sexta-feira, 10 de julho de 2015

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Henri Cartier Bresson


Num amor distante das tragédias, meu querido,
amo para além do tempo posto,
uma aposta perdida para vida com seus tentáculos.
Minhas entranhas devidamente aradas,
meu corpo oculto na frase que me causa poemas
me floreia a angustia de saber da morte dos dias de outono
quando passeavas com outras que não eu.
Que dura a verdade da vida! Saber que minha floresta se aquieta,
que todo meu sonambulismo será meu retorno para casa cansada,
pouso de pássaro numa ponte que me causa quedas.
Ando espaçada da criatura que me tornei,
tenho hemisférios cortados,
chagas que me anoitecem mais cedo.

Da boca que calam beijos
me devora água por todo corpo,
me abre os olhos com suas aparências,
me espreita uma vontade de alongar as deixas,
de compor as falas, prologar o tempo que foge da memória.
Num equilíbrio de cordas me deito, perigosa para contentos.
Quero a destreza de Deus, compor a balada do tempo
que dobra o corpo na linha sem redes.
Acordar em suspensão. Desejo. Gozo. Vida.
O dobro. Rasteira no rapto de meus dias felizes.

Ser eterna no próximo verão.

Patricia Porto


o perfume

hoje ele acordou faceiro
colocou perfume do Saara
disse que na firma tinha ganhado um aumento
"vou te trazer um presente, princesa"
"vou colocar mais perfume na gola"

ele me acordou intenso
me virou de bruço
feito um bebê que morre asfixiado
lambeu meu umbigo
fez serenata pro sol

tomou pinga ao invés de café
cantou uma música inventada
e se encharcou de perfume
tão barato
tão na pinta
que voltei logo a dormir

Patricia Porto

segunda-feira, 6 de julho de 2015

o poço

Henri Cartier Bresson


perto do poço
uma mulher faz vigília
o tempo acostumado aos relógios
é uma pequena morte de tudo

a mulher espera a poça
no pouco da vida

tem sentimentos de chuva
mas não chove

tem cabelos de ilha
mas não parte

parece que tem uns olhos grandes
feito dois horizontes
e às vezes eles escurecem

todos os dias alimenta os bichos
que a comem por dentro

tem sede de palavra que nela esgota
feito um fiapo de nada

perto do poço
muito perto
esquece dos dias terríveis de guerra
alcança um espelhinho quebrado
e retoca o rosto
como quem esculpe sonhos
na rede que lhe leva o corpo  

Patricia Porto


Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

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Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

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Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

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Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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