sábado, 22 de agosto de 2015

a mulher e a ilha

Giovanni Battista Mazzuco


a mulher do meu tempo
acordou com esse espanto
está fora de si
está fora de mim
a mulher do meu tempo
esse sal essa terra
carregada de mundo nos olhos
sangra da cabeça

atravessou a nado
atravessou a pé
atravessou paredes
as linhas, as fronteiras
a caverna, a pele em cravos

a mulher do meu tempo
a mulher que eu carrego
a mulher da minha saia
do meu útero
do meu úmido
está dentro em luz
por dentro de mim
a mulher do meu tempo está só
está junto do rio
é mar de véspera
é serpente de duas cabeças

a mulher do meu tempo é essa ilha
meu amor essa mata
minha sede a ira
minha amiga, a irmã
tem mais força que sopro
tem mais ida que volta
mais ponteiro que corda
e mais barco que água

a mulher do meu tempo sofre de realidades
se afastou de sua mãe, já negou sua avó
não quer parto, quer só cachaça, ciranda

a mulher do meu tempo está mais nesse aço que na hortênsia
fechou fábricas
sonha com uma nova ordem de espelhos
que se espatifa no chão
sua cara no chão
está mais na justiça que na maternidade
prefere a estrada
está mais na minha memória
mais na flauta que na renda
mais no fragmento que na ilusão

a mulher do meu tempo me engole
explode a ilha

Patricia Porto