sábado, 17 de janeiro de 2015

Limite

Tesouras, Teo Adorno


A palavra e a carne.
Fazer poesia do limite
dói na carne.
Mas são efeitos dessas sincronias.
Eu juro que tentei delicadezas,
mas a carne é dura, não sinfoniza.

Fantasmas e sombras abraçam em festa.
Amores e bagagens para as outras foram.

As mortas do lago gemem com seus próprios dedos
e pulsam o poema como fosse o último.
Não anunciam, fazem a fuga.

E fogem.

Precisei comprar uma máquina de escrever
para ressentir bastante, bater forte nas teclas,
teclar-me junto a um rio, à uma floresta
noutro dínamo,
noutra lógica,
uma lógica de tesoura
- mas era outro o poema.

Patrícia Porto

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Pablo e Rosa


Edson Campos


Na língua que me falas
uma pátria de dialetos danço

Na boca que me chamas fogo,
acendo esse incêndio fundo

Se me vens de gala
eu me vou de porto

"Não, Pablo, só se for por sentimento..."

E aquele dia no cais,
minha alma inspirada...
Caso contigo, vou morar em Miracema.

Se me levas no colo,
eu que reviro os olhos,
eu que balanço os frutos,
viajo de correntezas...

Pablo, não sei se sou tua,
não sei se sou minha,
mas alegre te sigo,
dançando na noite,
a inteira.

Não te queixas,
não me deixas
não sei se é a sorte
ou a luz ao norte,
e vou de escuro,
vespeiro

Se me vens, eu curvo,
eu cravo,
eu o diabo
e quatro nem duvido

Pablo, se me vens de sons,
de guitarra, mala e veneno,
eu me mudo e tudo,
vou até de pluma,
pego o coletivo
e só anoiteço
no meio da rosa

na rosa, vou rosa...


Patrícia Porto
 
 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

O ventríloco


Yvetta Fedorova


Não era um corpo no jogo.
Era um arco no espaço.
Podia sentir as mãos e os fios,
pendia uma saliva, secava ao vento.
Vestido de clemência ao criador
era todo lustroso em vaidade.

Eis que balançava minha perna
e então podia se andar em juízo,
a boca se espremia entres sons
não pronunciáveis por dentro.

Era um grande temor não ter voz.
e falar as palavras de meu criador
na vertigem do signo.
Era um grande tremor ter a vida
por seu sopro, um estampido tenso,
numa centelha de pólvora na garganta.

Fios,
territórios desabitados,
terras abastadas,
petrificações,
ruas de sua vontade,

Bastava ao meu criador
que me amasse sob o gesto da submissão.
Abrir e cerrar meus olhos quando
ofegasse na respiração do ato.
Abrir minha boca, ouvir a gargalhada,
o entrar de fora de sua fala, abrir mais a boca,
estalar a engrenagem da boca até o final.

Torcido o corpo para a ginástica do espetáculo,
lançado para os lados em mapas desconexos
para alimentar-se das outras bocas abertas,
pequenas carícias.

Guardado na mala do criador era o espanto,
pernas, braços , tensionado em dobraduras,
boca murcha, olhos cerrados,
fios, fios, por um feixe de luz o fechamento da mágica.
De lá guardava as horas profundas de meu estático
- apodrecimento - na dor opaca e sombria dos objetos calados.
    
Pudesse...Não silenciava.

Patrícia Porto

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Na cor vermelha


À esquerda, por favor...
Se não for por qualquer beleza no caminho,
por algum frescor de juventude.
Favor abrir as janelas de emergência.
As máscaras cairão automaticamente.

Patricia Porto

Liberté

“Menos drama. Mais elegância” dizia minha avó, orgulhosa de seu francês e latim.
Eu voltava da escola nas boleias de caminhão. Eu e meu primo Elvis fazíamos surf de caminhão.
Liberdade de expressão que se aprendia na escola de freiras era o silêncio. Lembro que cortei meus cabelos com tesoura escolar.
Queria ser menino para poder correr sem traços de fitas.
Fui castigada. Tinha que rezar na capela em silêncio. A irmã apontava solene para as irmãzinhas do claustro. Exemplos de sacrifício.
A professora me disse: “sua língua devia ser medida e cortada com fita métrica”
Abortei três vezes. Perdi três bebês em gestação. Tive dois filhos.
Retalharam meu útero com fita métrica. Depois retalharam os meus seios sem fita.
Menstruação. Sangue que me privava de correr menina. Ficava louca dizia minha tia. Era preciso ficar em silêncio para não enlouquecer.
“Menos drama. Mais elegância.” Um espartilho para qualquer criatura bruta,
Liberdade de expressão, uma estátua. Americana.


Patrícia Porto

domingo, 11 de janeiro de 2015

in absentia



Quang Ho


Ainda que longe das montanhas, dos rios de sal, das noites de pavor e ânimo eram amantes.
Eram amantes porque sabiam que os trilhos levavam lembranças em trânsito.
Quando escurecia num canto do quarto dela, ele pulsava a corda de seu relógio, orquestrava as armadilhas do tempo escorregadio à pinceladas. Havia aquele estado de tão poucas horas para os vigilantes que cortam os fios, que os nós armadilhados, os sexos encaixados, a brutalidade da separação em vazios, a morte de todo vermelho em flor, todos os fatos aquietavam-se neles expandidos.
Quando amanhecia o beijo da estação, destituído de qualquer gloria, molhava seus travesseiros de água noturna. O novo e velho tão amargos de sentir um sem outro noutros.
Pousados num livro de histórias migrantes, a lua tocava seu instrumento de afinação. Era a voz no ouvido subindo pendular para o sacrifício dos que nunca partem.

Patrícia Porto

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos
Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.
Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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