quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Cabeça de Cabocla


(Pela memória dos rituais
 sagrados e profanos) 

...mas
esse mundo aí vem,
espera a gente na superfície
e vai nos comendo pelas bordas,
Naninha, minha bisa.

Como era valente a nossa gente!
E vem esse giramundo e nos documenta:
nos enumera, nos migra a causa,
nos tranca sem rua, sem cidade à vista.
Sem o mito, o tambor de nossas terras
nos faz valer as desvalias.

Como era gostosa a nossa dança,
Naninha!
Não sei mais com quantas pedras erguidas,
jogadas, mastigadas,
deixamos tantos achados meros, perdidos?
Por que atiram pedras perdidas?

Se  a escrita é esse novo ouro de minhas tolices
ou se é ainda obscura essa tortura a secular... não sei.
Quanto custa sermos nós esse povo sem papel, Naninha?
Quantas novas moedas devem custar o nosso céu? O nosso mar?
Os nossos lençóis agora cobrem estranhos que se deitam em nossa cama
e que mal sabem de nós o nosso nome. Nos comem e mal sabem de nós.
Nos mastigam e mal sabem de nós o nosso nome.

Se nessas palavras de tradição
o passo não combate a peste e os atalhos são de maldição...
Se o jogo é de combater no areal
a ordem dos que se julgam mais fortes
pela vontade e metal...
Quem seremos nós, Naninha, neste desterro?
Minhas mãos ainda sangram de partos.

Se tudo é desvio e frágil,
se tudo é carimbo e cópia autenticada,
tudo quimera disso, daquilo... E a utopia?
Quem entre nós escreverá nossa história?

Se meus dedos ciganam
e também guardam
o medo de minhas mãos, a mão do levante
de meu orixá livre e guerreiro,
livre e sedento de arma,
mata e justiça...

Se me protejo na solidão
a temer a ira de meu próprio pai ausente,
de meu próprio povo e passado.
Se neles me engasgo de fome
e professo teu nome mil vezes...
Quando amanhece a vez de nossa irmandade?

Para qual ilha foi o nada que existe?
O estrangulamento da serpente que avoluma,
o espelho da sereia,
a minha lua branca
e o canto longe, o lamento de Dom Sebastião
que não virá, que eu sei, nesse moinho de gente!
Quantos de nossos corpos feridos, torturados, ocultos,
cabem no verso desse pequeno sujeito tão civilizado?

Que soberba tirana.
Que querela tacanha.
Que enfado e espeto.
Que tristeza sem jeito
que me rapa e invade a cabeça.
Só sanha. Sanha...

Patrícia Porto

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

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Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

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Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

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Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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