segunda-feira, 29 de junho de 2015

expansão


Times Square, 1963 Joel Meyerowitz

as perguntas que não sei responder
as perguntas que esqueci de fazer
as respostas que estoquei
as senhas infringidas
os sopros tomados de supetão
as perguntas e guerras
os acentos, os antolhos

tenho uma queda pela ternura
tenho uma queda por aparelhos de medição

a matemática do sentimento
pela eu tanásia da palavra

cheque seus equipamentos, por favor
:há falta de ar suficiente para os passageiros?

esse trem parte pra onde, condutor?
pedi a Deus um bocado de ambição,
recebi um santinho para colocar na carteira

"eu vou rezar por você"
"eu vou pedir por você"

ooh muito obrigada, a sua solidariedade me comove
estou encharcada de raiva, mas é só suor

na fábrica de calcinhas revistavam nossas bolsas,
mas deixavam nossas mentes livres

uma gramática meticulosa: "vou pensar em você"

o trem partirá e é espacial
não acredito em astrologias, prefiro a astronomia
os acidentes do espaço
a geometria do verbo

"vou passar a mão na sua cabeça"

não, agora não
preciso partir naquele trem
soube que explodirá em breve

ando com uma leve de dor de lobotomia

Patricia Porto    

sábado, 27 de junho de 2015

absolutamente

Piet Biniek



às vezes a lua projeta uma amostra de seu seio esquerdo
tão esmagadora entre as duas mãos a vida,
-  a vida de porção líquida, escorre definitivos,
alvoroços encaixotados,
um tênis esquecido no armário
- tragédia silenciosa,
voz talhada por não-ditos, esquecimentos

viver e não-viver: dois espelhos rachados
"I loves you, Porgy" na porta mágica

azulejos brancos de separação
limpos, discretos,
precisam sempre de luvas cirúrgicas para asseio

basta reunir pedaços, catalogar as coleções
ou fazer outra qualquer bricolagem

absolutos não são afins
o último a sair
é apenas o último mesmo


Patricia Porto

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Mais Adão



Eric Marrian

Parece que Penélope não foi pro mar hoje.
Quede os tapetes, Mariona? "Sei não. Nem quero saber.
Hoje vou beber mais Adão."

Penduro contas
sofro redemoinhos na cabeça
e faço cordão de sobra.

Vou virar a folha dessa literatura sem olhar um triz pra esse ressinto.


Patricia Porto

terça-feira, 23 de junho de 2015

casa velha




Through the Back Door by Alfred E. Green & Jack Pickfor


esse poema é uma casa com vista para os fundos
nele há notícias velhas de escombros
uma parede infiltrada ´
arranhões e fraturas

parece um poema antigo desabitado
mas é só um poema em demolição

casa pequena posta abaixo
para a construção insalubre
de um arranha céu
na garganta

feito nó
apertado
- uma cinta

Patricia Porto


Traição é viral?

Carpinejando por aí. 

Gosto demais dos textos do Fabrício Carpinejar e isso vem de longa data. Hoje ele postou um texto muito bacana sobre traição na era virtual. "Até que o facebook nos separe". Seria como ter que ligar um "on ininterrupto" de fidelidade em todas as mídias sociais por onde se zanza. Pensei logo na patrulha da patroa. Engraçado dizer isso. Porque só nessas horas a mulher é a chefe, a patroa. Na hora da surra de toalha molhada e "vou rasgar teus documentos, porra!". Aí a patroa aparece, desce e faz barraco. Outro dia vi um cara correndo da mulher na rua e ele gritava: "ela é borderline. ela é borderline!" Fui imediatamente procurar no google e achei! Como disse a diretora da escola da minha filha: "...a mulher que larga o homem é louca. Conheço isso há trinta anos, minha filha." Por isso essa tal história de traição continua bem mais aceitável quando é o homem-macho-alfa que pratica ou quebra a cerca. 
Voltando ao texto do Carpinejar que fala dessas 24 horas no ar de vigília. São muitas as contas a pagar para o companheiro, companheira, namorado, namorada etc etc nessa mídia social que nos engole e se torna cada vez mais o que há de real. É confuso pra caramba, no mínimo! Como desvincular hoje ou sempre o que é do real do que não é do real? Entraríamos em questões filosóficas, voltaríamos pra lá dos pré-socráticos e não daríamos conta. Ou não pagaríamos a conta.
Bem, desde que o mundo é mundo há trocentas explicações coerentes e antropológicas, genéticas, darwinistas e o escambau para explicar que o homem é um bicho que trai por osmose. É da natureza dele. Mas é que inventaram que "homem" é o genérico para a distinção entre os sexos quando se trata, de fato, (vamos fazer uma continha rápida) de vários gêneros. Vamos combinar que trair e coçar é só começar mesmo. E a generalização do vale tudo e do pode tudo leva a uma dose de exagero nesse surf virtual. 
Concordo com Carpinejar que fica difícil controlar mídia social, zap zap e outros - para o parceiro, parceira, não confundir alhos como bugalhos. Mas fica sempre a dica: dá pra gente se controlar na comunicação e até dar aquela ajudinha pra aquela amiga, aquele amigo "sem noção" que tá lá de boca arreganhada esperando sua mudança de status.
Comentários inconvenientes, curtidas adoidado, marcações de coisas nada a ver... Tudo isso pode ser sim - não controlado, mas trabalhado, dialogado. Nós estamos ainda aprendendo a lidar com mídia social e isso leva tempo. É um aprendizado difícil entre erros e acertos. Talvez bem mais erros. Mas o certo e nesse ponto concordo plenamente com o que diz Carpinejar no final de seu texto é que "traição é ser íntimo de duas pessoas ao mesmo tempo". Perfeito. Mas se toda definição vem grávida de indagações, a gente pode voltar a um ponto de partida conceitual: o que é intimidade nesses novos tempos? Pois é. Dá pano pra manga de vários ditados populares. 
Na semana passada li um elogio engraçadíssimo numa mudança de foto de perfil de um amigo SC (super casado). Ele tinha mudado a foto e uma amiga comentou: "prefiro mil vezes com aquela barbinha nascendo". Sei lá. Afinal podem ser só coisas que viralizam na nossa cabeça. 
Muita água pra "rolar" (esse quase viral) embaixo dessas pontes virtuais.
Patricia Porto


Eis o texto de Carpinejar:

ATÉ QUE O FACEBOOK NOS SEPARE

Fabrício Carpinejar

Ser fiel e leal atualmente exige novos acréscimos no juramento da igreja.
É preciso ser fiel e leal na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, mas também no Facebook, no Whatsapp, no Skype, no e-mail, no Twitter, no Instagram...
Estamos nos casando hoje duas vezes. São dois casamentos simultâneos: na realidade e na virtualidade.
Tem gente que casa na vida real e não na virtual.
Não é apenas ser fiel e leal com o corpo, mas também com a imaginação e com a fantasia.
Não é apenas ser fiel e leal dividindo as tarefas, mas também não escondendo nada do celular.
Não é apenas ser fiel e leal em casa, mas em todas as caixinhas de mensagens e inbox.
Não é apenas ser fiel e leal falando, mas também em todas as letras, bytes e emojis.
Não é apenas ser fiel e leal na aparência, mas também quando ninguém está olhando, o que significa não seduzir ou não se mostrar fácil em diálogos na web, é ser casado 24 horas, é não testar os limites de estranhos com perguntas, não acreditar que traição é apenas sexo.
Traição é ser íntimo de duas pessoas ao mesmo tempo.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

A fé pela pedra



Benoit Courti


Respire fundo, pois o dia é de bagagem
Nas verrugas nascem promessas de estrelas
Que entregamos nessas dores de parir
As veias imperfeitas, o sangue espesso,
A pedra que me lanças tem teus dedos


Patrícia Porto

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Certezas

Ferdinando Scianna


Naquele dia nós dois no horizonte
as cadeiras de plástico:
nada mais amoroso

Naquele dia de marte
chuva marinha
numa roda de pulsar o tempo
qualquer olhar de oceano
vinha dentro e me escorria uma lágrima única

:a chuva é eterna

o beijo mero
me acaricia

Patricia Porto

quinta-feira, 11 de junho de 2015

o poema de amor

Antoni Arissa - The kiss 1930

era um poema de amor
não, não era
o tempo passado já era
no tempo que corre planas
e transforma cruezas
em peças menores
de saia xadrez

eu tinha um disco de vinil
um som de agulha e um teatro de sombras
eu tinha costumes, regras de convivência
flores de jardins e coisas prateadas no cinzeiro

eu até tinha uma decência qualquer,
um espelho de penteadeira, uma nuvem no cabelo
eu andava enaltecendo a pouca métrica
e trazendo moral aos sobreviventes trôpegos,
parcos míseros seres que só sabem perder

era um poema de amor, eu me comprometi
comprei anel de anular, calcinhas de estação
meu passado rotulado no cume de sua nostalgia
de brejo

tudo em pouco vão
fundo era minha gata no cio
fundo de banheira
coleções de diabinhas

atenção: era um poema de amor,
mas saiu assim, melado de promessas cutâneas
apertando os lábios de dizer:
amo minhas presas nos olhos nesse fundo
de minha doçura que alma o papel

nas seivas, os animais na floresta
um leopardo, uma onça pintada
os cheiros que me calmam
exalo porque não era, não erra

é o poema de amor,
de amor


Patrícia Porto

quinta-feira, 4 de junho de 2015

O alvo

© A N D R E A • C O S T A N T I N I



as armas desfilando
a jiboia, a cascavel de cor
a sangue-suga que dá na gente,
o homem-erectus mostrando o peitoral
os bíceps, o tórax, o frontal

o frontal, toma o frontal
cospe o jornal, cospe sangue
cospe notícia chapada
consome o roto
a ocasião faz o ladrão
mata o ladrão

ferro, toma ferro
puxa ferro
barriga trincada,
trinca os dentes
plastifica as tetas
enobrece o caldo grosso
que entorpece
a cidade que corre
feito um coringa no calçadão

corpos de bomba
para a ciência

corpos de luxo
para a ciência

corpos de louça e carne
para a ciência

a cidade-bolha corre e se expele no calçadão
:um monstro
uma semente
uma vontade de serpente
angulada

um sapo agoniza
e o mar salga a lagoa


Patricia Porto

Olhar


Dimitris Triantafyllou

Viajar é olhar
para poder um dia
descansar da guerra
do fogo e da caça
no suave abraço da amada

uma amada tem muitos abraços

Patrícia Porto

Dildos





sintéticos não atraem
beijos são molas comestíveis
ato sexual de dupla penetração

Patricia Porto