sexta-feira, 17 de abril de 2015

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Há sol que brilhe para toda poesia.
Há um sol que nasceu hoje que é o mesmo que nascerá amanhã,
por isso escrevo para quem comunga comigo do fácil,
do pequeno e rústico divisível que há nas palavras mais corriqueiras:
mundo, sonho,  janela,  pão etc 
Não escreverei o difícil sinônimo da palavra estoica, rútila, refratária
e juntarei em cimentos de poesia esvaziada.
Escrevo porque sinto e me comunico com os que me entendem
na minha linguagem.
Não estou compondo um réquiem de palavras de vitrine, açucaradas
pelos estetas.
Aconselho-me com as próprias palavras desprovidas de cinismo ou
qualquer apatia.
Ando a dialogar com meu tempo, um relicário cheio de renúncias.
E me inscrevo nessas entrelinhas
através da água, do poço da memória, dos sentidos cotidianos.

Patrícia Porto

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Zumzumzum

Pierre Verger


Tem esse som por dentro, voz da mulher da terra,
da mulher do mar, de concha, raiz forte da mulher de dentro
em ciclos.
As mulheres que zelam pelas histórias da terra e do mar.
As mulheres que nascem na sementeira, destino... giram na flor.
Tão fecunda a água.
Cada praça, cada canto, cada pedra,
os sons batem no coração dessa mulher.
Mar de dentro chora,
chuva de dentro escorre as dores vizinhas dessa mulher.
Vai. Vem. Vem, Vai... é cheia.
Nos olhos dessa mulher a gestação de uns delicados.
O cheiro de amêndoas, a bacia branca de esmalte, a renda,
o rito da morte, o fogaréu, carne salgada e os pés no chão...
São vozes dessa mulher.
A vida inunda, a mulher sangra na pedra, um tambor,
alimenta com seu corpo a festa de amanhã, dança do mar, terra é fecunda,
um círio na escuridão.
Tem esse zum zum zum...
Toca esse zum zum zum...

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Zumzumzum

Il y a ce son de l’intérieur, voix de la femme de la terre,
de la femme de la mer, de coquillage, racine forte de la femme, de l’intérieur en cycles.
Les femmes qui veillent par les histoires de la terre et de la mer.
Les femmes qui naissent du semis, destin... deviennent fleur.
Tellement féconde est l’eau.
Chaque place, chaque coin, chaque pierre,
les sons battent au cœur de cette femme.
Mer de l’intérieur pleure,
pluie de l’intérieur ruisselle les douleurs voisines de cette femme.
Va. Viens. Viens, Va... elle est pleine.
Dans les yeux de cette femme, la gestation de quelques délicats.
L’odeur d’amandes, la bassine blanche d’émail, la dentelle,
le rite de la mort, le grand feu, viande salée et les pieds dans la terre...
Ce sont les voix de cette femme.
La vie inonde, la femme saigne dans la pierre, un tambour,
alimente avec son corps la fête de demain, danse de la mer, terre est féconde,
un cierge dans l’obscurité.
Il y a ce zum zum zum...
Bruisse ce zum zum zum...

Patricia Porto
Tradução: Axel Dieudonné



O "Mundeiro" do meu querido amigo Délcio Teobaldo. 


quarta-feira, 15 de abril de 2015

alguma palavra



Tomasz Alen Kopera


Se deus é limitado o que dizer de mim, olhando os limites que se colocam aqui - ao meu redor hoje sem evidências ou revelações necessárias. Apenas os limites. Tenho curiosidades sobre deus, sempre tive. Se acreditar fosse possível, eu teria tido menos tristeza e solidão. A curiosidade não ampara ou sossega, apenas instiga, cria questões insolúveis para as coisas mais simples. Talvez eu tenha um espécie de religiosidade muito genuína e isso não me torna mais importante. Ao contrário, sinto-me miserável e frágil. Adoraria ter um deus urgente para criar e acreditar, sentiria meus dias menos mortos de alguma coisa da qual não dou conta.  Tentei escrever preces, mas não obtive o necessário desprendimento. Tornar-me adulta foi um impacto profundo na ideia de deus, ampliou-me o sentimento de orfandade e, por consequência, a solidão das coisas que me habitam.  Parece errado, eu sei. Finalmente eu cresci sem um deus para confessar a minha vida atropelada, cansada, ínfima... Não é um tempo bonito de mostrar, não carregar máscaras é um desastre para um ser humano. É um desastre. Mesmo com amigos, família, pessoas para cumprimentar, estar sozinho ainda é uma condição de liberdade que parece desumana e natural. A escrita amortece esse sentimento tão íntimo, mas cria a angústia. No fim jogar xadrez com a morte como no filme de Bergman parece a inevitável certeza. Viver para esse jogo. E essa certeza nos torna humanos muito dependentes. Com essa certeza a alteridade não é uma opção nem uma circunstância, é a principal forma de nos manter vivos enquanto há vida.   

terça-feira, 14 de abril de 2015

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no ballet da caixinha de música ela interpreta uma lição
- se bailasse nos sapatos duros que lhe deram
machucaria o bailado da canção de ninar.
Preferiu calar os pés, colar cravos nas pontas dos pés,
dores de giro sem girar...
No fundo da palavra catapultada: lá, lá...lar

Patrícia Porto

Imenso

Walda Marque



Vou me atirar de cabeça.
As notícias são de varal,
pregadores azuis e amarelo limão,
cabeça na sentença de ser feliz por todo dia ao menos.

Vou me atirar de cabeça
na amostra
um frasco e a dose, bêbada de êxtase nu,
um rio fino, uma tinta,solando no muro, pipas,
orquídea aberta,
um círculo, um sexo, uma veia rompida,
esse sangue nas mãos, dois a dois, um pacto, um silêncio,
nenhum assassino na casa, o vento norte, meu cílios acendem:
vou me atirar de cabeça. Diabo doce.

Patricia Porto

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Porque hoje só pensei em ti.

Há um rumor de enigma nessa desordem,
um prisioneiro dentro do umbigo querendo afeto.
Não, o poeta é sempre este que morre afogado na areia
e suas mãos e dedos longos tremem com as garrafas.
Ele vive com esta janela para o mar das mensagens,
para a baía dos náufragos, corpos celestes... uma antecipação.
Uma mão ao alcance do nada, uma retina, um fantasma, alguma promessa...
todos precisamos de promessas e descuidos na bastante fragilidade dos barcos.
A água batendo firme, um ofuscamento da certeza que cintila um farol.
Será preciso arregaçar os panos, descobrir os móveis, criar um novo mapa,
reacender o enigma.

Patricia Porto

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

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Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
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Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

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Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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