sexta-feira, 22 de julho de 2016

só para bonecas

Dara Scully

era corpo e arrebentação,
precisava expurgar em labirintos,
comer da noite sua dose de alternância

era corpo e era desejo,
não era uma ciência exata,
era faca no ventre, dama e vespeiro,
aborto de qualquer modelo de vida e ordem desgraçadas

eram vidros que lhe cortavam a cara e os cacos um chão de cozinha suja

a boneca de asfalto era fodida, a mestra da miséria,

queriam lhe arrancar os olhos e depois o coração,
a louca varrida, a grita gasta, estragada no tempo,
fruta de desterro, coisa de surrar, comer, deixar à mostra,
peitinhos amolecidos

a boneca de gente era carne de segunda,
mas de quando em quando girava
as maçanetas,
os cilindros,
os tambores,
todo maquinário da caixa
-até à última nota de doçura e queixa

Patricia Porto