segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Desprogramada


Palavras na cozinha sem solução:
Resistência,
Potência,
Alta e baixa tensão,
vidros de encher,
lacres e tomates.
Parto os tomates,
parto em metades,
as vermelhas,
fruto bom de sementes,
furto bom de comer.
Melhores que as palavras:
Presente,
Futuro,
Ausências.
Olho debruçada
e desejo.
Pois não dou conta.
A idade meia.

Corto tomates feito quem desplaneja castelos.
Mordo as duas partes.

Patricia Porto

Advir





Não perder a ternura é um método.
O método ainda é viver a vida a imagem
sem quebrar tanto as semelhanças.
A ternura inventa a flor, cria seu cheiro,
absorve seu nome como plural e respira.
Um aparelhamento sempre simultâneo à invenção.

Patrícia Porto

Feliz 2017! Entre flores e feridas.

Entre flores e feridas.



                   
                          Quem já se sentiu vítima de um gesto, uma palavra, um olhar de intolerância sabe à flor da pele o quanto isso faz doer. E talvez tenha aprendido pela dor que a melhor resposta possível é uma resposta política: a luta, a luta pacífica - e não passiva - pelos direitos e pelos “deveres” dos homens. Um clichê dentro do outro seria dizer que desde que o mundo é mundo, os seres humanos exercem a nem sempre sutil “intolerância” - para humilhar, negar, apartar, desprezar o outro. E nada é tão difícil de tolerar que a própria intolerância. Diríamos também que é uma herança complexa de nossa vida coletiva se levarmos em conta toda a nossa história pelo mundo, tão marcada por ações e reações resultantes de atos de intolerância levados às ultimas consequências, atos violentos e infundados, nascidos da não aceitação e da retroalimentação de ódios entre os povos, que só deixaram como legado as guerras e os genocídios, as maiores tragédias humanas.

O Homem é sim capaz da exclusão e do extermínio por não concordar com ideias diferentes das suas, por não aceitar um modelo político diferente do seu, uma raça diferente da sua, uma classe social , uma religião que não seja a sua, enfim, por não enxergar a diferença entre os seres. E, paradoxalmente, tudo o que somos e fazemos vai nos singularizando dentro da própria trajetória humana. Somos diferentes, diversos, igualmente diferentes.

A tentativa de igualdade começa, sobretudo, pelo respeito à diferença. Pelo amor à diferença. E porque não há nada mais belo e humano que o amor não podemos deixá-lo de fora da resposta política, daí que o político é também poético, o que enfurece os que pensam dentro de caixas fortes. Ora, sabemos o quanto isso pode parecer desagradável: disponibilizar-se para amar, amar para além do seu raio de segurança e de seus prodígios. Não, não é fácil assim como num estalar de dedos e pensamentos. É um exercício contínuo de aceitar e ser aceito, é um exercício extraordinário de coragem. Até porque é muito mais fácil sentir raiva, guardar mágoas, velhos ressentimentos remoídos... Amar é ter coragem de assumir a sua parcela mais humana, é tirar a casca, a couraça, a culpa de não ser perfeito. É deixar de lado a mesquinharia, o egoísmo, toda falta de gentileza. Amar é sentir-se feliz por ser o suficiente - como disse um sábio, pois não precisamos ser o melhor entre outros, mas o melhor que se pode ser para alguém. Feliz quem pode olhar para as suas crias e se alegrar com a tamanha diferença encontrada. Feliz por ser capaz de compreender que os filhos não podem ser uma mera projeção narcísica dos desejos dos pais, de uma país e nem estão aqui somente para cumprir uma entre as tantas profecias familiares e coletivas. Eles são únicos quando são eles mesmos. E se perdem quando não podem ser eles mesmos.  Talvez a tarefa mais árdua seja de encontrá-los perdidos na estupidez globalizada.

Mesmo assim a perplexidade contemporânea nos coloca diante de atitudes pra lá de esquizoides se pensarmos nas últimas e tantas demonstrações de intolerância ocorridas pelo mundo afora. Poderemos nos questionar se estamos de fato perdendo contato com nosso mundo interior, perdendo também a capacidade de olhar para dentro desse interior. Para onde então caminha a nossa humanidade? E a nossa juventude? Tantos episódios de crueldade gratuita, de intolerância explícita... Por que sentir tanta raiva, tanto desprezo por tudo e todos? Será que estamos adoecendo ou será que sempre temos algo de doente em nós? Em tempos de glamourização excessiva da violência, dos bíceps saudáveis e das seitas que ditam regras comportamentais - até as alimentares, que tal trazer de volta o silêncio que perdemos com tanto barulho externo? Que tal ouvir o silêncio para refletir sobre quem somos, sobre o que queremos, sobre as escolhas que precisamos fazer? Que tal pausar a mente, nossa casa? Pausa-da-mente...

Nossos corações devem estar despertos para que possamos ver um palmo antes e depois de nossos narizes. Precisamos de menos babás eletrônicas e mais diálogo, menos shopping e mais abraços, menos redes sociais e mais tête-à-tête. Precisamos brincar mais, rir mais - principalmente as meninas, precisamos nos lançar mais ao outro, aquele nosso velho desconhecido. E, é claro, precisamos ter coragem. Essa palavra latina que une Cor + Agir, “agir com o coração”. O amor é a fé em estado sublime e sendo assim é o amor a única ponte que nos leva ao outro dialogicamente e que nos faz enxergar no olhar do outro a nossa imagem menos refletida, o amor é que nos educa sobre a necessária "empatia" para bem viver, para viver com, con-viver. Mais Eco. Menos Narciso.


Patricia Porto

(Esta crônica foi escrita em 2010)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Enigma

Wieslaw Walkuski


Quando a morte toca seu ventre,
a morte carregada no ventre, a morte da vida,
a vida  tão animada comendo do ventre,
a morte cheira a arnica, éter, patchouli.
Força! Diz a herdeira das horas.
Morte, que tamanho tem teu ventre?
As pedras me dizem teu nome como sussurro.
Tinha tanto medo dos fantasmas  
até escavar a pele, a pele escamada de sentimentos.
O fantasma era a própria compondo vigílias na casa escura.
Nenhuma notícia dos homens que chegavam ao Porto.
Uma árvore ali nasceu do ventre da morte ancorada.
Não dava frutos, somente sombras.

Patricia Porto

Sem Perdão

Jane Lund


Há dias de sol e tormenta, de não seguir o estrangeiro.
Malas prontas para partir com um sorriso enigmático no rosto.
Naquele dia decidiu não mais apreciar poemas piadas,
não seguiria a ordem do dia nem publicaria em outdoors.
Olhou para seu companheiro de lógicas e percebeu que estava só.
Vagando no emaranhado dos poemas esparramados, sem proposta
de boa digestão, estavam sós.
Como se vivessem em caixas, pequenos caixões, homens se amontoavam
com gestos e gritos de sobrevivência.
Decidiu sozinha que o poema não seria mais guilhotinado nas ruas avessas.
Sem perder o viés da aventura cartográfica,
exilada, expatriada, rancorosa,  aglutinava palavras ao redor do barco.
Palavras como irmãs, pátria, palavras sem algemas.
Não trocaria a poesia por trinta moedas,
não se lançaria ao precipício se é o que aguardavam.
Permaneceria viva como uma estátua de carne no meio do passeio público.
A mão gentil de uma criança lhe alcançaria
e elas juntas negariam o amor três vezes.

Patricia Porto


sábado, 10 de dezembro de 2016

Pertencer - Clarice Lispector

   Hoje o dia é dela (para mim). Escolhi uma crônica para compartilhar. O nome é "Pertencer". Escolhi esta crônica porque não me sinto pertencida à nada ou qualquer lugar, pessoa, situação... E isto nunca foi uma escolha. Esta crônica sempre me causou atritos. Acho que é isso que acontece quando um texto te levanta a pele e depois dela a veste é de vermelho rosa como carne tenra, sempre novilho nascido pra abates. 




Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou.
Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça.
Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus.
Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso.
Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de "solidão de não pertencer" começou a me invadir como heras num muro.
Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética. É como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de presente nas mãos - e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.
Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força - eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.
Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e no entanto premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida.
No entanto fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram por eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança.
Mas eu, eu não me perdoo. Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe. Então, sim: eu teria pertencido a meu pai e a minha mãe. Eu nem podia confiar a alguém essa espécie de solidão de não pertencer porque, como desertor, eu tinha o segredo da fuga que por vergonha não podia ser conhecido.
A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho!

domingo, 4 de dezembro de 2016

POEMA SUJO

Achei que Ribamar acordaria antes. Ficou esperando Dom Sebastião. Agora é transparência, poema sujo, palavra de quitanda, camarão seco, banana podre. Não precisa mais acordar, está entre estrelas. 

FERREIRA GULLAR, 1975, Buenos Aires
Poema sujo

(trecho inicial)

turvo turvo
a turva
mão do sopro
contra o muro
escuro
menos menos
menos que escuro
menos que mole e duro menos que fosso e muro: menos que furo
escuro
mais que escuro:
claro
como água? como pluma? claro mais que claro claro: coisa alguma
e tudo
(ou quase)
um bicho que o universo fabrica e vem sonhando desde as entranhas
azul
era o gato
azul
era o galo
azul
o cavalo
azul
teu cu
tua gengiva igual a tua bocetinha que parecia sorrir entre as folhas de
banana entre os cheiros de flor e bosta de porco aberta como
uma boca do corpo (não como a tua boca de palavras) como uma
entrada para
eu não sabia tu
não sabias
fazer girar a vida
com seu montão de estrelas e oceano
entrando-nos em ti

bela bela
mais que bela
mas como era o nome dela?
Não era Helena nem Vera
nem Nara nem Gabriela
nem Tereza nem Maria
Seu nome seu nome era...
Perdeu-se na carne fria
perdeu na confusão de tanta noite e tanto dia
perdeu-se na profusão das coisas acontecidas
constelações de alfabeto
noites escritas a giz
pastilhas de aniversário
domingos de futebol
enterros corsos comícios
roleta bilhar baralho
mudou de cara e cabelos mudou de olhos e risos mudou de casa
e de tempo: mas está comigo está
perdido comigo
teu nome
em alguma gaveta

Que importa um nome a esta hora do anoitecer em São Luís
do Maranhão à mesa do jantar sob uma luz de febre entre irmãos
e pais dentro de um enigma?
mas que importa um nome
debaixo deste teto de telhas encardidas vigas à mostra entre
cadeiras e mesa entre uma cristaleira e um armário diante de
garfos e facas e pratos de louças que se quebraram já

um prato de louça ordinária não dura tanto
e as facas se perdem e os garfos
se perdem pela vida caem
pelas falhas do assoalho e vão conviver com ratos
e baratas ou enferrujam no quintal esquecidos entre os pés de erva-cidreira

e as grossas orelhas de hortelã
quanta coisa se perde
nesta vida
Como se perdeu o que eles falavam ali
mastigando
misturando feijão com farinha e nacos de carne assada
e diziam coisas tão reais como a toalha bordada
ou a tosse da tia no quarto
e o clarão do sol morrendo na platibanda em frente à nossa
janela
tão reais que
se apagaram para sempre
Ou não?

Não sei de que tecido é feita minha carne e essa vertigem
que me arrasta por avenidas e vaginas entre cheiros de gás
e mijo a me consumir como um facho-corpo sem chama,
ou dentro de um ônibus
ou no bojo de um Boeing 707 acima do Atlântico
acima do arco-íris
perfeitamente fora
do rigor cronológico
sonhando
Garfos enferrujados facas cegas cadeiras furadas mesas gastas
balcões de quitanda pedras da Rua da Alegria beirais de casas
cobertos de limo muros de musgos palavras ditas à mesa do
jantar,
voais comigo
sobre continentes e mares

E também rastejais comigo
pelos túneis das noites clandestinas
sob o céu constelado do país
entre fulgor e lepra
debaixo de lençóis de lama e de terror
vos esgueirais comigo, mesas velhas,
armários obsoletos gavetas perfumadas de passado,
dobrais comigo as esquinas do susto
e esperais esperais
que o dia venha

E depois de tanto
que importa um nome?
Te cubro de flor, menina, e te dou todos os nomes do mundo:
te chamo aurora
te chamo água
te descubro nas pedras coloridas nas artistas de cinema
nas aparições do sonho

- E esta mulher a tossir dentro de casa!
Como se não bastasse o pouco dinheiro, a lâmpada fraca,
O perfume ordinário, o amor escasso, as goteiras no inverno.
E as formigas brotando aos milhões negras como golfadas de
dentro da parede (como se aquilo fosse a essência da casa)
E todos buscavam

num sorriso num gesto
nas conversas da esquina
no coito em pé na calçada escura do Quartel
no adultério
no roubo
a decifração do enigma

- Que faço entre coisas?
- De que me defendo?

Num cofo de quintal na terra preta cresciam plantas e rosas
(como pode o perfume
nascer assim?)
Da lama à beira das calçadas, da água dos esgotos cresciam
pés de tomate
Nos beirais das casas sobre as telhas cresciam capins
mais verdes que a esperança
(ou o fogo
de teus olhos)

Era a vida a explodir por todas as fendas da cidade
sob as sombras da guerra:
a gestapo a wehrmacht a raf a feb a blitzkrieg
catalinas torpedeamentos a quinta-coulna os fascistas os nazistas os
comunistas o repórter Esso a discussão na quitanda a querosene o
sabão de andiroba o mercado negro o racionamento oblackout as
montanhas de metais velhos o italiano assassinado na Praça João
Lisboa o cheiro de pólvora os canhões alemães troando nas noites de
tempestade por cima da nossa casa. Stalingrado resiste.
Por meu pai que contrabandeava cigarros, por meu primo que passava
rifa, pelo tio que roubava estanho à Estrada de Ferro, por seu Neco
que fazia charutos ordinários, pelo sargento Gonzaga que tomava
tiquira com mel de abelha e trepava com a janela aberta,
pelo meu carneiro manso
por minha cidade azul
pelo Brasil salve salve,
Stalingrado resiste.
A cada nova manhã
nas janelas nas esquinas nas manchetes dos jornais

Mas a poesia não existia ainda.
Plantas. Bichos, Cheiros. Roupas.
Olhos. Braços. Seios. Bocas.
Vidraça verde, jasmim.
Bicicleta no domingo.
Papagaios de papel.
Retreta na praça.
Luto.
Homem morto no mercado
sangue humano nos legumes.
Mundo sem voz, coisa opaca.
Nem Bilac nem Raimundo. Tuba de alto clangor, lira singela?
Nem tuba nem lira grega. Soube depois: fala humana, voz de
gente, barulho escuro do corpo, intercortado de relâmpagos

Do corpo. Mas que é o corpo?
Meu corpo feito de carne e de osso.
Esse osso que não vejo, maxilares, costelas
flexível armação que me sustenta no espaço
que não me deixa desabar como um saco
vazio
que guarda as vísceras todas
funcionando
como retortas e tubos
fazendo o sangue que faz a carne e o pensamento
e as palavras
e as mentiras
e os carinhos mais doces mais sacanas
mais sentidos
para explodir uma galáxia
de leite
no centro de tuas coxas no fundo
de tua noite ávida
cheiros de umbigo e de vagina
graves cheiros indecifráveis
como símbolos
do corpo
do teu corpo do meu corpo
corpo
que pode um sabre rasgar
um caco de vidro
uma navalha
meu corpo cheio de sangue
que o irriga como a um continente
ou um jardim
circulando por meus braços
por meus dedos
enquanto discuto caminho
lembro relembro
meu sangue feito de gases que aspiro
dos céus da cidade estrangeira
com a ajuda dos plátanos
e que pode - por um descuido - esvair-se por meu
pulso
aberto

Meu corpo
que deitado na cama vejo
como um objeto no espaço
que mede 1,70m
e que sou eu: essa coisa deitada
barriga pernas e pés
com cinco dedos cada um (por que
não seis?)
joelhos e tornozelos
para mover-se
sentar-se
levantar-se

meu corpo de 1,70m que é meu tamanho no mundo
meu corpo feito de água
e cinza
que me faz olhar Andrômeda, Sírius, Mercúrio
e me sentir misturado
a toda essa massa de hidrogênio e hélio
que se desintegra e reintegra
sem se saber pra quê

Corpo meu corpo corpo
que tem um nariz assim uma boca
dois olhos
e um certo jeito de sorrir
de falar
que minha mãe identifica como sendo de seu filho
que meu filho identifica
como sendo de seu pai

corpo que se pára de funcionar provoca
um grave acontecimento na família:
sem ele não há José Ribamar Ferreira
não há Ferreira Gullar
e muitas pequenas coisas acontecidas no planeta
estarão esquecidas para sempre

corpo-facho corpo-fátuocorpo-fato

atravessados de cheiros de galinheiros e rato
na quitanda ninho
de rato
cocô de gato
sal azinhavre sapato
brilhantina anel barato
língua no cu na boceta cavalo-de-crista chato
nos pentelhos
com meu corpo-falo
insondável incompreendido
meu cão doméstico meu dono
cheio de flor e de sono
meu corpo-galáxia aberto a tudo cheio
de tudo como um monturo
de trapos sujos latas velhas colchões usados sinfonias
sambas e frevos azuis
de Fra Angelico verdes
de Cézanne
matéria-sonho de Volpi
Mas sobretudo meu
corpo
nordestino
Mais que isso
maranhense
mais que isso
sanluisense
mais que isso
ferreirense
newtoniense
alzirense
meu corpo nascido numa porta-e-janela da Rua dos Prazeres
ao lado de uma padaria sob o signo de Virgo
sob as balas do 24º BC
na revolução de 30

e que desde então segue pulsando como um relógio
num tic tac que não se ouve
(senão quando se cola o ouvido à altura do meu coração)
tic tac tic tac
enquanto vou entre automóveis e ônibus
entre vitrinas de roupas
nas livrarias
nos bares
tic tac tic tac
pulsando há 45 anos
esse coração oculto
pulsando no meio da noite, da neve, da chuva
debaixo da capa, do paletó, da camisa
debaixo da pele, da carne,

combatente clandestino aliado da classe operária
meu coração de menino
......................................................

sábado, 3 de dezembro de 2016

Estamos em falta

Projeto Artístico Olha Lá

por onde veias grossas passam
há um apanhador de sonhos:
em boca fechada não entra poesia!

meninos correndo entre palafitas
onde pulsa vida máquinas não rimam:
em boca fechada não entra poesia!

os sapatos que não sabem do pé a porta
ou sequer da poça de justiça que é puro sangue:
em boca fechada não entra poesia!

os pés juntos, o cheiro de suor úmido à venda, os miolos,
ouvidos são para outros versos, o sexo é outro, seca tua fome:
em boca fechada não entra poesia!

a falta de escola, de ar, de pão e privada,
a galinha e o esterco, o quilo da palavra chão, cruz no asfalto:
em boca fechada não entra poesia!

o corvo na curva, o corpo é de gole, o golpe é cachaça
- dos dias bolorentos são estranhas as mordaças:
em bocha fechada não entra, não sai
não entra
poesia!


Patricia Porto

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Filogramas


Laura Ferguson


o não feito corpo morto à deriva,
verso de molas à deriva
como um beijo, saliva, sangue,
seio direito à deriva,
eixo norte, sul,
uma asa aberta
em degelo

minhas coxas projetam
imagens fluídas
e estão liquefeitas

no quarto de vestir as aparências
acendo a cela solitária de escolhas livres

o cansaço da viagem machuca os pés,
são uns espinhos nos miolos,
porta à deriva do sol
não deixa passar a luz branca que bate

avisto borboletas como insetos,
flácidas de toda cor e algumas sépias
que do olho mágico só vejo bruxas

a dor que funda é esta: carne suja
sem filtro

tenho dó de não pertencer ao retrato
e se as entendo voando por perto, mariposas feias,
não sei se me abro a janela
ou se morro junto, pulando em mim

Patricia Porto

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Casa Antiga

Sophie Blackall


Toda casa tem um alçapão,
um esconderijo de corpo
e outro vão de vazio pra alma.
Eu quando miúda gostava dos cantinhos.

Toda casa, grande ou pequena, tem uma janela
que um dia teve um passarinho que ninguém viu
- pois foi sequestrado para poemas.
Tem um irmão menor que vira maior, correndo pelo assoalho,
e uma água que pinga no peito, água de infiltração.

Todas as casas têm esses pingos,
paredes choram,
e têm gente guardada, pingentes, assovios e leite derramado.
Um ZunZunZum, som de pés correndo pralgum lugar  .
E tem a solidão, a goteira do teto que antes se anuncia por dentro.

Tem também um jardim que alguém cuidava com mãos de tristeza.
Uma velha rezando no escuro.
Uma vela pra morta na sala.
Minha avó costurando amarguras
e um silêncio
                     mortal
                                sem asa
                                sem chão.  

Patricia Porto

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

A sensibilidade

Uma das melhores estratégias de anti-poder é a sensibilidade. Sempre me falaram que eu era sensível demais como se a sensibilidade fosse um grave defeito diante do poder bélico do "seja forte". Há muitas maneiras de ser forte e uma delas, e no meu caso específico, é o ser sensível. É o sentir com o outro que é muito diferente de tolerar, esta palavra esquiva. A sensibilidade é a força dos poetas. Está no território do saber, do amar, do desdobramento da alma.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

“Quem tem poder, que faça bom uso.

                 
                   
Imagem: Alice Liddell por Lewis Carroll.


                   “Até um vira-lata é obedecido quando ocupa um cargo.” Frase célebre de Shakespeare em Rei Lear. Há uma outra não tão célebre, mas não menos polêmica:  “Gosto de crianças (exceto meninos)”, esta de outro escritor inglês muito reconhecido: Charles Lutwidge Dodgson ou simplesmente Lewis Carroll, autor do clássico “Alice no país das maravilhas”. Carroll já adulto não só tinha como melhores amigas “menininhas”, mas também as fotografava com permissão e apoio da própria mãe. Eram tempos vitorianos... Outro tempo, outra moral. Não tenho tanta certeza, mas talvez não tivéssemos hoje por Dodgson ou Caroll a mesma complacência, isso levando em conta a nossa atual visão de mundo. Sem respostas absolutas que não acabem sucumbindo ao fosso da temporalidade, o que importa me parece ilustrar aquilo que do passado vingou: que Caroll foi indiscutivelmente um grande escritor que tratou de nos deixar de legado  seus incômodos narrativos de imagens perturbadoras e visões pra lá de ambíguas que jogam com nossos próprios e indiscretos espelhos. O cenário de sua escrita? Uma terra e uma época profundamente marcadas pela opressão do puritanismo. Caberia então perguntar o que a repressão e a tirania podem fazer de mesquinho com os homens. Frear, coibir ou iluminar sua loucura? Coroar ou cortar suas cabeças?
           Num tempo não tão distante, muitas rainhas e rainhas-mães se revelaram tão insanas e perversas, tão tiranas e sanguinárias quanto os seus próprios reis-pais, acabando com a esperança de que mulheres no poder sempre nos salvariam de guerras atrozes, perseguições vingativas e derramamentos de sangue. Novamente Shakespeare nos aponta a montanha que há por trás do iceberg ou por trás de um desejo oculto e freado. Lady Macbeth, de Shakespeare, tem a força e a gula dos grandes tiranos. Em toda minha incursão literária nunca li tanta crueldade, tanto ímpeto feroz, marcado pelo orgulho do ódio e o delírio da ambição:
“Vinde, espíritos sinistros
Que servis aos desígnios assassinos!
Dessexuai-me, enchei-me, da cabeça
Aos pés, da mais horrível crueldade!”
            Dessexuai-me... Ninguém melhor que Shakespare para traduzir a vontade do poder, ninguém melhor que Freud para interpretá-lo. O desejo cruel de Lady Macbeth, a inveja de Iago, a persuasão de Cássio, a dominação de Petrucchio, o fantasma de um pai, a manipulação da mãe, Hamlet  e a tirania se contrastando com a palidez e a fragilidade de Ofélia, a ninfa no lago. Que morra, por certo.
           Poderíamos nas aulas de literatura falar de muitos “complexidades” do humano e também das nossas tantas fraquezas de caráter, das nossas absurdas pequenezas... Mas quem quer ouvir isso em sã e feliz alienação afortunada? Fiquemos por ora na superfície, na superfície porque não causaremos mal estar. Enfiar o espinho na ferida é para os loucos, os sem juízo, os vadios, os amorais. Não funciona, eu sei. Continuaremos sempre a desejar a morta do lago, a quietude do poço, como o "silêncio dos inocentes".
            Fiquemos na sustentável ignorância do ser e não nA insustentável leveza do ser, belo filme de Philip Kaufman. Como protagonistas, vemos os engajados Juliette Binoche e Daniel Day-Lewis, personificando o casal Tomas e Tereza numa Praga invadida pelos Russos, naquele tal ano de 1968, o ano que não terminou segundo Zuenir Ventura. Baseado na obra de Milan Kundera, o final do filme destroça nossas esperanças de ver aquele final bacaninha, com o casal apaixonado vivendo numa cabana da montanha. E destampa o vulcão para causar fraturas. Tão difícil assumir a ferida narcísica exposta do nosso lado sombrio...    Revelar o asqueroso, o feio,  o estranho, o desumano, o esquizoide – e o finito. Como nos discos vinis, muitos tentam tocar apenas o lado A, aquele com as melhores paradas de sucesso. O lado B, no obscuro permanece, reprimido numa cortina de fumaça como se seguisse a Lei de Murphy, na consequência inevitável  da opressão: caindo para baixo, no baixo, nas baixezas do grotesco, escondido embaixo do tapete da terra, como As Aventuras de Alice Embaixo da Terra, primeiro nome dado ao livro de Carroll.
            E pensando melhor, afinal, não importa tanto distinguir o lado A do B, porque no fundo ou raso, eles estão mesmo misturados, e se o homem não descobre sua dimensão humana e finita, ainda mais sofrimento deixará de herança aos outros do advir, porque deixará de apostar na dimensão misturada de sua natureza primária. Quando olho para a nossa História recente fico pessimista e isso não tem vínculo com a minha visão política de mundo, mas sim com a minha visão humana de mundo. “Para onde caminha a humanidade”? 
           No nosso reino da felicidade de araque e de gente tão cordial e conservadora,  se a ficha  da hipocrisia não cair, que tal ficarmos com aquele velho adágio: "Quem tem poder, que faça bom uso"? Esse pode servir...
        No “The End” talvez encontremos a frase de efeito para a contemporaneidade, como Boris Yellnikoff, personagem neurótico e pessimista do filme de Woody Allen. Sim, é possível, “Tudo Pode Dar Certo”.


Patricia Porto

domingo, 18 de setembro de 2016

Erectus

Tatiana Parcero 


Corpus erectus:
erótico profético e profano.
Veja meus pés.
Quantas línguas cabem neles?
Quantos significados?
Mas eu não tenho tempo para a poesia.
Sou mulher.
Uma criança grita na sala,
ela precisa urgentemente de vitamina D.
Meus berros estão guardados em pequenas caixas
de estrutura sonora.
Preciso não ser a louca para ser alguém aproveitável,
competitivo, agressivo.
Preciso ser a vitamina D do sexo disponível.
Preciso comer placenta.
Corpus erectus.
Quantas línguas cabem na xana?
Não posso falar sobre a xana,
que não seja no signficante,
preciso abrir espaços para que os homens falem,
trabalhem, brilhem, executem suas tarefas satisfatórias.
Dizem que a  civilização é o domínio do homem sobre outros homens.
Mas há sempre os cães bestializados que batem na porta para entrar.
O cão bem suja a palavra dos homens,
a loucura que os homens destinaram às mulheres.
A xana desoculta a nossa verdadeira liberdade indomesticável
contra os deuses dos festivais.
Para eles a bruxaria,
contra a escassez contemporânea, o selvagem,
o que engole a palavra fácil do homem que introduz
sua crítica na nossa xana.
Corpus erectus.
Quantas vozes cabem nesse corpo todo?
O corpo é o espetáculo civil da experiência.
Esse corpo, esta zombaria franca
é o desejo espelhado na cara da santa covardia.
Uma mulher sem classe é a mulher desobediente,
que insana de seus novos poderes solta uma gargalhada
e se arremessa nas suas próprias quedas
- seu corpo não é deus, é uma menina.

Vejam! Acabou de se parir.

Patricia Porto  

terça-feira, 13 de setembro de 2016

os párias

de onde vejo o mundo minha calcinha se inunda
não vejo por meios microscópicos qualquer centelha de hipocrisia
a vulva pública da grandeza terrena quer parir gênios da humanidade,
mas as mãos viris de Deus os examina por veículos macroscópicos

ninguém merece o céu da escrita
- talvez aquele cão lambendo a calçada

Patricia Porto

domingo, 11 de setembro de 2016

Cabelo de vó

Esta que dança no escuro da terra é minha avó,
ela saiu da cidade, ela cortou o cabelo,
ela teve muitos filhos, mas só criou uma

minha avó é aquela de calça comprida,
ela fugiu com um aviador,
ela largou meu avô e nove filhos

a mulher que dança no sol é minha avó,
ela encolheu de repente,
ela viveu em São Paulo,

esta que veste chambre é minha avó,
ela fala em línguas estranhas,
ela envelhece de raiva,
seus cabelos são longos como os da Rapunzel

a mulher que dança no mar é a minha avó,
ela escuta a rádio relógio,
ela é a mulher das horas,
seus cabelos tecem o ventre do Novo Mundo

- ele está vazio de Amor

Patricia Porto

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Golpe




Alguns me dirão que o caminho certo está do outro lado da porta.
Prefiro a saída enigmática e desconhecida das ruas.
Elas me lembram que há muitos seres como eu,
isolados, dessolados, desistidos, insistindo, profanando de
esperança qualquer matéria de opressão.

Patricia Porto

terça-feira, 30 de agosto de 2016

O circo dos horrores e as mulheres serpentes

Enrico Robusti

A mulher corpulenta de colar de pérolas, riso cínico de pérolas, olhos sorrateiros de pérolas anunciava o cortejo dos trabalhos. Sem reflexo, olho de vidro, com um cinismo mais tórrido que seu vestido de viscose, visgou-se no muro. O urso polar está em extinção, mas a mulher justiceira de pérolas em multiplicação prolifera-se. Eram meninas soberbas. As meninas prodígios com vestidos de flores verdes como flores amarelas de plástico e alegorias de igreja. Egos nervosos, ecos de caverninhas de Platão perdem para inferninhos de Dante. Falas de direção, vozes duras, timbre másculo feito um pau em ereção pela manhã. Como competir? Para quem competir? Competir, competir... feito um pau de viagra, uma vagina com estacas de pau de sebo, bola de sebo, o sebo escorrendo pela boca da vagina de plástico.
Como competir com a vagina de sebo? Como levar vantagem em tudo? Como enrouquecer a voz e pisar de coturnos em marcha com mechas longas guiando criancinhas para a câmara de gás? Rostos de garotas coca-cola, como competir? Como vencer da coca-cola? Como vencer se a pessoa de nascença tem o nariz torto e o mal do septo?
A mulher serpente de plástico terminando os trabalhos, olhos de pirata, sorriso de fios de vilania, incensava o ambiente, colar de pérolas aos porcos, as porcas de visgo, viço fácil, dentes de porcelana. O rio ia passando lentamente sem cortes de edição... Choro de escada, escada de mármore polar, frio polar, abraço polar, solidariedade polar, solidários de merda que apertam com a mão mole, carregam pastas e dejetam pela boca que vão rezar pelos menos favorecidos. Menos favorecidos de quê?
A mulher corpulenta goza com seu pequeno poder de balança, seu pequeno poder de merda, goza com seu sorriso de merda, atravessa o corredor da morte alheia se achando a rainha da grande batalha, na sordidez da vitória. Mas no final do corredor se fingindo de amigo há um gato que ronrona.
No circo das mulheres serpentes tudo desfunciona numa traquitana.
E serão servidos testículos de velhos bois como prato principal, uma iguaria.

Patrícia Porto

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

válvula e escape

David Mellon



aço no caos
como parafusos apertando,
sol de agosto é frio na nuca
e bolso vazio

olho para o cão que passeia comigo

dias de dizer sim ouvindo não
como essas imagens de cinema,
as dores de deserto que nos atravessam
são holofotes na casa dos quarenta
- não sei se viverei para contar meus ossos

viajar de corpo
é para os que sabem viver

eu vou amarrando as tirinhas no braço,
calafrio é sem etiqueta,
 a certeza de não sofrer de delírios é que é mais dura

uma canção dizia "quem sabe a gente se esbarra..."
quem sabe por dentro dessas vagas
nesses dias vultos
feito eu, esse fantasma

mas desejo é gentileza,
e gentileza é ter pavio, algum desejo


Patricia Porto

Livramento

Paulis Postazs



Não sou um bicho ordeiro
feito as galinhas de Meruca

- misteriosos eram os galos e as galinhas daquele lugar.

Feito um galo de briga cresci em meio às galinhas,

por isso me tornei um galo,

um galo de briga.

Pescoço duro, eriçado.

O avô, compenetrado, com a mão no queixo.

Misterioso era nascer mulher e galo

entre as galinhas ordeiras de Meruca, a beata.

Reminiscência é onda, água boa de sonho,

argila mole pra fazer o santo da casa

- por fora é que crença, a cura,

por dentro é esse sem limite, essa sombra.

Quando um verso molda

outro vem, rói a corda.

O livramento é um raso

e a memória dá rasteira no destino

com suas longas pernas de pau.

Patricia Porto

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Lavanda

Pina


o cheiro crespo tem lavanda
minha roupa crespa
meu teto crespo
meu cabelo crespo tem essa lavanda

eu trocaria qualquer mediocridade instantânea
por um minuto de ideia acesa

o corpo tem essa história secular
com sabor de terra,
perdemos em fascículos

eu trocaria os tambores que estão em cima do armário do quarto
e me deitaria de botas na cama,
a blusa aberta

o tempo tem essa vertigem secular
e eu me mataria por pouco
- tanta poesia vazia nas prateleiras

mas essa lavanda me exala, me exila

Patricia Porto

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Para os nossos dias mais sagrados

Whattaroll


Para os nossos dias mais sagrados

Não vou desistir do poema
Não vou desistir da língua que como
à brasileira]
a brasileira no caldo do trabalho
- o fruto a fluir quente
entre minhas pernas

Água de nós
são flores de narciso
Não vou desistir do ato e cairei de pé!
não vou desistir de escrever no muro o que falo,
não vou desistir da mulher que não quis parir
Da maternidade sei a voz mansa do veneno
como o engasgo que mata suave,
feito o engodo que vive nos braços,
o engodo que chamarás de mulher, mãe e filha

Água de minha língua,
ácida nos olhos da mulher que chora pelo filho postiço,
molhando de desespero a saliva dos agregados,
não vou desistir desse objeto oculto e mítico,
não vou desistir da criança que ficou presa no quarto,
não vou desistir do desejo de partir para longe de toda indiferença,
não vou desistir de escrever as palavras que te furam, te ameaçam

Saibam, moças de escrita culta,
não vou desistir de esfregar o poema da mulher da rua – na cara do senhor Puntila,
da mulher de língua fácil, da mulher em trânsito, no tumulto de seus contrastes,
quero a língua toda, a medonha, o sol que vai subindo,
queimando,
céu & inferno

Não vou desistir de deixar Orfeu

Ela é minha,
minha essa outra
A mãezinha da cantiga está morta.
Restou-me esta aqui: a carnívora

Patricia Porto

domingo, 14 de agosto de 2016

A natimorta



Patricia Piccinini


A natimorta

No espelho uma mulher se desconhece.
A solidão é sempre
útero invertido
- incapaz de gerar uma sociedade.


Patricia Porto

Para o admirador que aplaude a poesia de vitrine.



Posso ver o rosto da mulher que veio antes de mim.
Era uma mulher portuguesa, uma mulher negra, uma mulher índia.
Elas estiveram fazendo sangue na minha história pela raiz.
Posso ver o rosto da mulher que me habitou uma ancestralidade
na minha origem mortificada,
morta aqui como eu estou com meu cigarro apagado nas mãos,

posso ver minha vertigem e não é da natureza,
não é da natureza a herança branca e limpinha,
não é da natureza a zona de conforto de pares justificados,
não é da natureza a verdade de ver
na poesia a bocetinha de ouro,

abri a revista e avistei a mulher branca, bonita, enfeitando as páginas dos poemas,
consagrada por autores brancos,
homenageada por seguidores brancos, ceifadores de matéria prima exótica.
Bebedores de Whisky que compram no freeshop
festejavam a poesia comprada a peso, oferecida como peça de buffet,
poema de grife, esmalte rubro na unha,
poesia vendida para colecionadores brancos
em suas festas brancas,

poesia engraçadinha, poesia da moça da vitrine,
poesia gostosinha, poesia branca,
para homens sebosos, gordurentos brancos.

Posso ver o rato, a curva por onde passa um elefante branco
- desejo me comunicar com eles,
- não são homens os animais incomunicáveis, não são brancos, não consomem poesia de riso fácil.

Mordo meu cigarro. Quero me comunicar com elas, as loucas sem endereço, as incomunicadas,
as putas da minha ancestralidade, as que levaram porrada, as intocadas,
as que existem e marcam, e as párias, as ajustadas com ferros nas cabeças,
as sem território,
as mulheres arrastadas pelo asfalto,
as que choram na carne a perda
as que ficaram na pedra, sem juízo algum.

Não há lugar para mim
entre os poemas perfumados à francesa,
não há lugar para mim
entre homens brancos que celebram a poesia de vitrine.

Quero o cheiro da gente, a suja,
o sabor do sangue na boca,
o poema que morde
e morde.

Patricia Porto
  

sexta-feira, 22 de julho de 2016

só para bonecas

Dara Scully

era corpo e arrebentação,
precisava expurgar em labirintos,
comer da noite sua dose de alternância

era corpo e era desejo,
não era uma ciência exata,
era faca no ventre, dama e vespeiro,
aborto de qualquer modelo de vida e ordem desgraçadas

eram vidros que lhe cortavam a cara e os cacos um chão de cozinha suja

a boneca de asfalto era fodida, a mestra da miséria,

queriam lhe arrancar os olhos e depois o coração,
a louca varrida, a grita gasta, estragada no tempo,
fruta de desterro, coisa de surrar, comer, deixar à mostra,
peitinhos amolecidos

a boneca de gente era carne de segunda,
mas de quando em quando girava
as maçanetas,
os cilindros,
os tambores,
todo maquinário da caixa
-até à última nota de doçura e queixa

Patricia Porto


quinta-feira, 14 de julho de 2016

Tempestade

Pina Bausch


há uma luz que nasce do mistério
uma criação ostenta o pássaro, um pássaro negro e azul,
por isso uso perplexa mãos crispadas de espinhos bem pontiagudos,
pois estou sozinha do lado de cá
e estarei morta do lado de lá

há uma luz que revela antes da chama
o fogo que arde dentro

passageiro, me diga o que encontrou?

o grito de uma mulher
absurda, redonda, cheia,
esculpida em raios

 - não era eu (parecia)

Patricia Porto

domingo, 19 de junho de 2016

Envelhecer

Envelhecer

Estou envelhecendo. Não é uma novidade, venho envelhecendo há tempos, fragmentada em dias, meses, anos, desde do meu nascimento até agora. Não é uma arrogância não, só vontade de viver mesmo, viver melhor o que for da minha idade, e isso não tem a ver com as dores que passeiam pelo corpo desde os trinta, quarenta, tem mais a ver com a liberdade de espírito que se pode ir ganhando. Tenho algumas amigas que admiro bastante e que já passaram dos sessenta, setenta. Elas escrevem poemas, dançam nos bailes da vida, criam netos, trabalham ativamente, me mostram fotos de cidades esquecidas, lecionam, cuidam de seus gatos e cachorros, plantas, e amam, amam, amam... são feito meninas desatinadas. E quero isso pra mim.

Estou envelhecendo. Já troquei de lugar com meu filho na permuta de quem ensina e aprende. É bonito, tão bonito que eu gostaria de xingar um palavrão só para me espantar de presente. Serei certamente uma velha desbocada. A netinha vai dizer “a vovó está assustando meu namorado”. O que fazer? Já terei perdido os sisos. Pra que tanto juízo? 

Estou envelhecendo. Mas não estou sozinha. Todo um mundo que trago comigo também vem envelhecendo comigo. Outro dia um amigo me deu umas dicas de viagem para lugares que devemos ir antes de morrer, sinal que estamos envelhecendo juntos e sábios do fim. Claro que tem esse lado triste da morte que faz parte de envelhecer. Ver suas referências, seus exemplos partindo... "Agora, minha filha, veste a camisa, pois só ficou você no jogo". Essa coisa que meu avô falava de "ser o último homem" e que só agora eu entendo porque vesti a camisa. Perdi três, quatro universos de referências no mês do meu aniversário dos quarenta. É para entristecer qualquer um que tem coração. São pedacinhos seus, são minúsculos grãos de sua mesma poeira cósmica. Despedir-se é tarefa das mais difíceis, e isso eu sinto mais que penso. Vou ali na esquina da minha humanidade chorar e volto. E volto mais velha, a velha da vez.

Estou envelhecendo de acordo com minha idade. Sinto mais dores no corpo, e minha natureza notívaga me dá trabalhos para o dia seguinte. Que dia? Ando sonâmbula pelo mundo. Se faço uma noitada, uma raridade, preciso de dias e dias para me restabelecer. Na verdade ando trocando noitadas por desenhos infantis, leituras intermináveis de Ulisses, papo com as amigas regado a café ou vinho, carinhos nos filhos, no meu cachorro, ás vezes um cineminha - fora as arrumações de papéis, gavetas, livros etc. E vou vivendo bem devagar. E é o que realmente me entusiasma, viver devagar, vou ficando lenta, naquela lentidão de existir do meu tio Inácio, eternamente deitado na rede mascando fumo. Tenho meus dias de rabugice, de ovo virado, que me lembram muito minha tia Marta, reclamando de tudo e todos, esbravejando e esquecendo, esquecendo e esbravejando. Mas acho que estou pendendo mais para tio Inácio, no exercício de ouvir mais e mais, falando menos por pura economia de saliva e aborrecimento.

Estou envelhecendo e as mortes, as quedas fazem parte desse envelhecer. Se tenho medo? Fico toda borrada só de lembrar. Mas sei que no final das contas o medo da vida nos momentos incertos é que vai ter sido maior. E o medo dos vivos, claro. Cresci com a morte por perto num lugar e tempo em que se velava o defunto na sala de casa, no quarto, na cama que o viajante dormia. Eita que Caetana nunca perdoou ninguém! Até hoje não conheci passageiro que tenha vindo de lá pra me contar como foi.

Por um tempo da minha infância vivi com três velhos e fazia parte da programação mensal ir velar um parente, vizinho, conhecido - que nem precisava ser muito conhecido não. Bastava ter bolacha, refresco de tamarindo e tia Marta ou tio Inácio me levavam a um desses eventos fúnebres. De curiosa eu ia pra olhar. E divertido era ir com tio Inácio, porque ele bebia e dançava o morto numa animação tão grande que morrer parecia festa. Tia Marta podia bem ser contratada para as rezas e choradeiras. Chorava por desconhecido, qualquer um que precisasse. Se não tinha gente chorando no velório, ela puxava e até dava ameaça de desmaio. Quando voltava pra casa nem lembrava do ocorrido a carpideira.

Estou envelhecendo com os meus velhos por dentro de mim e tenho engolido infância a todo momento, talvez faça parte desse paradoxo, o corpo ficando mais duro, a alma se esticando, se espreguiçando, uma ginástica de estar vivo para além. No meu caso, para além do esperado de tanto que enfrentei a vida para não sucumbir. Mas não sou a única nisso de resistência. Somos tantas e tantos, estamos envelhecendo de teimosos e valentes. E um passarinho me disse que vão precisar de bons contadores de histórias lá pro ano de 2035, 36. Tenho preparado meu currículo vivendo esses tecidos da vida, cheios de defeitos de costura, e outros de comportamento, não sei direito. Mas até 2037, 38 ele vai estar prontinho para essas horas cheias, horas de verdadeiro banquete.

Estou envelhecendo agora, nesse momento, é um feito interminável até que se finde. Estou me preparando, pois quero envelhecer de cabeça erguida, não sei se branca, mas erguida. Não sou melhor nem pior que ninguém, por isso espero envelhecer com dignidade e dignamente. As bagagens estou diminuindo, pesos também. Estou rindo cada vez mais, tenho rugas novas em lugares inimagináveis antes e aprendo a conviver com elas do jeito que aparecem. O tempo está ai e estou indo encontrá-lo de cara limpa, braços abertos, sentimentos avulsos, com meu lado cafona, sentimentaloide, escrevendo cartas de amor ridículas. Lendo os meus amigos, lendo para a criança que nasceu dos meus quarenta e um. Porque há essas flores que só desabrocham depois dos quarenta. A escrita é uma flor que precisa de certa maturidade. 

É. Estou envelhecendo e estou feliz. Sinto-me incompleta de uma maneira muito peculiar e prosaica. Admito minhas imperfeições, cultivo incertezas e aprendo coisas novas com os mais jovens sim, as crianças principalmente, e faço isso sempre com um prazer indescritível. Consumo menos, sou mais seletiva nas palavras, pouso o olhar mais vezes naqueles que eu amo e me demoro, me demoro, me demoro...

Patricia Porto

domingo, 5 de junho de 2016

A Era de Cardumes


muitas vezes era o cardume
os peixes alinhados vesgos se debatendo,
crescendo no cardume com sonhos de cardume,
as certezas de cardume

dentro do olhos vesgos se debatiam
- quase vivos ou quase mortos

se o tempo nunca é lógico
e se as quedas são para o chão
escamas espumam até à morte

seguem suas vidas de cardume
com tentáculos e correntes,
com promessas do cardume

óleos nas pélvis,
ovários de peixes
apanhados nas redes, um caviar
os cardumes assistem a TV,
acenam continências,
entram na fila,
comem esfaimados as sujeiras fétidas
da nova Era

cuspidos de seus interiores,
os mitos, as luzes,
os monarcas, os olhos
afogam o afeto na gota

Patricia Porto

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Casinha de Bonecas & Elefantes

Dara Scully


O que importa?
Eles não me vêem, mas eu me vejo.
Eu escrevo e nas minhas veias está meu sangue,
minha corrente de incertezas corre para o centro da cidade.
Eu vejo!
A dor de perder os dentes, a dor de parir pra dentro,
a dor atávica das índias velhas nos funerais.
O que importa se me rejeitam
se não tenho tempo pária, se o corpo é todo ele um esporão,
se o destino não atendeu o chamado da Casa, das Minas.
Eu vejo bem, senhor!
Eu vejo bem, senhora!
Tenho esses dois olhos que a terra há de comer pelas beiradas.
Pelas beiradas levei um cisco no direito,
um tapa no esquerdo,
um sol bem no meio
de estampado!
Meu erro é língua,
meu nome,
minha terra saqueada,
meu tumor no olho de criança,
minha luta é língua.

Vai encarar?

    
Patricia Porto

domingo, 22 de maio de 2016

Doce Violeta



Onde você estava naqueles dias quentes da rosa?
Depois da rosa veio o espinho na carne,
na carne depois do espinho as chagas,
as chagas abertas tomaram o corpo de despedidas,
os dias de destroços abençoados, as noites de vulcão faminto,
os tempos cíclicos, os espíritos mundanos,
as desproporções da acolhida cúmplice,
os dias de amores possíveis e não possíveis,
por onde você aceitava o meu corte?
Somos violentos, doce é a violeta,
usamos bombas de extermínio,
frases de detenção,
solitárias imundas, dias insanos de bater com a porta
na fuça alheia,
dias corrompidos pela desgraçada vivida
em nome do que ousamos querer.
As noites de trevas nos esperam a todo momento,
ninguém nos salvará de nós,
ninguém escutará nossa voz no forno,
na fornalha que nos queima a voz,
na indecência que nos rouba o corpo do filho,
ninguém ouvirá nosso grito no escuro da noite
- uniforme unimorfo uniformizado.
Nossas crianças serão levadas para as prisões.
Mas nossos bebês não se lembrarão disso.
Nossos poços artesianos serão silenciados
com o concreto do estado, nossa água será a sede,
o peito murcho,
a faca no pescoço, uma cócega,
o nosso dano será a história maldita,
traduzida por mortos,
por monges,
por dedos da mais alta aristocracia
em  versos sórdidos da mais fina outreidade,
E nossos algozes, permitidos, nos comerão os olhos
como frutos verdes de uma democracia
que nunca nos permitiram conhecer.
Nada, nem teus dentes, nem nossas carnes em tua boca,
nos tornarão iguais.
Doce violentas.

Patricia Porto
    
 

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Para ninar monstros

um dia alguém acordará do pesadelo que criou

cavernas são para os homens

bocetas para as mulheres,

mas um dia alguém acordará da dor que se inventou,

o grande mito retornará mais bravo que nunca

e espancará seus filhos com cintos e floretes

- a pedidos da mamãe


a noite é sempre porca,

o mato cresceu ao redor de tudo,

o bairro parece pacífico,

mas o amor é lacrimogêneo


Patricia Porto 

Extinção


Judy Dater 


Quem carregará nossos corpos? Ninguém?
Quem ouvirá nosso choro?
Você cuspirá no destino? Talvez.
Quem dormirá de luz acesa na noite de hoje?
Eu, você, todos dormiremos assaltados de medo,
contando nossos corpos fluídos que boiam na bacia. Ninguém.
Ninguém virá catar seus restos fetais.

Refletidos nesses círculos na água
onde crianças brincam de nascer,
por que papai se barbeia?

Patricia Porto

Nada a temer

Rosa era um indivíduo,
mas Rosa também era uma flor,

Rosa tinha desejos em si mesma
e fora de si

Rosa era je e moi na vida

Casou com Leônidas Brasil
e adotou o sobrenome do senhor marido

Rosa Brasil hoje figura no álbum
da tradicional família brasileira

- com todas as omissões de seus espinhos

Patricia Porto

O Dia D

hoje ninguém veio trazer o café
descobri que não falo a língua deste país,
mas conheço um pouco de esperanto
esperanto, esperanto tanto

quem sabe amanhã

Patricia Porto

terça-feira, 19 de abril de 2016

O fim dos elefantes

um elefante na sala carrega meu peito,
preciosa pretensão a nossa,
neste ponto de achado

Tanta fugacidade nas minhas manhãs de enjaular férias,
mal posso dormir em mim de tanta desordem,

meu elefante anda sobre as águas
adulando essas minhas memórias,

espero um tempo de ação,
mas estou imóvel, paralisada, asfixiada.
Tudo é dinheiro e eu precisava de uma nova rota de fuga,

meus sapatos gastos, minha temperatura alta,
eu e meu elefante tentando aprender novas linguagens:

um dia de cão.

um abraço de urso,

fósseis são do elefante. Uma babel & O fim.

Patricia Porto



quarta-feira, 6 de abril de 2016

O Desterro

Esses sonhos novos eu colhi com meus olhos - também novos,
porque perdi a bússola de Ariadne e estou só.
Poderia chamar de deserto, mas que culpa cristã tem o deserto?
O deserto está só - só nele. Deixem de fazer de suas ruínas algo tão belo!
Tão belo como um deserto só um deserto! Está onde deve estar, pouso.
Andei entre os homens e vi massacres, mas não encontrei nenhum mapa.
Andei no deserto e vi o sol, a areia, a rotação, o tempo que se move quente.
Não achei o Minotauro nem pedacinhos de pão.
Descobri que o desafio do território é dentro,
algo muito sem fio.

Patricia Porto

domingo, 27 de março de 2016

Civilizada

Há quem fale por mim,
há quem diga bom dia quando lhe pareço muda,
há sempre um homem que diz onde eu devo colocar minhas mãos,
minhas palavras

Há quem esteja no lugar que pensei para mim,
há quem execute meu papel de operária melhor que eu,
há quem diga sobre o amor, o altruísmo, a bondade para com os fracos,
os fracos das pernas,
os fracos de mente,
e até mesmo os fracos de fé.

Há quem assine em meu lugar,
há alguém que se senta agora naquele restaurante com a pessoa do meu desejo,
há quem tome o vinho de hoje,
quem se deite na cama.

Há sempre alguém que pode falar por mim,
alguém que esperam que fale por mim,
alguém que desejam que fale por mim
há alguém que levanta o tom muito melhor que eu
e que escreve poemas adjetivados usando a minha vez passiva.

Há quem escreva em meu lugar a minha narrativa
e que atravesse a rua gritando ser eu.
Há no objeto, na sua órbita, todas as mulheres que fui um dia
e as que ele teve também,
quando me esgana - o falo -
- a voz - no sujeito.

Patricia Porto

o que corrói

Não há felicidade na Poesia.
Não há bom mocismo
nem lugar que aconchegue o espírito.
A poesia é só inquietação,
fome, sede, frio, bola na vidraça,
sonho fodido, comido pelo coleguinha gente boa.

Não, não entendo quem faz poemas de bibelojas
ou poemas concretos no tempo em que o poema pede: me sangre

Não entendo a estética dos vazios,
dos becos sem solidão,
dos copos sem aguardente pra queimar feridas.

Não entendo a poesia orgânica, que não come ao pardo,
que não defeca, não tem demônios

Me contento com os últimos dos seres que escrevem poesia na carne
e estão no açougue da vida.
Ressuscitam porque morrem todos os dias
pagando as prendas,
ofertando voz à presa.

Patricia Porto

quinta-feira, 24 de março de 2016

Seca

Que aridez era a tua, mulher?
Sentada à beira da porta,
prendendo a passagem
entre a calcinha -
apertava os cravos.

Patricia Porto

Catavento

A palavra que chegava do vento
não trazia nenhuma história,
nenhum papel.

Ouvido aberto pra longe
só escutei o vidro espatifando.
Onde eu estive nos últimos anos?
Coração era uma terra tão doída
que amor não criava chão.
Criava tempo, palavra de tempestade
que não acolhe. Esmaga.

Patricia Porto

HOJE


O que está morto não tem tempo.
Do passado nada se pode desfazer,
_ porque é o presente vivo,
pulsando,
que ferve em tuas mãos.

Pega da tua pressa habitual
o que te cabe de utopia
e segue com o que será futuro
somente hoje -
girando as horas.


Patricia Porto

segunda-feira, 14 de março de 2016

Carta para Priscila: Os filhos de ninguém são os filhos de Saul


Albert Watson, Benin, 2011

No Brasil a LEI sempre pode justificar os meios e os fins. Para fazer, para não fazer. Para desdizer ou maldizer. Ouço que a Lei há em todo mundo, em todos os Estados – de direitos ou não.  E por isso sempre me questiono sobre a Verdade. Porque Lei e Verdade andam desde sempre juntas, para o bem ou para o mal. E será que vale à pena discutirmos o que é a Verdade? Será que estamos preparados para esta discussão ou será que estamos dançando no escuro, como se ainda estivéssemos na Caverna de Platão à espera da luz?
Na Grécia Antiga era a Mitologia que explicava os acontecimentos, através de narrativas heroicas. Aquiles e Odisseu são heróis coletivos e fundadores. E o que mais importava naquele tempo era a narrativa, porque por ela se conhecia os homens. Pela narrativa chegávamos à fundação dos povos, pela narrativa um povo dizimava o outro e fundava um novo princípio. No poema épico, Aquiles se banha de sangue e seu elmo simboliza a força contra o inimigo, Agamenon. Estamos diante da Ilíada, uma narrativa sangrenta de combate e terror, de vida e morte. Sempre me apavoro quando leio a Ilíada e nunca vi um filme que pudesse dar conta da grandiosidade de Homero naquela narrativa de bravura e força. Assim como me apavoro quando leio o Rei Lear de Shakespeare. Narrativas em que a verdade se diluí na ficção, na Arte, e mesmo assim, Priscila, nos coloca diante das nossas ruínas mais profundas ou diante das nossas estranhezas humanas mais inquietantes, e nada é mais verdadeiro que a ficção do poder para narrar a verdade sobre o poder e a vontade de poder. O que parece diametralmente oposto e paradoxal se une nas pontas do contorno de mundo como “alétheia” que significa “o não esquecimento” ou para muitos – a busca da verdade.

Somente com surgimento da Filosofia, a Verdade passa ser o centro de uma nova narrativa de mundo.  E no início era o Verbo. Verdade e Verbo se confundem nessa nova narrativa. O peso da Palavra como Verdade parece então relembrar a relação de irmandade entre Zeus e Hades, irmãos e deuses, o primeiro da Origem, o segundo, dos Infernos. E novamente a dicotomia cede, não por vontade, espaço para o ambíguo do homem. O que é Verdade? Ela existe sem a contaminação do não-ser-verdade ou do parecer-verdade ou até-que-se-crie-uma-outra-verdade?
Para os pré-socráticos, ou seja, antes de Sócrates e de sua maiêutica ou antes de um pensamento que nos chega até os dias de hoje, a transformação era o que regia o fluxo da narrativa. Quando Heráclito diz que a única coisa certa é o Devir, é a mudança, ele abre o caminho do pensamento para o plenamente humano. A narrativa segue esse fluxo entre a Vida e a Morte. Tudo que nasce um dia deve morrer. Nada é imutável.

No século XX ou muito tempo depois de Heráclito, Antônio Gramsci vai dizer que “se o velho morre e o novo não nasce, neste interregno ocorrem os fenômenos mórbidos mais diversos”. O que foi o século XX? O que se tem se tornado o século XXI? Tempos de dissolução da Verdade e do Verbo, do questionamento da própria ideia de linguagem enquanto Verdade. Rei Lear está novamente vivo e morto e a cobiça e a intriga entre suas duas filhas provocam a sua derrocada, sua destruição. Os tempos do século XX são incertos. Não há mais lugar para as certezas definitivas. A narrativa se fragmenta. Está em pedaços.

Aqui, neste cruzamento da minha narrativa, é que entra você, Priscila, quando me faz pensar sobre o lugar do discurso e da retórica na Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Quando me faz pensar no lugar do signo como Verdade na Lei ou ainda no lugar da Verdade como Lei. Não à toa Nietzsche se debruçou sobre este tema e não à toa foi citado numa verborragia insana de homens que se colocam em pedestais de deuses e são mitificados por boa parte da população brasileira atualmente.  Nietzsche que foi um crítico severo do conceito de Verdade, questionou os seus determinismos ou quem falasse ou praticasse o Poder em nome dEla.
Por isso mesmo, Priscila, a palavra não deveria se sobrepor à coisa humana, e pensando com você, “sim”, na LDB a sigla EJA aparece como uma abreviatura e um símbolo linguístico de um determinado segmento e não de outro que é substancialmente composto apenas por jovens e adultos.  Ensino básico e ensino superior se separam dicotomicamente também pela palavra.   Por isso quando falamos ou escrevemos sobre a EJA não falamos sobre o universo dos cotistas, não falamos sobre a formação do novo docente brasileiro, não falamos sobre a diversidade, a heterogeneidade e de toda uma rede complexa de questões que ficam ali, barradas na porta pela dicotomia do signo.

Outra questão que me chamou atenção é que a Juventude é hoje um nó naquilo que muitos desejariam só EA ou Educação de Adultos. Se eu tenho o ECA como estatuto e defino a partir de uma região mórbida e não mais emancipatória que o jovem de quinze anos deve ir para a noite, e eu não sou mais Aquiles, nem Rei Lear, eu me torno a morbidez de uma gestão autoritária e excludente que habita muitas escolas. Há um sujeito que conduz esse predicado como regra. E esse sujeito só se torna abstrato na narrativa, quando culpabilizo o sistema ao invés de nomear os gestores que agem morbidamente em nome da Lei.
Trabalhei diretamente anos com o alunos do CRIAAD e sempre me perguntava: “de quem sãos esses filhos?” E perguntava em seguida: “por que me sinto tão vazia e impotente?” “Por que não consigo trazê-los pra mim?”  Eram tantas as camadas de exclusão, Priscila, que eu ali, professora de língua portuguesa, me questionava sobre o meu próprio lugar no mundo e sobre o Devir.

Foi assim, que pensando nessas questões, trazidas primeiramente por você, fui ao cinema assistir “O Filho de Saul”, um filme belíssimo em sua dureza de linguagens. Na própria dureza que nos seca a língua. É um filme quase sem palavras, porque elas não dariam conta da vida e da morte que permeia a narrativa de Saul que faz parte dos SonderKommandos, judeus que ficavam responsáveis pela limpeza da câmara de gás em campos de concentração nazista.  Saul está em Auschwitz e um dia, entre mortos que chegam em volume, encontra seu filho ou quem poderia ser seu filho. E assim como uma Antígona, em sua tragédia ou na nossa tragédia humana,  Saul corre contra o tempo e a morte para realizar o rito fúnebre de enterrar o corpo de seu filho ou o seu próprio corpo ou ainda o corpo da narrativa de seu povo.
Então lembrei de um aluno muito jovem, 16 anos, já com passagem pela polícia. Sandro era o nome dele. Sandro era meu aluno da EJA, sexta série naquela época.  Um dia Sandro desapareceu, desapareceu da escola, despareceu da mãe-Antígona, desapareceu de seu território. Eliane era o nome da mãe de Sandro que ficou dias, meses, procurando o corpo do filho para enterrar na sua tragédia única e de muitos. Ninguém se interessou o bastante, Priscila. Um dia Eliane também desapareceu de ir à escola e eu só posso sentir muito por não ter um final para lhe contar.   

Mas eu posso lhe falar da sensação que tive com final do filme e da saga de Saul. Um vazio, uma sensação de afastamento e dor ao mesmo tempo. Os filhos de Saul ou o filho de Eliane, por mais que eu me importe, eles não são meus filhos, Priscila. Eles são filhos de quem? E a palavra e a lei, por mais emancipatórias que possam ser, não dão conta de desfazer ou me absolver dessa Verdade.  O que quero dizer é que, por mais que eu me engajasse como professora do Sandro, não poderia e não pude mudar aquele desfecho trágico. Mas, ainda assim, eu posso e nós podemos pensar sobre os filhos de Eliane, os filhos de ninguém, os filhos de Saul e quem sabe, podemos até mudar algo, como uma palavra, um discurso que caminhe no fluxo da nossa própria narrativa humana. 
Grande abraço, Priscila, e obrigada,
Patricia Porto

terça-feira, 8 de março de 2016

Intensa

Expansão, Expansion por Paige Bradley


nenhum amor dura
nenhum amor morno,
nenhuma água morna
se livra da navalha

tudo é corte no amor morto,
natimorto, feio dos ossos
esperando o rito do suborno

horas tortas de dizer adeus
a palavra machuca,
mas são só esses demônios
não cabem na caixinha de joias,
mas também não há joias

um vento morno, morto invade à cabeça,
mas são só esses demônios mascarados

nenhum amor customizado dura
nenhum amor cansado dura

nenhum tempo morto sobrevive
nenhuma notícia velha engorda

a palavra sangue não tolera a bondade do jardim,
a palavra sangra para além do jardim
a palavra é dose diária de vida
estampada,
escancarada no chão,
gritando na rua,
invadindo as cercas,
corrompendo o medo que não dura,
a sombra que não dura

o amor que dura é a loucura
doce, batendo portas

não à normalidade,
risco de Tudo o que diz o senhor do bom senso,
risco com risadas,
não sou legal,
sou intensa

 Patricia Porto


quinta-feira, 3 de março de 2016

Caetana, a Parca

Bridget Tichenor



o que me levou para longe
não foi o escuro daquela noite,
a sombria,
a angustia de um olho só para enxergar

o que me levou para longe
não foi o assobio da morte Caetana
nem o sumiço de Dom de Sebastião

o que me levou para longe foi um arpão,
içada pela boca cruzada de mares,
liquefeita traduzida em cimento feroz da cidade

o que me levou para longe foi o asfalto,
a frigideira que queima nossos ossos,
os sons da fábrica,
o dia nervoso,
a tremedeira,
a geladeira vazia,
o vento no rosto trazendo farpas

o que me trouxe esse longe
é umbigo, um cortado enterrado no quintal
- ruído de sortes,

a poesia é que foi enxame,
lugar aceso do tempo,
livre de todo domínio

Patricia Porto

terça-feira, 1 de março de 2016

Muito



Quem sabe separado por séculos...

Entre a navalha e o esconderijo

Talvez face do mesmo planeta zodíaco

Uma voz dissonante na outra ecoa



Amor de vários tempos, temperaturas

Sagas, cordilheiras,

Trilhas



Entrei no túnel

Não havia luz



O céu de março

Como eu preciso de você!

Agora, no meio da rua, um deserto

Zonas de espectros, identidades

Luz de março piscando essa sua luz em mim

Ambos

Âmbar

Essa noite de serenos e violinos



Pouca faixa de acostamento,

Uma a um

Somos quase algo insano

Quebrado do espelho

misturo

Em foco – em mim -

É mais e muito



Patricia Porto

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

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Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
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Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

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Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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