quinta-feira, 17 de setembro de 2015

O BARCO, Ricardo Gualda

Do Ricardo Gualda:

Shoji Ueda, Untitled, 1950

O BARCO

Todo dia
esqueço
um pouco
mais:
o prato
de ontem,
o amor
para sempre,
aquelas férias,
meses e meses
planejadas.


E para
me guiar
no tenebroso
caminho,
só conto
com as
lembranças
mais resistentes,
distantes
e elásticas.


Fecho
os olhos
e retorno
ao porto
de onde saí,
para, no fim,
também
esquecer
por que
voltei ali.

Sem motor,
vela
ou remo.

Cheguei
ao centro
e sou
poente.

Do barco
provido
que um dia
fui, resta
apenas
o dom
de flutuar.