domingo, 27 de março de 2016

Civilizada

Há quem fale por mim,
há quem diga bom dia quando lhe pareço muda,
há sempre um homem que diz onde eu devo colocar minhas mãos,
minhas palavras

Há quem esteja no lugar que pensei para mim,
há quem execute meu papel de operária melhor que eu,
há quem diga sobre o amor, o altruísmo, a bondade para com os fracos,
os fracos das pernas,
os fracos de mente,
e até mesmo os fracos de fé.

Há quem assine em meu lugar,
há alguém que se senta agora naquele restaurante com a pessoa do meu desejo,
há quem tome o vinho de hoje,
quem se deite na cama.

Há sempre alguém que pode falar por mim,
alguém que esperam que fale por mim,
alguém que desejam que fale por mim
há alguém que levanta o tom muito melhor que eu
e que escreve poemas adjetivados usando a minha vez passiva.

Há quem escreva em meu lugar a minha narrativa
e que atravesse a rua gritando ser eu.
Há no objeto, na sua órbita, todas as mulheres que fui um dia
e as que ele teve também,
quando me esgana - o falo -
- a voz - no sujeito.

Patricia Porto

o que corrói

Não há felicidade na Poesia.
Não há bom mocismo
nem lugar que aconchegue o espírito.
A poesia é só inquietação,
fome, sede, frio, bola na vidraça,
sonho fodido, comido pelo coleguinha gente boa.

Não, não entendo quem faz poemas de bibelojas
ou poemas concretos no tempo em que o poema pede: me sangre

Não entendo a estética dos vazios,
dos becos sem solidão,
dos copos sem aguardente pra queimar feridas.

Não entendo a poesia orgânica, que não come ao pardo,
que não defeca, não tem demônios

Me contento com os últimos dos seres que escrevem poesia na carne
e estão no açougue da vida.
Ressuscitam porque morrem todos os dias
pagando as prendas,
ofertando voz à presa.

Patricia Porto

quinta-feira, 24 de março de 2016

Seca

Que aridez era a tua, mulher?
Sentada à beira da porta,
prendendo a passagem
entre a calcinha -
apertava os cravos.

Patricia Porto

Catavento

A palavra que chegava do vento
não trazia nenhuma história,
nenhum papel.

Ouvido aberto pra longe
só escutei o vidro espatifando.
Onde eu estive nos últimos anos?
Coração era uma terra tão doída
que amor não criava chão.
Criava tempo, palavra de tempestade
que não acolhe. Esmaga.

Patricia Porto

HOJE


O que está morto não tem tempo.
Do passado nada se pode desfazer,
_ porque é o presente vivo,
pulsando,
que ferve em tuas mãos.

Pega da tua pressa habitual
o que te cabe de utopia
e segue com o que será futuro
somente hoje -
girando as horas.


Patricia Porto

segunda-feira, 14 de março de 2016

Carta para Priscila: Os filhos de ninguém são os filhos de Saul


Albert Watson, Benin, 2011

No Brasil a LEI sempre pode justificar os meios e os fins. Para fazer, para não fazer. Para desdizer ou maldizer. Ouço que a Lei há em todo mundo, em todos os Estados – de direitos ou não.  E por isso sempre me questiono sobre a Verdade. Porque Lei e Verdade andam desde sempre juntas, para o bem ou para o mal. E será que vale à pena discutirmos o que é a Verdade? Será que estamos preparados para esta discussão ou será que estamos dançando no escuro, como se ainda estivéssemos na Caverna de Platão à espera da luz?
Na Grécia Antiga era a Mitologia que explicava os acontecimentos, através de narrativas heroicas. Aquiles e Odisseu são heróis coletivos e fundadores. E o que mais importava naquele tempo era a narrativa, porque por ela se conhecia os homens. Pela narrativa chegávamos à fundação dos povos, pela narrativa um povo dizimava o outro e fundava um novo princípio. No poema épico, Aquiles se banha de sangue e seu elmo simboliza a força contra o inimigo, Agamenon. Estamos diante da Ilíada, uma narrativa sangrenta de combate e terror, de vida e morte. Sempre me apavoro quando leio a Ilíada e nunca vi um filme que pudesse dar conta da grandiosidade de Homero naquela narrativa de bravura e força. Assim como me apavoro quando leio o Rei Lear de Shakespeare. Narrativas em que a verdade se diluí na ficção, na Arte, e mesmo assim, Priscila, nos coloca diante das nossas ruínas mais profundas ou diante das nossas estranhezas humanas mais inquietantes, e nada é mais verdadeiro que a ficção do poder para narrar a verdade sobre o poder e a vontade de poder. O que parece diametralmente oposto e paradoxal se une nas pontas do contorno de mundo como “alétheia” que significa “o não esquecimento” ou para muitos – a busca da verdade.

Somente com surgimento da Filosofia, a Verdade passa ser o centro de uma nova narrativa de mundo.  E no início era o Verbo. Verdade e Verbo se confundem nessa nova narrativa. O peso da Palavra como Verdade parece então relembrar a relação de irmandade entre Zeus e Hades, irmãos e deuses, o primeiro da Origem, o segundo, dos Infernos. E novamente a dicotomia cede, não por vontade, espaço para o ambíguo do homem. O que é Verdade? Ela existe sem a contaminação do não-ser-verdade ou do parecer-verdade ou até-que-se-crie-uma-outra-verdade?
Para os pré-socráticos, ou seja, antes de Sócrates e de sua maiêutica ou antes de um pensamento que nos chega até os dias de hoje, a transformação era o que regia o fluxo da narrativa. Quando Heráclito diz que a única coisa certa é o Devir, é a mudança, ele abre o caminho do pensamento para o plenamente humano. A narrativa segue esse fluxo entre a Vida e a Morte. Tudo que nasce um dia deve morrer. Nada é imutável.

No século XX ou muito tempo depois de Heráclito, Antônio Gramsci vai dizer que “se o velho morre e o novo não nasce, neste interregno ocorrem os fenômenos mórbidos mais diversos”. O que foi o século XX? O que se tem se tornado o século XXI? Tempos de dissolução da Verdade e do Verbo, do questionamento da própria ideia de linguagem enquanto Verdade. Rei Lear está novamente vivo e morto e a cobiça e a intriga entre suas duas filhas provocam a sua derrocada, sua destruição. Os tempos do século XX são incertos. Não há mais lugar para as certezas definitivas. A narrativa se fragmenta. Está em pedaços.

Aqui, neste cruzamento da minha narrativa, é que entra você, Priscila, quando me faz pensar sobre o lugar do discurso e da retórica na Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Quando me faz pensar no lugar do signo como Verdade na Lei ou ainda no lugar da Verdade como Lei. Não à toa Nietzsche se debruçou sobre este tema e não à toa foi citado numa verborragia insana de homens que se colocam em pedestais de deuses e são mitificados por boa parte da população brasileira atualmente.  Nietzsche que foi um crítico severo do conceito de Verdade, questionou os seus determinismos ou quem falasse ou praticasse o Poder em nome dEla.
Por isso mesmo, Priscila, a palavra não deveria se sobrepor à coisa humana, e pensando com você, “sim”, na LDB a sigla EJA aparece como uma abreviatura e um símbolo linguístico de um determinado segmento e não de outro que é substancialmente composto apenas por jovens e adultos.  Ensino básico e ensino superior se separam dicotomicamente também pela palavra.   Por isso quando falamos ou escrevemos sobre a EJA não falamos sobre o universo dos cotistas, não falamos sobre a formação do novo docente brasileiro, não falamos sobre a diversidade, a heterogeneidade e de toda uma rede complexa de questões que ficam ali, barradas na porta pela dicotomia do signo.

Outra questão que me chamou atenção é que a Juventude é hoje um nó naquilo que muitos desejariam só EA ou Educação de Adultos. Se eu tenho o ECA como estatuto e defino a partir de uma região mórbida e não mais emancipatória que o jovem de quinze anos deve ir para a noite, e eu não sou mais Aquiles, nem Rei Lear, eu me torno a morbidez de uma gestão autoritária e excludente que habita muitas escolas. Há um sujeito que conduz esse predicado como regra. E esse sujeito só se torna abstrato na narrativa, quando culpabilizo o sistema ao invés de nomear os gestores que agem morbidamente em nome da Lei.
Trabalhei diretamente anos com o alunos do CRIAAD e sempre me perguntava: “de quem sãos esses filhos?” E perguntava em seguida: “por que me sinto tão vazia e impotente?” “Por que não consigo trazê-los pra mim?”  Eram tantas as camadas de exclusão, Priscila, que eu ali, professora de língua portuguesa, me questionava sobre o meu próprio lugar no mundo e sobre o Devir.

Foi assim, que pensando nessas questões, trazidas primeiramente por você, fui ao cinema assistir “O Filho de Saul”, um filme belíssimo em sua dureza de linguagens. Na própria dureza que nos seca a língua. É um filme quase sem palavras, porque elas não dariam conta da vida e da morte que permeia a narrativa de Saul que faz parte dos SonderKommandos, judeus que ficavam responsáveis pela limpeza da câmara de gás em campos de concentração nazista.  Saul está em Auschwitz e um dia, entre mortos que chegam em volume, encontra seu filho ou quem poderia ser seu filho. E assim como uma Antígona, em sua tragédia ou na nossa tragédia humana,  Saul corre contra o tempo e a morte para realizar o rito fúnebre de enterrar o corpo de seu filho ou o seu próprio corpo ou ainda o corpo da narrativa de seu povo.
Então lembrei de um aluno muito jovem, 16 anos, já com passagem pela polícia. Sandro era o nome dele. Sandro era meu aluno da EJA, sexta série naquela época.  Um dia Sandro desapareceu, desapareceu da escola, despareceu da mãe-Antígona, desapareceu de seu território. Eliane era o nome da mãe de Sandro que ficou dias, meses, procurando o corpo do filho para enterrar na sua tragédia única e de muitos. Ninguém se interessou o bastante, Priscila. Um dia Eliane também desapareceu de ir à escola e eu só posso sentir muito por não ter um final para lhe contar.   

Mas eu posso lhe falar da sensação que tive com final do filme e da saga de Saul. Um vazio, uma sensação de afastamento e dor ao mesmo tempo. Os filhos de Saul ou o filho de Eliane, por mais que eu me importe, eles não são meus filhos, Priscila. Eles são filhos de quem? E a palavra e a lei, por mais emancipatórias que possam ser, não dão conta de desfazer ou me absolver dessa Verdade.  O que quero dizer é que, por mais que eu me engajasse como professora do Sandro, não poderia e não pude mudar aquele desfecho trágico. Mas, ainda assim, eu posso e nós podemos pensar sobre os filhos de Eliane, os filhos de ninguém, os filhos de Saul e quem sabe, podemos até mudar algo, como uma palavra, um discurso que caminhe no fluxo da nossa própria narrativa humana. 
Grande abraço, Priscila, e obrigada,
Patricia Porto

terça-feira, 8 de março de 2016

Intensa

Expansão, Expansion por Paige Bradley


nenhum amor dura
nenhum amor morno,
nenhuma água morna
se livra da navalha

tudo é corte no amor morto,
natimorto, feio dos ossos
esperando o rito do suborno

horas tortas de dizer adeus
a palavra machuca,
mas são só esses demônios
não cabem na caixinha de joias,
mas também não há joias

um vento morno, morto invade à cabeça,
mas são só esses demônios mascarados

nenhum amor customizado dura
nenhum amor cansado dura

nenhum tempo morto sobrevive
nenhuma notícia velha engorda

a palavra sangue não tolera a bondade do jardim,
a palavra sangra para além do jardim
a palavra é dose diária de vida
estampada,
escancarada no chão,
gritando na rua,
invadindo as cercas,
corrompendo o medo que não dura,
a sombra que não dura

o amor que dura é a loucura
doce, batendo portas

não à normalidade,
risco de Tudo o que diz o senhor do bom senso,
risco com risadas,
não sou legal,
sou intensa

 Patricia Porto


quinta-feira, 3 de março de 2016

Caetana, a Parca

Bridget Tichenor



o que me levou para longe
não foi o escuro daquela noite,
a sombria,
a angustia de um olho só para enxergar

o que me levou para longe
não foi o assobio da morte Caetana
nem o sumiço de Dom de Sebastião

o que me levou para longe foi um arpão,
içada pela boca cruzada de mares,
liquefeita traduzida em cimento feroz da cidade

o que me levou para longe foi o asfalto,
a frigideira que queima nossos ossos,
os sons da fábrica,
o dia nervoso,
a tremedeira,
a geladeira vazia,
o vento no rosto trazendo farpas

o que me trouxe esse longe
é umbigo, um cortado enterrado no quintal
- ruído de sortes,

a poesia é que foi enxame,
lugar aceso do tempo,
livre de todo domínio

Patricia Porto

terça-feira, 1 de março de 2016

Muito



Quem sabe separado por séculos...

Entre a navalha e o esconderijo

Talvez face do mesmo planeta zodíaco

Uma voz dissonante na outra ecoa



Amor de vários tempos, temperaturas

Sagas, cordilheiras,

Trilhas



Entrei no túnel

Não havia luz



O céu de março

Como eu preciso de você!

Agora, no meio da rua, um deserto

Zonas de espectros, identidades

Luz de março piscando essa sua luz em mim

Ambos

Âmbar

Essa noite de serenos e violinos



Pouca faixa de acostamento,

Uma a um

Somos quase algo insano

Quebrado do espelho

misturo

Em foco – em mim -

É mais e muito



Patricia Porto