sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Retalhos



Shoji Ueda, Untitled, 1950



há em mim essa velhice de nascença
esses sinais de nascença
absolvidos
essa crendice
vertigem de nascença no outro
essa língua de passados,
utopia na semântica da memória

o mundo não me espera
eu é que contabilizo esses retalhos.

Patrícia Porto

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Casa Aberta

© Horst Fischer



eu sou a tarde, envelheço a olhos vistos
a olhos míopes, a olhos de pirata,  os de vidro

procuro agulhas nas caixinhas
sou um terço do quarto que desejei ser

e estou de vigília nessa montoeira de horas desordenadas,
calculados os perigos, os danos, as epígrafes

não corro mais atrás de mim mesma, Alice

ando diminuindo
diminuta
ando

estou atravessando aqui o meu silêncio quebrado

atrasei tantas dores

não adiantei a morte

fiquei quieta no temporal,
andei de trás pra frente

olhei duas vezes o mesmo espelho de dentro

e o que vi
me abraçou

- de repente

Patricia Porto

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Paragens

Andrea Sunder_ Plassmann aus der Serie Selbst 1986


bacia branca:
água salobra parada
a louca de espírito aceso
acende velas, perguntas
e não tem margens

mascou o bom dos dias
e não levou o tombo
dos velhos tempos
das velhas cigarras
das velhas senhoras nas filas
das velhas e gastas gotas

uma bacia branca
uma água parada
um salgueiro
uma dança salgada nas tripas

agulhas para os pés
infinitos para a existência
quem sabe esse cordel nos sustente
esses olhos de mel
essas rugas de arsênico
essa tâmara na carne

quem sabe teu amor me alimente
ou me dilacere o que teima sobrar

nessa terra de cegos
todos nós são os farpados


Patricia Porto

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Maquinagem

Alex Webb



essa maquinagem se desfazendo

a chuva trazendo a cheia, fluxo de sangue,
as toalhinhas lavadas

o tempo das janelas
moringa a água fresca

mal posso esperar para ver crescer sem espinhos,

para ver as engrenagens deste rosto de novo,
uma maquinagem de expectativas
mnemônicas

o seu lugar um átimo,
o fio terra de avó,
a língua incrustada na pedra

tem dias de fazer dó
e outros que se anda ao meio

dias de esquiços de aves
e de nunca mais limpar os canos
das máquinas


Patricia Porto

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Por que escrevo?

1971 © Robert Doisneau


Dói pensar, eu sei
como qualquer desespero em notívagos,
a pílula que esqueci de tomar
a geladeira vazia
a vaga do vigia noturno, 
a viga caindo do teto
alguém que desaparece na escotilha do tempo

um corpo que guarda muitos mistérios
é a memória
e nenhum segredo
é vantagem de abismos 
sempre encurta distâncias para abreviar a próxima mordida
esse toque de dente que busca, corrompe, maltrata
na língua

uma escrita como fósforo aceso apagado na pele
tortura
traz essas inscrições,
transfere tatuagens,
agita,
engolfa,
e o golfo
mergulha mamilos,
regurgita quedas e caos

por isso aprecio noites sem abrigo
há essas violetas rasgadas no coração

Patricia Porto