terça-feira, 31 de maio de 2016

As Barrocas


Tudo tão provisório, Rose.
Tudo tão intrigado, uma mola de suspensão. Pois veja, essa minha roupa íntima, por exemplo, ela está muito bem surrada, vem sendo amaciada pelo meu sexo e vive desses contatos provisórios com minha mais doce e ácida notícia, lembrança, pertença de mulher... Ela é uma poesia íntima como esse nome coletor que nos ordena a costura de peças para reposição das vaginas dessa elite tão mal esclarecida. 
Debruçadas sobre a janela ficamos, fumamos um baseado. Rose sabia onde escondê-lo. Ríamos do cheiro, porque passado pela revista das guardas, fumávamos outras tantas intimidades. Ah, pele, erva doce, cabelos pubianos... Fumávamos uma cigarrilha depois e íamos para o disfarce, a cigarrilha que eu comprava como criminosa ao invés do pão, o pele e osso em troca do deboche para as propagandas de boa alimentação. Brincávamos as duas de trocar palavras, como "nada, nós fumamos apenas umas cigarrinhas", era como um tapa nos que nos condenavam por sermos mulheres da cidade baixa,  nós ali brincando de jardins nos ralos da periferia, preservando os reinos vegetal, mineral e animal. 
Era tudo tão fumo no fundo que gargalhávamos das pequenas transgressões como loucas sedentas por algum caos de perto. O abismo nos unia, a solidão dos migrantes, a insensatez dos homens que nos batiam e pagavam cervejas no fim de expediente. Sonhávamos em ser mulheres barrocas como as da igreja onde íamos rezar e rir, claro que mais rir que rezar, porque éramos a escória contagiada por todo tipo de subversão aos bons costumes de qualquer época. Conversávamos longamente sobre suicídio. Era um tema recorrente, porque éramos feias, não tínhamos casa, vivíamos nas rodas dos inválidos, apanhando de um ou de outro, sem perspectivas de nada. 
Tínhamos direito ao suicídio, perguntei? Rose me disse que não, morreríamos em asilos ou manicômios, isoladas dos pequenos prazeres terrenos, morreríamos de nosso próprio esgotamento de vida, amofinadas, e morreríamos da crueldade disfarçada de bondade humana. 
Para Rose suicídio era uma terra apartada, não nos era palavra familiar como homicídio, morte a pauladas. Era um outro continente, como viajar para um país de outra língua, comprar uma peça de consumo caro, um queijo fedido, pertencia aos que podiam comprar seu bilhete sem volta.
Ela arrancou um hibisco e colocou no meu cabelo, delicada na brutalidade do corte. Nenhum homem faria algo igual, tão intenso como arrancar um hibisco em pleno dia, o sol iluminando nossas caras.
Ao barulho do sinal, às gargalhadas ainda, esse feito de nossa pequena rebeldia, voltávamos de mãos dadas para o calabouço da fábrica. Éramos barrocas sim. Atemporais também. 

Patrícia Porto


segunda-feira, 30 de maio de 2016

Casinha de Bonecas & Elefantes

Dara Scully


O que importa?
Eles não me vêem, mas eu me vejo.
Eu escrevo e nas minhas veias está meu sangue,
minha corrente de incertezas corre para o centro da cidade.
Eu vejo!
A dor de perder os dentes, a dor de parir pra dentro,
a dor atávica das índias velhas nos funerais.
O que importa se me rejeitam
se não tenho tempo pária, se o corpo é todo ele um esporão,
se o destino não atendeu o chamado da Casa, das Minas.
Eu vejo bem, senhor!
Eu vejo bem, senhora!
Tenho esses dois olhos que a terra há de comer pelas beiradas.
Pelas beiradas levei um cisco no direito,
um tapa no esquerdo,
um sol bem no meio
de estampado!
Meu erro é língua,
meu nome,
minha terra saqueada,
meu tumor no olho de criança,
minha luta é língua.

Vai encarar?

    
Patricia Porto

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

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Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
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Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

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Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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