sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Orfeu

Pierre Verger


Hoje sonhei com meu Orfeu. Vinha de longe, cansado, umas rugas novas a me denunciar de abandonos. Disse que sentia saudades, que meu corpo era dele como seu barco. Que me navegava sem rédeas, selvagem, natureza dos intensos de nossas aventuras pelo mundo. Era comunal, mais corpo que alma, mais coisas que a sós sabíamos mais fazer que dizer. Veio em sonho, parte fantasia, parte realidade, palavras rudes de homem do mar, bruto nas pedras que trouxe pra mim, pedras preciosas, pedras das armadilhas que criou pra mim. Por vingança dei a ele minha sede, minha fome, faminta do corpo de meu Orfeu, da pele doce de meu Orfeu, da carne doce de meu Orfeu, da língua de doçuras de meu Orfeu, dei a ele minha viagem última, minha candura, a que me resta, as estranhezas do acaso, minha tragédia. Meus olhos, coração sangraram... A porta que abri foi a do peito, há de me colocar uma faca no meio, há de me atirar no barco sem rumo, de me navegar de volta ao abismo, de soco no ouvido da água batendo, subindo o mar entre as ondas gigantes, engolindo nossa cama, nossos ossos distintos, nossas ossaduras, nossos vulcões extintos, nossas chagas de vida. A porta, o sonho, o caminho, tudo que rói a rima, a roda gira, a roda gira, o meu corpo nele engolido, o corpo dele submerso em minhas linhas, nossas queimas, nossos dias de acenos e cais, minha dor de parto, minhas águas de beber no umbigo. Volta pra terra, Orfeu.  Já esqueci de tudo, do abandono que te fiz, da dor que te causei, da rua aberta com meu sangue frio, já perdoei.
Aqui foi de tempo de interminável sina, vendo tuas novas descobertas, descobrindo tuas novas mulheres, arqueando ombros para solidão absurda dos barcos, as coxas abertas, as saias rodadas, a dança cigana. O tempo amoleceu minhas rudezas, o tempo estreitou minha maldade, aquietou minhas falácias, abriu-me o ventre da flor, causou-me desgraças de prazer em agulhas de dor. Volta pra terra, Orfeu. Prometo calar minha fúria, atravessar de punhais minhas covardias, sedar minha palavra crua, o fel da minha oficina de dizer a profecia dos inquietos, dos sujos, dos sem destino.
Por tudo ou pouco, me jogo em cena, sou bailarina. Hei de abrir minha carne em tuas as fatias, hei de me deixar salgar até o fim, incrustada na rocha onde teu destino é viver comigo. Na pedra.  

Patrícia Porto  

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Noite de Mina

água de beber, moringa secou
mar de dançar vida não lava a cabeça
sangue de partida, de parteira morta
chega na porteira
cantiga desfeita

nascido de luto
nascido da luta
chega já na chaga
na chaga se deita

salgada de mar, não vou mais
salgada de dor, não vou mais

se o tambor não toca, eu ouço do mar
meu amor tocar o ashiko

não vou mais partir dessa terra sem contar
que o mar se abriu em dois olhos de dor
e desses dois olhos abriu essa flor

na semente dela deixou uma lua
que só serenou, serenou, serenou

se o tambor calou foi na dor de sentir,
eu ouço do mar meu amor repetir:

salgado de mar, não voltou
salgado de mar, não voltou


Patrícia Porto

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Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

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Livro: Sobre Pétalas e Preces

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Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

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