domingo, 26 de abril de 2015

Infância Terrível

Quando contar a alguém da infância terrível,
antes do abrir de olhos e bocas,
caminhe fúnebre na prancha até resumir as noites quentes de amor
num tópico frasal: "então você é terrível..."
Depois é só deixar morrer lentamente
por meia hora.

Patrícia Porto

Juke Box




aquele fiapo maldito na lapela
olhei para o homem que vestia calça e camisa
parecia meu pai nos vincos
carregando fiapos por todo corpo
alegre demais por suas fiações

se tiro o fio
não como o fio
meu avô tinha casa de tecidos
cashmere no epitélio

serei grata por toda indecisão cafona
de ler sinais nos cravos do caixeiro

nos sonoros da Juke Box
músicas de fazer chorar
ultimatos:

levantar
saber sair
levar o corpo

tecido bem não dói

Patrícia Porto

Os graves



Não há exagero nenhum em quebrar os pratos.
Louças foram feitas para isso:
apunhalar o ser amado.
Nos graves.

Patrícia Porto

Nocaute

Dias de solidão rebuscada,
uma notícia de sabor dissonante,
algo entre o bule e a bile
Nenhum tratado amoroso nos espera,
apenas um pequeno buchicho,
olhar de soslaio, beijo de sola

O amor reticente, espremido entre os gânglios
espuma segredos,
desobedece as regras de boa convivência
e conveniência,
a mágoa tão reciproca figura e forma
um desejo embalsamado que trai

O amor e sua brutalidade nos mostra os dentes
e ruge espadas na lata

Patrícia Porto

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Noites de Cais

William Turner


O olhar primeiro da terra,
um cisco no olho direito,
na vista do cais do porto,
mãe chorou de desespero.
Vai chorando devagar
tempo rude,
me ensina
a arte e o saber voltar

O olhar da Terra é o tempo, 
o tempo, uma ciranda
No alto mar é a morte.
Pancadas no breu da noite, 
esse navio, um tumbeiro
se me perco, acho o mar, sou inteiro,
sou inteiro...

Terra no Mar, povo na Terra,
tempo de arder ao Sol:
a carne, o corte, o sal, a vida, a estrela...
Com o mar, a estrela com o mar...
No tempo de ser vendido,
da mãe o filho fugido 
no tempo de ser benzido,
a morte foi me avisar. 

Aos olhos de minha sina,
Mãe distante é a Terra,
o mar é sangue nos olhos, 
no sal da língua eu me meu encontro
onda do mar, contas do mar,
o cais desse destino
com o mar, com o mar


Patrícia Porto 



"Cais do Valongo – Rio de Janeiro - (RJ)

Em 1774, o Vice-Rei Marquês do Lavradio determinou que passasse a ficar “fora dos limites da cidade” do Rio de Janeiro o comércio de africanos. O novo local escolhido para esse comércio foi o Valongo, entre a Pedra do Sal e a Gamboa. A ideia, com propósito de não contaminar a cidade, era isolar os recém-chegados que ali esperariam a venda para depois saírem diretamente pelo mar, através do Cais do Valongo e outros trapiches próximos. Estima-se que passaram pela região quase 1 milhão de africanos. A partir de 1831, com a proibição do tráfico de africanos pelo Governo Imperial, a entrada de escravos pelo Valongo diminuiu significativamente e os comerciantes tiveram que buscar maior discrição nos negócios de africanos. Procuraram locais mais seguros para o tráfico, em geral, em praias s isoladas, mas não muito distantes dos pólos dinâmicos da economia brasileira, como as regiões cafeeiras do sudeste, que requisitavam mão de obra escrava africana." 

Referência: HONORATO, Claudio de Paula. Valongo: o mercado de escravos do Rio de Janeiro, 1758 a 1831. Dissertação de mestrado. Universidade Federal Fluminense (UFF). Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Departamento de História. Rio de Janeiro, 2008. 

sexta-feira, 17 de abril de 2015

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Há sol que brilhe para toda poesia.
Há um sol que nasceu hoje que é o mesmo que nascerá amanhã,
por isso escrevo para quem comunga comigo do fácil,
do pequeno e rústico divisível que há nas palavras mais corriqueiras:
mundo, sonho,  janela,  pão etc 
Não escreverei o difícil sinônimo da palavra estoica, rútila, refratária
e juntarei em cimentos de poesia esvaziada.
Escrevo porque sinto e me comunico com os que me entendem
na minha linguagem.
Não estou compondo um réquiem de palavras de vitrine, açucaradas
pelos estetas.
Aconselho-me com as próprias palavras desprovidas de cinismo ou
qualquer apatia.
Ando a dialogar com meu tempo, um relicário cheio de renúncias.
E me inscrevo nessas entrelinhas
através da água, do poço da memória, dos sentidos cotidianos.

Patrícia Porto

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Zumzumzum

Pierre Verger


Tem esse som por dentro, voz da mulher da terra,
da mulher do mar, de concha, raiz forte da mulher de dentro
em ciclos.
As mulheres que zelam pelas histórias da terra e do mar.
As mulheres que nascem na sementeira, destino... giram na flor.
Tão fecunda a água.
Cada praça, cada canto, cada pedra,
os sons batem no coração dessa mulher.
Mar de dentro chora,
chuva de dentro escorre as dores vizinhas dessa mulher.
Vai. Vem. Vem, Vai... é cheia.
Nos olhos dessa mulher a gestação de uns delicados.
O cheiro de amêndoas, a bacia branca de esmalte, a renda,
o rito da morte, o fogaréu, carne salgada e os pés no chão...
São vozes dessa mulher.
A vida inunda, a mulher sangra na pedra, um tambor,
alimenta com seu corpo a festa de amanhã, dança do mar, terra é fecunda,
um círio na escuridão.
Tem esse zum zum zum...
Toca esse zum zum zum...

......

Zumzumzum

Il y a ce son de l’intérieur, voix de la femme de la terre,
de la femme de la mer, de coquillage, racine forte de la femme, de l’intérieur en cycles.
Les femmes qui veillent par les histoires de la terre et de la mer.
Les femmes qui naissent du semis, destin... deviennent fleur.
Tellement féconde est l’eau.
Chaque place, chaque coin, chaque pierre,
les sons battent au cœur de cette femme.
Mer de l’intérieur pleure,
pluie de l’intérieur ruisselle les douleurs voisines de cette femme.
Va. Viens. Viens, Va... elle est pleine.
Dans les yeux de cette femme, la gestation de quelques délicats.
L’odeur d’amandes, la bassine blanche d’émail, la dentelle,
le rite de la mort, le grand feu, viande salée et les pieds dans la terre...
Ce sont les voix de cette femme.
La vie inonde, la femme saigne dans la pierre, un tambour,
alimente avec son corps la fête de demain, danse de la mer, terre est féconde,
un cierge dans l’obscurité.
Il y a ce zum zum zum...
Bruisse ce zum zum zum...

Patricia Porto
Tradução: Axel Dieudonné



O "Mundeiro" do meu querido amigo Délcio Teobaldo. 


quarta-feira, 15 de abril de 2015

alguma palavra



Tomasz Alen Kopera


Se deus é limitado o que dizer de mim, olhando os limites que se colocam aqui - ao meu redor hoje sem evidências ou revelações necessárias. Apenas os limites. Tenho curiosidades sobre deus, sempre tive. Se acreditar fosse possível, eu teria tido menos tristeza e solidão. A curiosidade não ampara ou sossega, apenas instiga, cria questões insolúveis para as coisas mais simples. Talvez eu tenha um espécie de religiosidade muito genuína e isso não me torna mais importante. Ao contrário, sinto-me miserável e frágil. Adoraria ter um deus urgente para criar e acreditar, sentiria meus dias menos mortos de alguma coisa da qual não dou conta.  Tentei escrever preces, mas não obtive o necessário desprendimento. Tornar-me adulta foi um impacto profundo na ideia de deus, ampliou-me o sentimento de orfandade e, por consequência, a solidão das coisas que me habitam.  Parece errado, eu sei. Finalmente eu cresci sem um deus para confessar a minha vida atropelada, cansada, ínfima... Não é um tempo bonito de mostrar, não carregar máscaras é um desastre para um ser humano. É um desastre. Mesmo com amigos, família, pessoas para cumprimentar, estar sozinho ainda é uma condição de liberdade que parece desumana e natural. A escrita amortece esse sentimento tão íntimo, mas cria a angústia. No fim jogar xadrez com a morte como no filme de Bergman parece a inevitável certeza. Viver para esse jogo. E essa certeza nos torna humanos muito dependentes. Com essa certeza a alteridade não é uma opção nem uma circunstância, é a principal forma de nos manter vivos enquanto há vida.   

terça-feira, 14 de abril de 2015

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no ballet da caixinha de música ela interpreta uma lição
- se bailasse nos sapatos duros que lhe deram
machucaria o bailado da canção de ninar.
Preferiu calar os pés, colar cravos nas pontas dos pés,
dores de giro sem girar...
No fundo da palavra catapultada: lá, lá...lar

Patrícia Porto

Imenso

Walda Marque



Vou me atirar de cabeça.
As notícias são de varal,
pregadores azuis e amarelo limão,
cabeça na sentença de ser feliz por todo dia ao menos.

Vou me atirar de cabeça
na amostra
um frasco e a dose, bêbada de êxtase nu,
um rio fino, uma tinta,solando no muro, pipas,
orquídea aberta,
um círculo, um sexo, uma veia rompida,
esse sangue nas mãos, dois a dois, um pacto, um silêncio,
nenhum assassino na casa, o vento norte, meu cílios acendem:
vou me atirar de cabeça. Diabo doce.

Patricia Porto

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Porque hoje só pensei em ti.

Há um rumor de enigma nessa desordem,
um prisioneiro dentro do umbigo querendo afeto.
Não, o poeta é sempre este que morre afogado na areia
e suas mãos e dedos longos tremem com as garrafas.
Ele vive com esta janela para o mar das mensagens,
para a baía dos náufragos, corpos celestes... uma antecipação.
Uma mão ao alcance do nada, uma retina, um fantasma, alguma promessa...
todos precisamos de promessas e descuidos na bastante fragilidade dos barcos.
A água batendo firme, um ofuscamento da certeza que cintila um farol.
Será preciso arregaçar os panos, descobrir os móveis, criar um novo mapa,
reacender o enigma.

Patricia Porto

sábado, 11 de abril de 2015

O amor nos tempos do descarte. Conversando com Gabo.

                               

                           Gabriel García Márquez, o escritor colombiano reconhecido nos quatro cantos do mundo por “Cem Anos de Solidão", e também premiado com o prêmio Nobel de Literatura (1982), é, sem dúvida, uma unanimidade quando o tema a ser tratado é o “amor visceral”. “O amor nos tempos do cólera”, mesmo sem perder de vista o gosto pela perene Solidão, é o livro-testemunho do talento absurdo desse autor para as coisas do amor e suas intensidades. O livro de 1985 é uma narrativa feita de alma desperta, no profundo do que vai se forjando no cunho do indescritível, já quando se tiram as cascas da linguagem e se  pode contemplar a intimidade com a escritura, limpa de ornamentos. Este livro, além de um dos mais lidos no mundo, teve também sua adaptação para o cinema em 2007. E para a nossa "quase" alegria conta com a participação de um dos ícones da atuação brasileira, a atriz Fernanda Montenegro. E tem no elenco o magistral ator Javier Bardem. Os dois grandes atores são mãe e filho e Bardem protagoniza o filme como o romântico incurável "do tempo do cólera", Florentino Ariza. É uma estranha dose de doçura amarga que este encontro nos traz - ou trai. Mas o cinema tem dessas coisas, pode ir da grande expectativa à frustração total. Pois teria sido um encontro realmente mágico e belo se o filme não tivesse se mostrado fraco em vários pontos, desde da caracterização dos personagens até chegar, ou melhor, não chegar a um bom desenvolvimento da narrativa. Foi um mergulho tortuoso na leitura adaptada do livro. Uma pena não ter dado certo. O desenrolar da trama é enfadonho e vai de tropeço em tropeço sem alcançar nem nos diálogos e nem as atuações o estupendo impacto das palavras e a profundidade dos personagens de Gabriel García Márquez.
                  Resumida aqui,  a história de Gabriel García Márquez traça o destino de  Florentino e Fermina Daza que se encontram ainda na juventude, se apaixonam e se perdem um do outro pelos desvios, extravios do destino. Florentino Ariza trabalha justamente nos correios, uma metáfora que traça o paralelo entre encontro e despedida, amor e distância, ausência e presença. E haja distância e haja a permanência da ausência! E haja perseverança! Gabriel García Márquez nos comove e nos convence a espera - numa cumplicidade que vamos aos poucos adquirindo ao longo da leitura da história, de um drama que narra a trajetória de um amor que não se abotoa, e que tampouco se fecha, mas ao contrário; se abre ao tempo largo e nos abre, leitores, feito peixes, expondo nossas vísceras, nossas espinhas, nossos espinhos dolorosos se já tivemos ou sonhamos ter um amor tão intenso.  Heróico, épico é o percurso do amor de Florentino e Fermina, separados pela diferença de classes, separados por culturas distintas, ambos seguem suas vidas nas acomodações dos vãos, pois é preciso seguir o curso do rio, da história, da sociedade de então, início do Século XIX, onde são os pais a escolher os pretendentes e maridos de suas filhas. Não que isso tenha mudado, apenas outras são as acomodações de agora, as novas pseudo-escolhas.
                Na história de amor de Florentino e , ou mais do amor platônico de Florentino por Fermina, é  Ele, o tempo, que precisa seguir sua viagem pelo amor estendido,  que se arrasta pacientemente, numa completa e quase insuportável tolerância de existir - indo, indo, de volta, buscando a água do poço original. E haja espera! Separados por 53 anos, quatro meses e 11 dias, feito um registro de um ser, como uma flor murcha de aniversários perdidos no bolor do livro da vida. Mas ali, viva na sua cicatriz de resistência. 
                Florentino faz de sua vida a própria espera enquanto Fermina se casa com um médico que luta para enfrentar a epidemia de cólera, doença e cura seguem num duplo sentido de profusão de acontecimentos e sentimentos, numa completude que não exclui os desejos dos contrários. E é com este marido que Fermina tem filhos e é com ele que permanece por toda uma jornada até ficar viúva. Só após a morte do marido é que Florentino e Fermina se reencontram, já no tempo indiscreto da velhice; complexo sim, e permeado por dúvidas. Ficar juntos é dizer pouco diante do fluxo da narrativa que também nos aguarda, naquilo que a nós, leitores; prediz ser final.             
                Dito isso, justifico o título deste texto com uma nova angústia; a angústia do tempo moído, capitalizado, calculado, com juros e correções. O tempo que anda abreviando mais que palavras, mais que pronomes que antes eram de tratamento. O tempo que anda abreviando a narrativa, espatifando em cortes afiados, cortantes, o vidro falso que se pensou como o diamante das novas relações. Opacas, confundidas com super projeções do ego, com doses de exibicionismo vazio, as personas se apresentam, se multiplicam e até morrem às vezes, por sorte. E a vida é a do tempo das celebrações sucessivas, das celebridades espontâneas, das confraternizações fantásticas de seres não mais comuns, mas totalmente extraordinários. Todos extraordinários! Todos lindos, corpos maravilhosos, bocas e caras... Tudo o que parece ser do ordinário, do simples, do lento é tratado como “sem sentido” e rapidamente vira notícia velha - em questão de segundos. É o tempo veloz das ansiedades generalizadas, dos ansiosos de plantão a espera não mais de um amor humano que perdure, mas da última informação desnecessária sobre alguém ou ninguém. Não faz diferença.
                Novas estatísticas e velhas intuições alertam para a exposição daquilo que nas relações amorosas não deveria jamais ser colocado feito carne na vitrine; mas que deveria sim ser de fato vivido, discutido e até terminado sem as vias do Face. Que feio!
                 O amor nos tempos do Face e dos aplicativos significa mais descartes e o abuso de ridicularizar o outro sem nenhum respeito ou qualquer bom senso. Parece que  foi aberta a porta por onde se pode enveredar o desleixo na relação com o outro. O outro mesmo, aquele amigo de fato, o amor de fato. São peças de ocasião: “então bloqueio”, “oculto”, “mudo o status”, descarto.  Projeto do enredo mudado, colocam-se os personagens todos numa corrida desenfreada que não dá conta de uma narrativa.
                   O sujeito fragmentado  passa então a peregrinar por uma coleção de romances de gestos, atitudes duvidosas e passa a perseguir um universo reduzido de ilusões repetitivas. Parece que a preguiça de pensar anda contaminando tudo. O amor nos tempos do Face angustia, pois afinal, como lidar com tanta superficialidade, com a fugacidade despretensiosa que finge inocência? Como lidar com a ignorância daqueles que não sabem o que é ser responsável por ferir ou abusar do outro? Ou que não aprenderam ainda do respeito ou não souberam - na nova dinâmica da ansiedade - o que é da gentileza amorosa, a mansidão dos que amam legitimamente, sem badulaques, penduricalhos, sem pieguices neuróticas do "te quero hoje", mas amanhã é uma nova temporada de caça.
               O amor nos tempos dos aplicativos de encontros é Bruto e escorrega na própria lambança, talvez por conta do excesso de antolhos, do exagero criado pela expectativa de encontrar uma novidade a cada perfil, de encontrar alguém melhor ao lado. E numa rede  sem laços, o lado é sempre um vazio improvisado disfarçado de cheio, o cheio de diversão, aventuras rápidas,rasteiras. 
                Mas há sim esperança para os novos amantes. Fora e Dentro do face e dos aplicativos, claro. Vejo casais bem jovens que já se afastam da geração dos caçadores de encontros casuais e instantâneos. E quando o desejo se encontra nos olhos desses jovens amantes, nos olhos de um Florentino e de uma Fermina, os jovens renascidos de agora se tocam sem nenhuma pressa de viver o que sentem, e aconchegados num tempo que vem e os carrega de volta para o despertar de uma vida dentro de outra, de um despertar de um amor que se faz de qualquer tempo - vivem o que há nele de inteiro sem disfarces. Assim são novamente feitos do Amor e suas delicadezas.

Patrícia Porto