segunda-feira, 30 de maio de 2016

Casinha de Bonecas & Elefantes

Dara Scully


O que importa?
Eles não me vêem, mas eu me vejo.
Eu escrevo e nas minhas veias está meu sangue,
minha corrente de incertezas corre para o centro da cidade.
Eu vejo!
A dor de perder os dentes, a dor de parir pra dentro,
a dor atávica das índias velhas nos funerais.
O que importa se me rejeitam
se não tenho tempo pária, se o corpo é todo ele um esporão,
se o destino não atendeu o chamado da Casa, das Minas.
Eu vejo bem, senhor!
Eu vejo bem, senhora!
Tenho esses dois olhos que a terra há de comer pelas beiradas.
Pelas beiradas levei um cisco no direito,
um tapa no esquerdo,
um sol bem no meio
de estampado!
Meu erro é língua,
meu nome,
minha terra saqueada,
meu tumor no olho de criança,
minha luta é língua.

Vai encarar?

    
Patricia Porto

domingo, 22 de maio de 2016

Doce Violeta



Onde você estava naqueles dias quentes da rosa?
Depois da rosa veio o espinho na carne,
na carne depois do espinho as chagas,
as chagas abertas tomaram o corpo de despedidas,
os dias de destroços abençoados, as noites de vulcão faminto,
os tempos cíclicos, os espíritos mundanos,
as desproporções da acolhida cúmplice,
os dias de amores possíveis e não possíveis,
por onde você aceitava o meu corte?
Somos violentos, doce é a violeta,
usamos bombas de extermínio,
frases de detenção,
solitárias imundas, dias insanos de bater com a porta
na fuça alheia,
dias corrompidos pela desgraçada vivida
em nome do que ousamos querer.
As noites de trevas nos esperam a todo momento,
ninguém nos salvará de nós,
ninguém escutará nossa voz no forno,
na fornalha que nos queima a voz,
na indecência que nos rouba o corpo do filho,
ninguém ouvirá nosso grito no escuro da noite
- uniforme unimorfo uniformizado.
Nossas crianças serão levadas para as prisões.
Mas nossos bebês não se lembrarão disso.
Nossos poços artesianos serão silenciados
com o concreto do estado, nossa água será a sede,
o peito murcho,
a faca no pescoço, uma cócega,
o nosso dano será a história maldita,
traduzida por mortos,
por monges,
por dedos da mais alta aristocracia
em  versos sórdidos da mais fina outreidade,
E nossos algozes, permitidos, nos comerão os olhos
como frutos verdes de uma democracia
que nunca nos permitiram conhecer.
Nada, nem teus dentes, nem nossas carnes em tua boca,
nos tornarão iguais.
Doce violentas.

Patricia Porto
    
 

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Para ninar monstros

um dia alguém acordará do pesadelo que criou

cavernas são para os homens

bocetas para as mulheres,

mas um dia alguém acordará da dor que se inventou,

o grande mito retornará mais bravo que nunca

e espancará seus filhos com cintos e floretes

- a pedidos da mamãe


a noite é sempre porca,

o mato cresceu ao redor de tudo,

o bairro parece pacífico,

mas o amor é lacrimogêneo


Patricia Porto 

Extinção


Judy Dater 


Quem carregará nossos corpos? Ninguém?
Quem ouvirá nosso choro?
Você cuspirá no destino? Talvez.
Quem dormirá de luz acesa na noite de hoje?
Eu, você, todos dormiremos assaltados de medo,
contando nossos corpos fluídos que boiam na bacia. Ninguém.
Ninguém virá catar seus restos fetais.

Refletidos nesses círculos na água
onde crianças brincam de nascer,
por que papai se barbeia?

Patricia Porto

Nada a temer

Rosa era um indivíduo,
mas Rosa também era uma flor,

Rosa tinha desejos em si mesma
e fora de si

Rosa era je e moi na vida

Casou com Leônidas Brasil
e adotou o sobrenome do senhor marido

Rosa Brasil hoje figura no álbum
da tradicional família brasileira

- com todas as omissões de seus espinhos

Patricia Porto

O Dia D

hoje ninguém veio trazer o café
descobri que não falo a língua deste país,
mas conheço um pouco de esperanto
esperanto, esperanto tanto

quem sabe amanhã

Patricia Porto