terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Marés



Tambores do Maranhão


olhos de tambor na estampa do céu
noites de amar a seco, noturnos,
luas de anoitecer o meu lar,
frieza de endurecer o coração, a rua escura,

quentura de ver nascer a pele na flor,
argila de semear...

fogo serenou de novo é chegança
água serena no mato, é bonança
ele vem em mim do mato, na dança,
eu que sou mato não nego fogo,
acendo,
acendo o lampião da vida,
acendo a luz das lanternas do tempo...

no tempo das velas certas da noite,
vou pra Iemanjá de branco e azul,
de lua virada, vidrada nele,
homem que é da lida tem esse ardor:

acendo
pavios na escuridão,
navio perdido no mar sem fio,
partido,

partida
no mar
acendo,
aceno
e vou

aceno
e vou
aceno
e vou

Patrícia Porto

Uma palavra




Levantei de novo
e descobri que estava grávida,
gravidez galopante:
personagens conversavam dentro de mim
numa gravidez esquizoide.
As histórias se levantavam
e comiam pedaços do meu cérebro
como zumbis contemporâneos num banquete.
As histórias estavam lá, aprisionadas,
pulsando, criando veias para explodir...
Que trágico!
As histórias queriam a chave,
porque eu tinha me trancado por dentro.
Perguntei ao enigma:
"por que estamos aqui?"
Como chegamos até aqui?
O enigma respondeu:
"para darmos um passo além".
Naquela noite quente de verão infernal
eu e minha gravidez tópica
faríamos nascer algo extraordinário
chamado literatura.
E chega de tantos bastas
porque o chão é bem mais acima
e a aranha tece.

Patrícia Porto

sábado, 24 de janeiro de 2015

A louca


(a paciente)

à míngua das significâncias
ossos da ciência,
dissecando a alma, o corpo
à lâmina, gilete na boca, aos rasgos

no infinitivo perfeito:
perdoar,
cantar,
dançar,
sorrir,
correr,
dormir,
comer,
trabalhar,
ouvir,
dizer
tomar pílulas
(ouvidizer
violentada?)

um grito-soco desprovido de artifícios
verbalizando
imperfeitos:

sangrar,
cuspir,
dizer,
ouvir,
surtar,
correr,
fugir,
pés,
mãos,
espinha,
fígado

bater
&
retirar

fugir do objeto

levar os ossos


Patricia Porto

A lúcida

Herbert List

(a terapeuta)

Ao que fez, sentada na cadeira,
descruzando os dedos ali...
Ela tão limpa, tão sólida...
Lendo através: o frio, o deserto na xícara,
xale sobre um dos ombros...
Ao que fez, debruçada sobre a queda:
lágrimas salteadas,
abraçando um rio inteiro em seus braços,
a ilesa,
sã e salva.

Que fundo...
Panos limpos,
nenhuma gota de desespero...
Só sincocrias e núcleos de rosas.

Patricia Porto

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

UNO

Andei encontrando alguns poemas depois da mudança. São poemas de quando eu tinha uns vinte ou até menos. As mudanças de casa têm nelas essa tarefa misteriosa de uma arqueologia das habitações. A casa e a mudança nos trazem tesouros ocultos e nos (re)levam de lembranças doces, outras amuadas - como bonecas russas, uma após a outra, uma dentro da outra. 


Rachel Caiano.


UNO

Além de mim mais alguém
                                                  e mais que alguém o
além
bem mais além que tudo
                                                  bem mais além que o
muro
que o mundo
                                                  Além de mim o mais
fluído
o amor de alguém no
                                                   sussurro
Um nome refém, um turvo
                                                   alguém desnudo no
curso
que talho, encurto
                                                   Além de mim o alheio
Alguém que nele não sou:
                                                   NULO.

P.Porto/1990




segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

ECCO!

Alberto Macone
ECCO!

Um homem suado
lima a testa de ferro
enquanto serra

AS FAMÍLIAS
DAS ROSÁCEAS
DAS COMBRETÁCEAS
DAS RUTÁCEAS
DAS RUBIÁCEAS
DAS MORÁCEAS
DAS AURANCIÁCEAS
DAS MIRTÁCEAS
DAS ANACARDIÁCEAS
sem pensar em
nada,
nem na própria família.

Limpa o susto
e descansa...


Patrícia Porto/1991
*Datado porque achado ao acaso. 

sábado, 17 de janeiro de 2015

Limite

Tesouras, Teo Adorno


A palavra e a carne.
Fazer poesia do limite
dói na carne.
Mas são efeitos dessas sincronias.
Eu juro que tentei delicadezas,
mas a carne é dura, não sinfoniza.

Fantasmas e sombras abraçam em festa.
Amores e bagagens para as outras foram.

As mortas do lago gemem com seus próprios dedos
e pulsam o poema como fosse o último.
Não anunciam, fazem a fuga.

E fogem.

Precisei comprar uma máquina de escrever
para ressentir bastante, bater forte nas teclas,
teclar-me junto a um rio, à uma floresta
noutro dínamo,
noutra lógica,
uma lógica de tesoura
- mas era outro o poema.

Patrícia Porto

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Pablo e Rosa


Edson Campos


Na língua que me falas
uma pátria de dialetos danço

Na boca que me chamas fogo,
acendo esse incêndio fundo

Se me vens de gala
eu me vou de porto

"Não, Pablo, só se for por sentimento..."

E aquele dia no cais,
minha alma inspirada...
Caso contigo, vou morar em Miracema.

Se me levas no colo,
eu que reviro os olhos,
eu que balanço os frutos,
viajo de correntezas...

Pablo, não sei se sou tua,
não sei se sou minha,
mas alegre te sigo,
dançando na noite,
a inteira.

Não te queixas,
não me deixas
não sei se é a sorte
ou a luz ao norte,
e vou de escuro,
vespeiro

Se me vens, eu curvo,
eu cravo,
eu o diabo
e quatro nem duvido

Pablo, se me vens de sons,
de guitarra, mala e veneno,
eu me mudo e tudo,
vou até de pluma,
pego o coletivo
e só anoiteço
no meio da rosa

na rosa, vou rosa...


Patrícia Porto
 
 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

O ventríloco


Yvetta Fedorova


Não era um corpo no jogo.
Era um arco no espaço.
Podia sentir as mãos e os fios,
pendia uma saliva, secava ao vento.
Vestido de clemência ao criador
era todo lustroso em vaidade.

Eis que balançava minha perna
e então podia se andar em juízo,
a boca se espremia entres sons
não pronunciáveis por dentro.

Era um grande temor não ter voz.
e falar as palavras de meu criador
na vertigem do signo.
Era um grande tremor ter a vida
por seu sopro, um estampido tenso,
numa centelha de pólvora na garganta.

Fios,
territórios desabitados,
terras abastadas,
petrificações,
ruas de sua vontade,

Bastava ao meu criador
que me amasse sob o gesto da submissão.
Abrir e cerrar meus olhos quando
ofegasse na respiração do ato.
Abrir minha boca, ouvir a gargalhada,
o entrar de fora de sua fala, abrir mais a boca,
estalar a engrenagem da boca até o final.

Torcido o corpo para a ginástica do espetáculo,
lançado para os lados em mapas desconexos
para alimentar-se das outras bocas abertas,
pequenas carícias.

Guardado na mala do criador era o espanto,
pernas, braços , tensionado em dobraduras,
boca murcha, olhos cerrados,
fios, fios, por um feixe de luz o fechamento da mágica.
De lá guardava as horas profundas de meu estático
- apodrecimento - na dor opaca e sombria dos objetos calados.
    
Pudesse...Não silenciava.

Patrícia Porto

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Na cor vermelha


À esquerda, por favor...
Se não for por qualquer beleza no caminho,
por algum frescor de juventude.
Favor abrir as janelas de emergência.
As máscaras cairão automaticamente.

Patricia Porto

Liberté

“Menos drama. Mais elegância” dizia minha avó, orgulhosa de seu francês e latim.
Eu voltava da escola nas boleias de caminhão. Eu e meu primo Elvis fazíamos surf de caminhão.
Liberdade de expressão que se aprendia na escola de freiras era o silêncio. Lembro que cortei meus cabelos com tesoura escolar.
Queria ser menino para poder correr sem traços de fitas.
Fui castigada. Tinha que rezar na capela em silêncio. A irmã apontava solene para as irmãzinhas do claustro. Exemplos de sacrifício.
A professora me disse: “sua língua devia ser medida e cortada com fita métrica”
Abortei três vezes. Perdi três bebês em gestação. Tive dois filhos.
Retalharam meu útero com fita métrica. Depois retalharam os meus seios sem fita.
Menstruação. Sangue que me privava de correr menina. Ficava louca dizia minha tia. Era preciso ficar em silêncio para não enlouquecer.
“Menos drama. Mais elegância.” Um espartilho para qualquer criatura bruta,
Liberdade de expressão, uma estátua. Americana.


Patrícia Porto

domingo, 11 de janeiro de 2015

in absentia



Quang Ho


Ainda que longe das montanhas, dos rios de sal, das noites de pavor e ânimo eram amantes.
Eram amantes porque sabiam que os trilhos levavam lembranças em trânsito.
Quando escurecia num canto do quarto dela, ele pulsava a corda de seu relógio, orquestrava as armadilhas do tempo escorregadio à pinceladas. Havia aquele estado de tão poucas horas para os vigilantes que cortam os fios, que os nós armadilhados, os sexos encaixados, a brutalidade da separação em vazios, a morte de todo vermelho em flor, todos os fatos aquietavam-se neles expandidos.
Quando amanhecia o beijo da estação, destituído de qualquer gloria, molhava seus travesseiros de água noturna. O novo e velho tão amargos de sentir um sem outro noutros.
Pousados num livro de histórias migrantes, a lua tocava seu instrumento de afinação. Era a voz no ouvido subindo pendular para o sacrifício dos que nunca partem.

Patrícia Porto

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Poesia de bolso


Konstantin Golovin


A poesia se perdeu. Era preciso encontrar a poesia em algum calhamaço de folhas cinzas, acinzentadas, de massas cinzentas conscientes e neoclássicas jorrando poemas de seus microcosmos universos de exatidão neofáticas. Era preciso apresentar um novo código, mas apenas os poetas de linhagem de altíssima e elevada compostura poderiam dizer ou nomear a nova linguagem cifrada a ser embutida em nossos limitados cerebelos, na superfície muscular, movidos por intuições primárias e fibras. Para os poetas de frequente vadiagem, pouca estética moral  e nenhuma estirpe de retórica neoconvencional - restaria o castigo de Eco, repetir, repetir, repetir os últimos dias de versos, linha abaixo de linha, parafraseando o poeta cânone, o tal istmo entre uns e nenhuns, aquele que se reúne de antigos manifestos e com outros vocifera os mesmos dogmas inúteis de enquadramentos poéticos que se perduram há séculos encéfalos. E é sempre preciso esticar uma bandeira neste caso, onde a palavra é comida no prato fundo, de onde retiram dela as gorduras com bons dentes afiados, os caninos de preferência, quando cospem de lado sobras, a carne expelida no corte fundamental. Pode-se ouvir um grunhir, um traço de rinoceronte. Fundo.
A poesia se perdeu. Era o que gritava um menino vadio que descia a Rua Grande em disparada. Mal sabia o menino da poesia de bolso morrendo de asma, esmagada nas mãos de um poeta de boa estatura. Com gozo estava morta. Com uma finitude mordaz. Gozava de morta entrededos. Asfixiada. & Figura. 

Patrícia Porto

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Olhando Mistral


Raquel Aparício


Essa terrível ideia
de não se olhar
com os próprios olhos
tão dentro de si, são raízes sim,
os dilatados vasos, os diletos ditos,
vou aguando plantas,
vou aguando o tempo,

Tem um aguaceiro
e ainda sinto falta dessa gota d'água...

Tem uma palavra que me pesca o nome,
tem esse sem jeito e o tumulto surdo da cidade em pane.

Lá onde a onda vai é o mesmo ventre,
volta essa terrível ideia de tudo:
de não se olhar,
se não se mirar
de não ter miragens,
de não parar nunca para ter a água rota nesse rio fino...

Patrícia Porto

domingo, 4 de janeiro de 2015

Presságios

Raquel Aparicio

A diáspora e o florete,
a corda e a cadeira
vão forjando o tempo do eclipse do grão.
A cadeira e a diáspora,
quem poderá puxar o nó?
Dar sentido ao cabo de tudo?
E o suspenso irrompe capaz de conter todos os outros,
todos os outros mudos silêncios
- no exato movimento do salto.
Todos os silêncios cabem
num território fértil
no exato momento do salto.
Cada corda bamba sabotada
por quem nos ama abre aspas,
fecha vistas, ela nos cabe,
o equilibrista nos cabe.
E o que há de desejo na travessia
ecoa.
Não fecha aspas.

Patrícia Porto

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Papillon bunker

Raquel Aparicio



Guardava uma poesia perdida
dentro de um tempo atroz
e o tempo atroz comia meus olhos.
Que inferno!
Atravessei a floresta sem cesta na mão,
mamãe não me cobriu de beijos ao me ver partir.
Cheguei do outro lado apartada do mundo,
perseguindo um vaga-lume,
querendo uma luz por vigília.
Poesia crescendo feito um bicho,
inconciliável com as páginas em branco.
À sombra, erguendo-se em braços,
inconfessadamente errada
- era presa fácil aos predadores velozes.
Atrás da cortina uma menina ainda brinca,
arquiteta os anos que manipula
e o hoje, feito de marionetes e manivelas,
cansa seus dedos datilógrafos.
Poesia-bicho de seda sofistica-se
em silêncios e agudos,
vai na urgência absurda,
contagiosa, insistente
rasgando o invólucro
com uma faca por dentro.
Quanto mais fere mais eu escrevo.

Patricia Porto

Às cegas não era poesia.





Ele me perguntou porque tinha cortado os cabelos.
"Mulheres com cabelos curtos são menos atraentes", me disse.
Então atentei para as horas, pois ele usava um relógio muito caro.
Perguntei: "Quanto custa um relógio desses?" e ele me respondeu:
"Ficaria chocada".
Estranhos andando na beirada de penhascos desconhecidos.
"E isso é poesia?" Com meu livro nas mãos.
"Não, isso é Amor. Mas você ficaria chocado."

Patrícia Porto