quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Um dia de Loba

UM DIA DE LOBA

            Quando é que alguém percebe que se tornou uma pessoa raivosa e ressentida? Quando é que dá o tal estalo? Logo aquela pessoa que também amava tanto os animais... Agora está ali, lidando com velhos almanaques do bom-mocismo ou com a nova patrulha dos que fazem marchas pelos bons costumes mentais. Quem são os verdadeiros doentes mentais? Ainda há tempos e templos históricos a nos dizer quem são os deuses. E infelizmente muitos “lucram” com isso, uma indústria inteira sustenta suas pernas na banalização do sintoma e do estigma. E ainda na falta de semelhança com o espelho habita o clichê que compara pessoas aos cães e aos lobos pela raiva. Todos conhecem bem as analogias que se fazem sobre o cão bom e o cão mau, o lobo bom e o lobo mau. Como se os cães, os lobos, os animais todos pudessem dominar o seu lado instintivamente mau ou como se - simplesmente, pudessem jogar para debaixo do chão, da terra, a desordem do mundo interno, o instinto, a sombra, o avesso. Um extinto?  
              Uma pessoa me falou numa consulta médica: “Você tem dois lobos dentro de você. Um é bom e o outro é mau. Você é quem escolhe qual deve e quer alimentar e qual você deve matar de fome.” Achei horrível toda aquela pílula de lugar comum, de veto surrado e hostil. Se alguém receita remédio tarja preta para ajudar a matar o lobo mau de fome – é porque, certamente, nunca entrou na sua própria floresta. Nunca esteve do outro lado de si mesmo e nunca atravessou sua própria fronteira para se olhar no espelho um enigma, o Lobo, a tal corda sobre o abismo de Nietzsche. Quem repete frases feitas sem pensar pode muito bem receitar sem pensar; e daí o pior: diagnosticar sem pensar. 
           Ouço numa entrevista que os novos pesquisadores da neurociência se esforçam dia-a-dia para desvendar um pouquinho mais do misterioso cérebro humano. Nosso cérebro e suas capacidades parecem assim - tão misteriosas quanto o que há de misterioso na descoberta das novas galáxias. O universo se expande e dilata, toma formas amolecidas, fragmentárias, enigmáticas e criam conexões, e fazem o antes inimaginável ou impossível -  imaginário e real. E bem à nossa frente o tempo se dilata, quantifica e qualifica. Há Quantidade. O Quanto. E o Quântico. E tudo aquilo que desconhecíamos passa a ter uma imensa oportunidade e flexibilidade de qualidade de expansão. E se expande. E para onde vai Dionisio? Matamos o corpo em prol do cérebro? Anulamos, interditamos, aniquilamos, maltratamos, esquartejamos o corpo em suplício em praça pública como aquilo que deve ser temido, destruído, escondido, inconfessado, acossado... Como o corpo de Polinice , banido, usurpado, símbolo de negação, exclusão, como os corpos desaparecidos dos filhos das Mães de Maio, das mães das favelas cariocas, as mães do México, as novas Antígonas.  
          Eu que também amo os animais e também amo a física do universo - não entendo nada da prática humana de matar de fome os lobos maus. Ou ainda não entendo nada de dizer que a pior raiva humana é a raiva de um cão. Olho o meu cão, nunca vi ser mais bondoso e carinhoso. Domesticamos os nossos cães que latem e se comunicam o tempo todo conosco. Boris Cyrulnik diz que um cão selvagem ou um cão que acompanha um caçador quase nunca late, pois não há comunicação necessária no ofício de caçar outros animais ou no exercício de ser presa e predador na floresta. Apenas o silêncio e o odor da morte.
             No belíssimo livro de Clarissa Pinkola Estés, “Mulheres que correm com os lobos”, somos instigados pela leitura densa do texto, a desvelar a nossa relação com a floresta, e dessa relação somos também instigados a refletir sobre os nossos medos, as nossas angustias, as nossas fragilidades, nossas previsibilidades, precariedades. Impossível não se identificar. Num desses contos me vi perdida e achada na imagem da Mulher-lobo, da mulher que guardava ossos como relíquias da vida, como histórias, cicatrizes do mundo, registros da passagem da humanidade pela floresta. La Loba, a criatura. Há em “La Loba” um pouco de “Baú de Ossos” de Pedro Nava, os ossos dos mortos, o baú que evoca os desaparecidos, as casas mortas, numa arqueologia interminável, numa busca por desvendar-se pelas memórias, pelas reminiscências dos homens e das coisas naquilo que nos olha.      
                Gente muito “boazinha”, sempre boazinha, é gente que aprendeu a calar a sua tempestade antes que apareçam os ventos. Quando vejo alguém nessa categoria presumo que o ansiolítico raspou aquela natureza até o fim do tacho. E sinto que o insosso do vazio impera mais que pondera. Como não é nunca da minha conta, apenas penso um pouco entre tantos outros pensamentos e sigo adiante. É claro que já me perguntei por que não funcionou comigo. E até já invejei essa gente com sugestão de paisagem eterna, como uma televisão passando, estaticamente - campos floridos com criancinhas correndo feito anjinhos. E ainda admirei gente com expressão de aquário - peixinhos coloridos naquela pequena amostra de ambiente devidamente controlado. Mas com o tempo passou e eu já me conformei. Aprendi, numa surpresa inconveniente, a gostar de algumas das minhas rasuras, ranhuras, essas coisas de gente fraturada pela vida.  Não vou dar conta dos anjinhos correndo na estação das flores. Isso nunca. Já desisti.
           O que fica então para alimentar? Não, não, me recuso a matar meu lobo mau! E me entrego aqui mesmo - ao dizer para quem está lendo. Saiba. Saiba disso. Eu tenho um lobo mau. Mas se eu não estiver completamente errada, você também deve ter o seu, não sei se machucado ou morrendo de fome, mas tem. E uma sensação me diz que quanto mais tivermos essa noção, com maior zelo trataremos as delicadezas do outro, assim como também entenderemos melhor as falências humanas. E se a corda puir, sabe o abismo? É o misterioso. Uma casa enigmática cheia de ossos. Uma floresta com lobos, cães, meninas, meninos selvagens correndo entre sombras e árvores. É mais embaixo mesmo. E é sempre melhor descobrir, olhar por si mesmo, colocar as mãos nas camadas desse corpo.    


Patrícia Porto  



Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

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Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

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Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

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