sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Poesia de bolso


Konstantin Golovin


A poesia se perdeu. Era preciso encontrar a poesia em algum calhamaço de folhas cinzas, acinzentadas, de massas cinzentas conscientes e neoclássicas jorrando poemas de seus microcosmos universos de exatidão neofáticas. Era preciso apresentar um novo código, mas apenas os poetas de linhagem de altíssima e elevada compostura poderiam dizer ou nomear a nova linguagem cifrada a ser embutida em nossos limitados cerebelos, na superfície muscular, movidos por intuições primárias e fibras. Para os poetas de frequente vadiagem, pouca estética moral  e nenhuma estirpe de retórica neoconvencional - restaria o castigo de Eco, repetir, repetir, repetir os últimos dias de versos, linha abaixo de linha, parafraseando o poeta cânone, o tal istmo entre uns e nenhuns, aquele que se reúne de antigos manifestos e com outros vocifera os mesmos dogmas inúteis de enquadramentos poéticos que se perduram há séculos encéfalos. E é sempre preciso esticar uma bandeira neste caso, onde a palavra é comida no prato fundo, de onde retiram dela as gorduras com bons dentes afiados, os caninos de preferência, quando cospem de lado sobras, a carne expelida no corte fundamental. Pode-se ouvir um grunhir, um traço de rinoceronte. Fundo.
A poesia se perdeu. Era o que gritava um menino vadio que descia a Rua Grande em disparada. Mal sabia o menino da poesia de bolso morrendo de asma, esmagada nas mãos de um poeta de boa estatura. Com gozo estava morta. Com uma finitude mordaz. Gozava de morta entrededos. Asfixiada. & Figura. 

Patrícia Porto

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Olhando Mistral


Raquel Aparício


Essa terrível ideia
de não se olhar
com os próprios olhos
tão dentro de si, são raízes sim,
os dilatados vasos, os diletos ditos,
vou aguando plantas,
vou aguando o tempo,

Tem um aguaceiro
e ainda sinto falta dessa gota d'água...

Tem uma palavra que me pesca o nome,
tem esse sem jeito e o tumulto surdo da cidade em pane.

Lá onde a onda vai é o mesmo ventre,
volta essa terrível ideia de tudo:
de não se olhar,
se não se mirar
de não ter miragens,
de não parar nunca para ter a água rota nesse rio fino...

Patrícia Porto

domingo, 4 de janeiro de 2015

Presságios

Raquel Aparicio

A diáspora e o florete,
a corda e a cadeira
vão forjando o tempo do eclipse do grão.
A cadeira e a diáspora,
quem poderá puxar o nó?
Dar sentido ao cabo de tudo?
E o suspenso irrompe capaz de conter todos os outros,
todos os outros mudos silêncios
- no exato movimento do salto.
Todos os silêncios cabem
num território fértil
no exato momento do salto.
Cada corda bamba sabotada
por quem nos ama abre aspas,
fecha vistas, ela nos cabe,
o equilibrista nos cabe.
E o que há de desejo na travessia
ecoa.
Não fecha aspas.

Patrícia Porto

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

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Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
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Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

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Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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