quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Filogramas


Laura Ferguson


o não feito corpo morto à deriva,
verso de molas à deriva
como um beijo, saliva, sangue,
seio direito à deriva,
eixo norte, sul,
uma asa aberta
em degelo

minhas coxas projetam
imagens fluídas
e estão liquefeitas

no quarto de vestir as aparências
acendo a cela solitária de escolhas livres

o cansaço da viagem machuca os pés,
são uns espinhos nos miolos,
porta à deriva do sol
não deixa passar a luz branca que bate

avisto borboletas como insetos,
flácidas de toda cor e algumas sépias
que do olho mágico só vejo bruxas

a dor que funda é esta: carne suja
sem filtro

tenho dó de não pertencer ao retrato
e se as entendo voando por perto, mariposas feias,
não sei se me abro a janela
ou se morro junto, pulando em mim

Patricia Porto