terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

As cinzas do martelo

Guram Dolendzhashvili

Como escrever a poesia
se a palavra nos golpeia na cara?
Era um poema rude, sim, o que fiz pra ela
quando foi embora

Era um poema de mãos pequenas estilhaçadas,
os olhos, uns fragmentos de corpo,

Era um poema para ficar à deriva, beber da água
da menina morta, torturada

Era para ser o primeiro poema, mas não existiu
Ficou na língua, alimentando as feras,
fazendo esse cansaço na memória, engodando o destino,

Era um poema e ficou sem voz,
atravessado de mar morto, um espinho na água morna

Os olhos não voltam,
os olhos seguem para a frente, criança

inclinados sobre réquiens,
olhando o capim crescer,
vê um martelo, um quadro,
paredes brancas

Era um poema ou quase foi,
uma noite acordou ao meio:
nas cinzas do martelo

Duvido mesmo que tenha existido

Patricia Porto