segunda-feira, 6 de julho de 2015

o poço

Henri Cartier Bresson


perto do poço
uma mulher faz vigília
o tempo acostumado aos relógios
é uma pequena morte de tudo

a mulher espera a poça
no pouco da vida

tem sentimentos de chuva
mas não chove

tem cabelos de ilha
mas não parte

parece que tem uns olhos grandes
feito dois horizontes
e às vezes eles escurecem

todos os dias alimenta os bichos
que a comem por dentro

tem sede de palavra que nela esgota
feito um fiapo de nada

perto do poço
muito perto
esquece dos dias terríveis de guerra
alcança um espelhinho quebrado
e retoca o rosto
como quem esculpe sonhos
na rede que lhe leva o corpo  

Patricia Porto