domingo, 27 de dezembro de 2015

o apito da jaula

Kylli Spare


Seja uma linha de trem
caminhando entre as cruzes da família
Eu não deveria me chocar
Eu nasci para trabalhar,
para seguir filas 

Fui libertada pelo carcereiro, 
mas ainda aqui uma linha de trem,
a estrangeira que rompe o casulo

- a desperta!
...
...
...
entrei no mesmo túnel sempre:
cinza,
cinza,
cinza,
cor de uni formes: o tempo
- um hipopótamo na jaula
(parecem devaneios o que escrevo)

saí agora mesmo
vestida de cores que berram, fagulhando o centro
feito despida e crua na carne

- o cadeado é que dói por dentro,
mas ainda assim me leve para o matadouro,
tenho cores novas para mostrar

por baixo


Patricia Porto

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

A livraria e o sebo.

Esta crônica é dedicada ao Seu Hélio, um gentil e sensível homem de letras e livros. 
Imagem: Arte de Rua, René Magritte. 

            A livraria no Brasil, de uma forma geral, é hoje uma boutique de livros. Lembrando a ironia tão peculiar de Nelson Rodrigues que tão bem dizia: “toda unanimidade é burra”, penso que esta é uma constatação quase unânime. Claro, sem ofender às tantas boas livrarias que resistem bravamente à avalanche das novidades, cada vez que entro em certas duas ou três livrarias de shopping e olho aquelas mesas-vitrines com aquela quantidade enorme de livros que já foram vendidos aos milhões mundo afora, sou convidada a sentir certa náusea. Não vejo diferença entre esse tipo de livraria de shopping e a sapataria de shopping. São expostos modelos e mais modelos com muitos títulos apelativos numa orgia de temas pra lá de “best seller”. O sujeito olha, sente aquela já conhecida comichão do consumo e acaba levando para casa o último tipo de título sem que isso faça muito sentido pra ele.
               “É o último lançamento, você não pode perder essa oportunidade de colocar na sua estante.” E o sujeito mais consumidor que leitor, mais colecionador que leitor, acreditando no papo furado do consumo alienante, compra mais um para não ler ou ler enviesado, achando inclusive que se perder aquele título ficará “out” do universo leitor, um ser totalmente desatualizado do mundo “fashion” livresco ou do “mercado fresco dos livros contemporâneos”, que de frescor tem mais é a afetação das celebridades editoriais, verdadeiros caça-niqueis dos novos nichos de mercado, distribuído em cores, tipos e tamanhos para todos os olhos, para todo gosto ou mau gosto. E eles pegam pesado. É coisa de mercado agressivo para o intelecto. E o que mais me impressiona é constatar que realmente não se precisa mais saber escrever para lançar livros. Tem muito livro-lixo nas bancas das livrarias. E usando de muita sinceridade, esse suicídio também burro, talvez seja até um entrave saber escrever se pensarmos no público que não lê, “ops”, desculpe, no público que só consome, junta, acumula, não pode perder uma promoção, um "best fashion".
              O que nos resta para além das livrarias e do consumo sem freios? O que resta para os que não tem acesso a esse consumo? Bibliotecas? Bibliotecas públicas? Como formar o leitor das camadas populares no tempo em que se fecham boas bibliotecas e não há investimentos nas escolas públicas?  
             Sei, à flor da pele, que nas escolas públicas, pelo menos as que estudei e trabalhei, biblioteca sempre foi um depósito de livros didáticos desatualizados sendo vigiados por professores afastados de suas salas de aulas, provavelmente por problemas de ordem mental e emocional. Vontade de cortar os pulsos com a caneta vermelha? Como são tristes as coisas consideradas sem ênfase", diria Drummond. Como são tristes as pessoas consideradas sem ênfase. Os professores considerados sem ênfase com bibliotecas e escolas consideradas sem ênfase.
                  E a internet?
              Tem porcaria, é claro, mas tem também muita gente boa no desconhecimento parcial ou total. Dá uma vontade de alegria ao entrar em blogs e sites e ler gente escrevendo bem por aí. Então viva a sinestesia e o café - que nos mantém firmes e alertas! Viva a capacidade de alcance transversal do ciberespaço, que não nos deixa mais isolados na morte – literal - do autor. 
                  Mas voltando ao fio dessa meada e às livrarias para deixá-las de vez em paz, vendendo, lucrando e festejando os números e não as letras, gostaria de exaltar a existência e a persistência dos sebos. Aquele lugar que os verdadeiros viciados em livros – como eu, não se cansam de ir, mesmo que o nariz fique todo esfolado de tanta rinite. Ah, um “viva” imenso aos sebos! Deveríamos abraçar coletivamente os sebos assim como fazemos com árvores e lagoas. Faria um bem danado à natureza humana tão saturada de clichês. A cidade agradeceria e as crianças, passarinhos sedentos do alimento da leitura, também.
             Vou parar de escrever para aplaudir agora mesmo – de pé – o bom e velho sebo com seus bons e velhos clássicos, verdadeiras adegas centenárias com literaturas finíssimas, como um Camões, um Dante, Dostoiévski e tantos mais, os brasileiros de ótima safra: Machado, Guimarães Rosa, Lima Barreto, Sousândrade, Manuel Bandeira etc, e na muita literatura infanto-juvenil que encontramos no caminho. 
            Eu sou realmente um bicho de sebo. Longe dos velhos tempos dos mosteiros e do tempo dos livros enclausurados e longe por opção dos novos templos dos shoppings e da promoção relâmpago que lança e privilegia livros apertados que maltratam a mente, sinto-me abastecida e tocada na minha garimpagem particular por iguarias de letras pequenas e consumo difícil. Os da Tiradentes e do Catete são ótimos. Sou capaz de tirar a fórceps um velho exemplar de Graciliano Ramos ou José Lins do Rego entre um amontoado de tesouros. Como pirata ou fantasma, escavo títulos e me confundo com velhas assombrações. Mergulho no absurdo em direção oposta. E saio de lá sempre confortada.
              Precisamos levar às crianças aos velhos relicários do mundo da leitura, antes que o último deles encerre nossas buscas por preciosidades. E torcer para que novos tempos e novas oportunidades de leitura surjam nas tantas imprevisibilidades do cotidiano.

Patrícia Porto



sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Poema engraçadinho

© ebrahim bakhtari bonab


passei doce na calcinha,
passei o café na calcinha,
então passei um rio dentro do oceano,
atravessei o Saara de joelhos, nenhum sinal de cobertura

pontes, abismos, cordilheiras, saltos ornamentais
disfunções do pâncreas devido à cachaça ruim

por que não deu sinal?

pintei as unhas de gatinha no cio,
apanhei folhas de arruda,
fiz segredos com anões de jardim,
fumei marijuana em Guadalajara
e mordi folha de coca em Bombaim,
bem melhor assim

lambi a gota serena, beijei a chuva no travesseiro,
abracei agarradinhos
e vi o céu virar telhados decantados

soprei uma vela na multidão,
rodopiei no viaduto do Chá por mimetismo,
coloquei a calcinha pra lavar na máquina,
fiz tratos com sereias más
e o indelével do mar

dizem que um dia se acontecer aprisiona,
um elefante na porta guarda sempre mistérios
com seus quatro braços cruzados,
como o futuro que se enigma no fundo, escorre, acomoda
- ou esse miolinho de flor que amassamos
entre nós, esses risinhos rsrs, nossos farelos...


Patricia Porto

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Passagem


Louise Bourgeois by Annie Leibovitz, 1997


A morte soltou do bucho da mulher prenha
e veio tirar o nó de marinheiro do peito,
abriu uma porta, fechou outra,

arriscou sangrar o intendo,
sangrada ficou.

Padecendo de juízo torto,
atropelada pelo fantasma
da própria sombra

anuviou
e virou artimanha desatada.

Besta, furiosa
entrou no beco sozinha,
abriu a porta de dentro,
arrancou dois olhos de um clarão.

Fez da mulher mistério
lhe alisando os cabelos:
passagem.

Patricia Porto

sábado, 12 de dezembro de 2015

navalha e coração

Lauren Catherine


o peixe nas tripas o aberto
o bucho da armadilha
no fio de corte

a fruta do porto
é a partida do tempo: não quer saber de mar

a salgueira come os dois lados da maçã
que se corta ao meio

parte morta
para o infiel destino do abraço
- no outro a ferida
consumada na pedra

no outro
a chaga ou é guelra
ou fica inteira nos dentes cobrando sentido

os fios de dor são entre
- tem navalha e coração

- aluga-se essa vida para outros fins


Patricia Porto