quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Má conduta.

Um dos problemas da literatura contemporânea brasileira é o ranço do tradicionalismo de nossos leitores e escritores. Nossa literatura foi marcada em sua gênese pelo elitismo e por isso é ontologicamente elitista e tradicional. Ora, isso sem dúvida, determinou as escolhas estéticas e os campos de poderes nos chamados movimentos literários. Não há nenhuma novidade em dizer que somos tradicionais, conservadores e pouquíssimos ousados na literatura contemporânea e isso se reflete, sobremaneira, na poesia, a poesia que sempre foi carro chefe das mudanças paradigmáticas, a poesia, a  que esteve à frente na condução dos novos estilismos, das novas significâncias, das texturas plásticas. Mas há tempos essa poesia não se encontra com o seu clamor e isso se deve à uma crescente banalização da cultura de massa ou aos efeitos da globalização.
Há uma forte tendência hoje da criação de grupos que se reúnem para criar textos em coletivos. Em termos de busca estética criamos um caminho de retrocessos. Jovens poetas se encontravam para beber e jogar palavras fora. Os círculos eram marcados por conversas que envolviam vários conhecimentos como a história, a sociologia, o direito, a política, campos enriquecedores para qualquer jovem escritor e para qualquer área de estudo e conhecimento criativo.  Não há nada mais tradicional que a criação de quase missas conduzidas por uma figura maternal ou paternal a conduzir o rebanho no que deve ou não merecer ser escrito. Em termos de Poesia, é a morte do estranhamento tão necessário e do mistério, aquele algo contido, obscuro, enigmático.
Mas sim, nossa escola literária sempre foi marcada pelo conservadorismo e por uma certa diplomacia estética. Em termos de mídias sociais isso não só se preservou como se acentuou ao seu extremo. A qualidade literária - quando aparece de fato - é destroçada pela ignorância dos conservadores que ali estão. Não há nada mais medíocre que um comentário de uma palavra, esse reducionismo grasso da mídia social, a prevalência da pouca leitura, do parco conhecimento da literatura de outros países, da literatura clássica ou até mesmo da própria literatura brasileira.
Por um tempo passei por lá navegando em destroços de águas poluídas. Para se permanecer num lugar destes é preciso ser um deles, se portar como nos filmes de zumbis, onde todos querem comer o próximo - isso levado a vários sentidos. A personalidade vale mais que a escrita. A maldade mais que a  leitura limpa de preconceitos. Há confrarias, figuras conservadoras que embalam sarais beneficentes, editoras maçônicas e editoras mercenárias, um verdadeiro universo referencial marcado por um único critério: o da exclusão do que é realmente novo e instigante. Os poemas são repetitivos, exaustivos nas autorreferências, um verdadeiro desfile de ausências de significados e clichês egoicos. 
Se tivesse um conselho a dar aos jovens, aos necessários escritores da poesia brasileira contemporânea, eu diria: não entrem em mídias sociais. Cultivem encontros reais com choques de ideias, sem proselitismo. Deixem aflorar as palavras sem qualquer pudor, sem medo dos estetas, não os coloquem para julgamento para não-leitores, se preservem. Não caiam na ilusão do cardume, coloquem os poemas visíveis para outros audaciosos, entre os loucos diria. Voltem a se encontrar em lugares públicos e extravasem seus poemas sem o crivo de uma tia maliciosa ou tendo que aplaudir um animador de sarau. Busquem a espontaneidade e sobretudo, leiam! Leiam os clássicos, comecem com Shakespeare. Nenhum grande poeta se forma sem Shakespeare ou Dante. Leiam Ilíada, Eneida, todos os gregos e latinos. Depois sim leiam seus contemporâneos. Parece um manual, mas se for, é pela má conduta. Nenhuma literatura sobrevive sem espantos. Espante-se e escreva.    

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos
Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.
Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

Google+ Followers

Com-partilhados...

Pesquisar neste blog