sexta-feira, 29 de maio de 2015

Desejo


Elena Vizerskaya [Елка Визерская]


A melhor luz, o melhor tom,
a mão mais suave,
o amor mais sentido
de tão perto, tão belo o vento no teu rosto,
a chuva,
uma doce cantiga, uma porta sempre aberta,
uma língua te envolve, súplica

uma estrela cadente, morta a milhares,
nasce de novo, aliviada da morte

não há melhor luz que essa
- nascer do próprio umbigo
do próprio corpo -
um desejo celeste saliva

Patricia Porto

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Naturezas




Poesia é uma abertura de janela.
A gente abre e esquece,
entra um ventinho bom ou um bafo quente,
não sei se prosa ou se rima.
Por que toda criança um dia quis ser elefante
e no outro dia formiga?
Poesia é uma vontade de respirar fora do invólucro,
uma coceirinha no espanto, aquele arrepio bom na cachola.
    Melhor ir de criança, coração, passarinho


Patrícia Porto

segunda-feira, 25 de maio de 2015

"Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos" por Luciana Brites




             Finalmente, terminei a leitura do novo livro da Patricia Porto. Antes de falar sobre as minhas impressões, permita-me relembrar uma passagem de Clarice Lispector em Felicidade Clandestina, quando ela diz: 
            "(...)Não era mais uma menina com seu livro. E sim, uma mulher com seu amante." Durante os dias em que estive acompanhada dos textos de “Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos” foi exatamente o sentimento que me atingiu, esse sentimento de compartilhar essa visão emancipada pela solidão da viagem com o eu lírico da poeta, que investiga reações e desencadeia magnitudes do eu que inclina e sonda novas possibilidades além e através da janela aberta do umbigo do mundo. E assim me senti, enamorada desse amante em verso e prosa, pura poesia. Cada passagem era um portal para outros universos que me convidavam a olhar para os dias na terra. Esses dias tão nublados em que somos espantalhos a observar os fluxos da passagem do tempo, e os dias em que ousamos andarilhar através do pensamento.
             A artista artesã que dribla o tempo e expõe seu voo rasante nos faz caminhar no labirinto de sensações da linguagem, nos desafia e nos convida para dançar com o pensamento como sonhou Nietzsche um dia. A dança que Patricia chama de linguagem dos corpos não-domesticáveis. Os textos de Patricia se apresentam dançarinos e escapam a cada tentativa de capturar significados e buscar sentidos que deslizam na linguagem espasmódica e ao mesmo tempo, solvente.
            Seu poema pesa como pesa o olhar do poeta ao observar como seria a grama do quintal do universo intangível da palavra que traz para a luz e ecoa essa cartografia de sensações onde os caminhos dos andarilhos e dos espantalhos se cruzam e se bifurcam nas memórias dos movimentos eternos, circulares e nômades que somam-se através dos vínculos que criamos em cada viagem com toda essa gente que caminha sobre as palavras e pisa, versátil, em outras terras. Patricia Porto nos convida para essa viagem rumo ao desconhecido berço dos seres selvagens e livres, esses adoráveis seres que não se dobram com os ventos e vibram com novas paisagens.

Luciana Brites

"Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos" por Jussara Marinho



             
                    Patricia Porto, querida amiga, talentosa poeta, seu livro CHEGOU!!! Encantada aqui....mergulhada nesta extraordinária viagem que sua escrita nos proporciona! Você disseca o sentir e o viver com tamanha liberdade e sensibilidade, com um verbo tão inquietante e particular, que a alma se reconhece e agradece, encontrando regaço em cada verso.
            Muita competência e talento ao expor, poeticamente,e com muita verdade, nossas inquietações, angústias e espantos frente ao viver. Seu verso trata desta esgrima com o existir , com uma delicada e profunda excelência. 
                    Você não só merece, como precisa ser lida e declamada por um universo cada vez maior de corações.
                   Sua escrita é claridade para que nos entendamos, e, desse modo, nos permitamos.
                  Seu verbo, Patricia, nos conduz, pela mão, à plenitude do viver, acontecendo entre os vãos da jornada. Então, experienciamos um turbilhão de sensações paradoxais e reveladoras....a liberdade, em todas as suas formas se revela, palpável, tangível, possível...e tudo se torna possibilidade e amplidão.
           Gratidão pela amizade, por mais este livro, inestimável presente. Feliz por este fabuloso encontro que o destino nos permitiu viver. Imensa Recompensa.
"Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos" é um profundo mergulho nos porões de nossa alma, onde nos reconhecemos em abissais solidões, em variados espelhos. Luz nutriente apontando caminhos de redenções e reescrita de jornadas. Sua pena é vastidão.
               Parabéns por mais este rebento, honrada por ter estado com você, por pouco que seja, em mais esta obra. Que o sucesso seja constância em sua jornada literária. Beijos, querida. E, mais uma vez, muito obrigada.

Jussara Marinho

"Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos" por Délcio Teobaldo






Carta à poeta

Patricia Porto, quando os poetas se dão palavras, as mãos vão junto. Atitude nada fácil nesses tempos de recuos, de olhar o mundo através das frestas e se julgar participante da gira.

Sorte nossa, poeta, você seja oposta a tudo isto. Seu verso pega pelo pescoço, tanto esgana quanto afaga. Traz pra vida. Me arrisco afirmar que a alma de “Diário de viagem para espantalhos e andarilhos” esteja na página 18, mais precisamente no verso: “Viajar é ser estrada’.


Me arrisco porque é imprudente prever seus caminhos, que vão do acalanto – o poema “Maria Judite”, à página 35, não me deixa mentir – ao hard punk rock: “Transberro”, na 124,comprova o que digo.
Patrícia, te penso música sempre que te leio. Tantã, telecoteco, coco, carimbó, curimba:

“Se o tempo é fraco eu bato
faço da madeira um barco
se o tempo é forte eu danço
vestido de temporal...”.
Taí a prova no poema “Gira”, página 165.

E quando me julgo refeito dos espantos da viagem você me oferece um poema: “Janela IV: das conversas com Teobaldo”. Ora, poeta, justo eu, de falar pensativo, tão rápido e pouco? Você abre o meu poema coma a palavra “abismos” e fecha com “invisível”. No coração do poema os versos: “A vida é curva / É pingo de sal na ferida acesa...”

Sei muito bem como é isso, poeta, esse não se dar pausa no sonho nem na carne, que nos aguardam (e lá vamos!) aos encantos das outras viagens...

Admirado e agradecido abraço 

Délcio Teobaldo

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Couraça




palavra na rua comida,
pinga, queima

palavra na rua menino,
mixo, concretos, pedaços

palavra na rua fatiada,
arma branca, arma fatiada
de comida, excrementos

palavra perigosa de viver
- cortou os pulsos,
atravessou um muro
pintado pela menina

só jesus expulsa demônios,
só demônios nesse muro,
a palavra no muro
um demônio se alastrando

abaixo à operação
à opressão
à vigilância
à punheta politizada
soltando porra na construção

palavra-cuspe-na-cara,
assassina
cortou a luz
dos funcionários uniformizados

a palavra foi terceirizada,
batida pra bife
pra colocar no olho do furação

gentileza gera gentileza,
o capitalismo é o demônio,
só jesus expulsa demônios

a palavra vulgarizada
amplificada
gourmetizada
colou-se aos cartazes

palavra biscate
Marina eu te amo
Felipe eu te amo

Vem preencher o meu vazio
que hoje eu tô necessitada!

Patricia Porto




quinta-feira, 21 de maio de 2015

Cidade Fria

Denis Buchel

O cão tinha sido abandonado na estrada. Muitos dias se passaram. Chuva, sol, vento frio. Lá o cão com seu olhar triste. Apenas andando, bebendo água suja no acostamento, escapando por milagre de ser rapidamente esmagado. Das janelas de alguns carros restos eram lançados, como um pedaço de bolacha, um pedaço qualquer de sanduíche já mastigado. Era tão pouco o que comia que suas costelas começavam aparecer. Magro, esquecido e infeliz. Parecia trazer consigo a marca cruel dos que largam fora os seus dejetos. Aquele desejo de se ver livre de um estorvo. Um estorvo a seu tempo acaba descartado como se deve. Um cão ocupando espaço demais na vida, na casa, no território de quem lhe devia dar comida e abrigo por decisão e escolha.
Aquele cão na estrada se chamava Rafael. Sua dona tinha lhe dado o nome de anjo. Era assim que costumava contar aos amigos. Quando filhote era uma bola de pelo caramelo com feições de lobo. Corria pelo quintal a escavar a terra para enterrar ossos de brinquedo, depois se ocupava de desenterrá-los num movimento contínuo, enterra desenterra, enterra desenterra... Ossos no jardim era a brincadeira preferida do cão. Todos da casa gostavam de ver e comentar o quanto o bicho era arteiro, divertido. Foram felizes os dois primeiros anos de vida, um filhote de cão para um casal sem filhos, objeto de mimos e afagos. 
No segundo aniversário de Rafael a família lhe preparou bolo e bolas coloridas, uma celebração com vizinhos da redondeza. Fotos foram colocadas no perfil do casal para que os amigos o curtissem. Ele ganhou uma cama nova de tecido coral, algodão puro. Naquela noite dormiu como rei entre seus novos presentes de aniversário. Sonhou com ossos. 
No mês seguinte ao aniversário, o casal orgulhoso contou ao cão a novidade tão esperada. A família ia aumentar! Márcia estava grávida e grávida de gêmeos. Logo nasceriam dois meninos ou duas meninas para ocupar todos os cômodos da casa. Menos o jardim onde estavam enterrados os ossos de Rafael. Isso Márcia lhe assegurava com seu novo jeito de falar e sorrir. Ninguém mexe!  
Meses se passavam enquanto a barriga de Márcia estourava em vestidos cada vez mais cheios, o humor azedando com a maternidade, o rosto inchado. Para Rafael o quintal era um novo reino. Estava grande, desajeitado, e não poderia mais ficar na casa com aquele tamanho e com toda sujeira que fazia. Restava-lhe a varanda e o quintal, o que era suficiente para um cão que só lhe dava trabalho. Márcia cuspia raiva. Vivia cuspindo. Coisas da gravidez. 
O dia do nascimento dos gêmeos foi de grande alegria e festa. Mas Rafael não pôde participar. Tinha ficado na varanda da casa, cheirava a porta e chorava sem nenhum sinal de conforto, nenhuma mão mole na cabeça. Não era higiênico um cachorro sujo e grande correndo na casa, Márcia retrucava, as veias saltando no pescoço. Poderia infectar as crianças com pulgas. Pediu a Renato que tratasse logo daquilo. Renato, o palerma, como era chamado agora por Márcia, irritava-se mais e mais com a presença inconveniente do cão. Um traste.
O casal discutia toda noite e gritava cada vez mais alto, eles só perdiam mesmo para o coral de choro dos gêmeos, dois meninos parrudos que já engatinhavam pelo quarto. Márcia berrava que a culpa era do cachorro, aquele fedorento latindo e acordando as crianças a todo momento. Renato precisava dar um jeito naquilo imediatamente, a voz de Márcia mais e mais estridente. 
Certa noite depois de se demorar no  trabalho e de muito beber, algo corriqueiro desde do nascimento dos gêmeos, Renato resolveu dar fim ao cão. Aqueles olhos do bicho eram um inferno. Aquela aparência estúpida de vítima.  E os gritos daquela mulher ensandecida, cada vez mais diabólica. O cão era o verdadeiro culpado. Bastava se livrar dele e tudo voltaria ao normal. Naquela noite decidiu pegar sua arma, um modelo trinta e oito de cano curto, bastante eficiente. Um tiro só resolveria tudo. Quem reclamaria o corpo ou a vida de um cão? Seria rápido e fácil.
Quando chegou em casa foi direto buscar o cão e o puxou como peso morto para dentro do carro. Preparou a arma e seguiu para a estrada. Um breu danado, um frio daqueles. Não havia ninguém por perto, tudo perfeito e do jeito que tinha planejado. Olhava pro cão, um ódio lhe subia a garganta. Aqueles olhos do inferno. Acabaria com os dois de uma só vez, uma bala no meio deles e eles não fariam mais companhia um pro outro. Aquele reflexo todo lhe dava embrulho no estômago. Deixou o cão no acostamento e se distanciou o suficiente para acertar o alvo e não lhe respingar sangue.
A primeira tentativa foi desastrosa, levou um tranco da arma que lançou seus braços pra cima. Assustou o cão que saiu correndo e entrou no mato. Então se lembrou de um nome pra chamar. Rafael! Rafael! O cão reapareceu abanando o rabo, olhos de dar pena. Os olhos tristes da vítima. Aquele dois espelhos estampando sua cara. Não conseguiu seguir adiante. Guardou a arma, pensou em Márcia que lhe chamaria de palerma e deu partida no carro.
Com o passar dos dias ninguém mais chamava o cão pelo nome. Andando pelo acostamento seguia para frente. Não tinha escolha. Talvez sonhasse com uma cama macia, boa ração e ossos para enterrar.
O cão mesmo era a cidade. Um menino corria nas ruas a olhos vistos.

Patrícia Porto                

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Sala de Controle

Kiyo Murakami 


Já morri tantas vezes
e vivi tantas vezes mais
que essa cratera em meu planeta
é senão a soma desses acidentes

Voando pelo espaço
nesse desvio eterno para o vermelho.
De lá sempre posso falar com minha porção miserável

Olá, vamos fazer contato?
Onde a terra se curva ao azul
o tempo esquálido é o fim óbvio

Estou perdida sem conexão com a torre
Estou para sempre solta no universo
Minha versão delicada é terrivelmente abominável
e de onde estou ninguém me escuta ou vê

Apreciando silêncio e solidão,
estou perdida, confusa,
solta na nave que me ocupa

- sem conexão com a torre

essas delicadezas me matam

Patricia Porto

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Poema escrito para despertar


Lee Price



os olhos de olhar os meus
nas noites e ruas, ruas e sobrancelhas
são olhos de nus e vagamundos,
atrás da cortina na fumaça, despistas de mim, esse zelo, missivas,
nos teus olhos um rio volumoso, uma esquina, um caminho e os sinais

nos meus olhos o broto, a clareza da marcha, os acentos das horas
- por onde me procuras estou
- por onde me perdes estou

a certeza dos plurais
uma água límpida, 
a poesia no rim, no fígado fazendo visagens
o barulho fino dos metais,
o que sinto é agudo,
uma provisão no espaço
e não dispor de hora pra dormir

os olhos que me olham no tecido do corpo aos rascunhos
são saltos ornamentais no umbigo, viagens da língua um sonoro,
uma vontade crespa,  
o ritmo acelerado que finda na hora h,
um batuque por dentro,
um deserto por fora                                                   

os olhos que me despem e me vestem de sentidos
são improvisos de amar os rodapés,
posso gozar em três tempos, ficar de quatro
nas conchas com um barulho de mar, esse vestígio de alma, se houver  

os olhos que eu guardo no absurdo do tempo
são olhos de inscrições seculares, armadilhas dos deuses,
se antecipam ao abismo, me socorrem de mim nesses escombros,
sou capaz de sorrir no oficio de carregar minhas pedras,
os olhos de aliviar fardos,
olhos de dizer andejas, um transeunte errante

na sentença de ser mais que a moça do quadro,
os olhos de minha pátria, uma terra de ilhas
são os olhos que me chegam da ave no rasante:
abertos,
abertos,
uns despertos

Patricia Porto