a língua toda, a medonha, o sol que vai subindo,
queimando,
céu & inferno

Não vou desistir de deixar Orfeu

Ela é minha,
minha essa outra
A mãezinha da cantiga está morta.
Restou-me esta aqui: a carnívora

Patricia Porto

domingo, 14 de agosto de 2016

A natimorta



Patricia Piccinini


A natimorta

No espelho uma mulher se desconhece.
A solidão é sempre
útero invertido
- incapaz de gerar uma sociedade.


Patricia Porto

Para o admirador que aplaude a poesia de vitrine.



Posso ver o rosto da mulher que veio antes de mim.
Era uma mulher portuguesa, uma mulher negra, uma mulher índia.
Elas estiveram fazendo sangue na minha história pela raiz.
Posso ver o rosto da mulher que me habitou uma ancestralidade
na minha origem mortificada,
morta aqui como eu estou com meu cigarro apagado nas mãos,

posso ver minha vertigem e não é da natureza,
não é da natureza a herança branca e limpinha,
não é da natureza a zona de conforto de pares justificados,
não é da natureza a verdade de ver
na poesia a bocetinha de ouro,

abri a revista e avistei a mulher branca, bonita, enfeitando as páginas dos poemas,
consagrada por autores brancos,
homenageada por seguidores brancos, ceifadores de matéria prima exótica.
Bebedores de Whisky que compram no freeshop
festejavam a poesia comprada a peso, oferecida como peça de buffet,
poema de grife, esmalte rubro na unha,
poesia vendida para colecionadores brancos
em suas festas brancas,

poesia engraçadinha, poesia da moça da vitrine,
poesia gostosinha, poesia branca,
para homens sebosos, gordurentos brancos.

Posso ver o rato, a curva por onde passa um elefante branco
- desejo me comunicar com eles,
- não são homens os animais incomunicáveis, não são brancos, não consomem poesia de riso fácil.

Mordo meu cigarro. Quero me comunicar com elas, as loucas sem endereço, as incomunicadas,
as putas da minha ancestralidade, as que levaram porrada, as intocadas,
as que existem e marcam, e as párias, as ajustadas com ferros nas cabeças,
as sem território,
as mulheres arrastadas pelo asfalto,
as que choram na carne a perda
as que ficaram na pedra, sem juízo algum.

Não há lugar para mim
entre os poemas perfumados à francesa,
não há lugar para mim
entre homens brancos que celebram a poesia de vitrine.

Quero o cheiro da gente, a suja,
o sabor do sangue na boca,
o poema que morde
e morde.

Patricia Porto
  

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

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Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

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Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

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Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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