terça-feira, 28 de julho de 2015

Poesia no escuro

antigamente eu tinha esse medo do escuro, medo das cordilheiras
e do salto para dentro com nariz tapado,
todo assombro uma vertigem, uma notícia de Kepler

nas horas insolúveis eu  bebia café,
nas horas em que seguia sozinha como se a última noite fosse ali
- um quantum no poço, esquivas

eu também pulava janelas
eu também escutava coros de igreja no ouvido,
devia acelerar minhas partículas, atomizar minha destreza
e parecer menos hermética à primeira vista
  - é o que sempre me diziam os que sabem

mas antigamente tinha uma porta aqui
e uma porta de emergência para a escrita em vermelho,
a escrita no sangue, e outra para o infinito e um deserto

eu até mesmo tinha uma luneta para olhar estrelas
e colecionava notícias de apego
porque fui de nascença certa poeira,
coisas de poesia aérea
coisas doídas de desvios

Patricia Porto

quarta-feira, 15 de julho de 2015

O sol

Quando olho pro sol
não vejo somente o sol
Eu vejo a Terra
vejo minha estatura
E nos vejo pequenos

Mas quando olho o sol
Pela segunda vez
Grandezas me cegam
Eu sou o Sol

Patricia Porto

alguma razão

Tomasz Solinski


Eu queria escrever um poema com os miolos
- decidi comê-los feito miúdos.
Sim, tem mais obscenidade na mente que na carne.
Minha chance é sempre invicta e é caricatura,
uma criança gritando sem dó, de dor desenhada de minhas tintas.
Não posso amar uma criança que grita. Não posso desfrutar da pérola.
Então escrevo um poema com os intestinos
- com as excreções desse meu tempo que grita,
uma fala sem parar por dentro, confundida entre o amor
e as vísceras,

meu poema-tempo,
meu poema-casa.

Patrícia Porto

sexta-feira, 10 de julho de 2015

....

Henri Cartier Bresson


Num amor distante das tragédias, meu querido,
amo para além do tempo posto,
uma aposta perdida para vida com seus tentáculos.
Minhas entranhas devidamente aradas,
meu corpo oculto na frase que me causa poemas
me floreia a angustia de saber da morte dos dias de outono
quando passeavas com outras que não eu.
Que dura a verdade da vida! Saber que minha floresta se aquieta,
que todo meu sonambulismo será meu retorno para casa cansada,
pouso de pássaro numa ponte que me causa quedas.
Ando espaçada da criatura que me tornei,
tenho hemisférios cortados,
chagas que me anoitecem mais cedo.

Da boca que calam beijos
me devora água por todo corpo,
me abre os olhos com suas aparências,
me espreita uma vontade de alongar as deixas,
de compor as falas, prologar o tempo que foge da memória.
Num equilíbrio de cordas me deito, perigosa para contentos.
Quero a destreza de Deus, compor a balada do tempo
que dobra o corpo na linha sem redes.
Acordar em suspensão. Desejo. Gozo. Vida.
O dobro. Rasteira no rapto de meus dias felizes.

Ser eterna no próximo verão.

Patricia Porto


o perfume

hoje ele acordou faceiro
colocou perfume do Saara
disse que na firma tinha ganhado um aumento
"vou te trazer um presente, princesa"
"vou colocar mais perfume na gola"

ele me acordou intenso
me virou de bruço
feito um bebê que morre asfixiado
lambeu meu umbigo
fez serenata pro sol

tomou pinga ao invés de café
cantou uma música inventada
e se encharcou de perfume
tão barato
tão na pinta
que voltei logo a dormir

Patricia Porto

segunda-feira, 6 de julho de 2015

o poço

Henri Cartier Bresson


perto do poço
uma mulher faz vigília
o tempo acostumado aos relógios
é uma pequena morte de tudo

a mulher espera a poça
no pouco da vida

tem sentimentos de chuva
mas não chove

tem cabelos de ilha
mas não parte

parece que tem uns olhos grandes
feito dois horizontes
e às vezes eles escurecem

todos os dias alimenta os bichos
que a comem por dentro

tem sede de palavra que nela esgota
feito um fiapo de nada

perto do poço
muito perto
esquece dos dias terríveis de guerra
alcança um espelhinho quebrado
e retoca o rosto
como quem esculpe sonhos
na rede que lhe leva o corpo  

Patricia Porto