quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Por que minas?





do acidental jogo de imagens
meu pé encontrou a flor

achei que era pedra e era flor,
nasceu no meio da imagem e era flor,

nasceu da pedra e ficou bruta,
feito morta,
feito viva

tranquila e rosa,
átomo e fuga,
água e criatura,
floresceu sem parar

Patricia Porto


terça-feira, 19 de janeiro de 2016

A Cultura do "Politicamente Perfeito"


Helena Perez Garcia



Vivemos um tempo de extremos onde ações e pessoas são ou estão extremadas. Paradoxalmente ao que se deseja há o que se pode fazer e ser. Menos improvável seria pensar que as palavras, as livres palavras ganhariam conotações outras de um peso no limite do insuportável. Vamos descobrindo que livres iniciativas nem são livres e nem são iniciativas, e tudo não passa mesmo de mero jogo de linguagem. Chegamos à era dos discursos absolutos. Não se pode pensar a partir do "talvez", do "por enquanto" ou do "esta é minha opinião", porque essas expressões não cabem num absoluto discursivo e maniqueísta, que tudo e todos polariza, de A a Z nos coloca entre deus e o diabo - sem terra e sem sol.

 E entre deus e o diabo só nos resta o dilaceramento, fígado aberto.  São muitas as prerrogativas morais para pouco instrumento humano. Só posso entender como desumana a ideia de que há um bem e um mal que estão de lados opostos. O bem e mal que nos aparta e nos divide em blocos sem carnaval. Ora, isto não tem nada de novo, o que me lembra aquele verso de Cazuza: "eu vejo um museu de grandes novidades".  Eu vejo e sei que um museu de grandes novidades só vai incomodar a quem o enxerga assim. E conseguir ver alguma coisa para além do próprio umbigo já é um ganho no universo das cegueiras.

Quero pensar em exemplos concretos e o que mais me desperta surpresa e horror é o excesso do "politicamente perfeito". Não é o "politicamente correto", é uma outra versão que nasce do mesmo lugar, e que carrega de cinza nas tintas o "eu sei, você sabe", "eu sou, você não é", "eu tenho, você não tem". Como isso é boring, muito boring. Alguém informe ao "descolados da vez" que isso é chato pra caramba. As pessoas perfeitinhas demais tem um efeito drástico sobre as outras, ou trágico - e punitivo. Elas são chatas. Não tem a ver com ética. Tem a ver com chatice. E isso é muito louco. E mais louco ainda para os loucos e as loucas. Muito difícil lidar com gente perfeita, feita sob medida, gente sem rasuras, sem rascunho de vida, de texto, sem sangue nas veias, sem pelos nas ventas, sem fraturas internas ou expostas, sem o lado estranho, o esquizoide. E claro, as pessoas "mega descoladas" nos olham com aquele tipico olhar de indiferença. E pior que a invisibilidade é a indiferença. Ela vê e porque ela vê escolhe desviar, algo como girar um pouco a cabeça num gesto de superioridade. 

Como não sentir-se superior diante de tanta gente considerada doente, fora de esquadro, de métrica? É uma uniformidade conseguida à duras horas de massagem linfática no cerebelo, duras horas de personal trainer, personal stylist, personal maker, personal guru etc A cultura da perfeição diz que tenho que ter um corpo perfeito e uma alma perfeita. Não adianta ir para a academia e comer porcarias, porque não tem-tempo. Ou não fazer meditação, essa coisa cult. É claro que sabemos que comida orgânica faz bem, exercícios físicos fazem bem, que meditação é ótima para a cabeça, que terapia é muito bom, embora muito cara. Há um consenso sobre isso. Não precisamos de pessoas pregando, de pregadores nas redes sociais, de pregadores nas mesas de encontros entre amigos, de pregadores nos ambientes de trabalho. Se é bom, que seja. Isso é legal para você. Para você. O exemplo em si basta. A pregação dificulta. Porque toda pregação parte de um discurso absoluto e imperativo: "faça isso", "beba isso", "coma aquilo"... Ou seja: faça isso por mim ou não será aceita, amada. "O inferno são os outros"? Boa, Sartre! É um inferno lidar com gente perfeita e boazinha. Este é o meu inferno, claro.

Considero a ação policiesca uma ação de chatice aberrante. Uma coisa é "dar um toque", "ajudar" aquela amiga, aquele amigo que está enfiando, quase literalmente, o pé na jaca. Outra coisa é a palavra dura, os autoritarismos travestidos de bondade, misericórdia,  sensatez no estilo "eu sou perfeito" neste mundo de imperfeitos. E isto se generaliza para a religiosidade, os comportamentos, as escolhas políticas, ideológicas, as escolhas neuróticas. E se espalha para as escolhas mais cotidianas, a escolha de um gênero de leitura, a escolha de um filme na fila do cinema, a escolha de uma roupa confortável que não tenha marca, que não seja símbolo de consumo. Se ouço não tenho espelho, se não tenho espelho não me encontro, não dialogo. Por isso o tédio sem fim. No reino sem frustrações o outro me espeta, é sempre o demônio. E o difícil pra mim é a liberdade de deus. Continuamos juntos, porque odiar é bom e rende.

Não quero me estender no tema, porque tem amplitude para teses. Quero apenas deixar o registro que tenho idade suficiente para me afastar do que me faz triste. E sigo me afastando porque não dou conta de ser perfeita, adoeço sempre. E faço isso por escolha deliberada e egoísta.Sinto menos. Menos porque vou diminuindo o volume das expectativas, dos falsos diálogos, dos encontros que subtraem. É mais forte que a maturidade a idade que meus dentes doem e se fragilizam. Tenho desejos e planos de imperfeições. E só quero isso: sentir menos porque sinto mais, penso mais.

A perfeição não basta.

Patricia Porto
   

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Sólida

© Julia Fullerton-Batten

lar

onde demônios carregam tijolos
solidão é tempo
e as mortes, nossas, esta casa inacabada
sem rosto.

Eu e
- outro eu
no cruzamento de roucos
uma bota suja na cama.

No meio do corredor vazio
a dor é lábil.

E sólida, concretas
sua existência.

Lar onde perdi minha bota.


Patricia Porto




terça-feira, 12 de janeiro de 2016

13 por dia

Kylli Sparre


Saber-se infinita,
o que mais posso querer, meu filho?
Saber-se finita,
o que mais posso querer, minha filha?
Saber-se a dona do meu nariz,
saber que ele não foi quebrado,
o que mais posso querer, futuro?

Patricia Porto

Fome

Imagem: Kylli Sparre

domingo, 10 de janeiro de 2016

Relieves Fatigue

Schilte & Portielj


Se tenho medo corro,
se sangro ando suja
ou ando sujo se sangro

- no que tenho mãos me ocupo
do que há no fundo

Deixe que eu diga,
deixe que eu me coma, pois preciso dessa voz

Se há tormenta eu minto
sorrisos são da transvestida
- Monalisa do álbum de fotografia

sempre quis um homem bom,
uma boa mulher,
um sonho de riscos sem riscos

mas o mar é mais perto,
mais sal, mais violento,
mais tabu,
tem mais mãos

um pouco de fadiga
se resolve com comprimidos?
um pouco de sono
com serpentes avulsas
de relaxamento, soro?

a surpresa é a chave,

ela não abre:
cofres,
fechaduras,
dorsos,
muros,
mares,
afogamentos,
afogados,
distâncias,
estrelas,
países,
burcas,
cansaços,
olhos,
cabeças

não abre

Patricia Porto


sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

dentro




nas formas doces do mamilo molhado
nas formas ocultas o umbigo emerge

lago e superfície é fundo, orifício funda
a cabeça entre as coxas

um cisne é belo demais
um cisne entre as coxas
é belo demais

uma boca aberta
engole o breu

noturna a pele
o breu engole
o perigo da ostra

quem pode ir contra?

Patricia Porto

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

O menino e a Chuva

Elena Balbusso

(Para o Valter Túlio)


Era um menino que tinha medo de chuva...

Ás vezes um menino tem medo,

o medo pode ser de bicho que rasteja,

de barriga que ronca,

do escuro que não dorme.

Eu conheci um menino que tinha medo de chuva.

Por que um menino teria medo de chuva?

Por que a chuva, tão fresca, tão cheia de encantos de pingos,
poderia assustar um menino?

O que sei e me contaram é que ele ficava na janela
esperando, esperando...

Quando a notícia da chuva se tornava verdadeira
ele se encolhia e olhava, olhava através.

Era um menino que olhava através

e quando a chuva se colocava ali - entre a janela e o mundo

- os sons, os tumultos do seu coração eram um só:

o olhar.

Então o menino que tinha medo de chuva era o corpo do Espanto.


Patricia Porto

A estrada

 Eduard Gordeev



eu também queria as mais belas coisas,
as mais belas paisagens,
um sonho azul talvez
- tão caro, vovó disse

às vezes a tristeza me toma,
mas eu sei que lá entre os bons,
lá entre as curandeiras,
os sábios,
os loucos,
os que dormem na escuridão da alma

existe uma razão para estarmos aqui
- deve existir

e se não existir, meu amor,
justifique minha estada,
por favor.

Patricia Porto

sábado, 2 de janeiro de 2016

Haja Poesia!


lara zancoul

There is poetry! (Patricia Porto)

how often bitter
It is the tea
the vampire camped in the garden
of the House

how many times death
It is playing deaf,
and clenched teeth

how often the fall is the thin ice,
and the beating of man
is the melting of the earth,
meat in the threaded nail

the hall of a hospice, a noble building
the valve and exhaust, the window to open,
women are fleshy to the bites

with his neck in his hand - he says:
- How many feathers fly? Hundred? Two hundred?

if a volcano erupts
burning liver,
the mouth, that degenerates
huge
and purple
as violent blossom

PPorto