terça-feira, 19 de janeiro de 2016

A Cultura do "Politicamente Perfeito"


Helena Perez Garcia



Vivemos um tempo de extremos onde ações e pessoas são ou estão extremadas. Paradoxalmente ao que se deseja há o que se pode fazer e ser. Menos improvável seria pensar que as palavras, as livres palavras ganhariam conotações outras de um peso no limite do insuportável. Vamos descobrindo que livres iniciativas nem são livres e nem são iniciativas, e tudo não passa mesmo de mero jogo de linguagem. Chegamos à era dos discursos absolutos. Não se pode pensar a partir do "talvez", do "por enquanto" ou do "esta é minha opinião", porque essas expressões não cabem num absoluto discursivo e maniqueísta, que tudo e todos polariza, de A a Z nos coloca entre deus e o diabo - sem terra e sem sol.

 E entre deus e o diabo só nos resta o dilaceramento, fígado aberto.  São muitas as prerrogativas morais para pouco instrumento humano. Só posso entender como desumana a ideia de que há um bem e um mal que estão de lados opostos. O bem e mal que nos aparta e nos divide em blocos sem carnaval. Ora, isto não tem nada de novo, o que me lembra aquele verso de Cazuza: "eu vejo um museu de grandes novidades".  Eu vejo e sei que um museu de grandes novidades só vai incomodar a quem o enxerga assim. E conseguir ver alguma coisa para além do próprio umbigo já é um ganho no universo das cegueiras.

Quero pensar em exemplos concretos e o que mais me desperta surpresa e horror é o excesso do "politicamente perfeito". Não é o "politicamente correto", é uma outra versão que nasce do mesmo lugar, e que carrega de cinza nas tintas o "eu sei, você sabe", "eu sou, você não é", "eu tenho, você não tem". Como isso é boring, muito boring. Alguém informe ao "descolados da vez" que isso é chato pra caramba. As pessoas perfeitinhas demais tem um efeito drástico sobre as outras, ou trágico - e punitivo. Elas são chatas. Não tem a ver com ética. Tem a ver com chatice. E isso é muito louco. E mais louco ainda para os loucos e as loucas. Muito difícil lidar com gente perfeita, feita sob medida, gente sem rasuras, sem rascunho de vida, de texto, sem sangue nas veias, sem pelos nas ventas, sem fraturas internas ou expostas, sem o lado estranho, o esquizoide. E claro, as pessoas "mega descoladas" nos olham com aquele tipico olhar de indiferença. E pior que a invisibilidade é a indiferença. Ela vê e porque ela vê escolhe desviar, algo como girar um pouco a cabeça num gesto de superioridade. 

Como não sentir-se superior diante de tanta gente considerada doente, fora de esquadro, de métrica? É uma uniformidade conseguida à duras horas de massagem linfática no cerebelo, duras horas de personal trainer, personal stylist, personal maker, personal guru etc A cultura da perfeição diz que tenho que ter um corpo perfeito e uma alma perfeita. Não adianta ir para a academia e comer porcarias, porque não tem-tempo. Ou não fazer meditação, essa coisa cult. É claro que sabemos que comida orgânica faz bem, exercícios físicos fazem bem, que meditação é ótima para a cabeça, que terapia é muito bom, embora muito cara. Há um consenso sobre isso. Não precisamos de pessoas pregando, de pregadores nas redes sociais, de pregadores nas mesas de encontros entre amigos, de pregadores nos ambientes de trabalho. Se é bom, que seja. Isso é legal para você. Para você. O exemplo em si basta. A pregação dificulta. Porque toda pregação parte de um discurso absoluto e imperativo: "faça isso", "beba isso", "coma aquilo"... Ou seja: faça isso por mim ou não será aceita, amada. "O inferno são os outros"? Boa, Sartre! É um inferno lidar com gente perfeita e boazinha. Este é o meu inferno, claro.

Considero a ação policiesca uma ação de chatice aberrante. Uma coisa é "dar um toque", "ajudar" aquela amiga, aquele amigo que está enfiando, quase literalmente, o pé na jaca. Outra coisa é a palavra dura, os autoritarismos travestidos de bondade, misericórdia,  sensatez no estilo "eu sou perfeito" neste mundo de imperfeitos. E isto se generaliza para a religiosidade, os comportamentos, as escolhas políticas, ideológicas, as escolhas neuróticas. E se espalha para as escolhas mais cotidianas, a escolha de um gênero de leitura, a escolha de um filme na fila do cinema, a escolha de uma roupa confortável que não tenha marca, que não seja símbolo de consumo. Se ouço não tenho espelho, se não tenho espelho não me encontro, não dialogo. Por isso o tédio sem fim. No reino sem frustrações o outro me espeta, é sempre o demônio. E o difícil pra mim é a liberdade de deus. Continuamos juntos, porque odiar é bom e rende.

Não quero me estender no tema, porque tem amplitude para teses. Quero apenas deixar o registro que tenho idade suficiente para me afastar do que me faz triste. E sigo me afastando porque não dou conta de ser perfeita, adoeço sempre. E faço isso por escolha deliberada e egoísta.Sinto menos. Menos porque vou diminuindo o volume das expectativas, dos falsos diálogos, dos encontros que subtraem. É mais forte que a maturidade a idade que meus dentes doem e se fragilizam. Tenho desejos e planos de imperfeições. E só quero isso: sentir menos porque sinto mais, penso mais.

A perfeição não basta.

Patricia Porto