sábado, 19 de setembro de 2015

Box

falei pra ele naquela noite estranha: "me diga o que escrever
não me insulte com sua viagem passageira
pois comi o bilhete da sorte que nunca tive"

andava sobre meu próprio corpo morto
e escrevia cartas ao General

malabarista na depressão do terreno
infiltrada por dentro
coletando minhas quedas
os escombros de minha fortaleza

como um câncer que destrói a paisagem
mas só tem câncer quem tem
o resto é felicidade gratuita
pega uma aí, vai

passeando entre rostos sorridentes enterro poemas
escavo a terra na unha

onde foi morar o General?

com tantas mensagens assim
me desconheço

Patricia Porto






quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Encontrando Bouvard

Cabeça e Aranha, Miró

A diáspora e a espada se encontram.
Terra que ninguém pisa é a cabeça.
A cadeira vazia forja a fragilidade do grão.
Dar sentido ao futuro? Quem poderá?
Coração na boca
nada suspende ou irrompe,
nada consegue não orquestrar sua queda.
Nada contém o salto, que é em-si.
O suspense está na corda bamba,
o coração um equilibrista - cai não cai,
rufam bambos os tambores, bambas as pernas,
laços entre os pés sem rede,
a corda ruída, sabotada
- e o salto de quem ama é mortal.

Patrícia Porto


O BARCO, Ricardo Gualda

Do Ricardo Gualda:

Shoji Ueda, Untitled, 1950

O BARCO

Todo dia
esqueço
um pouco
mais:
o prato
de ontem,
o amor
para sempre,
aquelas férias,
meses e meses
planejadas.


E para
me guiar
no tenebroso
caminho,
só conto
com as
lembranças
mais resistentes,
distantes
e elásticas.


Fecho
os olhos
e retorno
ao porto
de onde saí,
para, no fim,
também
esquecer
por que
voltei ali.

Sem motor,
vela
ou remo.

Cheguei
ao centro
e sou
poente.

Do barco
provido
que um dia
fui, resta
apenas
o dom
de flutuar.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

biografia poética

Imaginei:
e seu eu morresse hoje, nesse instante agora
por que não consigo ficar triste?
triste é não ficar triste
a dor cresceu do meu pé à cabeça
pensei num último poema
mas veio a espinha
a espinha de peixe de rio
o rio doce da pequena morte
quando seca  
secou minha biografia poética
sem nenhuma grande transformação

entrei na rua estreita
carregava meus olhos que o rio há de comer
em cinzas

Imaginei a pouca presença no mundo
o pouco impacto na água
um cadáver arrumado de lirismos
frágil cena que se despede no mesmo pátio de escola
onde um menino corre atrás de uma bola

Que bom! Hoje não teremos aula 
Imaginei

Patricia Porto




segunda-feira, 14 de setembro de 2015

A torre


(caminhando com a serpente)

eu fui andando da lapa à santa teresa, perdi o bonde, perdi um trem de histórias, estava só no abismo da minha aldeia, procurando sinais de descuido, procurando o amor da rede, atravessando meus cacos, luzes, tiros da cidade, malandros da cidade, os seres marginais, a sodomia, deitar com o homem da pança, suado, sujo, comendo cocaína, o tempo dos seres vadios, a vadiagem da rua, do rio, sexo fugaz, solidão feroz, "você é feia, não serve", e havia o tempo quebrado de rir, de dançar um jongo, de descer ao centro, sair nos carmelitas e brincar de ser feliz, instantes, instantes, tudo fundo, tudo raso, tanta superfície, meus talhos, minhas costas alisadas pelo moreno, meu pelo alisado, meu badulaque, minha fantasia, minha máscara de carmelita sonsa, meu desespero de amarelo ocre, meu doce de leite, os quadros de mineiro, os quatros de Sérgio Bopp, a serpente da gente caminhando no mundo, mas eu sou da ilha, não sei dos lados que não sejam mar, não sei do mundo que não seja serpente, serpente mordendo meu pé, sugando meu seio, a serpente no passeio dominical, a serpente na escadaria de Seláron, a serpente no travesti que me acompanha na descida da serpente, vou de roda, sou da roda, atravessei a crosta, acenei para os poetas contemporâneos, acenei para os acadêmicos de Bangu, aqueles que só elogiam carne da boa, mas  não morri ainda, não morri porque tem festa até amanhecer, até amanhecer tem festa, maria padilha, cigana, cabeça de coração, neon piscando, piscando num quarto veludo, o homem fétido com cheiro de merda trocando favores, e vou até mais, até amanhecer, mas meus pés bem continuam congelados...na borra, na borra de café uma Eifell desmorona.

Patrícia Porto  

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos
Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.
Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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