domingo, 27 de março de 2016

Civilizada

Há quem fale por mim,
há quem diga bom dia quando lhe pareço muda,
há sempre um homem que diz onde eu devo colocar minhas mãos,
minhas palavras

Há quem esteja no lugar que pensei para mim,
há quem execute meu papel de operária melhor que eu,
há quem diga sobre o amor, o altruísmo, a bondade para com os fracos,
os fracos das pernas,
os fracos de mente,
e até mesmo os fracos de fé.

Há quem assine em meu lugar,
há alguém que se senta agora naquele restaurante com a pessoa do meu desejo,
há quem tome o vinho de hoje,
quem se deite na cama.

Há sempre alguém que pode falar por mim,
alguém que esperam que fale por mim,
alguém que desejam que fale por mim
há alguém que levanta o tom muito melhor que eu
e que escreve poemas adjetivados usando a minha vez passiva.

Há quem escreva em meu lugar a minha narrativa
e que atravesse a rua gritando ser eu.
Há no objeto, na sua órbita, todas as mulheres que fui um dia
e as que ele teve também,
quando me esgana - o falo -
- a voz - no sujeito.

Patricia Porto