quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Mulheres e ossos

Este texto foi escrito como releitura do filme/livro "Wild", filme com Reese Witherspoon e Laura Dern, ambas concorreram ao Oscar de melhor atriz (principal e coadjuvante). Exercício do Curso: "Oficina de Textos Criativos".

Sinopse: Após a morte de sua mãe, um divórcio e uma fase de autodestruição repleta de heroína, Cheryl Strayed (Reese Witherspoon) decide mudar e investir em uma nova vida junto à natureza selvagem. Para tanto, ela se aventura em uma trilha de 1100 milhas pela costa do oceano Pacífico.






     A Mulher selvagem...
Há mulheres que quebram correntes e soltam seus bichos, os cavalos indomados do corpo e nelas moram a hora da selvageria. Nelas há de florescer olhares e novos sentidos de vida numa arte de tecer o mistério de ouvido. Algumas conheci de perto, uma senti entre minhas coxas suas dores desfilar... A outra virada mulher era criada de minhas seivas.
           Não me dou bem com as mulheres desbotadas, ajustadas a qualquer ritmo insano que abotoa cabeças ou corpos, as que erguem bandeiras para pendurá-las em varais. Preciso viver o bicho no inteiro e posso e devo ser má se me roubarem os ossos, as ossadas que enterrei em minhas florestas de existir acostumada. Não há nenhuma receptividade que me seja natural que a que levo comigo: a de ser o bicho.  Por isso o umbigo me ambígua e nele alimento-me de ser um animal capaz de parir outro bicho, um animal que teve tetas para alimentar outros bichos. Olho para frente e sou capaz de caçar como qualquer bicho sanguinário da minha mesma espécie. Sou capaz de defender minhas crias com o corpo e de destruir construídos de adornos. Tenho cá os dentes acirrados. Nada pode me angustiar e me libertar mais que ser esse bicho dentro de mim, ele vive e se deita comigo, come de minhas ofertas, banquetes e migalhas. Sou esse bicho dentro de mim. Nele me antecipo da destruição dos que também caçam, dos vampiros que se escondem na selva e anunciam a captura do bicho em jaula, cela, hospício.  A dormência dos que julgam a demência, a dos competidores da moral. Os que vencem e publicam suas vitórias em flâmulas são os ladrões de corpos, os que metem o medo pelo credo, pela doença.
             Eu entro na floresta toda noite e me uno aos lobos, farejo minhas bonanças e prevejo essas selvagerias. Não sou vítima do meu tempo, não quero que me curem e salvem. Eu rasgo esse tempo com minhas garras e como desbocada suas fartas fatias, os nacos, me lambuzo. Eu abocanho a fartura do tempo e nele não me escravizo. Não sou vítima do meu tempo, sou o bicho que ronda, que se espalha no meio do mundo, no chão se arrisca com um olho no caçador e o outro nos ossos. Só não perco de vista os meus ossos.

Patrícia Porto  

...



O poeta é essa criatura sentada num banco...
enquanto uns correm, jogam sua peladinha...
O poeta é essa criatura nua
- vestindo a nudez da carne humana

PP

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Todas as estações com Portinari



O verão
O verão, uma incógnita.
Um barulho de mar, de concha, de areia nas mãos,
abrigo de castelos temporários.
No céu uns Vermelhos, Laranjas, Amarelos...
Uma sede de gastar o tempo,
uma vontade do inútil no corpo.
Quando tudo é corpo aberto a alma pede passagem,
"deixa eu transpassar essa verdade", diz a alma querendo o corpo.
Mas se o corpo quer só a dança, olhos circulam sem paradeiro.
São lentes ampliadas, ampliando o Sol, ainda maior na sua grandeza.
As crianças veem o mundo, doce a sensação, ácida a estação.
O verão se ausenta antes que se compreenda o todo.
Vai de férias viver profundamente a si mesmo,
pulando corpo desengonçado por sobre a linguagem.

Outono para papagaios
O poste, a ponte, o fio
A vida e o fio.
O filho quer ciranda
e o menino vem correndo
atrás das figuras geométricas,
hemisféricas, planetárias.
Metradas raias em raios de cores,
petrificados os homens crescem
abandonando o menino, não por coragem.
Saudades do menino. Um fio de memória.
Por onde, por onde o rio, onde a sede,
o viço sem dentes se foi?
Tantos papagaios saúdam o novo menino!
Chegou mais um papagaio! E vem o mundo de voltas
e gira o tempo de dentro em flor cedendo.
O tempo escorrido... o tempo acalmado,
branda luz que abraça a correnteza
e a atravessa.

A primavera dos Palhaços
Paisagens ancoradas
nas janelas do mundo:
fruta boa, furta a sorte do apego, o ferrugem.
Desapego palavras: livro, estante, música,
Física das palavras, de óculos olhando pra nós.
Sou capaz de voar pela palavra,
somos todos, todos centelhas, imagens,
origem e germinação constante de frutos.
Jardim onde os poetas deixam mensagens,
os poetas jardineiros,
os disfarçados de pássaros,
alimentando as boquinhas dos pequenos filhotes,
tão frágeis, tão frágil a Poesia, a vida, a criancice,
que a palavra soluço acena sem dar chance de adeus
ou de saudade.

Inverno para garatujas
Eis que invento um novo modelo de espera.
O da chuva. Chuva de inverno, geladinha.
Quando eu era criança. Faz muito, muito tempo.
Mesmo que pareça ontem.
Eu tinha mania de adivinhações do tempo.
E eu me colocava em posição de contar os pingos da chuva.
Mas eram tantos, como estrelas aos milhares
que os meus dedos se perdiam na contagem.
Dava verrugas, verrugas que nascem de tanto contar,
de tanto a gente se contar.
Então eu desenhava a chuva por dentro,
pingos imensos em garatujas,
pingos felizes como meninos plantando bananeiras.

Patricia Porto

Do livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Orfeu

Pierre Verger


Hoje sonhei com meu Orfeu. Vinha de longe, cansado, umas rugas novas a me denunciar de abandonos. Disse que sentia saudades, que meu corpo era dele como seu barco. Que me navegava sem rédeas, selvagem, natureza dos intensos de nossas aventuras pelo mundo. Era comunal, mais corpo que alma, mais coisas que a sós sabíamos mais fazer que dizer. Veio em sonho, parte fantasia, parte realidade, palavras rudes de homem do mar, bruto nas pedras que trouxe pra mim, pedras preciosas, pedras das armadilhas que criou pra mim. Por vingança dei a ele minha sede, minha fome, faminta do corpo de meu Orfeu, da pele doce de meu Orfeu, da carne doce de meu Orfeu, da língua de doçuras de meu Orfeu, dei a ele minha viagem última, minha candura, a que me resta, as estranhezas do acaso, minha tragédia. Meus olhos, coração sangraram... A porta que abri foi a do peito, há de me colocar uma faca no meio, há de me atirar no barco sem rumo, de me navegar de volta ao abismo, de soco no ouvido da água batendo, subindo o mar entre as ondas gigantes, engolindo nossa cama, nossos ossos distintos, nossas ossaduras, nossos vulcões extintos, nossas chagas de vida. A porta, o sonho, o caminho, tudo que rói a rima, a roda gira, a roda gira, o meu corpo nele engolido, o corpo dele submerso em minhas linhas, nossas queimas, nossos dias de acenos e cais, minha dor de parto, minhas águas de beber no umbigo. Volta pra terra, Orfeu.  Já esqueci de tudo, do abandono que te fiz, da dor que te causei, da rua aberta com meu sangue frio, já perdoei.
Aqui foi de tempo de interminável sina, vendo tuas novas descobertas, descobrindo tuas novas mulheres, arqueando ombros para solidão absurda dos barcos, as coxas abertas, as saias rodadas, a dança cigana. O tempo amoleceu minhas rudezas, o tempo estreitou minha maldade, aquietou minhas falácias, abriu-me o ventre da flor, causou-me desgraças de prazer em agulhas de dor. Volta pra terra, Orfeu. Prometo calar minha fúria, atravessar de punhais minhas covardias, sedar minha palavra crua, o fel da minha oficina de dizer a profecia dos inquietos, dos sujos, dos sem destino.
Por tudo ou pouco, me jogo em cena, sou bailarina. Hei de abrir minha carne em tuas as fatias, hei de me deixar salgar até o fim, incrustada na rocha onde teu destino é viver comigo. Na pedra.  

Patrícia Porto  

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Noite de Mina

água de beber, moringa secou
mar de dançar vida não lava a cabeça
sangue de partida, de parteira morta
chega na porteira
cantiga desfeita

nascido de luto
nascido da luta
chega já na chaga
na chaga se deita

salgada de mar, não vou mais
salgada de dor, não vou mais

se o tambor não toca, eu ouço do mar
meu amor tocar o ashiko

não vou mais partir dessa terra sem contar
que o mar se abriu em dois olhos de dor
e desses dois olhos abriu essa flor

na semente dela deixou uma lua
que só serenou, serenou, serenou

se o tambor calou foi na dor de sentir,
eu ouço do mar meu amor repetir:

salgado de mar, não voltou
salgado de mar, não voltou


Patrícia Porto


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

La Mer

Deborah Dewit


escavo com a unha a derme da escrita
vou de encontro ao mar

vou de encontro à morte da ilha
frágil, humana da escrita,
levo o mar escrito nessa linha

vou de encontro e só,
o verso que espume

Patrícia Porto

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Complete a Linha





O horizonte insiste

O horizonte... vê
O horizonte... crê

O horizonte pensa
que pode até ler
e escrever...

Completa sozinho
sua própria linha

palavras é que se jogam
por ele

e esses teus olhares também.


Patricia Porto

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Exercício do olhar (Para o MAR)

 Gil T. Sousa 


Para olhar: olhos abertos,
olhos, corpo no aqui presente,
silêncio, mais silêncio ainda,
nada foi terminado...

Patrícia Porto

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Cabeça de Cabocla


(Pela memória dos rituais
 sagrados e profanos) 

...mas
esse mundo aí vem,
espera a gente na superfície
e vai nos comendo pelas bordas,
Naninha, minha bisa.

Como era valente a nossa gente!
E vem esse giramundo e nos documenta:
nos enumera, nos migra a causa,
nos tranca sem rua, sem cidade à vista.
Sem o mito, o tambor de nossas terras
nos faz valer as desvalias.

Como era gostosa a nossa dança,
Naninha!
Não sei mais com quantas pedras erguidas,
jogadas, mastigadas,
deixamos tantos achados meros, perdidos?
Por que atiram pedras perdidas?

Se  a escrita é esse novo ouro de minhas tolices
ou se é ainda obscura essa tortura a secular... não sei.
Quanto custa sermos nós esse povo sem papel, Naninha?
Quantas novas moedas devem custar o nosso céu? O nosso mar?
Os nossos lençóis agora cobrem estranhos que se deitam em nossa cama
e que mal sabem de nós o nosso nome. Nos comem e mal sabem de nós.
Nos mastigam e mal sabem de nós o nosso nome.

Se nessas palavras de tradição
o passo não combate a peste e os atalhos são de maldição...
Se o jogo é de combater no areal
a ordem dos que se julgam mais fortes
pela vontade e metal...
Quem seremos nós, Naninha, neste desterro?
Minhas mãos ainda sangram de partos.

Se tudo é desvio e frágil,
se tudo é carimbo e cópia autenticada,
tudo quimera disso, daquilo... E a utopia?
Quem entre nós escreverá nossa história?

Se meus dedos ciganam
e também guardam
o medo de minhas mãos, a mão do levante
de meu orixá livre e guerreiro,
livre e sedento de arma,
mata e justiça...

Se me protejo na solidão
a temer a ira de meu próprio pai ausente,
de meu próprio povo e passado.
Se neles me engasgo de fome
e professo teu nome mil vezes...
Quando amanhece a vez de nossa irmandade?

Para qual ilha foi o nada que existe?
O estrangulamento da serpente que avoluma,
o espelho da sereia,
a minha lua branca
e o canto longe, o lamento de Dom Sebastião
que não virá, que eu sei, nesse moinho de gente!
Quantos de nossos corpos feridos, torturados, ocultos,
cabem no verso desse pequeno sujeito tão civilizado?

Que soberba tirana.
Que querela tacanha.
Que enfado e espeto.
Que tristeza sem jeito
que me rapa e invade a cabeça.
Só sanha. Sanha...

Patrícia Porto