domingo, 14 de agosto de 2016

Para o admirador que aplaude a poesia de vitrine.



Posso ver o rosto da mulher que veio antes de mim.
Era uma mulher portuguesa, uma mulher negra, uma mulher índia.
Elas estiveram fazendo sangue na minha história pela raiz.
Posso ver o rosto da mulher que me habitou uma ancestralidade
na minha origem mortificada,
morta aqui como eu estou com meu cigarro apagado nas mãos,

posso ver minha vertigem e não é da natureza,
não é da natureza a herança branca e limpinha,
não é da natureza a zona de conforto de pares justificados,
não é da natureza a verdade de ver
na poesia a bocetinha de ouro,

abri a revista e avistei a mulher branca, bonita, enfeitando as páginas dos poemas,
consagrada por autores brancos,
homenageada por seguidores brancos, ceifadores de matéria prima exótica.
Bebedores de Whisky que compram no freeshop
festejavam a poesia comprada a peso, oferecida como peça de buffet,
poema de grife, esmalte rubro na unha,
poesia vendida para colecionadores brancos
em suas festas brancas,

poesia engraçadinha, poesia da moça da vitrine,
poesia gostosinha, poesia branca,
para homens sebosos, gordurentos brancos.

Posso ver o rato, a curva por onde passa um elefante branco
- desejo me comunicar com eles,
- não são homens os animais incomunicáveis, não são brancos, não consomem poesia de riso fácil.

Mordo meu cigarro. Quero me comunicar com elas, as loucas sem endereço, as incomunicadas,
as putas da minha ancestralidade, as que levaram porrada, as intocadas,
as que existem e marcam, e as párias, as ajustadas com ferros nas cabeças,
as sem território,
as mulheres arrastadas pelo asfalto,
as que choram na carne a perda
as que ficaram na pedra, sem juízo algum.

Não há lugar para mim
entre os poemas perfumados à francesa,
não há lugar para mim
entre homens brancos que celebram a poesia de vitrine.

Quero o cheiro da gente, a suja,
o sabor do sangue na boca,
o poema que morde
e morde.

Patricia Porto